TERROR E MENTIRA DÃO TÍTULO DE DOUTORA EM HISTÓRIA COM LOUVOR

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Reproduções feitas no Arquivo do Estado, Secretaria da Cultura do governo paulista.

O jornal UNIDADE, órgão de divulgação oficial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, ao qual pertenço há 46 anos, reproduziu em fevereiro último (edição n.° 250) a tese que valeu a Beatriz Kushnir, não jornalista, o doutorado em História "com louvor" pela UNICAMP.

Na parte relativa à Folha da Tarde, da qual fui Editor-Chefe durante quinze anos, a tese está fundamentada na seguinte afirmação:

"Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, que havia sido preso com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da OBAN. Foram presos e torturados.’

"Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um "passeio" fora da OBAN e leu em uma banca de jornal a notícia da morte do pai. Quando voltou do "passeio" ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão, mas a FT havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes. Muitos atribuem à FT a legalização de mortes em tortura."

Isto teria acontecido há 30 anos. Por conseqüência, pesquisei agora o Arquivo do Estado, pertencente à Secretaria da Cultura do governo paulista, aberto gratuitamente ao público. Conforme as reproduções acima, verifiquei que:

Em 16 de abril de 1971, os principais jornais paulistanos noticiaram a morte de Henning Albert Boilesen, metralhado por Seixas.

No dia seguinte, deram em manchete a morte de Joaquim Alencar de Seixas, o "Roque", no tiroteio ocorrido na véspera, em plena Avenida do Cursino, Jabaquara.

O Jornal da Tarde estampou "Morreu o Primeiro Matador de Boilesen", encimando uma grande fotografia das armas curtas e longas, munição, explosivos e outros petrechos apreendidos pela polícia no "aparelho" de Seixas depois do tiroteio.

A Folha de S. Paulo deu "Morre em Tiroteio um dos Terroristas que Matou Boilesen" (sic), também na 1.ª página.

A manchete de A Gazeta informou: "Terrorista Enfrentou Agentes e Foi Morto".

A do Diário Popular afirmou: "Morto um dos Assassinos do Industrial".

O Estado de S. Paulo preferiu o título "Localizado e Morto um dos Assassinos", debaixo da notícia do enterro de Boilesen.

E a Folha da Tarde, nesse mesmo 17 de abril, publicou a manchete "MORTO O ASSASSINO DO INDUSTRIAL BOILESEN".

Faltou-me tempo para reproduzir outros importantes jornais que também noticiaram as mortes de Boilesen e Seixas naqueles dias, inclusive no Rio de Janeiro, onde Beatriz Kushnir reside.

O Arquivo do Estado guarda a certidão de óbito de Joaquim Alencar Seixas (reprodução acima), onde estão a data e a causa da morte, dia 16 de abril de 1971 por "hemorragia interna traumática".

Assim, é impossível Ivan Seixas ter visto a Folha da Tarde com a notícia do falecimento do pai um dia antes de haver acontecido. Este é o fato. O resto é restolho da "tese aprovada com louvor". Sem nomes ou fontes, apresenta opiniões destinadas a animar alegres noitadas de botequim, por mais imbecis, tendenciosas e quixotescas que sejam. Esboroam-se ao lhes faltar o alicerce da morte anunciada de véspera. Mas, bastam para obter título de Doutora em História com louvor na UNICAMP.

Dia 21 de fevereiro, apresentei essas informações e as reproduções fotográficas que as documentam ao Sindicato dos Jornalistas. Solicitei a Marcos Palácio, Diretor Responsável do UNIDADE, e a Fred Ghedini, Presidente do Sindicato, que publicassem o fato, no mesmo espaço dado a Beatriz Kushnir, o que é de lei e ética, pois ninguém me procurou antes da publicação, apesar de citado nominalmente. Seriam as duas páginas centrais do jornal (estão reproduzidas abaixo) e chamada na primeira página.

Na edição seguinte (março/2003, n.° 251), o UNIDADE publicou apenas um breve resumo, escondido na seção Cartas do Leitor (reproduzida também abaixo), e acrescentou:

"Unidade esclarece que a matéria e a entrevista referem-se apenas à tese e que os nomes e fatos citados constam do trabalho da historiadora. Por isso, estamos enviando cópia da carta de Antônio Aggio Júnior a Beatriz Kushnir."

Dessa forma, o jornal UNIDADE e, por consequência o Sindicato, favorecem a campanha de "marketing" para venda do livro da Bontempo Editorial em que foi transformada a tese, depois de não ser aceita por outras editoras durante dois anos consecutivos.

Atitude perfeitamente ética e profissional teve o "site" Observatório da Imprensa, dirigido pelo jornalista Alberto Dines, que publicou o texto documentado que lhe dirigi, como se pode ler no endereço http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd050320034.htm

O "site" Parem as Máquinas, direcionado principalmente aos "focas", informou estar passando por problemas técnicos. Mas, no início de abril, também divulgou o texto, nos endereços http://www.paremasmaquinas.com.br/artigos.htm. e http://www.paremasmaquinas.com.br/art106.htm.

Infelizmente, não obtive sequer resposta dos responsáveis por outro "site", o chamado "No" (funciona no Rio de Janeiro), que foi o primeiro a divulgar a tese mentirosa e desencadeou a repercussão caluniosa na Internet.

Beatriz Kushnir talvez continue indo bem. Afinal, conseguiu um doutorado caluniando, difamando e injuriando antigos jornalistas, inclusive através de uma entidade sustentada por eles para defendê-los, mas que até parece sucursal da extinta Gestapo ou KGB. Beatriz e sua Editora, certamente, venderão muitos livros. Locupletar-se-ão com o engodo. Mas, como ficam as imagens da UNICAMP, do UNIDADE e do Sindicato dos Jornalistas nisso tudo?

Para a "historiadora aprovada com louvor", lembro que jornalistas não procuram notoriedade e satisfação pessoal obtidas com mentiras, às custas da honra alheia. Além disso, os verdadeiros jornalistas, que não são meros propagandistas, repudiam qualquer ideologia que carreie em si a violência como meio de conseguir ou de exercer o poder. Pensava que estes fossem princípios válidos também para os historiadores.

É muito feio mentir, à moda  nazi-fascista ou "stalinista", com relação a quem se patrulha ou persegue, principalmente quando se buscam vantagens inconfessáveis. Pior ainda é fingir intimidade com o marxismo, sua dialética e o materialismo histórico, tentando enganar com frases de efeito do tipo "é aquela contradição da contradição", como fez a nova historiadora.

Com esse induzimento a erro, pode-se ludibriar ingênuos marxistas até na UNICAMP e obter títulos portentosos. Mas, lá no fundo, sempre restará a certeza deprimente da própria nulidade e a consciência de ter falseado a História.

ANTÔNIO AGGIO JR.,

Jornalista (matrícula n.° 2800 no SJPSP),

aajr@webcable.com.br

A "patrulha" é sempre ideológica

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Alto das duas páginas centrais dedicadas pelo UNIDADE n.° 250 à mentira

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Chamada na 1.ª página do UNIDADE n.° 250

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Cartas do Leitor no UNIDADE n.° 251 com a verdade reduzida e encoberta

Esse é o jornal editado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e sustentado pela categoria profissional para defendê-la, além de servir como paradigma de ética jornalística

 

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