O embuste de Beatriz Kushnir na Unicamp ainda vigora após 6 anos

Antônio Aggio Jr.

(Esta página foi atualizada em 26/06/2006)

Já se passaram seis anos desde que a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) aceitou o engodo feito por Beatriz Kushnir com apoio ideológico de alguns professores. Mentiras sobre o que ela diz ter acontecido na época do terrorismo, comandado por comunistas como Carlos Marighela e Carlos Lamarca, valeram-lhe o doutorado em História Social, "com louvor". Tudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo - Fapesp, órgão do governo que deu R$ 116.553,00 à "pesquisadora" carioca.

Beatriz converteu a tese em livro para faturar também com a venda. Repetiu o que fizera na época de seu mestrado, no Rio de Janeiro, onde reside. Publicou então outra tese infamante, sob o título Baile de Máscaras. Tentou provar que, no século 19 e início do seguinte, as ondas imigratórias de judeus para o Rio tiveram origem na exploração do lenocínio. Diz Beatriz que as mulheres seriam prostitutas e os homens, seus rufiões. Com esse sensacionalismo barato, tornou-se Mestre.

Em 2001, chegou a vez da Unicamp, localizada em Campinas-SP. Para agrado de quem lhe iria dar o título de doutora, Beatriz assestou baterias contra  pessoas que resistiram ao terrorismo nas décadas de 60 e 70.  Em 2004, transformou a tese em livro publicado pela Editora Boitempo ao preço de R$ 48,10 por exemplar, com o título "Cães de Guarda - jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988".

Antes da publicação, ela conseguiu fazer seu "merchandising" no jornal UNIDADE (edição n.º 250),  órgão oficial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

Pertenço ao Sindicato há mais de 50 anos. Assim mesmo, seus dirigentes permitiram, sem aviso a mim ou  a qualquer um dos outros atingidos, reprodução dos trechos mais insultuosos da tese defendida por uma pessoa que nunca foi jornalista e nada sabe da profissão. Trata-se de acusações contra um antigo jornal paulista - a Folha da Tarde -, pertencente ao grupo Folha de São Paulo e do qual fui editor-chefe durante quinze anos.  Beatriz baseou a calúnia na seguinte afirmação:

"Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, que havia sido preso com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da OBAN. Foram presos e torturados.’

"Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um "passeio" fora da OBAN e leu em uma banca de jornal a notícia da morte do pai. Quando voltou do "passeio" ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão, mas a FT havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes. Muitos atribuem à FT a legalização de mortes em tortura."

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Isto, segundo ela, teria acontecido mais de 30 anos antes. Por conseqüência, pesquisei o Arquivo do Estado, da Secretaria da Cultura do governo paulista, aberto gratuitamente ao público. Como se vê pelas reproduções fotográficas nesta página, verifiquei que:

  • Em 16 de abril de 1971, os principais jornais paulistanos noticiaram a morte de Henning Albert Boilesen, metralhado na rua. 

  • No dia seguinte, deram em manchete a morte de  Joaquim Alencar de Seixas, o "Roque", em tiroteio ocorrido de véspera, em plena Avenida do Cursino, Jabaquara.

  • Esses jornais publicaram amplas reportagens e não "reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão", ao contrário do que afirmou Beatriz à Unicamp e ao Unidade.

  • Ainda em flagrante contradição com a tese e o livro de Beatriz, a Folha da Tarde (FT) não "havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes." 

O Jornal da Tarde, do grupo O Estado de S. Paulo, estampou "Morreu o Primeiro Matador de Boilesen", encimando uma grande fotografia das armas curtas e longas, munição, explosivos e outros petrechos apreendidos pela polícia no "aparelho" de Seixas depois do tiroteio.

A Folha de S. Paulo deu "Morre em Tiroteio um dos Terroristas que Matou Boilesen" (sic), também na 1.ª página.

A manchete de A Gazeta informou: "Terrorista Enfrentou Agentes e Foi Morto".

A do Diário Popular afirmou: "Morto um dos Assassinos do Industrial".

O Estado de S. Paulo preferiu o título "Localizado e Morto um dos Assassinos", debaixo da notícia do enterro de Boilesen.

