Texto para impressão em papel A4

 

HISTÓRIA

 

Os registros históricos da Folha de S. Paulo, feitos sob encomenda nos últimos anos, varreram do mapa figuras fundamentais em sua trajetória vitoriosa desde 1921. Dessa maneira, por exemplo, à moda "stalinista", sumiram o fato de José Nabantino Ramos, jornalista e superintendente da empresa na década de 50, ser o criador do primeiro Manual de Redação copiado por outros jornais no Brasil e Exterior. Ou, ainda por exemplo, a instituição da cédula única nas eleições oficiais como fruto de campanha comandada por Ruy Bloem, quando secretário de Redação. Ou também o fato de Mário Mazzei Guimarães ter sido o único capaz, durante anos, de dirigir três jornais da casa - Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite - ao mesmo tempo, lendo e escolhendo as matérias a ser ou não publicadas, além de produzir  diariamente uma coluna opinativa exemplar, intitulada "O Sal de Cada Dia", com o pseudônimo de Pedro Leite. Durante meses, alguns historiadores e sociólogos não jornalistas examinaram o que lhes apetecia no Banco de Dados da Folha. Sobrelevaram fatos para ofuscar outros. Sequer foram capazes de avaliar e respeitar a resignação das famílias também responsáveis pela exuberância de matérias arquivadas. Ignoram que o trabalho dos antigos jornalistas exigia-lhes, normalmente, viver mais para o jornal do que para o lar, mesmo em fins de semana e feriados. Ao final da "pesquisa", foram apagados ou minimizados nomes do porte de Hermínio Sacchetta, Hideo Onaga, Hélio do Amaral Pompeo, Jarbas Hypollito de Oliveira Lacerda, Mário Guarita Cartaxo, Francisco de Célio César (França), Aristides da Silveira Lobo, Carlos Laino Jr., Mário Lobo, Geraldo Pinto Rodrigues, Enyldo da Silva Franzosi, Ruy Lopes, Domingos de Lucca Jr., Simão Kirjner Sobrinho, Domingos Ferreira Alves, Moacir Costa Correia, José Reis, Francisco de Assis Rangel Pestana, Lenita Miranda de Figueiredo, Bóris Casoy, Adriano Campanhole, Ulisses Alves de Souza, Aidano Arruda, Aroldo Chiorino, Ebrahim Ali Ramadan, Jean Mellé, Armando Gomide, Sérgio Paulo Freddi, João Sampaio, Jamaby Blandy, Odon Pereira da Silva, Alcides de Moura Torres, Paulo Nunes, Evaldo Dantas Ferreira, José Tavares de Miranda, Emir Macedo Nogueira, Cláudio Coletti, Vicente Pettinati, Luiz Fernando Rudge, Otávio Câmara de Oliveira, Nélson Coletti, Orlando Mattos, Valentim Lorenzetti, Francisco Aquarone, Lenine Severino, Carlos Dias Torres, Gwainplane Landa Rodrigues, Edson Flosi, Mário Ciuchini, Neil Ferreira, Noé Gertel, Romualdo Clouzet, Isa Silveira Leal, Helena Silveira, Luiz Gonzaga Alves, Amadeu Gonçalves, Flávio Barros Pinto, Marcelo Barbosa Cotrim, Haroldo Cerqueira Lima (Leleco), Fernando Fortarel Barbosa, Lauro D'Agostini, Horley Antônio Destro, Rubens Ferreira de Mattos, Joelmir Betting, Alik Kostakis, Helena Silveira, Luiz Álvaro Assumpção, Deocleciano Torrieri Guimarães, Joaquim Antônio Ferreira Netto, Ênio Mendes, Joaquim Balbino, Ademar Lang, Artur Cardoso Neto, Américo Mendes, Teófilo Cavalcanti, Júlio Abranczyk,  Alfredo Motta Jr., Dora Bloem, Mário Regis Vita, Itamaraty Feitosa Martins, Nildo Carlos Oliveira, José Altair Abranches, Jorge Gabriel Ward, Pierre Lascol, Ayrton Oliva, Ricardo Zebrauskas, Vera Taroda, Carlos Antônio Guimarães de Sequeira, Carlos Pizarro, Nélson Cayres de Brito, Jorge Junzi Okubaro, José Carlos Bittencourt, José Augusto Godoy, Fraterno Vieira, Guilherme do Amaral Reippert, José Ramos, Eymar José Mascaro, Carlos Manente, Gil Passarelli, os irmãos Antônio e Ângelo Pirozelli, Amílcar Bagnatore, Mário Zilli, Osvaldo Amorim, Osvaldo Daniel Kaise, Waldemar Cordeiro, Felício Safadi, os irmãos Manoel e José de Souza e tantos outros, a ponto de ser impossível citá-los de memória sem cometer injustas e indesejadas omissões. Só da Folha da Tarde seriam ao menos outros 60 jornalistas inclusive porque arriscaram a própria segurança e das famílias durante mais de 15 anos  para manter profissionalmente a linha editorial desejada pela empresa às vezes contra convicções políticas individuais numa época extremamente perigosa. Isto sem falar do pessoal da Administração, Gráfica, Circulação e Publicidade, em grande parte funcionários da empresa por mais de três décadas até se aposentarem.

