Compay morre após encarnar

"son" cubano durante 81 anos

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O falecimento de Compay Segundo, aos 95 anos de idade e 81 de carreira artística, dia 14 último, extinguiu o maior símbolo moderno da música tradicional de Cuba. Seu legado artístico é admirado em todo o mundo desde 1997, quando participou com destaque do grupo Buena Vista Social Club, gravou o disco homônimo e recebeu o prêmio Grammy, ao lado de veteranos artistas como Ibrahim Ferrer, Rubén Gonzalez, Eliades Ochoa, Omara Portuondo e Ry Cooder, agora chamados em Cuba de "os superavôs". A fama, a admiração e o respeito internacionais aumentaram graças ao documentário feito pelo alemão Wim Wenders em 1999 sobre esse trabalho coletivo, que envolveu turnê por vários países, entre eles o Brasil.

No ano passado, Compay – o verdadeiro nome era Maximo Francisco Repilado Muñoz – falou à imprensa sobre sua predileção pela música tradicional: –"Qualquer música se mantém algum tempo, mas a que não morre é a tradicional porque todo mundo precisa voltar às origens, ouvir suas raízes".

Compay adquiriu tal convicção na região natal – Santiago de Cuba, uma das mais belas e históricas cidades do país, considerada berço do "son", o ritmo típico que deu origem a gêneros tradicionais como o bolero.

Nascido em Siboney a 18 de novembro de 1907, Compay fez a primeira turnê artística partindo da vizinha Santiago, 960 km a sudeste de Havana, onde se radicara com a família aos nove anos de idade. Era filho de um ferroviário andaluz e de mãe cubana.

Aprendeu cedo a tocar clarinete e guitarra. Chegou a criar seu próprio instrumento, o "harmônico", variação do violão com sete cordas. Tornou-se famoso não apenas pelas interpretações, mas também por compor sucessos com "Chan Chan", que impregnou toda a apresentação do "Buena Vista Social Clube".

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O artista nonagenário tinha cinco filhos e encarnava a alegria de viver. Festivo e irônico, dizia gozar a vida moderadamente, mas sem jamais abandonar o inseparável charuto e a inclinação pelas mulheres.

"Nada com excesso. Você não deve se aborrecer com o que tem. Você não tem que se aborrecer com a comida. Não deve se aborrecer com o amor. Voltando ao rum, eu digo: Compay, você está bem; um gole sim, mas muito deixa o fígado duro" – costumava afirmar. Fumou "havanas" desde os cinco anos de idade, pois aprendeu acendendo os da avó, igualmente longeva.

Aos 14 anos de idade, deixou Santiago e, com o

conjunto "Seis Ases", tocou pelo país afora, até chegar à capital, Havana. Já então se apresentava ao lado de músicos que também obtiveram fama anos depois, entre eles Antonio Fernández (Ñico Saquito) e Evelio Machin, ambos falecidos.

Aliás, Compay celebrou o 80.° aniversário dessa turnê apresentando o espetáculo "Se secó el arroyito", no ano passado. No roteiro, o romance entre a filha de um capataz de engenho de açúcar e um jovem pobre.

Compay nunca se deixou abater pelas adversidades, mesmo quando labutava na roça para poder comer. Chegou a ganhar a vida como enrolador de folhas de tabaco em fábricas de charutos, barbeiro, pintor de paredes, ebanista e ator. Senhor de muitos instrumentos, começou com a clarineta que lhe permitiu ingressar na Banda Municipal de Santiago de Cuba e, em 1934, radicar-se em Havana. Participava, então, do quinteto de Saquito.

Nos anos 50, com Lorenzo Hierrezuelo, formou a dupla "Los Compadres". Ganhou então seu nome artístico porque fazia a segunda voz. "Compay" é gíria cubana para designar compadre. A dupla separou-se anos depois e ele montou o próprio conjunto. Todavia, após alcançar alguma fama individual, sumiu de cena. Retornou à agricultura e reiniciou a carreira artística somente depois de se aposentar.

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"Fiquei 14 anos sem gravar um disco", lembrava Compay. Pôde reconquistar a fama,  já idoso, depois que os ritmos cubanos se espalharam pelo exterior, em meados do século passado.

A merecida consagração internacional veio com o Buena Vista Social Club e o documentário cinematográfico homônimo, há seis anos. Depois, gravou outras obras, inclusive com o mago da trova cubana, cantor Silvio Rodríguez.

Morreu dois dias depois de participar do concerto em sua homenagem, apresentado pelo conjunto Compay Segundo y sus Muchachos, no Hotel Nacional, de Havana. Em 1996, comemorou o 90.° aniversário gravando o disco Lo Mejor de la Vida. No mesmo ano, um de seus derradeiros discos, Calle Salud , atraiu a atenção da crítica e recebeu elogios gerais. Sua última gravação, "Duetos", apareceu em janeiro de 2002.
Vitimado por "desajuste metabólico agudo com insuficiência renal", do qual sofria desde o começo de julho, Compay faleceu em casa, no bairro de Miramar, em Havana, rodeado pela família, em meio ao respeito, reconhecimento e admiração de toda a população cubana. Seu corpo foi sepultado em Santiago de Cuba.

(A. A. Jr.)

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