logo_matraca.gif (21284 bytes)A MATRACA

Assis Corrêa Neto (*)

CAPITAL ESTRANGEIRO NO ENSINO

Os fortes "lobbies" das escolas acabaram com o Provão destinado a avaliar o ensino nas universidades brasileiras. Assim, uma das poucas iniciativas do ex-ministro da Educação, Paulo Renato, foi extinta pelo ministro Cristovam Buarque, de quem se esperava o aprimoramento da avaliação. Os poderosos donos de escolas, que comandam o ensino universitário no País, venceram a parada.

A situação está calamitosa. Professores mal preparados, ensinando legiões de despreparados para enfrentar um futuro desconhecido. Existe grande proliferação de cursos superiores de má qualidade. Somente no ano passado, o Ministério da Educação credenciou 800 cursos superiores, muito dos quais de má qualidade, e tornou o ensino uma questão funesta. Continua examinando mais 1.800. Faz-se necessário um congelamento dos pedidos, examinar aos poucos somente aqueles que cumprem as regras.

O MEC licenciou às mancheias e cursos que não atendem as exigências continuam a funcionar. No ano passado, foi solicitada a abertura de 2.660 cursos superiores. É o maior número dos últimos anos. Sete pedidos por dia. Igual pizzaria. Uma faculdade em cada esquina.

O ministro da Educação recebeu a herança. Precisa examinar com muito cuidado. Tem maracutaia nessa historia.

Faculdade passou a ser o negócio do século. A atividade é tão promissora que sobre ela jornais e revistas publicam anúncios de pagina inteira, assim como o rádio e a TV. Escolas despreparadas procuram demonstrar que estão aparelhadas para o atendimento dos universitários. É a propaganda enganosa.

Os últimos resultados do Provão demonstram que a educação brasileira está no fundo do poço. Nossos destinos estão ameaçados de ficar em mãos de pessoas desqualificadas, com as exceções de praxe. O último exame avaliou 370 mil alunos de todas as modalidades de curso. Dos 24 aferidos, apenas o de Odontologia alcançou nível de aprovação estabelecido pelo MEC, com pontuação de zero a dez. Mas, o único aprovado alcançou tão somente 5,2, o que vem demonstrar a péssima situação do ensino superior.

As universidades particulares absorveram no País aproximadamente 70% dos universitários, com 2,6 milhões dos 3,7 milhões de estudantes que cursaram nível superior no ano passado.

Universidades particulares só perdem para as públicas no Norte e Nordeste. Concentram a quase totalidade dos universitários do País. Esse o quadro dramático. Falência do ensino público, embora ofereça melhores condições de estudo que o particular. E este despeja anualmente milhares de profissionais liberais, sem qualificação para enfrentar o concorrido mercado de trabalho.

A Educação deve formar cidadãos e não pode ser deixada ao sabor de organizações particulares, que só tenham em vista resultados financeiros. Apesar da crise e da recessão, os donos do ensino auferem grandes lucros. Um negocio tão promissor que representa faturamento anual da ordem de quinze bilhões de reais.

A rentabilidade é tanta que já começa a atrair o capital especulativo internacional. Investidores americanos, canadenses e europeus – os mesmos que jogam nas bolsas – estão de "botuca". Sem nunca terem tido qualquer contato com o campo da educação, planejam adquirir instituições de ensino superior. A alta lucratividade desse tipo de pedagogia atrai conhecidos especuladores internacionais. Pelo andar da carruagem, os que já dominam nosso sistema bancário vão entrar de sola no ensino, atividade que vêem como um novo eldorado.

As escolas privadas estão impondo sua canhestra visão do mundo. O bom ensino favorece a formação moral dos estudantes pelo singelo motivo de que seu avesso, o mau ensino, conduz ao fracasso pessoal. E este, por sua vez, provoca vergonha, frustração e perda da auto-estima. Tende a levantar uma barreira emocional à aceitação dos valores que colocam no topo de tudo a dignidade humana, a cidadania, a ética do trabalho e o senso de responsabilidade.

