CUBA, BELA E REBELDE,

ENTREGA-SE AO TURISTA

Antônio Aggio Jr.

Texto e fotos reproduzidos do Brasilturis Jornal*

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"O bolo não é para quem o faz, é para quem o come", diz antigo ditado lusitano. Por mais rápida que seja, uma visita à Cuba de hoje evoca esse provérbio. A maior e mais formosa ilha do Caribe, em meio a um arquipélago de 1,5 mil "cayos" - ilhotas que são mostruários das belezas naturais da região -, parece ter sido preservada e preparada pelo regime comunista, durante quase quatro décadas, para acolher e deliciar turistas estrangeiros.

Agora, além de antigos painéis com palavras de ordem e lemas revolucionários, o viajante encontra hotéis de luxo a bom preço, graças à nova luta do governo de Fidel Castro, ou seja: a caça aos dólares norte-americanos. Ao regressar, terá saudade de lugares paradisíacos e de um povo bom, carinhoso, parecido com o brasileiro, fã de Glória Menezes e Roberto Carlos. Estará com a mente em ritmo de salsa, rumba, mambo ou bolero, excitada pelas cores e a sensualidade de espetáculos como o do Tropicana, o maior cabaré a céu aberto no mundo, onde se encenam espetáculos como a fenomenal revista "La Gloria Es Tu". Tentará entender, então, por que a notoriedade de um país do tamanho da Inglaterra (110.860 km2) ainda se assenta praticamente apenas no fato dele se proclamar um dos últimos bastiães do socialismo marxista. E poderá perguntar: mas, enfim, como é que dialética, materialismo histórico, ditadura do proletariado, revolução mundial e coisas do gênero acabaram desembocando numa síntese turística? Ora, acontece que, mesmo com o determinismo econômico, a mais-valia existe e é para quem a come...

A opção pelo turismo começou a delinear-se há mais de dez anos, quando a extinção da antiga União Soviética privou os 11 milhões de cubanos da mesada de 580 milhões de dólares (7 bilhões por ano) enviada mensalmente pelos russos. Os problemas agravaram-se rapidamente também em conseqüência do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que exigem do regime castrista uma abertura política pluripartidária. Ao mesmo tempo, grandes grupos hoteleiros - quase todos espanhóis - instalaram-se em Havana e na península de Varadero, destacada para o turismo a 130 quilômetros da capital. Nela, o mar caribenho, sempre morno e transparente, parece uma imensa turquesa de tom verde que antecede o azul do horizonte. E águas cristalinas e pachorrentas espraiam-se por areias macias sob o sol presente o ano todo.

Varadero é o principal balneário, porta de entrada obrigatória para quem quer curtir o melhor da natureza cubana, em 25,5 quilômetros de praias ornadas com a simpatia de dezenove mil habitantes e as acomodações de 32 hotéis para todos os gostos e possibilidades. No aeroporto, à chegada, um espetáculo de mulatas em trajes típicos indica o que o turista irá encontrar em termos de folclore e "shows", tudo regado a "mojito", uma espécie de caipirinha feita de rum, hortelã, limão, açúcar e soda.

A rede espanhola Meliá possibilita o uso compartilhado das instalações de seus três hotéis em Varadero, nos quais se pode optar pelo sistema "all inclusive", ou seja, café da manhã, almoço, jantar, bebidas, equipamentos de esporte e laser, tudo para ser usado à vontade. Nesse sistema, há várias opções de diárias, entre 90 e 135 dólares, dependendo do pacote preparado pelo agente de viagem, dos descontos obtidos em companhias aéreas ou do planejamento e negociação feitos pelo próprio turista.

O conjunto de hotéis da península tem expressão máxima no Meliá Varadero, Meliá Las Américas e Sol Club Palmeras. Além de um campo de golfe com 18 buracos, oferecem quinze restaurantes, 21 bares, três clubes noturnos, sauna, salas de massagens e ginásio de esportes, em meio a centenas de bangalôs e apartamentos. Bem perto, desde maio do ano passado, funciona o Clube Mediterranée - ou, simplesmente, Club Med Varadero, onde os brasileiros têm o prazer de ser atendidos por conterrâneos: o "chef de village" (gerente do hotel) Áureo Stern, 33, natural de Porto Alegre; Mônica Diniz, responsável pela ginástica; Luciano dos Santos, diretor do circo-escola; e Victor Garcia, dirigente da escola de tênis. Além do sistema de excursões, lazer e esportes, os hóspedes dispõem de 266 apartamentos, três restaurantes e quatro bares.

