Walter Del Picchia (*)

apresenta dois artigos

UM PLANO PARA NINGUÉM BOTAR DEFEITO

(Publicado originalmente no JORNAL DA USP)

A REPÚBLICA DA PANÁKIA

(Do "site" www.panakia.com.br)

Foi no dia 16 de março de 1990 que alguns pacientes se evadiram da ala psiquiátrica do Hospital Central de Brasília. Eram economistas que tinham ficado meio lelés da cuca após tentarem entender o manual para declaração do imposto de renda.

Após perambularem pela cidade, acabaram refugiando-se no prédio onde se realizava justamente uma reunião da cúpula pensante do novo governo. Nesse local havia sido montado o quartel general para a implantação das novas medidas dos empossados no dia anterior, e nele havia toda uma parafernália de comunicações para transmissão e comando do mundo exterior.

A equipe dirigente acabara de editar e transmitir medidas para uma reforma administrativa e um ajuste fiscal razoáveis e preparava-se para comunicar as medidas para um ajuste monetário moderado; foi nesse momento que os economistas tantãs invadiram a sala de reuniões, imobilizaram a equipe dirigente e apossaram-se de todos os meios de comunicação: telefones, rádio-transmissores, telex, fax, computadores etc..

Em seguida ocuparam a mesa de reuniões, e Leonard, o mais velho, falou:

- Penso que temos em nossas mãos a oportunidade, há tanto sonhada, de deixar todos malucos como nós. O país já está meio doido há tempo; com um pequeno esforço poderemos deixa-lo por completo. Sugestões?

Davi: - Devemos mexer nas coisas que eles mais gostam. O que é que eles mais adoram?

Todos: - Futebol?, Caipirinha?, Carnaval?, Sexo?, Novela?, Feijoada? ...

Foi então que Alex, o sábio, assim falou:

- O que eles mais adoram é o dinheiro. Vamos sumir com o dinheiro deles!

Os restantes: - Todo?!

Alex: - Todo, não! Não somos tão dementes assim. Vamos sumir com, digamos, uns oitenta por cento.

Os outros: - E isto basta para deixa-los malucos?

Alex: - Não. Sugiro medidas complementares: trocamos o nome do dinheiro, sem trocar o dinheiro, nem suprimir o anterior. Que tal chamar a nova moeda novamente de cruzeiro? A coisa vai ficar de doido: haverá notas de 10.000 cruzados que valem 10 cruzados novos, mas que realmente são de 10 cruzeiros. Criaremos regras bem complicadas para bloquear os depósitos de todos, firmas ou pessoas: bloqueio nas aplicações, na poupança, ...

Todos: - Poupança??!!

Alex: - ... e na conta corrente ...

Leonard: - Mas nem o Fidel bloqueou a conta corrente! ...

Alex: - O Fidel não é lelé, mas nós somos ...

As regras devem ser mal redigidas, pior explicadas, injustas, ilegais, inaplicáveis e têm que mudar de meia em meia hora.

Davi: - Mas só o Kamal é capaz de pensar de um jeito, escrever de outro e explicar de um terceiro modo.

Alex: - Ótimo, especialmente porque ele pensa em turco, escreve em dialeto e fala não sei em que raio de língua. Além disso, ele é inteligente e pode trocar as bolas quando necessário: pensar em dialeto, falar em turco etc. etc.. Bota o Kamal no Banco Central. Com ele comandando os bancos, vai ser uma beleza!

Os outros: - E chega?

Alex: - Quase! Faremos ainda o seguinte: informamos a todos que os bancos têm dinheiro, mas não damos dinheiro aos bancos; quando eles começarem a entender uma regra, nós a mudamos, proibindo o que já tiver sido feito; editaremos cartilhas confusas com regras definitivas e as retiraremos logo que as mesmas estiverem sendo entendidas e aplicadas, editando novas leis e cartilhas que terão o mesmo destino. Quanto mais regras complicadas e contraditórias em vigor, simultaneamente, melhor.

Avisaremos os patrões e empregados que é fácil obter empréstimos, mas proibiremos aos bancos emprestarem com facilidade, e os mesmos serão proibidos de citar essa nossa proibição. As agências terão que emitir extratos nas duas moedas. Só isso, aliado à natural confusão bancária, bastará para deixá-los como baratas tontas por umas três semanas, pois todos os programas de computador precisarão ser reescritos (nem um maluco imaginaria duas moedas simultâneas!...) e testados imediatamente em cima de milhares de clientes perplexos e indignados.