STF DECIDIRÁ SORTE DE PEDRO ALEIXO

O Supremo Tribunal Federal está prestes a decidir se repara ou confirma a grande injustiça sofrida pelo ex-vice-presidente da República Pedro Aleixo. Ocupou o cargo de Presidente por apenas quatro dias, não tendo tempo para revogar o AI 5, como queria. A Junta Militar baixou o AI 12, decretando o impedimento de Costa e Silva e proibindo Pedro Aleixo, sucessor natural, de assumir o cargo por ter votado contra o famigerado diploma.

No governo passado, procedendo de uma forma inexplicável, o então presidente Fernando Henrique Cardoso tentou modificar os fatos históricos para negar direitos a Pedro Aleixo. A Advocacia Geral da União (AGU) manifestou-se contra a ação proposta pelo deputado Ricardo Zarattini para obrigar o Estado a reconhecer que Pedro Aleixo deveria ter assumido o cargo com a morte de Costa e Silva e, portanto, tem direito aos benefícios daí decorrentes.

FHC esqueceu–se de que a Constituição Federal autoriza os perseguidos a pleitear junto ao STF direitos suspensos por atos institucionais. Geraldo Quintão, o ex-poderoso da AGU, não concordou com a ação. E procurou influenciar o ministro Sepúlveda Pertence, relator do processo, para rejeitar a matéria.

Mais um fora da FHC. Um fato histórico como esse não pode ser ignorado. O STF tem dado inúmeras demonstrações de que não se curva à pressão dos poderosos de plantão. Portanto, não pode entrar nessa furada. Espera-se que o ministro Sepúlveda Pertence siga suas tradições democráticas e encerre de vez essa tentativa de negar nossa História.

Pedro Aleixo, culto civilista, elaborou a Carta Magna que somente Costa e Silva conhecia. Mineiro de Mariana, envolveu-se em numerosos capítulos da História brasileira. Participou da Revolução de 30 e elegeu-se deputado constitucionalista. Esteve ao lado de Getúlio Vargas, que o apoiou para a Presidência da Câmara Federal. Rompeu com o Estado Novo quando Vargas fechou o Congresso. Enviou-lhe um telegrama de protesto. Recusou convite de Benedito Valadares, interventor em Minas Gerais, e foi líder da oposição no governo João Goulart. Apoiou o movimento dos militares em 1964, mas não o Ato Institucional n.° 5.

TELEVISÃO PRECISA SER REFORMULADA

A lamentável farsa provocada pelo programa de Gugu, transformando assunto jornalístico em espetáculo dantesco, demonstra claramente a necessidade de uma reformulação da televisão brasileira. Existe premência de surgir um movimento nacional contra certo tipo de programação adotado pela maioria das emissoras.

A televisão brasileira continua na grande escalada de promoção da orgia sexual e da violência. Esquece, com as exceções de praxe, de proporcionar um lazer sadio, construtivo e, se possível, instrutivo e educativo.

Não podemos mais nos sujeitar às cenas vexatórias, deprimentes e violentas. A maioria das TVs apela para qualquer barbaridade, assim como para o desrespeito, sensacionalismo e sadismo, explorando os mais baixos instintos humanos. Aferra-se a temas que proporcionem altos índices de audiência, deixando de lado escrúpulos morais.

Mas, nada de censura. É preciso evitar a imposição de seu monólogo editorial antidemocrático.

O que não pode continuar é o império da mediocridade que desrespeita as fronteiras de valores, lazer, diferenças de idade, diversidade de culturas e crenças. Basta apertar o botão e lá estão ao alcance de todos a telepornografia, amesquinhando espiritualmente os menores; os chamados programas infantis, suscitando o erotismo precoce, provocando grande conflito entre a idade biológica e a idade psíquica da criança. Tais programas reprimem o senso critico para impor o conceito de "marketing", discriminando feios, gordos, baixos, anões, negros e pobres. Deficientes físicos são explorados e ridicularizados. Avilta-se a sexualidade e repetem-se cenas que banalizam a violência e a criminalidade, apresentadas como se fossem inevitáveis. Vale tudo para despertar o interesse público por modelos e manequins "siliconados".

