COMEÇOU A LAVAGEM CEREBRAL

Foi rápido e rasteiro. Não demorou. Estamos sob o império do controle da informação. Secretaria de Comunicação da Presidência de República começou a lavagem cerebral na mente dos brasileiros. Notícias e publicidade. Mesmos métodos do governo hitlerista, quando Goebels, ministro da Propaganda poluiu a cuca dos alemães, propagando e divulgando fatos nem sempre reais. Era oba-oba. Estamos chegando lá.

Está na Internet, produzido pelo Palácio do Planalto, balanço extraordinariamente ufanista do primeiro ano do governo Lula.

Calhamaço de l38 paginas, com quatro capítulos: "A mudança já começou". Inverte fatos sobejamente conhecidos. Enfatiza, os avanços para recuperar décadas de estagnação, tentando justificar o aumento do desemprego e queda da renda do trabalhador. Admite que investimentos públicos e privados encolheram e que o crescimento, por si só, não é condição suficiente para que se alcance o desenvolvimento com inclusão social. Só se for com passe de mágica. Vai por aí, dourando sua imagem de que o País está às mil maravilhas. Sabemos que não é bem assim.

Lamentavelmente, o que se viu até agora foi uma maratona de longos discursos, promessas, pressões, cobrança, articulação política, corte de verbas, desencontros entre os ministérios para execução dos projetos governamentais etc. Assistimos ao desentrosamento, duplicação de tarefas, cada qual querendo demonstrar melhor performance.

O Brasil está precisando de projeto estratégico de desenvolvimento, programas, tudo devidamente intercalado e controlado. Ministros ineficientes, causadores da má avaliação, devem ser substituídos. Escolha precisa ser baseada em perfis operadores, gente competente, com ação e pouca falação.

Causa preocupação entre os profissionais de imprensa do Planalto o comportamento da Secretaria de Comunicação da Presidência. Edita normalmente o boletim, de maneira que nem sempre apresenta os fatos como são. Recentemente, enquanto todos os jornais registravam a queda de Lula, segundo Pesquisa da Sensus, o boletim "Pesquisa" aponta altos níveis de aprovação de Lula. Mais uma prestidigitação.

Nas viagens presidenciais, repórteres são discriminados por não rezarem pelo catecismo do poder. Contam, como bons profissionais, tudo que acontece. Nem sempre agradam. Alguns são execrados como canalhas por integrantes do bloco dos "puxa-sacos".

São dois exemplos mostrando como a informação é dirigida com endereço certo. É a estatização.

Na publicidade, a situação é bem mais grave. Propaganda enganosa e mentirosa. Estadão denúncia que anúncio de paginas e mais paginas da Petrobrás, em toda a imprensa nacional, segundo o Procom, é de qualidade discutível porque omitiu fatos desagradáveis ao governo.

Se prazos do edital fossem cumpridos, a contratação da Plataforma P-52 não teria sofrido um atraso de oito meses. E cada mês, segundo advertiu na época a antiga diretoria da Petrobrás, significaria prejuízo de cem milhões de dólares para a empresa.

Também omitiu o fato de que a P-52 terá índice de nacionalização de 40%, abaixo portanto dos 45% previstos pelo presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra. Não explicou o peso dos impostos brasileiros. Só de ICM, pagará ao Rio de Janeiro a bagatela de l70 milhões de dólares, o que significa um sobre preço de l30 milhões de dólares sobre a mesma plataforma construída no Exterior.

A publicidade feita por determinação de Lula e Petrobrás diz que a plataforma será montada no Brasil. Mas, escamoteou noticia de que os cascos da embarcação serão construídos em Singapura – e é esta a etapa industrial que mais gera empregos. Contraria afirmações de Lula de que a estatal preferia dar empregos a estrangeiros e não a brasileiros.

Com ironia e ufanismo, Lula disse em Angra dos Reis, ao comemorar a encomenda: "houve até quem publicasse matéria paga em jornal, dizendo que era impossível construir aqui".

Lula tem uma estranha concepção sobre noticia. Tudo o que desagrada, é publicidade. Tudo o que favorece, é notícia.

Somente nessa arenga de Angra, os meios de comunicação paparam mais de 52 milhões de reais da rica bolsa da viúva.