O total, entre os anos 40 e 60, ascende a cerca de 4 mil trabalhadores. E, entre eles, há os que dedicaram à Folha mais de 40 anos de serviço. Outros, embora com menos tempo de casa, deram-lhe a solidez desfrutada até hoje. Por exemplo, os administradores Carlos Caldeira Filho, Wanderley de Araujo Moura e Renato Castanhari; os comandantes da Publicidade, Amadeu Rodrigues e Aniz Buíssa; os gênios da Circulação, Jaime Ciriani, Raphael Gennaro Pagliucca e Adolfo Dias;  ou ainda "Geléia" e Jonas, magos da Impressão e das Comunicações. E também sem levar em conta o trabalho realizado pelo saudoso médico José Pompeo Tomanick, seus colegas e os dentistas que cuidaram da saúde dos funcionários e suas famílias durante décadas. 

Mas, dane-se o esforço coletivo. Exorcize-se o espectro da  equipe para poder "expurgar" 86 anos de história. O sucesso do grupo Folha deve resumir-se a um passe de mágica numa fração desse tempo porque tem de resultar apenas da inteligência e do trabalho de dois homens - Octavio Frias de Oliveira e Cláudio Abramo -, ambos infelizmente já falecidos.

Aqueles historiógrafos lograram ocultar até o pioneirismo das equipes do Cidade de Santos e Folha da Tarde para atribuí-lo à Folha de S. Paulo como primeiro jornal brasileiro a adotar impressão "off-set", composição a frio e informatização da Redação.  Os jornais e os jornalistas que realmente o fizeram em prazo recorde não passam de cobaias indignas de simples menção.

E a introdução da democracia mista (representativa e direta) na Constituição Federal de 1988, mediante plebiscitos e referendos, além da atividade parlamentar, não foi pedida pela Folha da Tarde desde 1980? 

Muitos profissionais brilharam na Folha de S. Paulo antes de  se destacarem em outros órgãos de imprensa, entre eles Edvaldo Pacote, Woile Guimarães e José Hamilton Ribeiro (TV Globo), Murilo Felisberto e Laerte Fernandes (Estadão e Jornal da Tarde). Outros, como Maurício de Sousa, trocaram a redação pelo desenho e deram início a uma nova era no mercado editorial. Mas, à semelhança dos demais, foram substituídos na "história" oficial da "Folha" por grandes "jornalistas" como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Eduardo Matarazzo Suplicy. Estes, "sim", partícipes da grandiosidade do império!

Quem trai a História acaba por ela devorado. Não foi à-toa que o principal dirigente do grupo jornalístico rival da Folha proclamou, à beira da campa de Frias, dia 30/04/2007, que ele "transformou um jornal inexpressivo e decadente num grande jornal". Esqueceu-se, porém, de que esse jornal, ao contrário daquele possuído por sua família há mais de um século, nunca precisou procurar intervenção estatal para escapar da falência com dinheiro desviado do povo, assim como não se entregar ocultamente a cartéis econômicos para poder sobreviver. Isto graças ao trabalho de gerações de jornalistas, que fizeram da Folha um jornal tão "inexpressivo e decadente" que sua compra, em 1962, exigiu o esforço conjunto de 60 dos principais empresários e banqueiros de São Paulo.

Elogios em boca adversária deveriam soar como advertência. Podem significar: sigam nesse caminho que é bom para nós porque os leva ao precipício. Aliás, no rumo fixado por inspiração na concorrência, já resta somente um dos antigos jornais administrados pela empresa. É o único que encarava os seis co-irmãos como inimigos e tudo fez no âmbito da empresa para fechá-los, sem entender que o adversário estava lá fora. Mas, esta é outra história.

Abril/2007