"A gente precisa mudar, levar a pessoa para o campo e dar toda a estrutura para que aquele cidadão possa, e sua família, começar a viver a partir do resultado do seu trabalho."

Lula: "Na marra,

ninguém faz nada"

Matéria de 40 minutos do programa "Fantástico" (TV Globo) sintetizou, dia 17, entrevistas que os repórteres Pedro Bial e Glória Maria elaboraram durante uma semana, no Palácio da Alvorada, com o presidente Luís Inácio Lula da Silva e sua esposa, Da. Marisa.

Lula deixou evidente sua posição relativamente a assuntos que preocupam o povo brasileiro. Além disso, o casal expôs a vida no palácio presidencial e cativou os telespectadores. Conseqüência: a audiência disparou, saltou de 38 para 43 pontos no Ibope.

Da alternância no poder, que Lula defende, até temas melindrosos como a reforma agrária, que ele analisa de maneira concisa e precisa, nenhuma pergunta ficou sem resposta. É o que se vê na íntegra da reportagem do "Fantástico", a seguir.

Na intimidade do poder

"A alvorada no Palácio de Lula é para valer: às 6h em ponto, o presidente e Dona Marisa começam os exercícios diários.

"Com cinco horas de sono eu fico bem", revela Lula.

Vestindo agasalhos que ganharam do Comitê Olímpico Brasileiro, se preparam para 50 minutos de marcha forte. A caminhada se tornou rotina sagrada depois de um mês de mandato e bursite aguda.

"Eu faço acupuntura dia sim, dia não. Fico com a agulha", o presidente mostra o curativo.

Fantástico: "O que o senhor não pode fazer por causa da bursite?"

"Um monte de coisas. Tem dias que o meu limite é este aqui (Lula ergue um pouco o braço), tem dias que consigo levantar mais. Tem dias que para pentear o cabelo dói muito", lamenta o presidente.

Fantástico: "O senhor tem medo de operar?"

Lula confessa: "Eu tenho medo de anestesia. Eu já tomei uma vez quando fiz a cirurgia de apendicite, tomei anestesia geral. É muito ruim, é uma morte precoce".

"O pior dia foi o dia da posse, uma dor insuportável, eu já vinha com a dor a semana inteira e durante a posse, cada vez que eu levantava a mão para cumprimentar as pessoas, era um martírio, então eu levantava um pouquinho a direita, levantava um pouquinho a esquerda. Mas, era uma dor insuportável", lembra Lula.

O ministro da Fazenda Antonio Pallocci e sua mulher, Dona Margareth, são os parceiros mais constantes dessas matinadas. Depois de um breve e sofrível alongamento, lá vão os atletas federais.

"Eu chego em casa de noite, fico em casa domingo e segunda-feira vou inaugurar uma fábrica", Lula revela a sua agenda.

Fantástico: "Presidente Lula, dona Marisa, vocês já estão à vontade o suficiente para considerar o Palácio da Alvorada um lar?

"Acho muito grande. Para quem está acostumado com uma casa menor, aconchegante, isso aqui é um pouco exagerado. Mas você tem que levar em conta que é um palácio, portanto, você está sempre de passagem aqui. Mas, acho que há algumas coisas que justificam o presidente morar nele. Primeiro, o ritual do cargo de presidente da República é a morada oficial do presidente, acho que todos temos que entender isso. Segundo, ele parece gélido por fora, porque tem muito concreto, muita coisa, mas por dentro é maravilhoso", observa Luís Inácio Lula da Silva.

Fantástico: "Nesses oito meses de governo, qual foi a sua maior alegria e a maior frustração?"

"Eu ainda não tive frustrações. Eu tenho apreensões, eu tenho preocupações, porque a minha chegada à presidência da República foi uma conquista muito dura, árdua, um caminho percorrido com muito sacrifício, mas ao mesmo tempo eu sou o único presidente que não posso me queixar. Eu quis ser presidente da República, porque eu queria provar para mim e para os outros que seríamos capazes de fazer aquilo que nós achávamos que os outros deveriam fazer. Eu digo sempre o seguinte: eu não preciso de pauta de reivindicação, porque eu tenho todas as pautas de reivindicações que eu construí ao longo de 30 anos de oposição. Portanto, agora eu só tenho que cumprir aquilo que eu reivindiquei para o outros. É difícil? É. Tem que ter muita paciência, não ficar nervoso nunca, não perder a esperança nunca. As coisas não são fáceis porque você nunca tem o dinheiro que você pensa que tem. Mas eu estou convencido, cada dia mais convencido, que nós vamos fazer", assegura Lula.

