Por terem repetido as mesmas posições que mantiveram com relação ao governo FHC em obediência ao programa e orientação originais do partido, cinco parlamentares (uma senadora e quatro deputados federais) foram expulsos do PT.

Chamados de radicais por uns e de autênticos por muitos outros, a senadora Heloísa Helena (AL) e os deputados Luciana Genro (RS), João Batista – o Babá (PA) – e João Fontes (SE) foram eliminados pelo Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores em reunião no luxuoso hotel Blue Tree Park de Brasília, os três primeiros por 55 votos a favor da expulsão e 27 contra, o último por 55 votos a favor, 26 contra e uma abstenção.
Ao mesmo tempo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovava a extensão do acordo com o Brasil, com a liberação de mais 14 bilhões de dólares. Segundo as agências internacionais, dirigentes do FMI disseram-se satisfeitos com a situação brasileira e elogiaram o desempenho do governo petista. Ou seja, pode-se entender a ampliação de crédito como reconhecimento de que os desejos do FMI foram satisfeitos. E esses desejos, conforme mostrou O JORNAL em setembro último
[http://www.ojornal.jor.br/10setembro/index.htm ]  envolveram as reformas da Previdência e do sistema fiscal e tributário, além das modificações introduzidas na Lei de Falências, pelas quais os empregados deixaram de ter preferência no recebimento dos débitos das empresas que falirem.

Submissão ao Fundo Monetário

Foi contra a submissão ao FMI que se insurgiram os parlamentares expulsos. Essa submissão beira à vassalagem e configura traição aos princípios defendidos por todo o PT no passado, inclusive nos palanques eleitorais que levaram Lula à Presidência da República nas últimas eleições. Agora no poder, a cúpula do partido montou no Congresso Nacional um rolo compressor para retirar dos trabalhadores direitos conquistados há bastante tempo através de lutas sociais. Esses direitos conflitavam com interesses do capital especulativo internacional. Além disso, sua remoção abriu as portas para a previdência privada, em moldes semelhantes aos que deram origem a grandes escândalos em países mais desenvolvidos.

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A militância deu provas de apoio e carinho à senadora alagoana durante todo o episódio (Foto ABr)

Sem dúvida, a senadora Heloísa Helena foi, dos quatro expulsos, quem desempenhou o papel mais preponderante na defesa dos antigos princípios petistas com relação àqueles direitos. Seu exemplo levou senadores do PT a pressionarem o governo para rever posições e admitir outra emenda constitucional – a chamada "PEC Paralela" -, destinada a amenizar alguns dos aspectos desumanos da Reforma da Previdência. Essa PEC acaba de ser aprovada pelo Senado e, agora, tramita na Câmara dos Deputados.

Todavia, paira no ar a idéia de que não passaria de um engodo governista para escapar à pressão e arrefecer os ânimos. Isto é, conforme acreditam senadores do PFL e PSDB, ficará andando pelos meandros da Câmara até que a esqueçam. Ontem (18/12), o senador Paulo Paim (PT-RS), considerado como principal articulador da "PEC Paralela", engrossou o alerta para essa possibilidade, exigindo que se vote tal projeto imediatamente. Cobrou, em Plenário, o cumprimento do acordo feito entre as lideranças do Senado e o governo pelo andamento da proposta. Em termos enérgicos, lembrou que o projeto de reforma da Previdência original (já aprovado e em vigor) "é capenga" e precisa ser modificado pela "PEC Paralela", conforme tal acordo. E afirmou: "Não me chamem de radical depois."

