A comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a parlamentares do PPS, dando conta de um projeto de assentamento rural baseado em agrovilas, reacendeu a esperança de que, finalmente, o Brasil possa realizar uma reforma agrária à altura das dimensões de suas terras férteis, mas incultas.

Se esta transformação for encampada de verdade pelo MST, apartado de quem quer apenas usar os sem-terra como instrumentos de destruição da democracia, poderemos ver realizado o antigo sonho de idealistas como o ex-governador goiano Mauro Borges Teixeira. Talvez tenha sido ele quem mais se aproximou de sua concretização.

O pai de Mauro Borges era o ex-governador e ex-senador goiano Pedro Ludovico Teixeira, responsável pela desapropriação da grande gleba que permitiu ao ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira construir Brasília e interiorizar o Distrito Federal. Eleito governador de Goiás em 1961, instituiu a administração planejada naquele Estado. Depois dele, todos os candidatos ao cargo viriam a apresentar um plano de governo.

Nasceu em 1920 na cidade goiana de Rio Verde. Ingressou no Exército e atingiu o posto de coronel. Antes de ser governador, foi deputado federal por seu Estado. Sempre procurou pautar-se pelo planejamento, pois aprendera sua importância ao cursar a Escola Militar do Realengo e a Escola de Comando e Estado Maior. Assim, por exemplo, criou a Metais de Goiás S/A (METAGO) para explorar riquezas minerais da região depois que foi eleito governador.

Conhecedor da realidade do campo, resolveu empreender amplo movimento de colonização de terras até então improdutivas, a começar pelas devolutas.

Procurou inspiração nos "kibutzin" de Israel, mas verificou que, neles, a terra coletivizada continua sendo propriedade estatal, o que não condizia integralmente com o seu projeto. Queria estabelecer uma forma de assentar o trabalhador rural, apoiá-lo integralmente e criar condições para que viesse a tornar-se dono da terra que cultivava. Costumava dizer que o lavrador só se sente bem e produz quando sabe ser o proprietário de onde pisa. Resolvera, assim, combinar ambas as coisas - o particular e o público - mediante parceria entre a iniciativa privada e o Estado. Este princípio, agora adotado normalmente, foi confundido na época, de propósito ou não, com algo que cheirava a "comunização".

O fato é que Mauro não se atemorizou. Criou agrovilas que batizou de "combinados agro-urbanos" e confiou sua administração a cooperativas de colonização.

Se aceitasse uma série de regras, o filiado à cooperativa agrícola trabalharia uma das glebas demarcadas ao redor de um centro urbano construído pelo governo. Nesta vila, o trabalhador dispunha da infra-estrutura necessária (casa, água, luz, escola etc.) para uma vida digna com a família. Seguindo aquelas regras, tornar-se-ia proprietário.

A cooperativa cuidava da distribuição de sementes, fertilizantes e defensivos. Providenciava assistência por agrônomos e outros especialistas da área. Movimentava tratores, caminhões e cuidava do escoamento da safra. O apoio governamental sempre se fazia presente e patrocinava cursos que não eram de "capacitação política", mas sim de conhecimento técnico.

O empreendimento cresceu tanto e tão rápido que Mauro criou, entre outras, uma escola de formação de tratoristas, chamada EFOMAGO (Escola de Formação de Operadores de Máquinas Agrícolas) para que os combinados pudessem prosseguir na realização do sonho pelo qual estava obstinado. Realmente, buscava uma transformação radical do campo, mas sem expropriação, roubo e violência contra quem quer que fosse. Era a colonização, ordeira e

sustentada, do que precisava ser colonizado.

O jornal Folha de S. Paulo reconheceu a importância desse trabalho. Dedicou-lhe uma série de reportagens de página inteira com o título geral de "Goiás na Era da Sigla", sob responsabilidade deste mesmo autor. Infelizmente, parece que isto fez juntar-se inveja à desconfiança alimentada pelo obscurantismo de alguns setores goianos.

Mauro Borges nunca foi comunista. O que ele queria – e repetia sem temor – era usar o seu poder para resolver de maneira pacífica um problema angustiante e aparentemente sem solução. Ou seja: o desamparo do trabalhador rural sem terra e a utilização irrracional de vastas áreas improdutivas. Procurava suprimir a mesma questão agrária que hoje alimenta algumas lideranças adeptas de desgastados dogmas ideológicos. Lideranças que desejam implantar um poder despótico e dispõem-se a até ensangüentar o País.

Em 1964, Mauro chegou a acreditar nos ideais da Revolução Democrática de 31 de Março. Parte dela – a que se mostrou vitoriosa de início – fora imaginada na Escola Superior de Guerra, por seus antigos companheiros de caserna, então também coronéis do Exército Brasileiro. Pensava que a Revolução poderia expandir seu projeto pelo Brasil afora, povoando-o e tornando-o verdadeiro celeiro do mundo, como costumava dizer. Entretanto, logo se decepcionou e abandonou o movimento.

Entre seus assessores imediatos, mantinha um elemento com fama de subversivo, pois diziam-no membro importante do Partido Comunista. Era Tarzan de Castro. Subversivo ou não, Tarzan prestava relevantes serviços ao governo goiano, guardando para si as convicções político-ideológicas enquanto jogava de acordo com as regras criadas pelo governador seu amigo. Este confiava em sua lealdade. Aliás, nunca teve porque não confiar.

Todavia, os latifundiários de Goiás, mais por despeito do que preocupação, passaram a pedir a cabeça do assessor. Apontavam sua presença no governo como a maior prova da "comunização em marcha". E essa pressão chegou a Brasília.

A pedido do presidente Castelo Branco, os coronéis da ESG tiveram uma conversa de amigo com Mauro Borges para tentar convencê-lo a afastar Tarzan do governo. A resposta: "Se ele sair, eu saio junto." De nada adiantou a promessa de que os combinados agro-urbanos continuariam a existir. A questão Tarzan de Castro transformou-se em desinteligência entre velhos camaradas de armas. E Castelo Branco resolveu depor Mauro.

A 26 de novembro de 1964, o então coronel Carlos de Meira Mattos foi enviado a Goiânia com uma coluna de tanques Sherman. A cidade foi sitiada. Caças MK-7 e MK-8 Gloster Meteor – os primeiros jatos da FAB – realizavam vôos rasantes e ensurdecedores sobre o Palácio das Esmeraldas, tentando atemorizar a multidão que acorrera à praça em apoio ao seu governador. Inutilmente.

Pedro Ludovico, pai de Mauro, estava disposto a resistir. Improvisara um pequeno exército de correligionários dotados de armas leves, além de policiais civis e militares. O governador, porém, preferiu evitar o confronto fratricida e deixou o palácio, carregado pelos populares. Teve os direitos políticos cassados por dez anos.

Meira Mattos, como interventor, governou Goiás por dois meses até receber nova missão. Tarzan de Castro sumiu para reaparecer só quando foi preso pelo DOPS paulista na cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo. Vivera na clandestinidade, mas sem participar dos atentados terroristas que eram então praticados pelos radicais. Chegara a viajar escondido para a China, URSS e Cuba. Anos depois, com a abertura democrática, conseguiu ser eleito deputado estadual e federal pelo povo goiano.

Em 1982, Mauro Borges obteve mandato de senador pelo PMDB de Goiás. Mas, seus combinados agro-urbanos já se haviam desvanecido. Tomara, agora, possam ressurgir nas agrovilas de Lula para resgatar o sonho daquele político idealista e corajoso.

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