PERDE O PÊLO, MAS NÃO O VÍCIO

Perde o pêlo mas não perde o vicio. Esse o comportamento do presidente Lula que, em seus improvisos infelizes de palanque eleitoral, não perde oportunidade para denegrir os antecessores. Desta vez extrapolou. Atingiu exponenciais figuras republicanas que muito fizeram pelo Brasil. Chamou-as de covardes por não realizar as reformas das quais o Pais necessita. Esqueletos estremeceram nas tumbas.

Foto: J. Freitas - ABr

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Lula é o dono da verdade e mais uma vez demonstra seu desconhecimento da História. Aqui vão alguns nomes para refrescar a memória de muitos: marechal Deodoro da Fonseca, marechal Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, marechal Hermes da Fonseca, Venceslau Brás, Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes, Washington Luis e Getúlio Vargas três vezes, como chefe do Governo Provisório de 1930, presidente eleito pela Assembléia Constituinte em l934 (até l949) e eleito pela terceira vez, em l950, pelo voto direto. E mais: José Linhares, general Eurico Gaspar Dutra, Café Filho, Carlos Luz, Nereu de Oliveira Reis, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, Tancredo Neves, Francisco Brochado da Rocha, Pascoal Ranieri Mazzilli, marechal Castelo Branco (eleito pelo Congresso), marechal Costa e Silva (eleito indiretamente), Junta Militar (general Costa e Silva, brigadeiro Grund Moss e almirante Augusto Radmaker), general Emílio Garrastazu Médici, general Ernesto Geisel, general João Baptista Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Ignácio Lula da Silva.

Todos tiveram papel de destaque na história brasileira. Quais deles seriam os covardes estigmatizados por Lula?

O adjetivo foi pronunciado em Recife quando o presidente anunciava a transposição do Rio São Francisco. Por enquanto só projeto. O velho Chico continua a morrer.

O sonho dessa transposição vem de longe. Já no reinado de D. Pedro II foi concebido o primeiro projeto. Vieram muitos, depois. Nunca foi possível tirá-los do papel. O debate sobre o semi-árido nordestino sempre esteve marcado por estudos sobre a realidade hídrica da região, preocupação ressaltada em vários estudos dos últimos anos. Estão concentrados na relação entre o solo, a água, as plantas nativas e sua importância para a população.

Basicamente, se deseja o desvio de parte das águas do "Velho Chico" para perenizar rios e açudes do Nordeste Os políticos do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, Estados diretamente beneficiados, defendem a transposição com unhas e dentes, enquanto os de Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas são visceralmente contra, temendo efeitos danosos para o rio.

O presidente Lula está entre a cruz e a caldeirinha. Precisa decidir sobre um problema que nos persegue desde o Império. E é bom que lembre: chega de discursos.

Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek foram os dois maiores estadistas brasileiros do Século XX. Muitos quiseram e querem imita-los. Missão impossível. Dentre o grande surto industrial do Brasil que promoveram, destaca-se o inicio da salvação do Nordeste, principalmente mediante o uso do potencial hidrelétrico de Paulo Afonso.

Vargas, cuja ditadura refletiu uma estratégia de compromissos, atrelou o proletariado urbano à fração da burguesia vinculada ao mercado interno, mediante a legislação social, e atribuiu ao Estado papel decisivo no desenvolvimento do País. Explorando as contradições entre as grandes potências industriais, conseguiu implantar a primeira usina siderúrgica nacional, em Volta Redonda.

Cassado em l945, volta ao poder em l950. E, a partir do ano seguinte, institui o monopólio estatal do petróleo, elabora o projeto da Eletrobrás, negocia com a Alemanha a compra de energia nuclear, inicia as importações de bens de capital e tenta o controle sobre as remessas de lucros para o Exterior, objetivando equacionar os problemas de energia, induzir a fabricação de maquinas e equipamentos aqui, controlar a evasão de capitais e muitas outras iniciativas que alavancaram nosso desenvolvimento econômico e social, como a Petrobrás e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.