A construção de luxuosos hotéis continua por todo o país "donde crece la palma" - a Palmeira Real, símbolo pátrio cantado há um século pelo homem sincero José Marti, em versos que correram mundo após sua morte, musicados que foram na famosa "Guantanamera". Nos últimos três anos, a febre hoteleira transformou em mecas turísticas lugares como Cayo Coco e Cayo Largo, ilhotas paradisíacas, localizadas, respectivamente, a nordeste e a sudoeste da ilha principal.

O Trip Cayo Coco e o Sol Club Cayo Coco formam o maior complexo hoteleiro de Cuba, com alojamentos para dois mil hóspedes. Só o Trip possui 972 apartamentos, distribuídos por 37 edifícios de três andares, em estilo colonial, além de oito restaurantes, sete bares, oito quilômetros de jardins, discotecas, viveiros de flamingos (ave nativa da área) e um sem número de serviços, como aluguel de motos, jipes, veleiros, equipamentos de musculação etc. Um dos restaurantes - o Dorado, especializado em frutos do mar - precisou de duzentos mil dólares em madeira de lei (mais de 100 metros cúbicos) extraída de Angola, África, para ser construído. Na formação do complexo hoteleiro, foram investidos 130 milhões de dólares, sob coordenação direta do ministro de Turismo, irmão de Camilo Cienfuegos, o desaparecido herói de Sierra Maestra. A ilha transformou-se numa vitrina-padrão para quem quiser investir no futuro de Cuba, a somente 87 milhas náuticas (161 quilômetros) de Miami.

Com 370 quilômetros quadrados, Cayo Coco possui 22 quilômetros de praias. Dá prazer passear em barcos de fundo transparente até a Praia dos Flamingos, com longos mergulhos na barreira de coral, segunda em tamanho no mundo (perde somente para a do Pacífico) e reserva natural realmente preservada. Uma pulseira azul distingue o hóspede que opta pela diária com tudo incluso, o que lhe dá direito a refeições e bebidas onde e quando quiser, além dos serviços de todo o conjunto hoteleiro. O preço (95 dólares) em negociação direta fora da temporada, cai para 50 ou 55 dólares nos pacotes promocionais. Reduz-se ainda mais, se o visitante for jornalista.

Em Cayo Largo, a natureza é agreste e a hotelaria, menos sofisticada. Todavia, as belezas naturais impressionam tanto ou mais que em Cayo Coco. Águas azuis, transparentes e límpidas transformam a barreira de coral num imenso aquário, onde se mergulha em meio a milhares de peixes multicolores, crustáceos e algas dançantes. A viagem para ambos os "cayos", a partir de Havana, apresenta surpresas e emoções extras. Para Cayo Cocô, segue-se em avião Antonov 26 biturbinado ou num trijato YAK-20 para 22 passageiros, ambos de fabricação russa. Ao chegar ao arquipélago, o panorama com extensos canaviais e muitas torres de prospecção de petróleo. Depois, viagem de pouco mais de uma hora através da Rodovia Pedraplan, construída entre 1982 e 1988 como um istmo artificial feito de asfalto sobre pedras. Dos 85 quilômetros da estrada, 34 cortam o oceano dessa forma, antes de enveredar pelo interior da ilha.

Para Cayo Largo, o equipamento aéreo é mais antigo e singular: monomotor "Antonov" biplano, modelo AN-2-CX de 1940, mas fabricado em 1973, dotado de motor de 1.000 HP com nove pistons. Transporta quatro tripulantes e doze passageiros, estes acomodados lateralmente, à moda pára-quedista. Outra característica pitoresca: o freio funciona a ar comprimido, com a chiadeira típica de caminhão, muito estranha numa aeronave. De qualquer forma, o avião é seguro, pois, mesmo lotado e sem motor, consegue planar por bastante tempo até pousar em menos de 100 metros de pista, graças às duas asas. Saber disto é bom, principalmente quando se sobrevoa a

baixa altura a Península de Zapata, ampla reserva naturalpara reprodução de crocodilos.

