CURATIVO DO SÉCULO É

DESCOBERTO PELA USP

Cientistas da Universidade de São Paulo – USP descobriram um produto, feito à base do látex de seringueira (a mesma seiva usada na produção de borracha), que chamam de "curativo do século" por ser capaz de cicatrizar feridas e úlceras crônicas (como as típicas de diabetes) e reconstituir tímpanos e esôfagos perfurados.

O biopolímero deverá ser produzido industrialmente a partir deste mês numa fábrica-piloto instalada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, pela empresa Pele Nova Biotecnologia. A firma foi constituída pela Academia Brasileira de Estudos Avançados, uma ONG que envolve conhecidas personalidades como o ex-presidente da Embraer e da Varig, Ozires Silva.

A descoberta custou quase dez anos de pesquisas no "campus" da USP em Ribeirão Preto. Já permitiu aos médicos pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) uma série de procedimentos controlados que resultaram na comprovação da eficácia do produto em centenas de casos.

O projeto tem coordenação do médico Joaquim Coutinho Netto, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da FMRP. Informa ele que o biopolímero será produzido industrialmente, de início, para tratamento de úlceras crônicas de pés e pernas. Deverá concorrer com produtos de multinacionais farmacêuticas, como Johnson e Novartis, que possuem fórmulas diferentes e preços muito superiores, mas com resultados idêntidos.

"O tratamento com o nosso produto custará, pelo menos, dez vezes menos. Uma bisnaga de 15 gramas de um cicatrizante à base de gel com hormônio humano custa 350 dólares e dá para apenas poucos dias" – afirmou o médico da USP.

Segundo a revista Pesquisa Fapesp de junho, o trabalho começou em 1994, quando a então estudante de mestrado da Área Cirúrgica da FMRP, Fátima Mrué – goiana que passou dois anos em Tóquio, no Japão, acompanhando cirurgias de pacientes com câncer – resolveu trabalhar em sua tese com a "Prótese de Takimoto", feita de silicone e colágeno e utilizada para reconstituir esôfagos. Fátima procurou Coutinho para saber como obter colágeno da pele de porco, técnica descrita em um artigo publicado na década de 60 e que seria utilizada na confecção da prótese. Graças à insistência da jovem, Coutinho resolveu colaborar, mas o colágeno da pele de porco não se unia ao silicone. Surgiu, então, a idéia de usar o látex de seringueira.

Precisavam de alguém que fabricasse a prótese experimental e, para isso, contaram com o apoio do químico Antônio César Zabrowski, da empresa Globbor, que vende borracha para a Goodyear, em São José do Rio Preto. Zabrowski fez as próteses em molde de vidro sanfonado, com um composto de látex vegetal e 0,1% de colágeno ou polilisina. O polímero não resultou da técnica tradicional, ou seja, de vulcanização a temperaturas de 110º C a 125º C, mas sim de condições especiais com método de polimerização patenteado pelo químico e, depois, comprado pela Avamax. Oito cães tiveram o esôfago substituído e um fato chamou a atenção: dez dias após o implante, as próteses eram expelidas com as fezes do animal. Os pesquisadores verificaram, por endoscopia, que um novo esôfago se havia formado naquele curto período. Mostrava-se igual ao esôfago normal que fora retirado, em todas as camadas.

"Não ficou praticamente nenhuma cicatriz e também não houve a formação de fibrose no local reparado, mostrando um processo de neoformação tecidual sem cicatriz" – lembra o coordenador. O rápido processo de cicatrização acabou sendo atribuído à formação de grande quantidade de vasos sangüíneos (angiogênese) no local da prótese.

Em testes comparativos, os pesquisadores usaram outros materiais à base de látex, como 

 

luvas e preservativos, e verificaram que o método de polimerização do químico Zabrowski era insubstituível.

Findo o ciclo de testes com cobaias, o biopolímero foi avaliado em pacientes humanos. Em 1997, Coutinho e Fátima pediram autorização à Comissão de Ética Médica do Hospital das Clínicas da FMRP. Um ano depois, o aluno Paulo César Grisotto, que fazia doutorado na época em Ribeirão Preto, começou a tratar pacientes com úlceras crônicas de difícil cicatrização, no hospital de Itajobi, Interior do Estado de São Paulo.

"Em média, 12 dias depois de os curativos com o biopolímero começarem a ser aplicados nos pacientes, as feridas crônicas, principalmente de portadores de diabetes, começavam a mostrar sinais de evidente granulação e epitelização, contra os seis meses necessários pelos métodos tradicionais, que incluem internação hospitalar" – ressalta o médico.

Segundo levantamento epidemiológico realizado na cidade mineira de Juiz de Fora pelo médico Marco Andrey Cipriani Frade, cerca de 2,7% da população têm úlceras crônicas nos pés e pernas, percentagem que chega a 10% em diabéticos. Essas feridas representam a segunda causa de faltas ao trabalho no Brasil e, geralmente, levam a complicações muito mais graves.

Seis anos depois de Grisotto ter começado a fazer os experimentos em humanos, o número de pacientes estudados em hospitais de Ribeirão, Itajobi, Juiz de Fora e outros chega a 3 mil, dos quais 2.500 com úlceras e o restante com tímpano perfurado por infecção ou trauma. Todos os testes foram realizados após aprovação pelas comissões de Ética Médica das respectivas instituições.

A nova técnica foi aplicada na recomposição de membranas timpânicas pelo Setor de Otorrinolaringologia do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da FMRP. Normalmente, usam-se nessas cirurgias materiais tradicionais como fáscia (camada de tecido fibroso que cobre o corpo sob a pele) do músculo temporal, cartilagem, tecido placentário. Mas, há até 30% de insucessos anatômicos e 19% de reperfuração devido, principalmente, à carência de vascularização do enxerto. Com uso do biopolímero, as miringoplastias (aquele tipo de cirurgia) mostraram intensa vascularização, conforme trabalho dos cirurgiões José Antonio Apparecido de Oliveira e Miguel Angelo Hyppolito, da USP de Ribeirão Preto, denominado "Miringoplastia com a Utilização de um Novo Material Biossintético" e apresentado em 1998 ao 34º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia em Porto Alegre. Valeu-lhes o primeiro prêmio e revela que foi verificada "intensa vascularização em 100% dos enxertos, o que não é habitual quando não se usa a membrana de látex natural". Já se positivaram cerca de 500 casos dessa forma.
Além disso, duas teses de doutorado, desenvolvidas no Departamento de Cirurgia e Anatomia da FMRP, sob a orientação dos professores Jesualdo Cherri e Carlos Eli Piccinato, defendidas pelos cirurgiões vasculares Mário Augusto da Silva Freitas e Paulo Cesar Grisotto, respectivamente em agosto de 2001 e fevereiro de 2003, apontaram, depois de testes feitos em animais, que é possível a recuperação de artérias cardiovasculares por meio da utilização do biopolímero. Todavia, ainda há necessidade de mais pesquisa antes do uso em humanos nesse campo, onde as próteses de látex poderiam substituir as atuais sintéticas ou de materiais biológicos de origem animal, como o pericárdio bovino ou suíno.

Médicos acham que o biopolímero terá ainda muitas outras aplicações além daquelas destinadas a cerca de 4,5 milhões de pessoas que, além do mais, não podem arcar com os altos custos de produtos importados. O "curativo do século", como foi batizado pelos pesquisadores da USP, é apenas o começo.