Comparação maldosa e injusta

O episódio da expulsão veio demonstrar, na prática, como funciona o centralismo democrático dentro do PT. Gerou manifestações populares contrárias, em Brasília e outras capitais, mas foram rapidamente esvaziadas pela máquina petista. Depois, a repercussão produziu manifestações descabidas, a exemplo do discurso em que a senadora Fátima Cleide (PT-RO) tentou traçar, dia 17, um paralelo entre o que aconteceu com aqueles parlamentares e a expulsão de malfeitores do tipo Hildebrando Pascoal e "anões do orçamento", em outros partidos. Uma comparação esdrúxula, que mereceu pronta resposta de Heloísa Helena. Acorrendo ao Plenário, onde recebeu explicações de Fátima Cleide, a senadora ofendida afirmou:

"Eu tenho feito um esforço gigantesco, sobre-humano, embora tenha sido a maior vítima nesse processo todo, para evitar trazer o debate das circunstâncias internas do Partido dos Trabalhadores para cá (Plenário do Senado). Mas, agora eu vou fazer isto: toda vez que alguém falar diretamente ou indiretamente disso eu vou falar também. Primeiro, quero repetir que estou de consciência tranqüila, de cabeça erguida, e que podemos até fazer um debate aqui sobre o que é fidelidade programática. Eu me sinto absolutamente fiel a um Partido dos Trabalhadores, não ao outro da cúpula palaciana, que silencia diante de delinquentes da política brasileira e silencia também porque, às vezes, se lambuzar no banquete farto do poder, se faz por uma questão de educação... Quando se é pequenino, mesmo com pouca coisa para comer, a mãe sempre diz que ‘não se pode falar e comer ao mesmo tempo’. Então talvez seja isso."

"Ainda não conheceram o pior de mim"

A líder da esquerda prosseguiu, dizendo: "Eu só tratei desse tema uma vez no Plenário. Estou fazendo um esforço para retirar essa coisa da minha vida porque não tenho dúvidas e disse na reunião do Diretório Nacional que o PT que estava me expulsando não era o PT que eu dediquei os melhores anos de minha vida para construir, não era o PT socialista, não era o PT da radicalidade democrática. Era o PT que faz a propaganda triunfalista do neoliberalismo e que é cúmplice omisso nessa reacionária coexistência pacífica entre aqueles que, ao longo da História, nós condenamos ferozmente e hoje está tudo muito bem.

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O Diretório reuniu-se no luxuoso Blue Tree Park para expulsar os parlamentares (Foto ABr)

Estou fazendo um esforço gigantesco para não entrar nesse tema mais uma vez. A senadora Fátima Cleide me disse que não tratou desse tema dessa forma, até porque seria duro, viu, porque é aquela história... Uma vez já disseram aqui que ninguém conhece o pior de mim. Ainda não conheceram o pior de mim. Então, pelo amor de Deus, respeitem a minha dor. Eu já disse várias vezes que estou inclusive escrevendo lá na areia das praias de Maceió, vou escrever alguns nomes na areia para a onda vir, levar e me fazer esquecer. Vou tentar ter tranqüilidade. Agora só peço uma coisa: não toquem no meu calinho, não. Porque, se tocar, aí eu viro onça. Estou calminha, maravilhosa. Quero fazer o debate programático, vou continuar com o meu mandato de cabeça erguida. Fui lá para a reunião do Diretório e disse: não estou aqui para pedir clemência, nem perdão, nem desculpa. Estou aqui para reafirmar o que, ao longo da história, eu afirmei aqui nesta Casa (o Senado) inclusive e ao longo da minha tradição. Então estou de consciência tranqüila. Agora, pelo amor de Deus, está chegando o Ano Novo, vida nova, coração de paz, solidariedade e esperança, saúde para todo mundo, porque essas coisas são que contam. Já me deram um presente de Natal desses... não tem nenhum problema. Vou jogar lá no mar esse presente de Natal horroroso, da expulsão, e agora é vida pra frente.

Dizem que as lágrimas saem de cicatrizes na alma.

Mas, só tem cicatriz na alma quem esteve no campo de batalha, quem não se acovardou, quem defendeu. Paz e amor para o meu coração e a minha saúde. Para a oligarquia, para o crime organizado, para o Fundo Monetário, para as instituições de financiamento multilaterais, para os gigolôs do FMI, para os parasitas do Banco Mundial, aí vai ser Heloisinha oncinha. Agora, o resto é tudo paz e amor."