O governo de JK representa uma Idade de Ouro no imaginário político brasileiro. Deu novo arranco desenvolvimentista, consolidado através de políticas que estimularam a industrialização e resultaram em altas taxas de crescimento. Realizou 28 metas das trinta que prometeu, inclusive a construção de Brasília.

Sua política externa voltou-se para o desenvolvimento das relações bilaterais e participação dos fóruns multilaterais. Promoveu o lançamento da Operação Pan-Americana (OPA), que propunha incluir a questão do desenvolvimento nas relações dos EUA com a América Latina. Participou da criação da Associação Latino Americana de Livre Comércio (ALALC), com o objetivo de implementar um comercio comum regional.

Sempre se preocupou com os problemas nordestinos, destacando-se o ano de l958, quando ocorreu uma das maiores secas, com proporções dramáticas: um milhão de flagelados. O governo central, como seus antecessores, fazia o de sempre, como frentes de trabalho, distribuição de mantimentos, construção de açudes, liberação de subvenções e auxílios. E, como sempre, a voracidade de políticos locais, mantendo a famigerada "indústria da seca".

Em l959, JK criou a SUDENE. Para mudar a orientação da política governamental, chamou o "crânio" Celso Furtado para implementar sua tese de que não se tratava de combater as secas, mas de conviver com elas, criando uma agropecuária que levasse em conta a especificidade ecológica regional. Seria privilegiada a produção de alimentos, tanto no semi-árido, como nas terras litorâneas monopolizadas pela cana de açúcar, Com isso, surgiriam as bases da industrialização para absorver a mão-de-obra desempregada e introduzir, nas classes dirigentes, empresários com espírito capaz de neutralizar a influência da oligarquia, acostumada de viver de favores e proteção do governo.

Assim foi a SUDENE. Até que os politiqueiros nela viram um novo veio e começaram mais uma escalada de corrupção, que FHC decidiu extinguir.

Ai estão, portanto, dois exemplos de homens públicos que deram orgulho aos brasileiros e para eles muito realizaram. Fugiram do blá-blá-blá. Não foram covardes.

ALCA: SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Nunca se viu tamanha confusão. Aqui e no Exterior. Essa reunião de grande importância para a economia está ameaçada de fracassar como ocorreu no encontro da Organização Mundial do Comércio - OMC, em Cancun, onde os países pobres se estreparam. No Brasil, partiu-se para o confronto ideológico. Ocorreu um racha entre Itamaraty, Ministério do Desenvolvimento Econômico e Agricultura.

O Itamaraty de algum tempo para cá, com seu viés terceiromundista esquerdizante, lança suspeitas sobre tudo que vem dos Estados Unidos.

O grande embate na reunião de Miami será entre o Brasil e os Estados Unidos. Uma área de livre comércio, que envolveria 34 países latinos e a maior economia do mundo, deve receber especial atenção quanto aos interesses brasileiros.

A posição norte-americana ainda é uma incógnita. Na realidade os EUA estão-se afastando pela borda de acordos bilaterais. Já fizeram isso com o Chile e outros membros do Mercosul e pretendem o mesmo com a Colômbia, Peru, Bolívia e Equador e outros dez países do Sudeste Asiático. Precisamos ficar muito preocupados com o aumento do número de acordos bilaterais, em que os países mais fracos terão tudo a perder.

Os americanos querem deixar os assuntos polêmicos para a próxima reunião da OMC. "Experts" estão prevendo que as negociações resultarão em fracasso. Poderia surgir uma ALCA menos abrangente, que respeitasse o interesse de cada país.

Os pontos divergentes entre Brasil e EUA dizem respeito à agricultura, onde nosso País quer ganhar mercado. Estão em jogo também a produção de remédios genéricos, fundamental para nossa política de saúde pública; o acesso a tecnologias patenteadas no Exterior; a capacidade de o Estado implementar políticas industriais; e o direito de a Justiça brasileira decidir conflitos entre empresas estrangeiras e o governo.

A esquerda festiva já colocou as manguinhas de fora. Através de movimentos sociais, defende a saída do Brasil da ALCA. Lançou o Fórum Social Brasileiro para que, nas eleições municipais do próximo ano, haja um plebiscito sobre a participação ou não do Brasil na ALCA.

