O cenário atual

das Forças Armadas

Renato Penteado Teixeira (*)

Moro numa cidade cujo fundamento da economia é a agropecuária. Permanentemente há uma grande mobilização para que cada vez mais recursos sejam destinados ao meio rural. Atitude correta e necessária, pois os ruralistas necessitam de suporte econômico para desenvolverem sua atividade da melhor e mais rendosa maneira possível.

Por outro lado, moro também numa cidade invadida pelo PT e por sua horda rural chamada de MST. Como da parte dos produtores, há entre essa gente, uma grande mobilização, para que sejam dados aos acampados e assentados todo o apoio para que possam subsistir.

Essa atitude de ruralistas e sem-terras, como procedimento semelhante de industriais, comerciantes, trabalhadores urbanos, integrantes do Poder Judiciário e demais categorias é válido e necessário para uma preservação ou melhoria de "status", coisa mais do que normal e compreensível.

Desde o advento da Nova República, as Forças Armadas (FFAA) vêm sendo cada vez

mais sucateadas. Ainda nos anos 80, se concebeu para a Força Terrestre um programa chamado FT90, cujo objetivo aparente seria a modernização e adequação do Exército à realidade conjuntural e às missões que os novos tempos exigiam.

O que se viu foi o fortalecimento das Forças sediadas no Sul e Sudeste e o Projeto Calha-Norte relegado a uma prioridade baixa, agravado com a criação de um colossal território indígena, conhecido como Reserva Ianomâmi.

Na atual década assistimos perplexos à implantação de uma nova LRM, que, segundo respeitáveis analistas militares, provocará a médio-prazo o sucateamento da inteligência nas FFAA. Como disse para mim um aspirante do primeiro ano da Escola Naval, "vou fazer vestibular para uma Federal, para o IME, para o ITA ou UNICAMP, pois chegar a Mar e Guerra, ganhando menos da metade do que uma procuradora em início de carreira recebe por mês, é desanimador".

Presenciamos indignados o esbulho que se praticou com as FFAA, contingenciando suas escassas verbas orçamentárias, inferiores ao que o governo gasta com publicidade e culto da personalidade, pois nada acrescenta ao País, e licenciando recrutas ao final da "Instrução Individual de Qualificação". Isso inviabiliza qualquer possibilidade de tornar o Exército Operacional, bem como o uso das verbas por nós angariadas para constituir Fundos de Saúde e que autoritariamente o governo contigencia para garantir o superávit primário com o qual fará um agrado aos fiscais do FMI.

Muito se fala sobre operacionalidade, mas pouco se sabe o que ela é realmente. Certa vez presenciei o Comandante do então III Exército, Gen Samuel, perguntar a uma platéia de oficiais superiores, o que era esse ente mítico. Houve muitas opiniões, algumas disparatadas e outras coerentes, mas ninguém disse que, para ser operacional, uma Força precisa de pessoal, material, estrutura e ADESTRAMENTO.

O que temos hoje?

Pessoal? Apenas parte dele. O resto foi licenciado sem participar de um "treino em

conjunto".

Material? Está sucateado. Há uma   indisponibilidade completa. Conversando com um Comandante atual, que conserva a lucidez, me afirmou que com sua Unidade, juntando todo material disponível, faz uma subunidade. Ele tem três, além das de Apoio e Serviço. Vai longe o tempo da famosa "Índia-Zulu".

Estrutura? Será que ela está correta? Os pontos vulneráveis do Brasil estão guarnecidos por Unidades de combate em número suficiente? Há necessidade de presença de tantas GU e Unidades nos locais onde se concentram? Dispomos de condições de defender a Amazônia, maior do que a Europa Ocidental, com uns vinte mil homens apenas?

Sabe-se que a adaptação ao Ambiente Operacional amazônico é lenta e difícil. Uma coisa é deslocarmos pára-quedistas e fuzileiros navais do Rio para combater no Rio Grande do Sul. Uma boa japona de lã resolve a adaptação climática, se for no inverno. Mas na selva mais densa e úmida que conhecemos, com temperaturas altíssimas e ambiente hostil?

Por fim sobra o adestramento. Uma Força pode estar apta para cumprir sua destinação constitucional sem realizar exercícios de adestramento, dado que seus contingentes ficaram reduzidos a 40%? O adestramento é a fase em que o ex-recruta participará dos exercícios como um meio auxiliar. O objetivo é o oficial e o sargento. Mas sem esse meio, fica-se limitado a um mínimo possível, fica-se restrito a exercícios na carta, a jogos de guerra e exercícios acadêmicos de idas de Estados-Maiores ao terreno.

O exercício da ação de comando, da prática da liderança em campanha e a transmissão dos mais antigos para os jovens daqueles "macetes" que só a prática ensina estão relegados, postergados e abandonados.

Lembro de estrofes de Camões, escritas numa placa de bronze, numa pérgula da AMAN, que dizia de maneira poética que a disciplina militar prestante, ou seja, a condição do militar exercer bem sua profissão, só funciona com o continuado exercício dela lendo, estudando e praticando.

Portanto, estamos diante de um Exército incapaz. Falo por ele, porque meus 40 anos vividos em suas fileiras me dão credenciais e direito de falar sobre ele. Mas, creio – e companheiros das outras Forças poderão ratificar – que a situação delas é a mesma.

Falo revoltado com a campanha de achincalhamento ao passado das FFAA e seus principais líderes, heróis e comandantes, que têm suas imagens diuturnamente deturpadas pela mídia antagônica e ideológicamente oposta aos ideais democráticos de liberdade, soberania e integridade, que os militares pregam e cultuam.

Assim, só vislumbro uma solução para as Forças Armadas. É utilizarmos a Internet como meio de alerta e pressão para que os Comandantes das Forças acordem enquanto ainda é tempo. Este está se esgotando rapidamente. Ou a situação é revertida já, ou pouco haverá no futuro para nos orgulharmos de nosso Poder Militar. E então não passaremos de uma republiqueta de segunda linha, caudatária de uma grande potência, que "proverá nossa segurança" como a de um protetorado.

(*) Renato Penteado Teixeira é Coronel de Artilharia R1.

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