Fantástico: "Curiosamente, o senhor não respondeu a pergunta sobre qual foi sua maior alegria?"

"Olha, vocês não têm dimensão do que foi a minha alegria no dia da posse. Eu tive várias alegrias. A escolha do meu ministério foi uma escolha tranqüila. Acho que poucas vezes na história da República um presidente teve a tranqüilidade de montar o ministério que eu montei. Eu escolhi quem eu quis. Obviamente que no meu estilo de fazer política, consultando quem eu entendia que deveria consultar. Tudo isso é motivo de alegria, como o comportamento dos meus ministros, a compreensão que a sociedade tem das dificuldades que enfrentamos e do papel que jogamos. Tenho alegria de ter feito a reforma que muitos sonharam fazer e não tiveram a coragem de fazer. E em apenas três meses e meio nós aprovamos uma proposta de mudança na Previdência Social que alguns países levaram anos para fazer, e no Brasil muitos tentaram e não conseguirram. Aprovamos nesta semana a proposta de reforma da Previdência Social".

Fantástico: "Essa reforma aprovada faz justiça ou resolve o caixa?"

"Ela faz justiça. Primeiro, porque o objetivo da reforma é garantir que daqui a 20 ou 30 anos as pessoas tenham o direito de receberem a sua aposentadoria. Do jeito que estava hoje, os estados estão falidos, e as pessoas não iriam receber mais. O projeto garante aos nossos filhos e netos o direito de amanhã receber aposentadoria. É muito importante porque tivemos um presidente da república que foi eleito no Brasil dizendo que iria acabar com os marajás. E isso foi em 89. Nunca se mentiu tanto no combate aos marajás como naquela época. Eu que nunca falei isso, aprovada esta semana a previdência, nós acabamos com os marajás por que o maior salário vai ser salário do Supremo Tribunal Federal que hoje é de R$ 17 mil", lembra o presidente Lula.

Fantástico: O senhor não acha que as coisas estariam mais fáceis no seu governo se as reformas tivessem sido aprovadas antes? O senhor não se arrepende das obstruções promovidas pelo PT no Congresso para impedir a aprovação das reformas durante o governo Fernando Henrique?

"É esta a única acusação que não aceito. Porque veja, como pode um partido que tem cem deputados, juntar mais 300 para fazer a votação? Como meu antecessor com 400 deputados diz que cem atrapalhou? Eu lembro quando o doutor Ulysses Guimarães presidiu a Constituinte e a gente queria fazer obstrução, quando ele sentava naquela mesa e falava vou votar, ele voltava uma atrás da outra e a gente não conseguia obstruir. Se eles tivessem vontade, teriam feito. A verdade é que não tiveram vontade. E eu tinha um compromisso que assumi em junho do ano passado. Eu dizia que iria preparar a reforma da previdência e a tributária no primeiro semestre e vou votá-la no segundo. Não só preparamos e entregamos no dia 30 de abril, como já votamos a reforma", afirma Lula.

Fantástico: Isto era do interesse dos governadores... Agora, na Reforma Tributária, a briga vai ser com os governadores também.

"Eu só faço política porque eu gosto de briga", rebate Lula.

Fantástico: "Nessa Reforma Tributária, a negociação mais dura vai ser com os governadores. O senhor pretende uma reforma grandiosa que tire a sobrecarga da iniciativa privada. Como o senhor pretende, em linhas gerais, alcançar este objetivo?

"Eu não estou pensando numa reforma para mim, muito menos uma reforma para o meu partido, muito menos para base aliada. Eu penso em uma reforma para o Brasil. Uma Reforma Tributária que desobstrua o setor produtivo brasileiro, a nossa capacidade de exportação, e que aumente a base de contribuintes para que o estado possa arrecadar o justo para fazer política social. Vou contar uma coisa para vocês: nós vamos fazer a reforma de comum acordo, se precisar, ter uma negociaçãozinha aqui ou ali. Desde que você não fira o núcleo da proposta, que é diminuir a carga tributária para o setor produtivo, nós vamos fazer. O fato de alguém falar, isto não tem problema. Nós vamos fazer. Eu tenho toda a paciência do mundo, você não imagina como eu tenho paciência", ressalta Luís Inácio Lula da Silva.

