Em artigo publicado dia 22 último em O ESTADO DE S. PAULO, o jornalista, escritor e editorialista do JORNAL DA TARDE, José Nêumanne, disseca a metamorfose que se processa no PT desde que assumiu o poder. O artigo recebeu o título "Os 'neocompanheiros' do 'ex-PT" e diz o seguinte:

"O cientista político Leôncio Martins Rodrigues sentiu falta do acréscimo do prefixo "ex" à qualificação de militante petista dada neste espaço à ministra da Promoção e Assistência Social, Benedita da Silva. Com o respeito que merecem a observação e seu autor, talvez seja o caso de contestá-la, lembrando que a ministra segue sendo companheira. O PT é que deixou de ser o PT e virou um "ex-PT".

Três episódios recentes comprovam essa afirmação. O protagonista do primeiro deles é o autor de O Que É Isso, Companheiro?, best seller e clássico da época da passagem da ditadura para a democracia, que resolveu sair do PT não por acreditar que o sonho houvesse acabado, como dissera, precipitadamente, o beatle John Lennon, na virada dos anos 1960 para os 1970, mas sim porque havia sonhado o "sonho errado". Mais até que a decisão de Fernando Gabeira - jornalista brilhante, escritor de sucesso, ex-guerrilheiro e criador de modas - de rasgar a carteirinha, é simbólico o chá-de-cadeira de uma hora que ele levou do chefe da Casa Civil, José Dirceu, cuja vida salvara, arriscando a própria, ao participar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio, em troca de cuja integridade física este e outros presos foram soltos e expatriados para Cuba. Em democracias imaturas como a nossa, fazer esperar é prerrogativa de mando e Dirceu, doutrinado por Stalin e treinado nos canaviais de Fidel Castro, em cujas barbas recentemente chorou a bandeiras despregadas, sabe disso.

Há, contudo, mais que truculência e descortesia nessa decisão de manter um parlamentar sentado na ante-sala do gabinete sem lhe dar nenhuma satisfação.

O gesto ilustra uma vez mais a clássica abertura de Karl Marx em seu magnífico texto sobre O 18 Brumário de Luís Bonaparte, na qual o velho barbudo refez a máxima de seu mestre Hegel lembrando que a História se repete, sim, mas como farsa. O desprezo do chefão pelo militante é uma espécie de paródia em farsa da lição que Stalin deu a Lenin e Trotski nos anos 1920: o chefe inconteste da revolução e do partido bolchevique havia dito que se sabe como uma revolução tem início, mas não no que ela vai dar.

Trotski acreditou na tolice da "revolução permanente" e tanto ele como o outro herói sucumbiram ao espírito pragmático do georgiano, que mostrou como se fazem as coisas na

prática: toda revolução termina em Termidor e o revolucionário que fica no poder é aquele que fuzila (e elimina das fotos históricas) os velhos companheiros para se compor com antigos inimigos que dominam desde sempre as engrenagens da máquina do poder. Lenin sucumbiu à doença, Trotski foi exilado e depois assassinado e Stalin reinou sobre a velha máquina czarista sob o símbolo da foice e do martelo até ser enterrado. Sua obra ainda lhe sobreviveu 35 anos.

Dirceu, nosso stalinista matuto, repete a lição e a adapta aos mecanismos frágeis e incompletos de nossa democracia. Ao governo a que serve de nada valem os méritos históricos e políticos do deputado Gabeira, homem público que faz praça da coerência ideológica, mas único e desprezível voto na matemática da precária governabilidade à brasileira, da qual depende o êxito de "Lulinha Paz e Amor". Muito mais valia têm para os planos de manutenção do grupo no poder os dízimos e votos de Waldemar Costa Neto, o "Boy" do Bispo Macedo; o controle de José Sarney sobre os coronéis do Norte e Nordeste (com a ajuda do "neocompanheiro" Jader Barbalho); e os préstimos de Roberto Jefferson, novo presidente nacional do PTB, que bajula Lula com mais entusiasmo do que fazia com Fernando Henrique e tem em seu prontuário o bom precedente de haver defendido Fernando Collor até a queda final. "Se fez isso por ele, imagine o que não fará por nós" sobrepuja aqui o preceito bíblico "dize-me com quem andas e te direi quem és".

Além do chá-de-cadeira ao "companheiro" por excelência e dos freqüentes repastos com civis que estudavam o Almanaque do Exército para saber que botas teriam de lustrar, outra marca registrada do "ex-PT" é a estratégia de evitar contaminar-se no troca-troca partidário dos parlamentares às vésperas do vencimento do prazo para filiação, mas aceitar qualquer militante de base que aceite pagar dízimo ao partido. Os 145 mil novos filiados nos nove meses sob a égide de Lula, que engordaram em mais R$ 18 bilhões sua tesouraria, parecem de pouca monta: uma campanha publicitária convoca os brasileiros a um de seus esportes favoritos, o de aderir aos poderosos da ocasião.

Uma carteirinha do PT ainda não tem o valor que tinha a do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) na época heróica do "paizinho" do bigodão. Mas quem conhece a determinação do discípulo Dirceu sabe que ele não tardará em ao menos empatar com o mestre Stalin. Isso é uma pena para uma democracia que, para se consolidar, precisa de um partido como era o PT antes e agora está deixando de ser."

Mensagem para O JORNAL

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