Desavenças desde as eleições

A senadora Heloísa Helena desistiu das últimas eleições para o governo de Alagoas por não aceitar a política de alianças adotada pelo PT, por ela tachada de "uma adesão estúpida à lógica do pragmatismo eleitoral". Depois, criticou a escolha do ex-presidente do Bank Boston, Henrique Meirelles, para a presidência do Banco Central por sua "ligação com o sistema financeiro internacional".

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De nada valeram as milhares de assinaturas no manifesto de apoio aos parlamentares, entregue pelas bases partidárias a José Genoino, presidente do PT (Foto ABr)

As desavenças acentuaram-se com as reformas da Previdência e tributária. Os parlamentares agora expulsos apontaram, repetidamente, os pontos conflitantes entre as propostas do governo Lula, o programa do PT e as promessas de palanque. E votaram contra a reforma previdenciária.
Em meio à polêmica, o deputado João Fontes divulgou uma fita com falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1987 para comprovar as contradições entre o discurso da época e o atual. No áudio, Lula critica o então presidente José Sarney e a sua proposta de mudanças na Previdência. "Eles querem criar o limite de idade para que a classe trabalhadora morra antes de se aposentar", dizia Lula.

Jogo de cartas marcadas

Após a expulsão, o deputado João Fontes acusou o Diretório Nacional do PT de tomar uma decisão sem legitimidade pelo fato de a maior parte de seus integrantes ter cargos no governo.
"Foi um tribunal extremamente viciado e sem legitimidade. Eu não me sinto legitimamente expulso de um partido que tem na sua grande maioria auxiliares do governo Lula", disse Fontes. Ele atacou especialmente o presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra, que é de seu Estado. 'O presidente da Petrobrás é um medroso. Ele não iria votar para perder o emprego', afirmou o deputado, referindo-se a Dutra.
Por sua vez, o deputado Babá afirmou que o PT "expulsa os trabalhadores e fica com Flamarion" (Portela, governador de Roraima, acusado de desvio de dinheiro público).
Babá, considera que o PT mudou "completamente" desde sua fundação e não cumpre as promessas feitas quando o presidente Lula ainda era candidato. "O governo Lula vem seguindo todo o receituário neoliberal. Lula cede aos banqueiros e confronta os trabalhadores", afirmou.

Quem são os autênticos

Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 40 anos, nasceu em Pão de Açúcar (sertão de Alagoas). Foi bóia-fria na infância. É formada em enfermagem e professora licenciada do Centro de Saúde da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), na cadeira de Epidemiologia.

Em julho do ano passado, não aceitou ter como vice um político do PL na chapa para o governo alagoano. Em protesto, acabou renunciando à candidatura. "O PL em Alagoas é formado por 'colloridos', moleques de usineiros e indiciados na CPI do Narcotráfico", declarou na época.
Em dezembro, recusou-se a aprovar o nome de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central.
Candidata pela primeira vez em 1992, se elegeu vice-prefeita de Maceió na chapa do hoje governador Ronaldo Lessa (PSB). Dois anos depois, foi eleita deputada estadual, a primeira pelo PT em Alagoas. Diz não saber quantas ameaças anônimas de morte já recebeu. "Se eu tivesse que morrer, já tinha morrido. O que eu já peguei de briga aqui..." Em 1994, conquistou uma cadeira na Assembléia Legislativa.
Em 1996 rompeu com Lessa ao candidatar-se à Prefeitura de Maceió contra a então secretária da Saúde do município, Kátia Born (PSB), que acabou eleita. Mesmo liderando as pesquisas desde o início do processo eleitoral, Heloísa Helena perdeu no segundo turno.
Em 1998, foi eleita senadora com 56% dos votos válidos. No Senado, além da postura radical, chama atenção pelos trajes: calça jeans e blusa branca. Na posse do Presidente da República, um de seus últimos momentos de confraternização com a bancada, foi elogiada pelos colegas ao aparecer de vestido vermelho.
Em 1996, a senadora afirmara que Luiz Inácio Lula da Silva era o seu maior ídolo na política.