Fantástico: "Paciência gente está vendo que o senhor tem. Mas o senhor terá tempo? Por que a Reforma Tributária torna ainda mais urgente a reforma trabalhista, o Partido dos Trabalhadores mexer na CLT... Depois ainda há a reforma política no horizonte. E há o objetivo sagrado do seu governo de três refeições por dia para cada brasileiro. Quatro anos é pouco, ou não?"

"Eu acho que quatro anos é pouco. Agora eu não acho que tudo deva ser feito por um homem. Você tem sucessores, você tem que ter uma equipe, um partido que se suceda com esses mesmos compromissos. Eu te confesso que sou contra a reeleição. Eu acho que não é uma boa política. Do ponto de vista pessoal e do ponto de vista político. O meu antecessor, por exemplo, se não tivesse buscado a reeleição teria saído do governo como um deus", acredita Lula.

Fantástico: Como o senhor reagiu quando viu a imagem de um servidor público quebrando a chutes a vidraça do Congresso?

"Achei um ato de insanidade de um menino que possivelmente não era nem servidor público. Se fosse, não tinha porque estar brigando, porque só vai se aposentar daqui a 80 anos, ou seja, ele teria mais uns 40 anos para brigar. Aquilo depõe contra o movimento. Eu digo isso porque eu fui dirigente sindical, e modéstia à parte, muito importante nesse país. Fui presidente de um partido de oposição muito importante, e fiz todas as passeatas que um ser humano tem direito de fazer, e nós nunca quebramos nada. Obviamente, aquele menino que quebrou não pode ser confundido com o espírito do funcionalismo público, onde a maioria das pessoas são gente decente, gente comprometida, gente que quer trabalhar honestamente. Agora, um vândalo vem e faz aquilo. Eu, se fosse presidente da Câmara, abria processo para que ele pagasse aquele vidro", sugere Lula.

Economia e compromisso social

A pressão sangüínea do presidente Lula é de 12/7, e está ótima para enfrentar a pressão violenta do cargo. Lula diz que governar é decidir e saber mudar de idéia. Uma ginástica no poder.

Para um senhor de 57 anos, com histórico mais sedentário do que atlético, o ritmo da caminhada não é mesmo nada mal: "Eu todo dia bato o meu próprio recorde", conta Lula. Até na pressão, Lula e Palocci, ministro da Fazenda, andam afinados: Lula tem 12/7, Palocci, 11/7.

"Acho que se não fosse a caminhada, o dia seria muito mais pesado", acredita o presidente.

O dia é pesado. Só passeando por um jardim florido tem-se a impressão de que Lula e o ministro da fazenda andam em um mar de flores.

Fantástico: "Qual foi o horário, a situação mais esdrúxula que o ministro Palocci foi convocado pelo presidente que a senhora se lembra?"

"A rotina já é um tanto quanto diferente. Eles trabalham até muito tarde, todos os dias, ficam até encerrar a última discussão. Não me lembro de nada que tenha sido tão diferente disso. De segunda a sábado, com certeza, a rotina é bastante pesada", revela Margareth Silva Palloci, esposa do ministro e médica sanitarista.

"A agenda consome muito as pessoas. Às vezes, a gente não se educa para determinar o que a gente quer fazer, os outros determinam o que você tem que fazer em função da necessidade deles. Eu, pelo menos, se você pegar minha agenda vai perceber que parece de um médico do SUS: a cada 20 minutos tem um cliente. Eu acho melhor chamar um ministro e ficar duas ou três horas discutindo um assunto, do que fazer quatro reuniõezinhas de 20 minutos cada uma", conta Lula.

Fantástico: "Aparentemente, o senhor não se preocupa com formalidades. Agora, será que até o final desse governo, a gente vai ver o senhor de casaca?"

"Deixa eu contar uma coisa para vocês, eu não tenho preconceito. As pessoas mais pobres adoram isso. Uma vez, eu era deputado, e saí daqui para ser padrinho de casamento na Vila Prudente, em São Paulo, da filha do meu compadre Janjão. Aí, eu saio daqui com um terno amarelo, amassado. Eu cheguei lá, tinha cinco padrinhos, todos empregados da Ford, todos de smoking. Então, as pessoas mais pobres gostam disso. Meu problema não é preconceito, o meu problema é que não vou gastar dinheiro para comprar uma roupa para usar uma vez na vida. Por exemplo: gravata borboleta, eu não tenho pescoço, se eu colocar uma, vai ficar sempre parecendo uma borboleta de asas quebradas. Veja bem, quando as pessoas convocam para um jantar o rei da Arábia Saudita, ele vai tirar aquele negócio da cabeça e colocar a casaca? Quando convocam o presidente de um país africano, ele vai tirar aquele roupão que veste? As pessoas precisam aprender a respeitar os hábitos e costumes dos outros.

