A disputa de mercado entre a Dolly e a Coca-Cola virou caso de polícia, com direito a inquérito no 3.° DP do município de Diadema, Estado de São Paulo, onde, nos últimos dias, foram parar os principais envolvidos.

Espionagem industrial, ameaças pessoais (inclusive de morte), acusações de corrupção, sabotagem, abuso de poder econômico e envolvimento de órgãos públicos são os ingredientes que desaguaram no modesto distrito policial, não afeito às conjuras internacionais como parece ser o caso surgido entre aquela fábrica brasileira de refrigerantes e uma das mais poderosas multinacionais do setor de bebidas.

O dono da marca Dolly, Laerte Codonho, afirma haver reunido provas, sob orientação de seus advogados, de que a Coca-Cola "contratou pessoas e não economizou esforços para destruir a empresa, a partir de 2000, usando para isso artifícios que vão de espionagem, ameaças e pressões junto a fornecedores, até sabotagem, corrupção, disseminação de boatos junto aos consumidores, toda uma sorte de ilegalidades." A multinacional retruca, taxando tudo de mera invencionice.

E-mail vira caso de polícia

Seja qual for a verdade, deverá ser apurada naquela delegacia e num processo já instaurado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. Além disso, a Dolly informou a O JORNAL, através de sua assessora de imprensa, jornalista Marli Gonçalves, que moverá processos de indenização contra a Coca-Cola "aqui e nos Estados Unidos, por danos patrimoniais e morais".

Pela multinacional, já depuseram na polícia o ex-diretor Luís Eduardo Capistrano do Amaral, o empresário hondurenho Mário Alfredo Rivera Garcia e o vice-presidente jurídico Marco Aurélio Éboli, representando a engarrafadora Spal/Panamco (atual Femsa). Todos negaram as acusações e disseram conhecer o assunto apenas pelo noticiário da mídia. O delegado Marcos Dario Mariano da Silva, presidente do inquérito, informou que pretende ouvir novamente Capistrano, em conseqüência de discrepâncias observadas nos depoimentos.

Esse ex-diretor é suspeito, segundo a Dolly, de estar entre os autores de um e-mail ainda em circulação na Internet com falsas informações e a afirmação de que esse refrigerante nacional "dá câncer". Capistrano nega.

Entre a documentação entregue à polícia por Júlio Mazzi, proprietário da fábrica da Dolly, e Laerte Codonho, dono da marca, há fitas de gravações comprometedoras. Com base nisso, eles acusam a Coca-Cola de "ter usado toda a sua força de venda na divulgação de mensagens infamantes, inclusive mandando imprimir folhetos para distribuir em lugares com grande concentração de pessoas, como ônibus, metrôs, hospitais, igrejas, escolas e postos de saúde."

"Nossas vendas despencaram", afirmou Júlio Mazzi, ao registrar a ocorrência no distrito de Diadema. Ele já se havia queixado ao Setor de Investigações de Crimes de Alta Tecnologia - SICAT, da Polícia Civil, em 28 de novembro de 2000.

Sabotagem por R$ 2 milhões

Diz a Dolly que, "dentro do plano de destruição arquitetado pela Coca-Cola, chegou a ser contratado um consultor, Fábio Claro Figueira de Melo, que se infiltrou na empresa durante sete meses, sabotou, sumiu com documentos e recebeu 2 milhões de reais pelo trabalho sujo executado". Em comunicado de sua assessoria de imprensa, acusa o executivo da Coca-Cola, Marco Aurélio Éboli, e uma empresa chamada Rio Branco de haver pago os 2 milhões a Figueira de Melo, "conforme documentação já encaminhada a vários organismos federais e que integrará o processo de indenização".

Segundo a Dolly, cada ponto que ela perdesse no mercado, à época, valeria um milhão de reais. Ainda conforme essa empresa, tanto Fábio Claro Figueira de Melo como Luís Eduardo Capistrano do Amaral se dizem sócios de Jorge Giganti, ex-presidente da Coca-Cola no Brasil, Argentina e México, e ex-presidente da engarrafadora Spal no período sob investigação. Por isso, a Dolly acusa Giganti de ser o mandante.

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