Essa briga entre Havana

e Washington já encheu

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva despontou em seu recente giro pelos EUA, México e Cuba como um pacificador capaz de promover o entendimento entre Fidel Castro e George W. Bush para superar desavenças que perduram há 40 anos.

A imprensa destacou os acordos de cooperação bilateral firmados por Lula e Fidel. Todavia, a questão mais importante em termos de política internacional permaneceu subestimada, ou seja: o que os dois velhos amigos combinaram no colóquio de algumas horas, fora das vistas dos jornalistas e dos integrantes da comitiva presidencial brasileira? E o que Lula e Bush haviam conversado antes, fora dos contatos públicos oficiais?

NOVO CENÁRIO ESTRATÉGICO

Cuba permanece economicamente isolada e quem sofre com isso é o seu povo. Ao promover o isolamento econômico há quatro décadas, a intenção dos EUA era, de um lado, sufocar ou pelo menos manter sob controle um dos focos da extinta Guerra Fria e, de outro, enfraquecer um regime político-ideológico adverso ao capitalismo e ao seu símbolo máximo, ou seja, o próprio sistema norte-americano.

Ocorre, porém, que tal cenário estava vinculado à hegemonia da antiga URSS sobre grande parte do mundo. E isto já é coisa do passado.

Os EUA estão hoje – ou deveriam estar – muito mais preocupados com um inimigo capaz de feri-los com atos de guerra no próprio solo doméstico, como aconteceu com as Torres Gêmeas de Nova York, cujo único precedente histórico estava restrito a Pearl Harbor.

Aliás, esse inimigo tornou-se comum aos antigos contendores, ex-soviéticos e norte-americanos. Os cubanos, devido a suas peculiaridades nacionais e mesmo individuais, não estão imunes à nova ameaça mundial. Queiram ou não, também são "infiéis" aos olhos do fundamentalismo islâmico radical.

Agora, em conseqüência de uma série de erros, o governo Bush acabou envolvendo-se em retaliações, invasões e ocupações que lhe estão acarretando dissabores, tragédias e prejuízos de toda ordem, coincidentemente com o que planejaram Bin Laden e outros terroristas internacionais. A Casa Branca e o Pentágono morderam a isca.

Portanto, o cenário estratégico mundial mudou completamente desde a época dos mísseis soviéticos em Cuba e da tentativa de invasão na Baía dos Porcos, episódios emblemáticos da Guerra Fria.

Cuba estava entre os primeiros países a condenar oficialmente os atentados de 11 de setembro. Chegou a oferecer seu território para ser usado pelas aeronaves que estivessem impossibilitadas de pousar nos Estados Unidos naqueles dias tenebrosos. Mantém-se alheia à "guerra santa" e as autoridades norte-americanas mais bem informadas sabem disso, embora o seu governo afirme o contrário para explicar a continuação do embargo econômico.

O QUE É MELHOR, CUBA INIMIGA, ALIADA OU NEUTRA?

O povo cubano e os valores que criou a partir de Sierra Maestra sobreviveram ao isolamento, mas a duras penas por puro e talvez ingênuo idealismo. Basta uma rápida visita ao seu território para tomar consciência de que o ideário socialista defendido por Fidel e seus antigos companheiros continua arraigado e fortalecido no seio do povo porque alguns "gênios" norte-americanos teimam

Almoço ONU.JPG (12846 bytes) Chegada.JPG (202884 bytes)
Ministro José Dirceu.JPG (141464 bytes) Cuba, caminhando.JPG (117916 bytes)

Fotos: Antônio Milena/ABr e Ricardo Stuckert/PR

em atrair para si e seu país a culpa pelas privações impostas à população cubana, castigada por pensar e comportar-se de maneira diferente. E não há melhor tônico do que o castigo para dar têmpera às convicções de qualquer idealista realmente puro. Desse modo, no momento em que os EUA se vêem às voltas com situações de perigo real em outras plagas, como Iraque, Afeganistão, Cisjordânia e Coréia, sem esquecer envolvimentos mais próximos, como na Colômbia, por exemplo, o que lhes seria melhor: ter Cuba como inimiga, aliada ou pelo menos neutra?

Se os norte-americanos confiam na superioridade e infalibilidade de seu modo de vida frente aos padrões comunistas esboroados na extinta URSS, o que temer? Lula pode ser o interlocutor ideal para aproximar estadunidenses e cubanos, fazê-los abandonar rancores e construir a paz sólida que deve existir entre vizinhos.

Por certo, não escaparam ao presidente Fidel Castro as palavras proferidas por Lula na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas. Como se quisesse aprová-las publicamente, fez questão de ir abraçar o amigo no desembarque.

Entre outras coisas, o chefe de Estado brasileiro havia dito que "este século, tão promissor do ponto de vista tecnológico e material, não pode cair em um processo de regressão política e espiritual". Isto para ressaltar que "a verdadeira paz brotará da democracia, do respeito ao direito internacional, do desmantelamento dos arsenais mortíferos e, sobretudo, da erradicação definitiva da fome". Não é o que tanto Fidel como Bush dizem buscar?

CASTIGO PERPÉTUO

Em julho último, o governo cubano apresentou extenso relatório ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sobre o que considera injustiça e perseguição partidas do governo norte-americano. O documento aponta uma série de fatos comprováveis para afirmar: "Assim, sem qualquer justificação, Cuba permanece na lista ilegitimamente elaborada pelo Departamento de Estado norte-americano, de países que supostamente estariam promovendo ou protegendo o terrorismo no mundo. E mais, alguns funcionários da Administração Bush têm reiterado a falsa acusação sobre uma suposta capacidade de Cuba de produzir armas biológicas."

Diz também que "os Acordos Migratórios firmados entre as duas nações em 1994 foram objeto de especial ataque dos inimigos de uma normalização das relações entre os Estados Unidos e Cuba. O propósito fundamental é o de acabar com o fluxo migratório organizado estabelecido nos referidos acordos e, assim, forçar uma emigração ilegal em massa da Ilha".

Pelo que se depreende do relatório, Cuba já se cansou do bloqueio e procura apoio internacional para sair do isolamento imposto, ao que parece, como um castigo perpétuo. É nesse contexto que a ida de Lula à ONU e Havana, em setembro, adquiriu o sentido da pacificação.

Sintetizando a situação, à moda brasileira, pode-se dizer simplesmente que essa briga entre Washington e Havana já encheu.

Volta à página de escolha

Ministro cubano exorta ONU a voltar às origens

Mensagem para O JORNAL

Volta à 1.ª página