AÇÃO DE ISRAEL NA DESTRUIÇÃO

DE USINA NUCLEAR DO IRAQUE

Ben Abraham (*)

Costuma-se dizer que a memória é curta e quem esquece, ou repete os mesmos erros, ou sequer encontra tempo para cometê-los de novo...

Em 4 de outubro de 1980, o jornal Folha da Tarde (São Paulo) publicou artigo de minha autoria com informações exclusivas sobre a destruição de uma usina atômica no Iraque por dois bombardeiros, além de revelações indicativas da participação de Israel nesse e em outros episódios. No momento em que o Iraque está em evidência e a imprensa internacional comenta os possíveis esforços do Irã, seu vizinho, para produzir suas próprias bombas nucleares, vale a pena rememorar aquele artigo, pois, também como se costuma dizer, a História é uma sucessão de fatos sempre repetidos com novas roupagens. Eis a matéria:

No dia 30 de setembro de 1980, dois aviões "Phantom" F-4 bombardearam a central nuclear iraquiana, situada a 30 quilômetros a leste de Bagdá. Este ataque, além de adiar por prazo indeterminado o plano nuclear do Iraque, gerou várias especulações, principalmente após a Rádio de Teerã, com atraso de 32 horas, desmentir a participação da sua Força Aérea em tal missão. Para alguns "experts" nos assuntos do Oriente Médio, não está excluída a possibilidade de os israelenses, pilotando seus "Phantoms", repintados com as siglas iranianas, terem executado esse ataque. Portanto, apesar da Rádio de Israel informar que a atitude do Irã, negando que sua aviação tivesse bombardeado o centro de pesquisas nucleares iraquiano, "tinha por objetivo conter as críticas árabes de que o Irã serve aos interesses israelenses", continua viável a primeira hipótese.

O ataque contra a usina nuclear iraquiana foi executado com extraordinária perícia, que exige do piloto o máximo sangue-frio. É pouco provável que a Força Aérea Iraniana que, das três Armas, foi a que mais sofreu com os expurgos de Khomeini, por ser considerada a elite do deposto xá Reza Pahlevi, pudesse executar tal missão. A usina foi atingida com tal precisão que teve suas principais instalações destruídas. Mas o fato de, após o bombardeio, especialistas atômicos franceses, à exceção de dez "voluntários", deixarem o complexo, voltando a Paris, demonstra a extensão dos estragos. Citando "fontes científicas" a Rádio de Israel informou que os danos foram importantes e que dificilmente a usina voltara um dia a funcionar.

Os dois "Phantoms", chegando do lado do sol, para não serem vistos, a baixa altura, para não serem detectados pelo radar, em vôo rasante, acertaram o alvo com extraordinária exatidão. Sua atuação só pode ser comparada ao ataque dos "Mirage" israelenses, em junho de 1967, quando estes, voando a poucos metros acima das ondas do mar, num ataque-surpresa, destruíram no solo toda a aviação de Nasser. O único ponto que poderia, eventualmente, gerar alguma dúvida sobre a participação israelense no ataque contra a usina nuclear de Bagdá, é a distância que separa esta cidade das bases de Israel (superior à autonomia dos "Phantoms"). Porém quem se lembrar da "Missão Entebbe sabe que os "Phantoms" israelenses os quais acompanharam os aviões "Hércules", foram reabastecidos em vôo. E a distância entre Uganda e Israel é quatro vezes maior que a de Israel à capital do Iraque.

A hipótese da participação israelense na destruição da usina atômica iraquiana torna-se mais viável ainda pelo fato de que, no dia 8 de agosto, um mês e meio antes da guerra Irá-Iraque começar, Chaim Landau, o ministro israelense de Comunicações, declarou, numa entrevista para a televisão estatal, que o seu governo adotaria todas as medidas necessárias para impedir o Iraque de dispor de armas nucleares; três dias depois, o próprio Beguin confirmou aquela declaração, afirmando: "Israel fará tudo para impedir o desenvolvimento da central nuclear iraquiana".

O temor israelense é justificado, pois o próprio presidente iraquiano, Saddam Hussein, comentou várias vezes: "Para acabar com Israel, basta lançar algumas bombas sobre Tel-Aviv". Aliás, num país como o Iraque, onde não existe problema energético, uma usina nuclear só serviria para fins bélicos. E os 70 quilos de urânio, altamente enriquecido (93%), que o Iraque já recebeu, em parte, da França, são suficientes para construir sete bombas atômicas, cada uma com potencial igual a que foi lançada sobre Hiroshima. Podemos imaginar o que isso significa.