Fantástico: "Dona Marisa, o presidente é pão-duro?"

Lula e esposa.jpg (10300 bytes)

Lula e esposa com Bial e Glória Maria, durante a entrevista no Alvorada

"Não é. Porque quem domina o dinheiro dele sou eu, quem administra sou eu. Então ele não é pão-duro, fica tudo na minha mão. E ele tem que andar bem arrumado", revela a primeira-dama Marisa.

"Historicamente, o meu salário sempre foi depositado no banco, e sempre quem tem o cheque é dona Marisa. A única coisa que faço com o dinheiro é dar para os filhos quando ela nega, que todo pai faz isso. Chamo o filho num canto. A Marisa economiza mais do que eu, para comprar alguma coisa, ela demora", complementa Lula.

"A conta é conjunta, mas eu não dou o talão de cheques", explica a esposa do presidente.
Fantástico: "O seu governo, na área econômica, tem recebido as melhores avaliações pela sua competência e eficácia. Na articulação política, também vem conquistando vitórias. Mas a sensação do seu leitor é de que justamente na área social, na sua prioridade declarada, as coisas não andam bem. Por exemplo: a quantas anda o Fome Zero?

"Quando começamos o Fome Zero, algumas pessoas começaram a cobrar a solução no dia seguinte. Se fosse fácil assim, todos teriam acabado com a fome no Brasil. Nós começamos primeiro a trabalhar como cadastrar e selecionar as pessoas que precisavam. Porque como já cadastramos todos os municípios do semi-árido nordestino, mais os municípios mais pobres de Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Acre, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ou seja, nós agora temos, recebendo cartões, 297 mil famílias. Em outubro, vamos ter um 1,290 milhão de famílias. E ainda para este ano vamos começar a atender 3,6 milhões de famílias. Sabe o que significa?  Multiplica por quatro que você vai perceber quantas pessoas são. Nós vamos dar R$ 50 básicos para todo mundo que esteja cadastrado. Vamos dar R$ 15 da bolsa escola, até o máximo de três, ou seja, as pessoas vão receber, em média, R$ 75 a R$ 80 por mês. Nós vamos ter exigências: mulher grávida tem que fazer todos os exames que a ciência exige; criança até seis anos tem que passar no médico e tomar todas as vacinas, e criança até 14 anos tem que estar na escola, e os adultos têm que estar sendo alfabetizados. O dado concreto é que tem coisas que você vai começar a fazer agora, que vai demorar dez a doze anos. Mas se você não começa a fazer agora, não vai acontecer nunca. Você tem que lançar a base agora. E dentro dessa base está a questão da geração de empregos e combate à fome. Não é um compromisso político, é um compromisso de vida. É uma coisa que está no meu sangue. Eu não faço dessas coisas porque eu quero combater a fome, porque ouvi dizer que a fome é ruim, é porque eu passei fome. Eu não transformei o emprego na minha obsessão porque eu já li que o desemprego publicado pelo IBGE é grave, mas porque eu já fiquei um ano e dois meses desempregado nesse país, e eu sei o que é a gente ficar desempregado. Então, os meus compromissos são de sangue, em coisas que eu acredito que vamos fazer.

O malabarismo político: entre a paciência e a autoridade

A lei acima de todos. O ex-sindicalista que virou presidente adverte os antigos companheiros de movimentos sociais e diz que a Reforma Agrária do governo não é a do MST

Enquanto isso, no minifúndio dos jardins do Alvorada... Um mapa vivo, de plantas, é obra da gestão de dona Marisa.

"A Marisa adora cuidar de jardim, a gente curte bem aqui", diz Lula.

A horta do tempo de dona Ruth Cardoso virou xodó da nova patroa e vem fazendo progresso. Além da flora, a fauna palaciana vem ganhando vários reforços.

"Eu ganhei os pavões, patinhos chineses, ganhei o cisne negro...", enumera dona Marisa.

No laguinho do Palácio da Alvorada há pacus, piraras, jaús, pirapitingas, dourados, pintados... Uma beleza para pescaria!

"Não deixo", protege dona Marisa.

"A idéia de quem deu o presente, é de que a gente pudesse de vez em quando pescar um para comer. Mas aí dona Marisa cismou de que eles não podem ser comidos'", ri Lula.