O senador Saturnino Braga, conhecido por seu alinhamento com aquela corrente ideológica, apresentará projeto de lei para que o Brasil não participe.

A posição do governo está expressa em nota assinada pelo secretario-geral da Presidência da República, que deu o seu recado: "Se os Estados Unidos não fizerem concessões importantes para os países da ALCA não haverá ALCA. E o nosso governo não vai entregar o futuro

do País em benefício de interesses comerciais imediatos, por mais legítimos que eles sejam."

Está formado o balaio de gatos. É o samba do crioulo doido.

POVO VOLTA AO MEDO E DESENCANTO

O povo está estarrecido, desencantado e com muito medo. Não só dos bandidos e delinquentes de várias especialidades. São policiais, procuradores, advogados, juízes e desembargadores integrantes de quadrilha para a venda de sentenças judiciais, concessões de "habeas corpus" em favor de traficantes, contrabandistas, "colarinhos-brancos" e outros que tais, da pior espécie.

Toda a população está desencantada. Existe o temor de que a Justiça acabe se transformando em arma dos poderosos e daqueles que podem pagar pela sistemática frustração dos desprotegidos. Aplicam-se aos desvalidos os rigores da lei e conferem-se aos criminosos de colarinho-branco as vantagens dos infinitos recursos que o direito reserva aos endinheirados, capazes de comprar decisões de magistrados corruptos. Felizmente, o Poder Judiciário é constituído, na grande maioria, por pessoas de bem que vão escoimar de suas fileiras a banda podre.

Causam muita apreensão as decisões proferidas por alguns julgadores em benefício de notórios criminosos ou em detrimento daqueles que foram buscar justiça para solucionar seus conflitos.

A tão decantada reforma judiciária dorme a sono solto no Congresso há mais de doze anos. Não é votada porque muitos parlamentares têm medo de retaliações. Receiam ser alvo da vingança de algum magistrado num processo. Retraem-se e esquecem o que deveriam fazer.

A reforma do Judiciário, através do controle externo, não pode mais ser postergada. É uma exigência defendida por amplos setores representativos da opinião pública. É uma forma de diminuir o excesso de corporativismo numa instituição pública, que não pode alhear-se ao controle social.

TRANSGÊNICOS RACHARAM O GOVERNO

Entre mortos e feridos escaparam todos. Mas, os transgênicos provocaram uma fissura nas hostes governamentais. A ideologia prevaleceu sobre a ciência. Depois de muito quebra-pau, os ministros fumaram o cachimbo da paz.

O governo, como sempre faz quando a boca esquenta, enviou ao Congresso mais uma medida provisória. Foi aprovada. Autoriza o plantio e a venda de soja geneticamente modificada na safra 2003/2004. Concede registro provisório a variedades de soja transgênicas desenvolvidas no País. Está aberta a porta para a liberação definitiva.

Os alimentos transgênicos são vegetais que tiveram o gene de uma outra espécie introduzido em seu DNA para expressar uma característica especifica, como resistência a insetos ou doenças. Os genes são pedaços de DNA que contêm a receita para o funcionamento de todos organismos vivos. O que os cientistas fazem, portanto, é pegar o gene responsável por uma característica de um organismo e transferi-lo para outro. No caso da soja transgênica, por exemplo, a planta recebeu o gene de uma bactéria que confere resistência ao herbicida glifosato, que normalmente mata qualquer vegetal. Com isso, em vez de usar uma série de herbicidas diferentes, o agricultor pode utilizar apenas o glifosato para matar ervas daninhas de toda a plantação, sem danificar a soja.

Na realidade, o problema dos transgênicos está sob rigorosa análise em vários países. Nos Estados Unidos, essas culturas foram aceitas sem nenhum problema pelos consumidores. Na Europa, porém, estão sendo rejeitadas pela opinião pública e associações ecológicas.

No Brasil, as pressões políticas estão tumultuando o assunto. Criou-se verdadeira disputa entre ambientalistas e ruralistas. A polarização ocorre entre os que acreditam e os que não crêem na ciência nacional. A Embrapa, conceituada em todo o universo, estuda o problema há vários anos e chegou à conclusão de que os transgênicos não causam nenhum problema à saúde humana e não prejudicam o meio ambiente.