E a Folha da Tarde, nesse mesmo 17 de abril, publicou a manchete "MORTO O ASSASSINO DO INDUSTRIAL BOILESEN".

Outros importantes jornais também noticiaram em manchete as mortes de Boilesen e Seixas nas mesmas datas, inclusive no Rio de Janeiro, onde Beatriz Kushnir reside. Foi portanto assim que "os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão, mas a FT havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes", segundo as afirmações de Beatriz e seus mentores.

Além disso, o Arquivo do Estado guarda a certidão de óbito de Joaquim Alencar Seixas (v. reprodução) onde estão o dia e a causa da morte: 16 de abril de 1971, por "hemorragia interna traumática".

É impossível, portanto, Ivan Seixas ter visto na Folha da Tarde a notícia do falecimento do pai um dia antes de haver acontecido. Este é o fato. O resto é mentira, ódio, inveja e restolho da "tese aprovada com louvor". 

Além da acusação atribuída a Ivan Seixas, outras calúnias endossadas por Beatriz partiram de duas ou três pessoas que trabalhavam na Folha da Tarde em 1969. Deixaram o emprego por incompetência, como responsáveis pelo quase fechamento daquele mercado de trabalho. Tempos depois, se transformaram em professores da Unicamp. Livre desses maus profissionais, a FT pôde manter em seus quadros cerca de 200 trabalhadores - jornalistas na maioria - durante aqueles 15 anos.

Mesmo para quem não viveu os acontecimentos da época, a mentira e o facciosismo ficam evidentes na falsidade da "morte anunciada de véspera". Mesmo assim, valeram o título de Doutora em História Social com louvor a Beatriz, na UNICAMP, graças à ajuda de alguns "jornalistas" incapazes de manter o seu jornal, mas espertos o suficiente para virarem professores e examinadores numa universidade de renome internacional. 

Para esses elementos, as baboseiras alinhavadas na tese de Beatriz Kushnir caíram como uma luva. Dissimulam sua antiga incompetência e o fato de estarem entre os responsáveis pela quase extinção da FT em 1969. Daí, a necessidade de usar o cargo de professor na UNICAMP para coonestar a tese mentirosa, mesmo que isso possa desmoralizar a instituição na qual se infiltraram.

O ódio à coragem e ao sucesso da FT cegou a "pesquisadora" e seus mentores. Para melhorar a aparência do livro, ela reproduziu doze primeiras páginas das décadas de 60, 70 e 80, além de charges, sem perceber que essas imagens contradizem suas aleivosias como documentos incontestáveis.

Além disso, entre outras besteiras, diz ela que, antes de mim, a Folha da Tarde foi dirigida por um funcionário "prata da casa" que seria "o chefe da garagem" conhecido por  França. Na verdade, é ele Francisco de Célio Cezar, antigo e respeitado jornalista. Durante décadas, entre outros cargos, exerceu os de redator-chefe (depois rebatizado de editor-chefe) e secretário de Redação da Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, antes de se fundirem para dar origem à Folha de S. Paulo. 

Em meados dos anos 60, França, como se tornou famoso profissionalmente, fora designado pela direção da Folha da Manhã S.A., empresa proprietária daqueles jornais, para reorganizar todo o setor de logística da empresa, especialmente a distribuição dos exemplares aos assinantes e bancas do País. Desincumbiu-se com tamanha mestria também das atribuições administrativas que até hoje é festejado como um dos arquitetos do império Folha.

Em 1969, França ocupava a Diretoria de Circulação. Beatriz confunde Circulação com "Garagem" porque não é jornalista, não sabe o que significa e nem isso pesquisou. Nomeado editor-chefe da Folha da Tarde, França recebeu a incumbência de salvar a FT do estrago que a incompetência e a linha editorial errada   lhe haviam causado a partir de 1967. Nesse ano, a FT fora desentranhada da Folha de S. Paulo e levada ao extremismo pelas fontes de Beatriz.

Mas, França precisou desistir em poucos meses e passou-me a direção do jornal. Não conseguira livrar a Redação dos maus profissionais. Eram os mesmos agora bajulados por uma mulher que talvez nem houvesse nascido, mas segrega feromônios capazes de endoidar uma matilha de cães de guerra, especialmente os que ainda sonham em impor o fascismo de esquerda. 