Uma característica de Cayo Largo são as alvas areias das praias que não esquentam sob o forte sol caribenho.

A composição e o substrato dão-lhes tal característica. Margeiam belos hotéis, o primeiro construído em 1982, o último terminado no ano passado. As diárias incluem o uso de caiaques, cavalos, quadras de esportes, mais de duas dezenas de bares e restaurantes, além de equipamentos de mergulho e de transporte. O índice de ocupação tem sido maior que 90% na alta temporada.

Em toda a ilha - 1,5 km na parte mais estreita, 6,5 km na mais larga e temperatura média de 26º centígrados -, existem dois hotéis (o Pelican e o Isla Del Sur), além de cinco "villas" de bangalôs (Coral, Linda Mar, Iguana, Soledad e Capricho), o que resulta na oferta de 516 habitações a preços entre 75 e 136 dólares por dia, tudo incluído. É interessante visitar o centro de criação de tartarugas e crocodilos, onde se encontram exemplares com mais de 80 anos. Pode-se ali embarcar numa lancha para a praia de La Sirena, uma das mais belas de Cayo Largo, ou seguir diretamente para a barreira de coral. Ao regressar, quando se quer saber se determinado barco nos levará de volta, pode-se ouvir resposta típica da lógica local: "Não sei se será esse barco. Mas, se não for, iremos num outro e este será certamente aquele que nos levará."

O governo cubano dirige sua estratégia para superar a meta de dois milhões de turistas por ano. Não parece difícil, uma vez que, em 1998, já havia conseguido ultrapassar a marca do primeiro milhão de visitantes estrangeiros. As previsões relativas ao afluxo brasileiro ainda são modestas.Mas, segundo Roberto Silva, diretor da Sanchat Tour, aqueles números tornaram-se factíveis na meta global. Ele visitou Havana pela primeira vez há mais de uma década, no vôo inaugural da Vasp, e acabou transformando-se no primeiro brasileiro dono de uma empresa em Cuba. Começou vendendo 15 passagens por mês e, em 1997, já havia atingido 3.200 por ano.

Nos hotéis mais sofisticados do país, os cardápios indicam despesas médias de 20 a 36 dólares por refeição. Mas, em Havana, há restaurantes populares onde os preços são bem mais baixos. Por exemplo, um filé de pescado custa 7,5 dólares e, por mais um dólar, pode vir acompanhado de "congris" - prato nacional também chamado de "Moros y Cristianos" -, saborosa mistura de feijão preto com arroz frito em tempero refogado e, depois, cozido no caldo do próprio feijão. A cerveja Cristal e a água mineral saem pelo mesmo preço: o equivalente a um dólar.

A Cidade de Havana é uma província (Estado), que abrange 15 municípios divididos em bairros. Constitui espetáculo à parte. Com seus sítios históricos, demarcados por edificações da época colonial, e uma frota de automóveis com quase 50 anos de uso, "ciclotáxis", charretes e antigas motos com "side-car", parece uma máquina do tempo. Nas ruas, tem-se a impressão de estar nos anos 50. O interior de fortalezas e palácios faz-nos regredir ainda mais. Revive-se a época em que piratas, bucaneiros e corsários procuravam apoderar-se a ferro e fogo das riquezas que os espanhóis armazenavam sob a proteção do "malecón". Este imponente quebra-mar contorna boa parte da cidade e deu nome a um município, onde casarões seculares acabaram transformando-se em cortiços. Há um esforço nacional, com apoio da ONU (o Malecón é patrimônio da humanidade), para restaurar essas edificações. Seguindo-as, estão as fortalezas de La Cabaña e dos Três Reis do Morro, contando 400 anos de História.