De qualquer forma, é necessário que as discussões continuem com maior clareza profundidade entre a comunidade cientifica, a sociedade e os setores econômicos diretamente interessados. Trata-se de assunto para discussão especializada e técnica, não ideológica.

TÚNEL DO TEMPO

Foi em 24 de agosto de l96l que Jânio Quadros estarreceu o País ao renunciar à Presidência da República. Em carta patética, de poucas linhas, afirmou estar sofrendo pressões de "forças terríveis". Nunca revelou quais. Governou apenas sete meses, entre 3l de janeiro de l96l e 24 de agosto de l964.

Carlos Lacerda denunciou dias antes, pela televisão, que Jânio estaria articulando um golpe de Estado. Queria ser ditador. Jânio mandou João Goulart, seu vice, para a China em visita oficial. O campo ficou livre.

Instalou-se a crise político-militar. Os militares não queriam a posse de Jango, por estar ligado ao movimento trabalhista.

Em Brasília, bochicho geral. Juscelino Kubitschek, ex-presidente e senador que pretendia voltar ao governo substituindo Jânio, telefonou para Jango em Singapura. Foi categórico: que ele voltasse para cumprir o seu dever. Os políticos se encarregariam de formar uma frente ampla para apoiá-lo.

Depois de muita conversa, os militares concordaram, desde que fosse adotado o regime parlamentarista. Jango voltou e foi empossado na Presidência. Sem poderes. Igual à rainha da Inglaterra.

CURTAS E GROSSAS

  • 0s esforços governamentais no sentido de melhorar as nossas de exportações vão de vento em popa. Vamos superar vinte bilhões de dólares, o que constitui verdadeiro recorde. Mas, comparado ao movimento do comércio mundial, é uma insignificância. Representa tão-somente um por cento do comércio internacional. Precisamos, como acentua o New York Times, participar do "jogo sujo do comércio internacional".
  • Mais uma vez o Brasil foi preterido. Agora, o poderoso secretário geral da Organização das Nações Unidas - ONU, Kofi Annan (na foto abaixo, com o presidente Lula na Bolívia, há dias), vetou a indicação brasileira para a Presidência da Comissão Econômica para a América Latina. A Cepal é um órgão regional da ONU, criado com a função de assessorar econômica e tecnicamente os países da América Latina. Tem sede em Santiago do Chile. João Sayad, economista que foi ministro do Planejamento do governo Sarney e secretário das Finanças da Prefeitura de São Paulo, foi indicado para a Cepal pelo PT.
Foto: Ricardo Stuckert - PR
Lula e Kofi, Bolívia, Ricardo Stuckert PR.jpg (281632 bytes)

Escolheram para o cargo, porém, o argentino José Luiz Machinea, ex-presidente do Banco Central da Argentina no governo Raul Alfonsin e ministro da Economia de Fernando de la Rua. Alfonsin e Rua foram obrigados a renunciar pelo fracasso de suas políticas econômicas. A Cepal é velho refugio de muitos cassados brasileiros pelo regime militar. Salário de dez mil dólares mensais e carro Mercedes Benz à disposição.

  • A penúria de grana reclamada por muitos ministros não alcança os poderosos. A falta de dinheiro não impediu a compra pela Presidência da República de dez automóveis Marea, no valor de 482 mil reais. Os carros "modelo executivo" serão usados na segurança do presidente Lula e de seus parentes nas cidades de São Paulo e São Bernardo do Campo.
  • A compra dos automóveis novos soma-se aos investimentos em melhorias no Alvorada, no Planalto e na Granja do Torto, a pretexto de que o governo herdou uma estrutura sucateada. No Palácio da Alvorada, foi construído um aviário. No Torto, uma churrasqueira e, no Planalto, um ginásio esportivo com sala de fisioterapia. Quem te viu e quem te vê!

(*) Assis Corrêa Neto é jornalista. (assiscorreaneto@uol. com. br)

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