Antes de França,  havia acontecido o mesmo com Antônio Marcos Pimenta Neves, que Cláudio Abramo trouxera de O Estado de S. Paulo e indicara para dirigir a Folha da Tarde. Ele também sucumbiu sob o esquema ideológico rotulado de "jornalismo engajado" e implantado na FT por egressos da Agência Folhas. Daí, a afirmação contida no livro de Cláudio de que, a partir da transferência de funcionários dessa Agência para a Redação da Folha da Tarde, o jornal transformara-se no "mais sórdido do País".

A Agência Folhas fora fundada por Miranda Jordão mediante a remodelação do antigo Departamento de Informações, Comunicações e Sucursais - Dics. Ficou sob sua direção até ele assumir o cargo de editor-chefe da Folha da Tarde, em 1967, o primeiro depois do relançamento.

Aquela Agência contribuiu para o fechamento de muitos postos de trabalho porque sua criação tinha esse objetivo inicial. As matérias eram produzidas por um reduzido número de repórteres e distribuídas a todos os jornais da casa para publicação. Nas redações, vários cargos (e salários) de repórter e mesmo de redator foram substituídos  por um único da Agência Folhas.

Também dessa forma a direção da Empresa Folha da Manhã S.A. passou a dispor de um fenomenal filtro de matérias, aprovadas, modificadas ou descartadas antes de chegar às redações. Todos os repórteres setoristas (aqueles incumbidos da cobertura permanente das Forças Armadas, DOPS, auditorias militares, palácio do governo,  casas legislativas e aeroportos, por exemplo) eram funcionários da Agência Folhas, que respondia diretamente à Diretoria da Empresa. Também as Sucursais (Brasília, Rio de Janeiro etc.) e os correspondentes lhe pertenciam. Daí nunca termos visto censores em nenhuma das redações da casa.

Havia atritos entre a Agência e as redações que lhe cobravam notícias sobre fatos chegados ao seu conhecimento por via indireta, extra-oficialmente. Todavia, a principal causa do rancor de Cláudio com relação à equipe levada por Miranda Jordão da Agência para a FT foram as fulminantes sabotagens desses elementos contra o seu indicado, Pimenta Neves.

Mais citações de Cláudio, outro arquiteto do império jornalístico da Folha, foram feitas por Beatriz para dar brilho a sua embromação. O problema é que ela deturpou pensamentos desse que foi  um dos mais lúcidos, capazes e leais jornalistas brasileiros de todos os tempos.

Os interesses político-ideológicos de Beatriz levaram-na a insinuar que aquela frase chocante seria dirigida ao período da  Folha da Tarde sob minha direção. Entretanto, o próprio livro "Cães de Guarda" deixa escapar a informação de que oriundos da Agência Folhas eram Jordão e membros de sua equipe.

Cláudio Abramo foi um de meus melhores chefes, mestres e conselheiros. Partilhávamos vários amigos maravilhosos, como Hideo Honaga e Lenine Severino, aquele um dos meus introdutores nas FOLHAS, este meu parceiro de reportagem e esteio na fundação do jornal Cidade de Santos, assim como na gestão editorial da Folha da Tarde.

Quando Cláudio assumiu a Redação da Folha de S. Paulo, criou o primeiro cargo de repórter especial e designou-me para o exercer. Passei a trabalhar exclusivamente sob suas ordens. Liberou-me anos depois, em 1967, para fundar o jornal santista da empresa. 

Na tese, Beatriz esparge veneno até sobre a Baixada Santista, onde fiquei muito bem até 1969, graças a uma equipe coesa e competente. Dividia a responsabilidade pelo Cidade de Santos e pela Sucursal da Folha na Baixada com um companheiro ímpar, que marcou época por onde passou, inclusive na reportagem: Sérgio Paulo Freddi.