O burburinho do centro de Havana Velha, entre centenas de barraquinhas de artesãos, camelôs e "sacoleiros" que se distribuem principalmente pela Praça das Armas, chega a atordoar o visitante. Mas, não o apavora com a sensação de insegurança que se sente, por exemplo, ao atravessar logradouros centrais de São Paulo e do Rio de Janeiro. A presença do policiamento preventivo é efetiva, com visível preocupação de garantir segurança e liberdade ao turista. A este, todos querem vender de tudo, desde charutos "Cohiba" autênticos ou falsos, até chaveiros e isqueiros com a figura de Ernesto "Chê" Guevara. O melhor é não dar atenção e menos ainda esmola a quem nos rodeia pedindo dólares. Do contrário, não se consegue mais caminhar.

Fora de Havana Velha, dificilmente se vê agitação parecida, a não ser em uma ou duas feiras de artesanato, nas proximidades do "malecón". Muito menos nos elegantes bairros de Vedado e Miramar, assim como ao redor do mais cobiçado hotel havanês, o Meliá Cohiba, com seus 342 apartamentos duplos, 39 simples, 61 suítes e 20 suítes juniores, dotados de TV via satélite e serviço telefônico internacional. Especialmente destinada a pessoas de negócios, há uma área denominada "Servicio Real", com 25 apartamentos e 12 suítes, aos quais se reserva a maior mordomia. O hotel mantém ainda o "degustador" El Relicario para experimentação de charutos de todas as marcas cubanas, acompanhados de vários tipos de café da terra.

A Praça da Revolução, a maior do país (acolhe até um milhão de pessoas), também está longe do burburinho. Ao lado do Memorial a José Marti, herói cubano por excelência, e de um miradouro com 142 metros de altura, o Papa João Paulo II celebrou sua famosa missa campal. Ela é rodeada pelos edifícios do Comitê Central do Partido Comunista, do Conselho de Ministros e do Conselho de Estado, nos quais Fidel mantém gabinetes pessoais. Há ainda o prédio do Ministério do Interior, com toda a fachada exibindo uma efígie de Guevara e sua frase: "Hasta la victoria siempre".

Não muito longe dali, ficam o Grande Teatro "Garcia Lorca" e o Capitólio, autênticos cartões-postais. No Museu da Revolução, instalado no antigo Palácio Presidencial, passa-se um dia inteiro sem tédio, tantos são os documentos, armas, petrechos, equipamentos, publicações históricas e vestes expostos. Coisas do passado. Em seus jardins, vêem-se veículos terrestres, tanques e aeronaves que tomaram parte dos acontecimentos da década de 50, assim como a embarcação "Granma", na qual Fidel e seus companheiros de início de revolução viajaram em precárias condições do México para Cuba.

Mas, as atrações não se restringem a Havana, Varadero e aos "cayos". Há muito para se ver entre o Cabo de San Antonio, no extremo oeste, e a Punta de Maisi, no extremo oposto, passando por cidades como Pinar Del Rio, Matanzas, Cienfuegos, Sancti Spíritus, Santa Clara, Ciego de Avila, Camaguey, Santiago de Cuba e Guantanamo. São inúmeros os atrativos; seria impraticável mencioná-los neste espaço. Testemunham uma história emocionante, iniciada com o descobrimento por Cristóvão Colombo, a 27 de outubro de 1492, e escrita com sangue generoso em lutas contra a Inglaterra, a Espanha e os Estados Unidos, durante séculos, até ultrapassar a derrubada da ditadura de Fulgêncio Batista, a 1.º de janeiro de 1959. Atualmente, há muita dúvida sobre o tempo que o governo comunista conseguirá conciliar os espetáculos de opulência protagonizados por turistas estrangeiros e a aflitiva situação econômica do povo.

Cuba, a rebelde, é bela, saborosa e sempre será cobiçada. Tanta beleza, misturada a símbolos de obstinação, chega a motivar um pensamento maroto e machista: o Brasil, por certo, gostaria de tê-la como parceira, como sua fogosa amante.

(*) O autor viajou a convite do Ministério de Turismo de Cuba. Texto e fotos publicados no Brasilturis Jornal, informativo da indústria turística brasileira, edição n.° 391, de junho/1998.

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Contato: aggio@webcable.com.br

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