Luciana Genro, 32 anos, é filha do ministro Tarso Genro, do Desenvolvimento Econômico e Social. Nasceu no município de Santa Maria (RS), é casada com Sérgio Augusto Ruck Bueno e tem um filho. Criança ainda, cresceu ouvindo histórias sobre os chamados "anos de chumbo". Em 1982, com apenas 11 anos, participou de sua primeira eleição, distribuindo panfletos dos candidatos apoiados pelo pai. Já na 8ª série do ensino fundamental, contrariou-o para poder estudar no colégio público de maior movimentação estudantil da cidade. Conheceu então o PT. Lá também, aos 14 anos de idade, fez seu primeiro discurso, numa homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Expulsa do PT, ela passa por um processo parecido com o que viveu em 1992, quando a corrente de esquerda da qual fazia parte, a Convergência Socialista, foi convidada a se retirar da legenda. Ela preferiu ficar.
Diplomada em Inglês, pelas universidades de Michigan, nos Estados Unidos, e de Cambridge, na Inglaterra, a deputada não chegou a concluir os cursos de Direito na PUC (Pontifícia Universidade Católica), em Porto Alegre, e de Letras na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Antes de se eleger deputada federal em 2003, Luciana exerceu dois mandatos como deputada estadual pelo PT, entre os períodos de 1999 a 2003 e de 1995 a 1999. Era filiada ao partido desde 1985.

João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, 50 anos, nasceu no município de Faro (PA). É professor universitário e engenheiro mecânico, casado com Ana Claudia Nascimento dos Santos. Tem uma filha.
Quem o vê no Congresso, cabelos compridos abaixo dos ombros, críticas ao FMI e ao presidente da República, não imagina que já foi um "alienado", como ele mesmo diz, quando prestou serviços à Igreja como coroinha e só se interessou por política aos 26 anos de idade.
O interesse pela carreira, que o fez abandonar a engenharia mecânica e guardar na gaveta o diploma de pós-graduação em energia solar pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), surgiu quando passou a dar aulas na Universidade Federal do Pará, seu Estado natal.
Antes de ser reeleito deputado federal pelo PT em 2003, Babá exerceu dois mandatos como deputado estadual pelo partido, nos períodos de 1991 a 1995 e de 1995 a 1999. Exerceu também um mandato de vereador, entre 1989 e 1990. Era filiado ao PT desde 1981, quando se integrou à Convergência Socialista, uma das mais radicais correntes petistas na época.

João Fontes de Faria Fernandes, 45 anos, nascido no município de Aracaju (SE), é advogado, casado com Helane Cardoso Mendonça Fernandes e tem uma filha. Formou-se em Direito pela UFS (Universidade Federal de Sergipe), em Aracaju. Exerce o seu primeiro mandato na Câmara. Presidiu o PL em Sergipe (87-88) e depois pertenceu ao PSB (96-98). É ligado à Arquidiocese de Aracaju (SE).
Foi diretor da Secretaria de Segurança Pública de 1979 a 1982 (na época, o governador era Augusto Franco, do PDS). De 1982 a 1987, advogou para a Energipe e, de 1987 a 1989, presidiu a empresa. Na época, o governador do Estado era Antonio Carlos Valadares, então no PFL. Fontes presidia o PL regional.

Em 1994, Valadares foi eleito senador pelo PP. Em 1995, após a fusão de seu partido com o PPR, de Paulo Maluf, Valadares entrou no PSB. Em 1996, Fontes também ingressou no PSB.
Com a posse de João Augusto Gama (PMDB) na Prefeitura de Aracaju, em 1997, Fontes se tornou presidente da Funcaju, ficando no cargo até 1998. Ingressou no PT em 1999. Foi eleito deputado em 2002 com 28.879 votos.

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