Se os bancos não emprestarem e, em conseqüência, os patrões não pagarem os salários, incentivaremos os trabalhadores a fazerem greve. Quem pedir dez leva um, quem pedir um não leva nada. Negaremos apoio sempre, mandando o pessoal se virar. Vai ser uma quebradeira para ninguém botar defeito. Se trabalharmos direito, mas nem em vinte anos esses caras se recuperam.

Davi: - Genial! Os bancos deverão devolver os cheques em cruzados novos que ficaram sem fundos porque os depósitos foram transformados em cruzeiros! Permitiremos compra de carros novos em trinta meses, mas só liberaremos empréstimos a trinta dias; estipularemos prazos rígidos e "imexíveis" e, tão logo todos tenham se matado para cumpri-los (principalmente os velhinhos aposentados), prorrogaremos as datas.

Boris: - Ótimo. Não dou um mês para todos estarem completamente loucos. Mas se não endoidarem de vez, que tal deixarmos planejadas novas medidas?

Tenho uma idéia: após certo tempo, poderemos repetir a dose; congelamos oitenta por cento dos depósitos em cruzeiros e criamos uma nova moeda, o brazão. Para complicar, um brazão deverá valer 3,1416 cruzeiros, e será obrigatório fazer as conversões até a última casa. Aí, no dinheiro viria escrito "cruzados novos", estaria carimbado "cruzeiros", mas seria brazão! Os cruzados novos e os cruzeiros ficariam bloqueados e o pessoal compraria com brazões. Os bancos teriam que emitir três extratos: em cruzado novo, em cruzeiro e em brazão. Imaginem a bagunça: necessitariam refazer todos os programas de computador novamente.

Alex: - E, se necessário, sempre poderemos ir criando novas moedas e adicionando-as às anteriores. Por falta de nomes é que não será!

Todos: - Então, mãos à obra!

E fez-se o caos ...

(Nota: A fábula acima é mera ficção; felizmente para todos nós, não há a mais remota possibilidade de que tal coisa, algum dia, venha a suceder.)

 (Explicação atual, para quem não viveu a epopéia conhecida por Plano Collor: a Nota anterior é pura ironia; exceto a invasão, pelos economistas lelés, da reunião da cúpula pensante do novo governo - que acabara de tomar posse -, os fatos acima são a narração quase fiel do que aconteceu naquela época. Quem viveu, jamais esquecerá.)

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N. da R. - Diz-se que o irônico é um idealista desapontado. Para o prof. Walter Del Picchia, "o satírico é o idealista com raiva". Assim, ele escreveu outros artigos do gênero para o "site" www.usinadeletras.com.br

Há pouco esteve entre nós um dos mais destacados membros da oligarquia panaka, o Dr. Yakobis, mentor intelectual – ou eminência parda, segundo seus detratores – da original experiência modernizadora vivida por seu país. O Dr. Yakobis, certamente o mais ilustre dos panakas, concedeu-nos uma entrevista histórica, não só pela inédita simplicidade com a qual a Panákia está resolvendo seus problemas, como principalmente pela semelhança existente entre os nossos e os problemas daquela importante nação. É com a esperança de nossos líderes se inspirarem nas sábias palavras de nosso entrevistado, que transcrevemos, ipsis litteris, a entrevista concedida.

Entrevistador – Sinto-me gratificado por estar na presença do já chamado "O Grande Experimentador", em face das bem sucedidas aplicações de sua filosofia político-social, causa do despertar panakiano. Gostaria que o senhor resumisse para nossos leitores suas principais idéias.

Dr.Yakobis – Fico feliz em poder descrever aos habitantes desse carnavalesco país os resultados de meus trabalhos. Evidentemente, em uma única entrevista será possível fazer apenas uma breve introdução à teoria panakiana. Os interessados encontrarão detalhes em meus livros "O Princípio da Complicação Mínima e suas Complicações" e "A Lei da Unicidade".

O Princípio da Complicação Mínima (conhecido por "O Princípio"), estabelece que, para cada questão, a melhor solução é aquela que consome menos energia para ser obtida; é aquela que exige que pensemos menos (melhor, até, que nem pensemos). As soluções ditas racionais são enganosas, quase sempre agravando os problemas. Nossos sábios desenvolveram uma teoria política baseada no Princípio e, gradativamente, os problemas da Panákia foram sendo resolvidos. Variações do Princípio já foram apresentadas no passado pelos físicos, mas sua atual importância transcende em muito aquelas aplicações, as quais tornaram-se meros casos particulares sem interesse algum.

A Lei da Unicidade é conseqüência do Princípio e estabelece: "O que for passível de ser único, deve sê-lo". Afora algumas exceções, que só confirmam a regra, o único é mais confiável, mais eficiente.