Mas, o então presidente da Empresa Folha da Manhã S.A, Octavio Frias de Oliveira, chamou-me de volta a São Paulo. Ordenou que assumisse a Folha da Tarde. Revelou que viajaria em busca de papel de imprensa no Canadá, Finlândia e outros países produtores, como fazia a cada ano, e não voltaria nos três meses seguintes. Tristonho, deu a notícia alarmante: "Quando eu voltar, se o jornal estiver na mesma situação, fecho. Não é possível suportar tanta despesa inútil." E arrematou, aí sorridente: "Se estiver vendendo mais, dou parabéns a você. Se estiver vendendo mais e com despesa controlada, boto uma estátua pra você do tamanho do Duque de Caxias" [apontando, pela janela, ao monumento existente na Praça Princesa Isabel]

Frias já havia combinado com França a sua substituição. Encontrei-me na presença de Frias com esse antigo ex-chefe e amigo. Contou-me as mágoas causadas pelos insubordinados durante o breve período em que dirigira a Redação.

As informações de França e Frias deixaram-me alarmado, tanto em termos de ambiente de trabalho, como de circulação do jornal. A média de venda era de dois mil exemplares, com um "recorde" de onze mil no dia em que um estudante fora assassinado a tiro durante manifestações defronte da Faculdade de Filosofia da USP, na Rua Maria Antônia. O jornal estampara uma foto exclusiva daquele exato momento, ocupando quase toda a primeira página. E nem assim vendera. 

Frias viajou. Horas depois, eu nem chegara a ir à Redação da FT quando  me encontrei com Cláudio Abramo para comemorar o aniversário do repórter Edson Flosi, da Folha de S. Paulo. Anos antes, Flosi ingressara no jornalismo pelas minhas mãos. 

Festa de noite de sábado, na casa do aniversariante. Cláudio puxou-me de lado, diante de Carlos Dias Torres (também repórter da Folha

Todos os jornais publicaram a morte no mesmo dia: 17/04/1971 (Clique aqui ou na imagem para ampliar)

de S. Paulo, padrinho de casamento de Flosi e, depois, chefe da Reportagem da Folha da Tarde). Confirmou que fora sua a indicação de meu nome para o cargo de editor-chefe. O que eu desconhecia era a mágoa de Cláudio contra dirigentes da FT, maior que a dirigida a eles por França. E com razão.

Cláudio perguntou-me o que pretendia fazer com "aqueles caras". Respondi que iria pensar por algum tempo e decidir depois de saber quem era quem. Ele exclamou: "Então, você será mais um! Com uma diferença: o jornal vai fechar nas suas mãos."  

Realmente, eu estava enveredando pela mesma conduta dos meus dois antecessores, devido às dificuldades em compor uma nova equipe. Os colegas que tinha em mente estavam bem colocados no "Folhão" e no Cidade de Santos. Cláudio foi taxativo: "Convide quem você quiser na Folha, eu libero e ajudo. Tem meu apoio. Não bobeie. Chegue amanhã na Redação e demita todo mundo. Comece do zero. Aquela Redação não vale nada."

Externei minha preocupação: "Mas, assim, o jornal fecha." E veio a resposta imediata: "Que fecha nada. Suba lá para o 4.º andar [redação da Folha de S. Paulo], que nós fazemos juntos os dois jornais até você montar a equipe." 

Não houve necessidade desse esforço conjunto.  As palavras de Cláudio me tranqüilizaram e, nas duas semanas seguintes, recebi o apoio de dezenas de antigos e leais companheiros. Pude colocar assim 48 incompetentes à disposição dos outros seis jornais da casa. Vários conseguiram colocação. Alguns corajosos preferiram demitir-se para participar abertamente da "luta armada". 

Enquanto isso, a Folha da Tarde recuperou o  prestígio dos anos 50. Transformou-se rapidamente no jornal de maior tiragem para venda em bancas, a ponto de a direção da empresa jamais, durante aqueles quinze anos, lhe ter permitido aceitar assinaturas. Poderiam prejudicar a circulação da Folha de S. Paulo. 

"Liberdade" de imprensa

Uma das caminhonetes da Folha metralhadas e incendiadas pelos terroristas em 1971, em São Paulo. Os letreiros laterais diziam: "Leia a Folha da Tarde"; "Assine a Folha de S. Paulo"

Dos novos funcionários e dos que restaram da equipe anterior, só se exigiu dedicação e competência profissionais. Meu primeiro chefe e maior mestre, Hermínio Sacchetta, ensinara-me em O Tempo que as predileções pessoais, inclusive de ordem ideológica, devem ficar separadas do único objetivo de uma Redação de jornal, isto é, servir ao leitor. E este - o verdadeiro patrão - repudiava o terrorismo. O resto foi conseqüência. 

