Jornalista assassinado em

meio aos sem-teto do abc

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Com um tiro quase à queima-roupa no tórax, o repórter-fotográfico Luis Antônio da Costa, de 36 anos, casado e pai de duas crianças, foi morto às portas do acampamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), na Avenida José Fornari, em São Bernardo do Campo, município da área metropolitana de São Paulo, quando realizava cobertura jornalística para a revista Época.

O assassino tentou arrebatar a máquina fotográfica da vítima, disparou o revólver e sumiu entre os acampados.

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O assassino corre para o interior do acampamento

Segundo a revista, La Costa, como era conhecido o profissional, utilizava duas câmeras – uma digital e a outra convencional. Somente a digital foi entregue à revista e nela não havia foto capaz de ajudar o esclarecimento do crime.
Todavia, o repórter-fotográfico do jornal Agora São Paulo, André Porto, conseguiu fotografar o assassino logo após o disparo. É negro, robusto, estatura mediana, cabelos curtos. Trajava bermuda escura e camiseta branca sob um guarda-pó bege.

Várias hipóteses surgiram imediatamente. Uma delas é de que o matador seria segurança do acampamento. Outra, de que teria participado de um assalto a posto de gasolina localizado nas proximidades e fora fotografado pela vítima. Provavelmente, de qualquer forma, o jornalista documentou ou pretendeu documentar algo que o homicida não queria e desencadeou sua fúria.

Toda a Polícia paulista está empenhada no caso.

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Em dias, o MTST fez o acampamento crescer dez vezes

Durante o dia seguinte ao do crime, os alto-falantes do acampamento repetiam a palavra de ordem dada por um locutor do MTST: "lei do silêncio" com relação à imprensa.

O jornalista André Porto do jornal Agora São Paulo, autor das principais fotos do caso (reproduzidas nesta página), declarou que o atirador tentou arrancar a câmera de La Costa antes de matá-lo. As fotos do assassino foram fornecidas à Polícia e publicadas nos jornais do Grupo Folha de S. Paulo, ao qual pertence o Agora.

Por sua vez, a dona do posto de gasolina disse que, após o roubo de R$ 60,00, viu os assaltantes irem em direção à entrada do acampamento. Seu filho seguiu os ladrões e informou à polícia ter visto um deles em meio ao tumulto, de arma em punho.
A polícia também considera as declarações de outras testemunhas, entre elas vários jornalistas, que afirmam ter visto o assassino saindo do acampamento em direção à vítima.

A vítima foi levada ao pronto-socorro central de São Bernardo de automóvel pelo suplente de deputado estadual Wagner Lino (PT) e pelo repórter Alexandre Mansur, da revista "Época", mas chegou morto.
Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas disseram que, no momento do crime, conversavam com Camila Alves, líder do MTST, sobre a ordem de reintegração de posse obtida na véspera pela Volkswagen, proprietária do terreno de 170 mil m2. Ela estava num automóvel e os jornalistas ficaram ao lado do veículo.

"Eu estava gravando a entrevista com a coordenadora e vi quando dois homens vieram em nossa direção, de dentro do acampamento", disse o cinegrafista Robson Senhoraes, da Rede Globo.
"Um dos homens fixou o olhar em mim e puxou minha câmera. Nesse momento, ouvi o disparo, e o fotógrafo já estava caído."

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De arma em punho, em seguida ao disparo

O repórter do "Diário do Grande ABC", Javier Contreras, afirmou ter visto, momentos antes do tiro, dois homens entrarem no acampamento. Logo em seguida, saíram, e um deles alvejou La Costa. Outros testemunhos corroboram
esses depoimentos e acrescentam que os três indivíduos fugiram para o interior do acampamento.

O delegado Roberto Avino afirmou no local, porém, que não via necessidade de a Polícia entrar no acampamento. "Isso vai ser feito durante a investigação. Não tenho estrutura para isso agora", disse.

Depois do crime, por volta das 17h30, a coordenadora Camila Alves leu um comunicado do MTST. "Lamentamos o ocorrido, nos solidarizamos com a família do profissional e manifestamos nosso repúdio à violência porque somos um movimento pacífico em busca de moradia digna. Desejamos que isso não se torne motivo para uma violência ainda maior." – consta do documento.

Após o início da ocupação por 300 famílias, militantes do MTST promoveram um inchaço do acampamento. Carros de som circularam pela região e convocaram moradores a também acampar no local. Em poucos dias, o número subiu a mais de 5 mil pessoas.

O corpo do jornalista foi sepultado no dia seguinte ao do crime, no cemitério municipal de Borda da Mata (MG), sua cidade natal.

A direção da revista Época divulgou a seguinte nota oficial:

"No berço do novo sindicalismo brasileiro, o ABC paulista, a imprensa sempre esteve a postos para cobrir todo o tipo de manifestação social - de greves a paralisações, de passeatas a invasões de terrenos. Ao cobrir estas manifestações, os jornalistas enfrentaram todo o tipo de adversidade, incluindo a violência física.

"Nesta quarta-feira, infelizmente, um jornalista foi vítima de uma truculência sem precedentes.

"O repórter fotográfico Luiz Antônio da Costa, a serviço de ÉPOCA, foi morto a tiros, em frente a um terreno invadido em São Bernardo do Campo.   La Costa, como era conhecido pelos amigos, 36 anos, foi fotógrafo de ÉPOCA durante 5 anos.

"Recentemente, colaborava esporadicamente com a revista, pois desejava seguir a carreira de free-lancer. Deixa esposa, Luciana, e dois filhos.

"Por obra do destino, foi escalado para fazer essa reportagem fotográfica e acabou assassinado. Ainda não sabemos se o tiro partiu de um assaltante ou de um segurança do movimento - versões que estão sendo investigadas pela Polícia. ÉPOCA irá às últimas conseqüências para apurar o que aconteceu e repudia veementemente esta violência gratuita."

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