O primeiro acordo nuclear, franco-iraquiano, foi negociado em

1975, quando Saddam Hussein, então vice-presidente do Iraque.,retribuindo a visita do primeiro-ministro da França, Jacques Chirac, chegou a Paris. Saddam, representando um país que era o segundo fornecedor de petróleo da França, pretendia dotar o Iraque de centrais nucleares. Chirac, para o qual os interesses econômicos estavam acima de escrúpulos, ofereceu aos iraquianos um centro de pesquisas nucleares, idêntico ao de Saclay, na França, comprometendo-se, ainda, a excluir deste programa todos os técnicos de origem judaica. O acordo foi concluído em dezembro de 1975 e somente divulgado, seis meses depois (junho de 1976), quando a imprensa começou a ventilar alguns dados extraoficiais sobre o mesmo.

Conforme os planos, os franceses iniciaram a construção do Osirak, "irmão" do reator francês Osíris. Entretanto, o programa sofreu vários atrasos em virtude de misteriosos acidentes que atingiram tanto os equipamentos como as pessoas ligadas ao projeto.

O primeiro revés aconteceu no dia 4 de abril de 1972, em La Seyne-sur-Mer, nas imediações de Toulon, quando a empresa "Construções navais e Industriais do Mediterrâneo" havia, praticamente, concluído a construção de dois reatores nucleares encomendados pelo Iraque. Num absoluto sigilo, os reatores deveriam ser transportados a Bagdá no dia 9. Desmontados e embalados, esperavam para serem transportados em caminhões blindados, que se encontravam no pátio da empresa. Entretanto, três desconhecidos conseguiram penetrar no hangar nuclear. Conhecendo perfeitamente o seu objetivo, foram diretamente aos reatores iraquianos, separando as principais peças que constituem o "coração" dos reatores. Utilizando material potencialmente explosivo, colocaram a carga sobre aquelas peças e se retiraram tranqüilamente. Uma hora depois uma explosão sacudiu o prédio, destruindo completamente as peças fundamentais, sem as quais os iraquianos nada podiam fazer. Com isso o programa sofreu atraso de 18 meses.

Apesar de no dia seguinte, um movimento ecológico desconhecido atribuir a si o atentado, os agentes do DST - Serviço de Contra-espionagem da França não acreditaram nesta versão, afirmando que fôra obra de especialistas em explosivos nucleares. Como era de se esperar, Israel desmentiu qualquer participação, reconhecendo, porém, que o atentado o favorecia, pois, conforme o contrato assinado com a França, o Iraque teria condições de construir a sua bomba atômica. O que isso significa na mão de um país radical, em relação a Israel, dispensa comentários.

O novo mistério que envolveu o desejo iraquiano de possuir a sua própria bomba atômica foi o assassinato de M. El Meshad, engenheiro nuclear, de origem egípcia. Meshad, antigo professor de Física da Universidade de Alexandria, foi encontrado morto, com o crânio esfacelado, em seu apartamento no Hotel Méridien em Paris. Ele era considerado um dos melhores especialistas do ramo. Sua tarefa seria controlar a confiabilidade do material atômico fornecido pela França ao Iraque. O crime não foi desvendado, porém, o programa nuclear iraquiano sofreu um novo revés.

Seguindo o ciclo dos misteriosos atentados, duas bombas explodiram recentemente, em Roma, nos escritórios da "Snia Techint Company" - firma italiana que fornece tecnologia e equipamentos nucleares ao Iraque. Ao mesmo tempo, foi frustrado um atentado contra Jean Jacques Graf, um engenheiro francês, que exerce a função de chefe do projeto nuclear iraquiano.

Não resta dúvida de que Israel, pensando em sua sobrevivência, está interessado em que o plano nuclear do Iraque nunca se realize. Porém, as outras nações, inclusive árabes moderados, não ficaram entusiasmados com a idéia de que, a primeira "bomba islâmica" fique em poder de um país radical como o Iraque. Estão cientes de que a sua meta final não é só a destruição do Estado de Israel mas também subjugar todo o Oriente Médio.

(*) Ben Abraham é jornalista, escritor, coordenador-geral da Sherit Hapleitá do Brasil e vice-presidente da Associação Mundial dos Sobreviventes do Nazismo.

Mensagem para O JORNAL

Volta à 1.ª página