Sob minha editoria, a Folha da Tarde abrigou em seus quadros jornalistas aos quais nunca se questionou o posicionamento individual. Todos nós podíamos conferir e até ridicularizar nossas diferenças depois do trabalho, principalmente nas festas que marcavam cada recorde de circulação. Mas, quem me substituiu, em 1984, reimplantou alguns princípios da linha editorial anterior em função do "Projeto Folha". Alertei Frias e seu filho, Otávio, de que a FT iria perder os leitores que tinha, sem conquistar os que não tinha.

Fui substituído por Adilson Laranjeira e Carlos Brickman, vindos da Agência Folhas. Ambos acabaram transformando-se em assessores do ex-governador Paulo Maluf e passaram a comandar sua Assessoria de Imprensa. Enquanto isso, sucederam-se vários editores na Folha da Tarde e, anos depois,  ela foi extinta pela Empresa para dar lugar ao jornal Agora São Paulo. Poderia estar circulando hoje com uma tiragem superior a meio milhão de exemplares por dia, numa projeção modesta, mesmo sem assinaturas.

Capa pestilenta como o livro

No início de minha gestão na FT,  Carlos Caldeira Filho, antigo sócio de Octavio Frias, chamou-me ao seu gabinete para uma conversa inusitada.  Espírita praticante, Caldeira disse haver recebido "um aviso do além": livre-se do vermelho no logotipo da Folha da Tarde porque vai dar azar. 

Aceitei sua orientação sem nunca me arrepender. Meu pensamento subseqüente pouco teve a ver com o tal aviso, embora o respeitasse por partir de uma pessoa querida. Lembrei-me de que a linha editorial anterior era detestada pela população e o logotipo vermelho representava o único resquício daquela época. Troquei-o pelo preto. Dito e feito: novos recordes de vendagem aconteceram. Aliás, Caldeira sempre repetia que não era jornalista, mas sim jornaleiro, para conclamar: "Jornalistas são vocês. Me dêem um bom  jornal que eu vendo."

Parece estranho, porém, em plena Revolução de 1964 e no auge do terrorismo anti-revolucionário, chegamos a ter nos quadros da Folha da Tarde muitas pessoas de pensamentos opostos, trabalhando lado a lado em harmonia profissional. Um dos exemplos: o editor de Internacional, Carlos Antônio Guimarães de Sequeira, era delegado do DOPS fora das 5 horas de trabalho no jornal; o subeditor, Jorge Junzi Okubaro, pertencia ao clandestino POC (Partido Operário Comunista) também fora do horário de trabalho.

O editor e seu sub eram dos jornalistas mais cultos da redação. Possuíam qualidade de texto invejável.  Exemplo de lealdade, o subeditor pediu demissão quando resolveu cair na clandestinidade, com a namorada, Vera Rodrigues, nossa repórter de Geral e também militante do POC. Com o fim da "luta armada", Jorge foi reintegrado naquela subeditoria. Substituiu Sequeira por longos períodos, muito antes da anistia, depois de uma amargurada prisão e em meio a processos na Justiça Militar. Vera, excelente profissional, saiu da FT quando deixei de dirigir a redação. Tempos depois, passou a integrar o gabinete do prefeito David Capistrano Filho, de Santos, como assessora de imprensa.

Carlos Antônio Guimarães de Sequeira ingressara no jornalismo através do Cidade de Santos, em 1967. Recém formado em Direito, concorreu a uma vaga de repórter. Passou a destacar-se na reportagem e, em seguida, como redator e editor. Casou-se com uma "foca" do Cidade, Cléofe Monteiro de Sequeira. Ao assumir a direção da Folha da Tarde, eu trouxe o casal para São Paulo.