Alguns apresentadores travestidos de jornalistas despem-se de dignidade e ética profissionais. Com sua falsidade, comprometem a imprensa, cuja categoria profissional é constituída, na maior parte, de jornalistas dignos, honrados e éticos. Transformam a noticia em verdadeiros "shows" de violência e ignorância.

Enquanto grande numero de jornalistas profissionais, especialmente os da terceira idade, estão desempregados, outras pessoas que não são do ramo participam indevidamente de programas televisivos. Virou moda contratar palpiteiros como comentaristas no lugar dos autênticos profissionais de comunicação. São ex-técnicos, ex-jogadores, "ex" qualquer coisa e até atores teatrais usurpando as funções de jornalistas. É exercício ilegal de profissão, um crime, e como tal deve ser tratado. Mas, órgãos de classe que deveriam lutar contra essa lamentável situação continuam completamente omissos.

Precisamos de um basta a essa orgia de brutalidade e usurpação. Algo precisa ser feito urgentemente para melhorar as lamentáveis programações de nossas TVs.

GOVERNO VAI REEDITAR O DIP

A volta do DIP – Departamento de Imprensa e Propagada – sinistro órgão de controle da informação da era Vargas, está prestes a acontecer. A Secretaria de Comunicação da Presidência de Republica, comandada pelo ex-bancário Luiz Gushikem, mais um estranho ao ramo, está montando gigantesca máquina de informação, que seria capaz de causar inveja a Lourival Fontes, o antigo diretor do DIP e responsável pela imagem do velho caudilho.

Basta uma simples analise do projeto para verificar que se pretende estatizar a informação. Gushikem elaborou o decálogo petista que norteará a política de comunicação do governo, ou seja: estimular o patriotismo; motivar ações solidárias, criar hábitos produtivos e saudáveis; difundir a imagem do Brasil para o próprio Brasil e para o Exterior; mostrar o caráter de governo de equipe; difundir pensamentos elevados; passar a idéia de que o governo está arrumando a casa; mostrar que o social é o objetivo do governo; levar ao Exterior a idéia de que o Brasil busca a inclusão social e insistir na necessidade das reformas tributária e da Previdência.

Para cumprir essa agenda, está sendo montada uma estrutura que poucos órgãos de comunicação impressa e eletrônica têm. O sistema de comunicação do governo será reforçado e alavancado pela Radiobrás que conta com 1.150 funcionários em todo País, quatro emissoras, de rádio, duas emissoras de televisão, uma agência de notícias e uma agência de fotografias. Somente a Presidência da Republica emprega 75 funcionários numa agência de noticias própria, sem contar os 24 ministérios e as nove secretárias especiais com assessorias de comunicação.

A Radiobrás reestruturou sua equipe, hoje com 220 jornalistas e salários variando de 2,5 a 4 mil mensais. Os profissionais contratados para cargos de confiança perceberão salários entre seis e oito mil reais.

O governo vai fazer a cobertura jornalística em todos os setores, não se restringindo mais à divulgação dos acontecimentos oficiais. A distribuição do noticiário será gratuita e, obviamente, privilegiará o enfoque governamental dos acontecimentos. Mais de mil emissoras de rádio e retransmissoras de TV e mais de mil jornais nos sessenta municípios com mais de duzentos mil habitantes já estão recebendo gratuitamente noticias por satélite.

É o prato feito divulgando apenas as noticias que interessam ao Planalto. Tudo sob as ordens do secretario que criou recente atrito com a classe cultural, ao tentar impor critérios para a concessão das verbas de patrocínio oficial. Pretendia o dirigismo cultural, como se fosse um regresso ao leninismo, onde o Estado exibia filmes para todos. Prática comum, na União Soviética e que ali levou à morte o cinema e o teatro. Mas, a gritaria dos cineastas, teatrólogos e outros emplacou. O assunto saiu daquela órbita e foi para o Ministério da Cultura, do cantor Gilberto Gil.

O novo empreendimento estatal faz lembrar o DIP da ditadura Vargas, que lavou a mente dos brasileiros durante quinze anos. Permitirá ao governo evitar as noticias desagradáveis. Agora, só oba-oba.

Fora com a estatização da informação!

(assiscorreaneto@uol.com.br)

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