De 1997 a 2002, foram devastadas áreas equivalentes a mais que os Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba juntos.

 

Cupidez acelera a

devastação amazônica

 em mais 40% num ano

Em futuro próximo, a preservação ambiental e a conseqüente diversidade de flora e fauna serão os mais importantes critérios para distinguir as nações umas das outras.

O Brasil possui os maiores tesouros naturais entre tantos quantos possam ser idealizados como padrões de valor para uma época em que o ambiente planetário venha a se tornar hostil à vida, caso perdure a atual exploração econômica irracional, tão mais devastadora quanto for o grau de teconologia posto a serviço da cobiça humana.

Sem dúvida, entre tais riquezas, encontra-se a Amazônia. Daí, não se entende como pôde passar quase despercebida dos meios de comunicação a última descoberta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE): alarmante aceleração do desmatamento da selva amazônica em 40%.

No momento da divulgação dos dados coletados por satélites, o presidente Lula admitia no 38.° Festival Folclórico de Parintins, em pleno Amazonas, que, em nome do desenvolvimento, a região não pode ser considerada intocável.

115.500 km² devastados em seis anos

No Senado Federal, dia 2 último, o senador Jefferson Péres (PDT-AM) bradou contra o fato. Mas, a grande imprensa silenciou ou limitou-se a fazer breve registro, como se desmatar uma área maior que a do Estado de Sergipe em um ano fosse algo corriqueiro e justificável ante as necessidades de "desenvolvimento" da região amazônica. E essa devastação aconteceu no transcorrer somente de 2002, quando sumiram 25.500 Km² de floresta para dar lugar a frentes agrícolas e pecuaristas, além de madeireiras e assentamentos do Incra.

Cuba, foto pequena, Jefferson Péres.jpg (3431 bytes) Jefferson Péres:

"O que ameaça a Amazônia não é a cobiça internacional, é a cupidez nacional, que está devastando a floresta em ritmo alucinante".

Mais grave ainda é verificar que, de 1997 a 2001 (governo FHC), o desmatamento manteve-se impunemente em cerca de 18 mil km² por ano. Portanto, de 1997 a 2002, o Brasil perdeu 115.500 km² de seu maior tesouro natural, sem que fossem vistas ações governamentais eficazes para obstar o verdadeiro crime ambiental. Sumiu vegetação exuberante e nativa, com todas as funestas conseqüências para a fauna e prejuízos às condições hidrológicas facilmente imagináveis, numa área maior que a dos Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba juntos.

Duas leituras de Lula

Grandes glebas foram desnudadas principalmente em Rondônia, Pará, Roraima e Mato Grosso. A persistir a devastação, em algumas décadas não mais teremos aquilo que é considerado como patrimônio nacional pela Constituição Federal.

De acordo com Jefferson Péres, as palavras ditas pelo presidente Lula no festival de Parintins – "em nome da preservação, tem-se impedido o desenvolvimento da Amazônia" – pode dar lugar a duas leituras:

"A leitura boa seria que a preservação não deve impedir o desenvolvimento da Amazônia. A leitura ruim é achar que o desenvolvimento deve ser feito a qualquer custo, mesmo com devastação florestal. Se

for isso que está na cabeça do Presidente da República, lamento que a ministra Marina Silva, uma figura emblemática, esteja naquela Pasta e que tenha
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Marina Silva: "Esse é um processo que só se consegue reverter com medidas estruturantes, que dialogue com o processo produtivo, que crie uma nova lógica de desenvolvimento para a região." (Foto Martin D'Ávila)

poucos meios para impedir a ação daqueles que pensam erradamente que desenvolver a Amazônia é adotar um modelo convencional de desenvolvimento, que esse modelo seja o caminho para a nossa região, porque não é."

O senador ressaltou:

"Sempre tenho dito e repetido: ou o Brasil tem um projeto nacional para a Amazônia que contemple recursos permanentes, um planejamento global, zoneamento ecológico e econômico, ou deixem de conversa fiada, de bobagem, de ver fantasmas, de falar em internacionalização da Amazônia. A Amazônia não será internacionalizada coisa nenhuma, nem vamos perdê-la. O que ameaça a Amazônia não é a cobiça internacional, é a cupidez nacional, que está devastando a floresta em um ritmo alucinante, com a inação, com a inércia das autoridades federais, estaduais e municipais."

Governo: devastação vai continuar

Horas depois do protesto no Senado, enquanto em Paris a Unesco outorgava o título de Patrimônio Natural da Humanidade a quatro áreas de preservação do Estado do Amazonas, o governo anunciou reunião de onze ministros para frear aquele desmatamento. Informou que passará a liberar créditos somente para os agricultores que se comprometam a plantar sem agredir o meio ambiente. Asseverou que "o controle ambiental será reforçado nos programas de assentamentos de famílias" e que "vinte milhões de reais serão liberados para operações do Ibama na fiscalização". Entretanto, adiantou:

"Mesmo com essas medidas, o Ministério do Meio Ambiente acredita que não será possível impedir o desmatamento em 2003".

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Duas horas de reunião interministerial para descobrir que o desmatamento desenfreado vai continuar neste ano. (Foto: Ana Nascimento)

Finda a reunião interministerial, que durou duas horas, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou:

"Esse é um processo que só se consegue reverter com medidas estruturantes, que dialogue com o processo produtivo, que crie uma nova lógica de desenvolvimento para a região. Nas ações de Reforma Agrária, de crédito e de infra-estrutura nós iremos considerar a variável ambiental (sic)".