Coloquei Carlos na Editoria de Internacional. Ele prestou concurso para Delegado de Polícia, mas continuou na FT porque não havia impedimento legal. Eu o considerava - como considero - o melhor editor daquela área. Sua esposa seguiu a reboque. Repórter, redatora e editora de Variedades (cultura, cinema, TV etc.), não escondia suas posições esquerdistas e o orgulho de, embora contra tais crenças, fazer o jornal de maior venda avulsa no Estado.

Entretanto, em 2002, ao defender tese de doutorado na USP (ECA), Cleofe endossou algumas imbecilidades de Beatriz Kushnir. Além disso, ocultou o fato de haver participado da direção da Folha da Tarde durante a minha gestão. Em troca de um título de doutora, repete a fábula da cobra que estava presa no buraco sob uma pedra...

Sua tese à USP, além de distorcer os fatos e ocultar informações, apresenta erros de redação perdoáveis em estudantes de 1.º grau, porém, indesculpáveis em alunos de jornalismo. Chegam a ser surpreendentes quando cometidos por alguém que se diz doutor. Exemplo: a teimosia em separar com vírgula os verbos e os respectivos sujeitos e objetos. Sem a assessoria das bancas de preparação (copidesque) e revisão, ao contrário do que acontecia na FT, a doutora não consegue esconder as deficiências de texto que eu, a Redação e a Revisão minimizávamos ou corrigíamos naquele tempo. 

Quanta indignidade, oportunismo e ingratidão à margem da história da Folha da Tarde! Reeditam o mau-caratismo que produziu repetidos "rachas" na esquerda radical e acabou por destrui-la. Mas, pelo menos, Cléofe não retirou milhares de reais dos cofres públicos, dinheiro do povo, fingindo estar pesquisando a vida da FT como fez Beatriz.

Mesmo sem um "mea culpa", o papelão da doutora Cléofe é compensado pelo reconhecimento de dezenas de meus colegas. Houvesse agido honestamente, ela poderia relatar o que aconteceu, por exemplo, no caso Jorge Okubaro-Vera Rodrigues, assim como em muitos outros durante aqueles 15 anos. Também teria o cuidado de não errar na menção de fatos históricos como, por exemplo, a edição do AI-5 ocorrida em 1967, dois anos antes de minha ida do Cidade de Santos para a FT.

Aliás, ainda no Cidade à época do AI-5, encontrei memoráveis modelos de lealdade. Um exemplo: a atitude assumida pelo editor de Política, João Moreira de Sampaio Neto, ao ser eleito presidente do antigo MDB.

Então, o Cidade era freqüentado quase diariamente por Esmeraldo Tarquínio, Mário Covas, Gastone Righi e outros líderes políticos. Esmeraldo foi eleito prefeito de Santos com apoio exclusivamente do Cidade e contra a vontade do grupo jornalístico A Tribuna. Todavia, sua cassação aconteceu antes da posse, quando o município foi transformado em Área de Segurança Nacional.

João Sampaio pediu demissão do Cidade de Santos para poder participar do movimento de resistência ao AI-5 como presidente do MDB, sem comprometer o jornal numa região das mais nevrálgicas e conturbadas do País. Chegou a ser preso por isso. Mas, findo o seu mandato no MDB, ainda sob a vigência do AI-5, reintegrei-o no cargo de editor de Política. Excelente profissional, indiquei-o a Frias e Caldeira para ser o editor-chefe e editor-responsável do Cidade de Santos, após Sérgio Paulo Freddi ter deixado essas funções para ser o Chefe da Representação da Presidência da República em São Paulo, no governo do presidente Ernesto Geisel. João dirigiu o Cidade durante anos com brilhantismo. Freddi, jornalista competente e pastor evangélico, voltou aos quadros da Folha no fim do mandato de Geisel.

Pois bem, revoltado com a baboseira de Beatriz Kushnir, que tentou macular tudo o que acabo de expor, apresentei ao Sindicato dos Jornalistas, no dia 21 de fevereiro de 2003, as reproduções fotográficas que se vêem ao alto desta página.