O Princípio e a Lei, acrescidos de outros dois resultados, o Lema Selassiê e o Dogma da Separação, formam a base da monumental filosofia panakiana, vetor de retumbantes sucessos. Se ousamos sugerir a aplicação das nossas soluções aos problemas de seu país, é porque notamos uma admirável similaridade entre as nossas duas histórias.

Entrevistador - O senhor poderia nos falar das aplicações do Princípio da Complicação Mínima?

Dr. Yakobis - É claro. Nada entusiasma mais um tecnocrata-político do que descrever a comprovação prática de suas idéias. Antes, porém, lembro que outros países têm utilizado esporadicamente o Princípio – fomos nós, contudo, que sistematizamos seu uso. Por exemplo, o problema indígena, em vários países, tem sido resolvido do modo mais simples possível, eliminando-se os causadores dos problemas, os indígenas. Esta solução, também conhecida por "Opção Zero" (ela diz: "Se algo te incomoda, suprima-o"), foi ensaiada pelos nazistas contra os judeus, e os israelenses a tem habitualmente utilizado contra os palestinos. Outra aplicação notável ocorreu na construção da capital de seu país. Como obter uma cidade com o mínimo de pobreza? Muito simples: a pobreza foi exilada para as cidades satélites, e a capital foi preservada.

Quanto a nós, aplicamos o Princípio a um grande número de casos. Eliminamos a luta de classes: já que, existindo classes, não conseguíamos evitar o confronto entre elas, acabamos com as classes. Na Panákia só existe a classe pobre – a propósito, seu país há tempos vem perseguindo o mesmo objetivo, e com perceptível sucesso. O alto índice de desemprego foi resolvido facilmente: decretamos o desemprego como crime, sujeito a rito sumário. Os desempregados foram condenados a trabalhos forçados, e no dia seguinte o índice caiu a zero. O problema da inflação também foi enfrentado: nossa casa da moeda emite livremente uma moeda auxiliar chamada dólar; todos recebem e pagam com ela. O valor do dólar é constantemente reajustado, mas os preços e ordenados, em dólar, permanecem quase inalterados. Já as questões políticas, com seus intermináveis debates e pouco proveitosas discussões, necessitaram decisões de pulso, que sugiro a todos os governantes responsáveis. Proibimos a oposição de se opor! Finalmente percebemos sua insistência em se opor, uma atitude bastante desagradável e de difícil aceitação. Bem que tentamos o entendimento nacional, decretando que as decisões deveriam ser tomadas por unanimidade, como demonstração de nossa união e da pujança de nossa democracia. Quando notamos que a maioria total raramente era alcançada, devido à intransigência de alguns opositores, não nos restou outra alternativa...

Mais alguns exemplos: nosso imposto de renda é simples, ninguém está isento e a taxação é de cem por cento para todos, pois, já que não pudemos proporcionar uma melhor renda, resolvemos distribuir eqüitativamente nossa falta de renda. Trocamos o nome do salário mínimo para "salário máximo". Todos que recebiam o salário mínimo – e por isso estavam descontentes – passaram a ganhar o salário máximo – e ficaram felizes. O resultado foi tão bom que estamos pensando em trocar o nome da classe pobre para "classe rica". Ia me esquecendo do trânsito: na Panákia, quando uma rua apresenta congestionamentos, nós a proibimos para o tráfego, e os congestionamentos terminam. Também, para evitar injustiças, temos cogitado suprimir a Justiça (apesar de caríssima, ela funciona tão mal que a maioria não vai nem notar a supressão). E, na mesma linha ideológica, para diminuir os sofrimentos da pobreza e as incertezas da velhice, nossa autoridade maior elaborou um eficiente plano de vacinação para eliminar os descapitalizados e os aposentados.

Para evitar os percalços que ocorrem na indústria, nas ciências e nas artes, resolvemos de vez. Não temos mais manifestações culturais, nem científicas, nem parque industrial. Hoje orgulho-me em dizer que não precisamos produzir nada, pois a Panákia importa tudo: produtos científicos, artísticos e industriais. Nossa meta agora é extinguir a educação, pois ela tornou-se inútil e antieconômica.

Minimizamos nossa produção agrícola ensinando nosso povo a não comer, e ninguém tem reclamado. Dizem que já estão sem forças para tanto, mas eu discordo. Isto é um bom indício de que já se acostumaram.

Quanto à corrupção, que, na maioria dos países, é mal vista (quantos traumas desnecessários!), foi regulamentada e serve como estímulo, dentro de nossa filosofia neoliberal, para a vitalidade da economia e a felicidade dos dirigentes. Hoje, apropria-se mais quem tem maior capacidade, e ponto final.