Então... são os peixes que comem na mão do presidente. As moradoras mais antigas voltaram a se multiplicar: as emas, que como os outros bichos residentes são tratados por seu Amadeu, que ouve embevecido as ordens do presidente da Silva, que se preocupa com a distribuição justa da ração.

"O senhor tem que tomar cuidado que as grandes não deixam as pequenas comerem", observa Lula.

"Eu trato elas separado", sugere o tratador.

A realização mais romântica de dona Marisa no Palácio é um cantinho do namoro, que ainda não foi inaugurado.

No campo de futebol do Palácio, Lula confessa: "Nós temos que ter uma relação de companheirismo entre os ministros, porque a loucura aqui é de tal ordem, que eu tento sempre ponderar para eles que temos que construir uma relação de amizade entre as pessoas, tentar ligar com as esposa, fazer algo que junte gente, para as pessoas se sentirem parceiros no mesmo barco. Porque senão, cada um fica só com o seu ministério na cabeça, e não tem dimensão total. Por isso que eu tenho insistido em fazer o jogo de futebol... Você tem princípios, mas você não governa apenas com os princípios, eles apenas balizam o teu comportamento e as tuas atitudes. Agora, governar é tomar decisões. Você tem que ter no mínimo ser muito bem explicado, compreender, para tomar decisões. Vamos pegar um caso simples: a questão dos transgênicos. Há um debate muito sério dentro do governo, porque em algum momento, vamos ter que dizer que somos contra ou a favor, ou muito pelo contrário. Eu já fui politicamente muito contra, hoje cientificamente eu já tenho dúvidas... Então você tem que ir se aprimorando para tomar decisões.

Fantástico: O senhor está dizendo que não tem medo de mudar de idéia?

"Veja, um médico que me dá um remédio, e depois de 15 dias, vê que não serviu, ele me dá outro. Na política também é assim. Eu acho que o presidente da República tem que ser a figura mais paciente do mundo. Tenho que ter paciência com os movimentos sociais. Vocês nunca vão me ver reclamando deles, porque eu fiz isso a vida inteira. Não podia ser bom quando fazia e agora que estou na presidência ser ruim.

Fantástico: "O seu ministro-chefe da Casa Civil e o ministro da Justiça, já fizeram declarações firmes de que a lei será cumprida e a ordem mantida. Mas alguns observadores identificam uma ambivalência no governo, até pela sua ligação histórica com movimentos sociais, de que talvez o senhor, no seu governo, possa hesitar na hora de usar a força e a repressão para fazer a lei. Até onde o senhor iria para manter a lei e a ordem?

"Até o cumprimento da lei. O problema social existe e não podemos entender que a polícia vai ser a solução. A solução é o governo tomar atitudes para que o sofrimento da sociedade seja minorado. O que eu estou tentando discutir com o movimento é a necessidade de fazer um acordo. Ou seja, se temos que fazer em casa hoje, temos de concentrar todo o nosso potencial de construção de habitação nos grandes centros urbanos onde a necessidade é maior e onde a qualidade de vida está mais deteriorada. Uma coisa é uma pessoa pobre que mora numa cidadezinha do interior de Pernambuco. Ele mora lá, mas tem as amizades dele, tem a família, tem os compadres, tem uma estrutura familiar que lhe segura muita coisa. Depois, tem uma vinculação religiosa muito grande, espera todo ano o dia 19 de março, que é o Dia de São José, se vai chover ou não para plantar. Esse mesmo cidadão quando vai para Recife, um centro urbano, e vai morar num lugar degradado, numa favela em que você tem um metro quadrado morando dez pessoas, esse cidadão deixa de ser um agente passivo para ser um agente no fio da navalha. Ele vai cair onde ninguém quer que cai: na criminalidade, no tráfico. Isso, temos que levar em conta. Se antigamente se criava frentes de trabalho para resolver o problema da seca no nordeste, hoje temos que começar a pensar seriamente em criar frentes de trabalho no grandes centros urbanos, para ver se a gente consegue diminuir o sofrimento dessa gente", deseja Lula.

Reforma agrária

Fantástico: "Algumas declarações de líderes realmente parecem mais pregações revolucionárias do que qualquer tentativa concreta de reforma agrária. A reforma agrária que o MST defende, é que seu governo quer?"