Solicitei a Marcos Palácio, Diretor Responsável do UNIDADE, e a Fred Ghedini, Presidente do Sindicato, que publicassem meus esclarecimentos no mesmo espaço concedido a Beatriz, o que é de lei e ética, sem falar em coleguismo, pois ninguém me procurou antes ou depois da publicação, apesar de citado nominalmente. Seriam as duas páginas centrais do jornal  com chamada na primeira página [V. ampliações (1)  (2)  (3) ]

Mas, na edição seguinte (março/2003, n.° 251), o UNIDADE publicou apenas um resumo de poucas linhas, perdido na seção Cartas do Leitor (v. ampliação), e acrescentou:

"Unidade esclarece que a matéria e a entrevista referem-se apenas à tese e que os nomes e fatos citados constam do trabalho da historiadora. Por isso, estamos enviando cópia da carta de Antônio Aggio Júnior a Beatriz Kushnir."

Dessa forma, o jornal UNIDADE e, por conseqüência o Sindicato, favoreceram a campanha de "marketing" para venda do livro da Boitempo Editorial em que foi transformada a tese, depois de não ser aceita por outras editoras durante pelo menos dois anos consecutivos.

Também, pudera! Aqueles dirigentes do sindicato foram personagens centrais da tentativa do governo Lula e seu PT para criar o Conselho Federal de Jornalismo. Felizmente, esse projeto de amordaçar a imprensa foi repudiado pela categoria profissional e pelos parlamentares do Congresso Nacional.

Atitude ética e profissional teve o "site" Observatório da Imprensa, dirigido pelo jornalista Alberto Dines, que publicou o texto documentado que lhe dirigi, como se pode ler clicando aqui.

O "site" Parem as Máquinas, direcionado principalmente aos "focas", informou estar passando por problemas técnicos. Mas, no início de abril, também divulgou o texto.

Infelizmente, não recebi sequer resposta dos responsáveis por outro "site", o chamado "No" (funcionaria no Rio de Janeiro), primeiro a desencadear a repercussão caluniosa na Internet.

Beatriz Kushnir talvez continue indo bem. Afinal, conseguiu um doutorado caluniando, difamando e injuriando antigos jornalistas. E chegou a usar uma entidade sustentada por eles para defendê-los, mas que se comportou como sucursal de Gestapo ou KGB.

Beatriz e a Editora Boitempo devem ter vendido muitos livros. Locupletaram-se com o engodo. Mas, como ficam as imagens da UNICAMP, do UNIDADE e do Sindicato nisso tudo?

Para a "historiadora aprovada com louvor", lembrei que jornalistas não procuram notoriedade e satisfação pessoal obtidas com mentiras, às custas da honra alheia. Além disso, os verdadeiros jornalistas, que não são meros propagandistas, repudiam qualquer ideologia que adote ou aceite a violência como meio de conseguir ou de exercer o poder. Pensava que estes fossem princípios válidos também para os historiadores, apesar das exceções representadas pelos infiltrados na Unicamp.

É muito feio mentir, à moda  nazi-fascista ou "stalinista", para atacar quem se patrulha, principalmente quando existem vantagens inconfessáveis em jogo. Pior ainda é fingir intimidade com o marxismo, sua dialética e o materialismo histórico para enrolar com frases de efeito do tipo "é aquela contradição da contradição", como fez a nova historiadora.

Com esse induzimento a erro, pode-se ludibriar ingênuos marxistas até na UNICAMP e obter títulos portentosos. Mas, lá no fundo, sempre restará a certeza deprimente da própria nulidade e a consciência de ter mentido e falseado a História.

Crio cinco cães de guarda com todo o carinho. Vejo neles a dignidade que não consegui encontrar entre os culpados dessa trama.

ANTÔNIO AGGIO JR. é jornalista (matrícula n.° 2800 no SJPSP) desde 1954. Foi repórter de O Tempo (SP) e O Globo (RJ). Trabalhou 30 anos na Empresa Folha da Manhã S.A. (jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Folha de S. Paulo e Cidade de Santos), nela tendo exercido sucessivamente os cargos de repórter, chefe da Reportagem Policial, chefe da Reportagem, repórter-especial,  editor-chefe e editor-responsável. Dirigiu também a Rede Capital de Comunicações - Rádio e TV (1989-1993). Em 2003, criou O JORNAL publicado na Internet com a mesma linha editorial da antiga Folha da Tarde

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