Entrevistador – Estou surpreso com a sabedoria panakiana. O senhor tem alguma aplicação da Lei da Unicidade?

Dr. Yakobis – Pois não. Na Panákia temos, por decreto: uma só classe, a pobre; um só partido, o do governo; um só ministro, o da Economia (para que outros?); uma só estação de rádio, um só canal de TV (por isso nossos aparelhos de rádio e TV são mais simples e baratos - e depois, se uma só emissora de TV já apresenta idiotices suficientes, para que reproduzi-las em várias estações?), um só jornal, uma só língua (para que aprender o panakês e o inglês? – optamos pelo inglês somente); uma só moeda efetiva, o dólar (solução esta parcialmente copiada pelo seu vizinho, a Argentina, que não teve porém a coragem de completar a solução, emitindo livremente esta moeda).

Entrevistador – E o Lema Selassiê?

Dr. Yakobis – O ex-imperador Selassiê, da Abissínia, dizia que a felicidade é a diferença entre o realizado e a expectativa; por isso ele prometia pouco, para poder fazer um tanto mais. Nós modificamos ligeiramente esta assertiva, estabelecendo que "São as expectativas não cumpridas que acarretam a infelicidade". Por isso, nosso governo não promete nada e não faz nada e, assim, ninguém tem do que reclamar.

Entrevistador – Brilhante! E quanto ao Dogma da Separação?

Dr. Yacobis – Este é o mais fundamental. Ele afirma: "Os interesses do Estado e os do povo são, não só distintos, como conflitantes". Nossas bem-intencionadas tentativas para resolver os problemas da Panákia foram frustradas todas as vezes em que tentamos satisfazer também aos interesses dos panakas. O Dogma veio resolver o impasse, pois, ao percebermos que os panakas são muito menos importantes do que a Panákia, dissociamos completamente o povo do Estado. Agora tratamos dos interesses da Panákia, e os panakas que se arrumem. Deus meu, como tudo seria mais simples para os governos se o povo não existisse! Aliás, como não concordamos com a idéia da alternância no poder, estamos pensando em trocar o povo de quatro em quatro anos. Já não disseram: "Se o povo não está contente com o governo, demita-se o povo e eleja-se outro"?

Na Panákia estamos plenamente convictos da nossa legitimidade, e é fácil entender porque. Não é legítimo governos de salvação nacional assumirem o poder quando o país está em crise? Pois o que nossa oligarquia tem feito é apenas manter a nação em crise permanente para, assim, continuar legitimamente no poder. Aos nossos poucos detratores, que sempre os há, temos a responder que lutamos por princípios. Temos uma posição ética perante a sociedade – embora nossa ética, por ser um tanto diferente, às vezes seja incompreendida por indivíduos de má vontade. O princípio fundamental da oligarquia panaka é manter-se no poder a qualquer custo. Ele estabelece: "Se você conquistou o poder, jamais o perca; use-o para mantê-lo" ou "Todo poder emana do poder, e em seu nome será exercido". Ética mais clara, impossível.

Aposentamos Maquiavel, mero aprendiz, e adotamos Alice no País das Maravilhas como nosso ideário político: temos bebido muito da sabedoria de Humpty Dumpty – ele nos ensinou que as palavras devem dizer apenas aquilo que queremos que elas digam, e não o que elas teimam em querer dizer. Para nós, os meios justificam os fins; quando se dispõe dos meios, sempre poderemos encontrar algum fim adequado aos meios disponíveis.

Entrevistador – Dr. Yakobis, nossos leitores ficarão encantados com tanto bom senso e pragmatismo. Só nos resta agradecer, congratulando-nos com o povo da Panákia por possuir dirigentes tão lúcidos e capazes de conduzi-la ao seu merecido destino.

Dr. Yakobis – Agradeço igualmente as atenções a mim dispensadas e espero que nossas experiências sirvam como exemplo para os experimentadores desse promissor país. Lembrem-se sempre das palavras finais do hino-canção de meu país: "Povo bom não tem memória; sabe mais quem tem poder, quem pode faz a história, não deixa ninguém mais fazer."

 Nota: Este texto, redigido no final do período autoritário, ilustra o fato do Brasil, desde tempos imemoriais, nunca ter experimentado variações relevantes em seu comando: as oligarquias dominantes sempre encontraram um modo de continuar dominando... Com a utilização da urna eletrônica, então, qualquer veleidade de mudanças fica mais problemática ainda.

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(*) O prof. Walter Del Picchia escreve regularmente sátiras políticas e de costumes para o "site" www.panakia.com.br.

 

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