"Não. Não, e eles sabem disso, porque eu tenho feito questão de dizer ao longo do tempo: é preciso criar um novo modelo de reforma agrária. Eu sou defensor da reforma agrária antes da existência do Moviemento Sem-Terra. E muitos do PT foram presos porque lutavam pela reforma agrária antes do Movimento Sem-Terra. Temos que estabelecer uma discussão com o MST. Eu acho que o tipo de reforma agrária feita até agora no Brasil é equivocado. Você pega um miserável urbano, leva para ser miserável no campo, porque você assenta a pessoa num terreno, não dá dinheiro para financiamentos, não tem casa, nem educação, nem assistência técnica. A pessoa fica vivendo de cesta básica. A gente precisa mudar, levar a pessoa para o campo e dar toda estrutura para que aquele cidadão possa, e sua família, começar a viver a partir do resultado do seu trabalho. Essas coisas têm que ter paciência. Nem os sem-terra vão fazer reforma agrária na marra, porque esse país tem regras, e se vale para o presidente, vale para eles; como nem o presidente vai fazer o que quer", garante o presidente.

Fantástico: "Na base do mil contra um, não vai acontecer?"

"Não vai acontecer. Na marra, ninguém faz nada. Nem em casa, nem no clube em que você joga, nem na política", ressalta o presidente da República.

Fantástico: "Na sua opinião, mudou o discurso do Movimento dos Sem-Terra, ou o senhor é que mudou?"

"Eu acho que vai mudar todo mundo. Uma coisa boa que Deus fez foi a gente ir envelhecendo, aprendendo, maturando cada dia que a gente vive e tentando fazer as coisas melhores no dia seguinte", observa Lula.

Fantástico: "No início do governo, o senhor estava mais gordinho e emagreceu fazendo uma dieta. Agora engordou de novo. Em que ponto o senhor está? Está mais magro, mais gordo, está fazendo dieta?

"Eu acho que eu faço parte de um tipo genético que poderia ser chamado de "tipo sanfona". Por que você faz um sacrifício enorme, perde em um mês, oito quilos. Mas depois recupera em 15 dias. É uma coisa absurda. Eu estou comendo hoje um terço do que comia antes. Mesmo assim, engordo. Tenho tendência a engordar. Mas acho normal. Tenho tentado fazer não apenas por causa dos pesos, mas por causa da idade. Eu tive uma grande lição na minha vida: quando completei 50 anos de idade, tomei consciência de que o tempo que eu tinha para frente era menor do que o que eu tinha vivido. E que portanto precisava melhorar a qualidade, já que não podia alongar o tempo que eu tinha para frente. E também, tenho dimensão do tempo de vida útil, aquela em que você pode correr, jogar bola, fazer uma série de coisas. Esse tempo, depois de 50, vai ficando cada vez menor. Eu conto isso. Resolvi me cuidar por conta disso. Porque com essa tensão toda, preocupações, se ainda estiver mais gordo, vai ser pior para mim, vou produzir muito menos", analisa Luís Inácio Lula da Silva.

Fantástico: "O presidente ainda tem tempo de se aventurar na cozinha?"

"Não, ele não tem tempo. Ah, domingo, vai sobrar um tempinho", brinca dona Marisa com o marido.

"O problema é que aqui tem cozinha industrial, faz comida para quase 200 pessoas todos os dias. O que eu gosto mesmo é de um fogãozinho de lenha. Nós construímos fogão de lenha em todas as casas que moramos. Aqui não, porque não é a minha casa. Mas o fogão de lenha é uma coisa excepcional. Você sentar perto de um fogão de lenha, colocar uma polenta numa panela de ferro para você fazer, fazer um coelho numa panela de ferro, é uma coisa fabulosa. Você fazer um feijão com bastante carne dentro... isso eu adorava fazer. Eu e a Marisa ficávamos final de semana discutindo o que iríamos fazer", relembra Lula.

Fantástico: "Mas agora com a dieta..."

"Não é por isso, você pode fazer dieta durante a semana inteira e, soltar a baiana no final de semana. Mas eu fazia isso prazerosamente. Por exemplo: uma vez a Martha foi lá em casa e ficou toda feliz porque eu estava lavando louça. Eu lavava por prazer, gostava de lavar prato, e de sobra a Marisa me empurrava as panelas. Imagine a panela no fogão de lenha, o fumaceiro que fica. Eu fazia por prazer, é uma coisa que me fazia bem. Eu não sentia aquilo como o meu filho sente, eu peço: leva o teu prato - porque a gente tinha esse processo de educação em casa, cada um lavava os seus pratos, talheres e copos, porque assim não sobra para a mãe fazer. Mas às vezes eles ficam resmungando, me empurram o prato para eu lavar. Eu lavo porque eu gosto."

Volta à 1.ª página

E-mail para O JORNAL