"Ou feito ou fazido, a palavra tá dizida". Quem já não ouviu por aí o ecoar desta frase para traduzir as ‘peripécias lingüísticas’ daquele tal prefeito analfabeto em cima de um palanque ao referir-se à construção de uma obra, sem saber ele que estava desperdiçando os inestimáveis recursos da própria Língua Portuguesa? Pois é. Agora, numa pesquisa recente, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) acaba de comprovar o que nós todos já sabíamos: que há muito político ‘analfa’ de pai e ‘beta’ de mãe administrando municípios Brasil afora. Segundo a pesquisa, 28% dos atuais prefeitos brasileiros (1.556, no total) não cursou sequer o 2º grau, ou seja, um quarto deles não chegou ao ensino médio.

Analisando os dados dessa pesquisa pode-se imaginar o grau de dificuldade desses prefeitos em promover o desenvolvimento dos seus municípios, especialmente pela complexidade dos termos jurídicos, econômicos e de toda natureza utilizados no dia-a-dia de uma administração num mundo globalizado como o de hoje, onde se misturam elementos dos mais distintos, idiomas e culturas dos mais diversos para compor um cenário local. O que vemos, quase sempre, é um prefeito ser ‘comandado’ por assessores, ou por um só assessor, o que acaba sendo ainda mais trágico, pois este, com amplos poderes, acaba metendo os pés pelas mãos, quando não mete, literalmente, só a mão no erário público, deixando ao titular do cargo o ônus do roubo. Infelizmente, essa é uma realidade que se verifica em praticamente todos os Estados brasileiros, principalmente nos pequenos municípios.

Se não serve de base para se julgar a competência ou a conduta (séria ou não) de um determinado prefeito, o nível de escolaridade serve pelo menos para garantir ao cidadão/eleitor comum que aquele mandatário tem as condições mínimas de análise e crítica para tomar uma decisão firme, com

conhecimento de causa, sobre determinado assunto. Por isso, sempre fui defensor de que se adote, urgentemente, uma lei que estabeleça como critério básico para registro de candidatura a qualquer cargo político-eleitoral a escolaridade mínima do Ensino Médio completo. É o mínimo que podemos exigir de nossos governantes: que tenham pleno conhecimento do que lêem, do que assinam, do que falam e do que propõem à sociedade, do contrário, serão ‘massa de manobra’ nas mãos de pilantras. Mas é bom que fique bem claro que só isto, também, não garante que teremos um bom prefeito, ou um prefeito mais sério e honesto.

Ao mesmo tempo, a pesquisa revela um outro dado no mínimo curioso: são os prefeitos ditos ‘sem instrução’, ou com o primeiro grau incompleto, que detêm os maiores níveis de reeleição. Pode? Os sem-instrução chegam a obter até 60% de chances de continuar no cargo. A estes vai um alerta: cuidem de aperfeiçoar o conhecimento lingüístico, pois uma simples vírgula muda todo o sentido de uma frase e, conseqüentemente, de uma idéia, de um projeto, de uma lei etc. Estamos na era da informação, não da força; e o conhecimento é essencial para quem deseja alcançar ou se manter no Poder. Aqueles que não detêm o conhecimento são reféns da ignorância e, o que é pior, da malandragem de quem vê no comando de uma prefeitura a chance ideal de "lavar a jega", pois a "vaca de assombrosas tetas" está sempre disponível a dar leite, mesmo que se sacrifiquem nossos idosos e nossas criancinhas.

(*)  Claudivan Santiago é jornalista, músico, compositor, escritor e membro-fundador da Academia de Letras de Araguaína e Região Norte (ACALANTO), no Estado do Tocantins.

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