Propaganda estatal é uma das principais fontes financeiras dos veículos de comunicação. Mais de sete por cento do mercado publicitário. Levantamento feito em 14 países mostra o Brasil superando os Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Na propaganda estatal, 58% de l,0l8 bilhão de reais gastos em publicidade pelo governo federal (administração direta e indireta) foi para a televisão. Boca rica. Não é à toa que as TVs massacram o público com anúncios governamentais inócuos, que não levam a lugar nenhum. Pura orgia de propaganda oficial, onde o poder aparece como segundo anunciante, atrás apenas do comércio de varejo. Verdadeira aberração.

Governo montou o aparato de comunicação oficial para fazer proselitismo, partidário ou ideológico.

Foi criada informalmente no Ministério da Comunicação uma rede de informação jamais vista no País, com estrutura que muitos grandes veículos de comunicação impressa ou eletrônica não possuem. São aproximadamente l.200 funcionários. Somente a Presidência da Republica emprega 75 funcionários numa agência de noticias própria, sem contar os ministérios e as secretarias especiais com assessorias de comunicação.

Entre outros recursos há: sistema de pronta resposta e de correção de notícias "equivocadas"; distribuição gratuita de noticias, que nada têm a ver com divulgação de atos oficiais. Hoje, em qualquer redação já se sabe que, em seguida à publicação de noticias ou editoriais desagradáveis ao governo, jorram cartas de protesto, alem do infalível "desmentido", numa verdadeira operação "abafa". O único propósito é intimidar o órgão da mídia que ousa ter uma visão dos fatos e de suas conseqüências discordante da que tem o governo.

Essa maquina diabólica está sob o comando de Luiz Gushiken, secretário de Comunicação, ex-bancário que não é do ramo, defensor intransigente da propaganda subliminar e outros métodos utilizados por regimes ditatoriais.

Elaborou o decálogo petista norteando a política de comunicação do governo alicerçada nos seguintes pontos: estimular patriotismo; motivar ações solidárias, criar hábitos produtivos e saudáveis; difundir a imagem do Brasil para o próprio Brasil e para o Exterior; mostrar o caráter de governo de equipe; difundir pensamentos elevados; passar a idéia de que o governo está arrumando a casa; mostrar que o social é o objetivo do governo; levar ao Exterior a idéia de que o Brasil busca a inclusão social; e insistir na necessidade das reformas Tributária e da Previdência.

Faz lembrar o velho Plínio Salgado que inventou o malfadado integralismo.

Público alvo é esse contingente de famintos, desempregados, doentes e as massas angustiadas e esperançosas, mostrando uma luz no fim do túnel.

Algo de muito sinistro está acontecendo. Faz lembrar a ditadura Vargas, quando jornais, revistas e rádios mamavam nas tetas do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Agora é o BNDES a injetar polpudos recursos nas empresas de comunicação. Segundo o presidente do banco, a industria de comunicação foi toda, em bloco, para a UTI do BNDES. Com liderança de jornais, seguidos pelas televisões, rádios e revistas.

Pacote é para salvar empresas endividadas. Endereço certo: TV Globo, que tem a maior dívida e chega a ser ameaçada de falência nos Estados Unidos.

É o PROER da mídia com indicação velada de que, se o governo não der dinheiro, ela será engolida pelos estrangeiros. Não podemos esquecer de que, agora, as empresas de comunicação podem ter participação de 30% de capital estrangeiro. Ficarão mais próximas. No Senado, tramita projeto aprovado por várias comissões, permitindo que os alienígenas tenham cem por cento das TVs a cabo.

Estamos construindo uma máquina de propaganda ameaçando o que nos resta de independência do jornalismo brasileiro. Será isso o que o povo brasileiro deseja?

ACÔRDO SECRETO COM O FMI

Muitos estão indagando se o Brasil precisava ter assinado um novo acordo com o FMI? Opiniões divididas. Especialistas do mundo econômico e

financeiro, favoráveis, dizem que estaremos resguardados em caso de nova crise mundial. Seguro prévio, segundo o ministro Palocci. Contrários comentam que, se o País estivesse bem, não havia necessidade de recorrer ao FMI.

Assunto muito tumultuado, com confusos pronunciamentos de autoridades e parlamentares. Até o presidente Lula, quando andava lá pela África, mandou dizer que não sabia se o acordo seria assinado. E o PT, que sempre satanizou o FMI, deitou manifesto repetindo o que Lula dizia em l968: "todas as políticas que o FMI tem para os países emergentes são de ajustes fiscais, que têm levado países a quebrar". Guido Mantega, ministro do Planejamento, mago da economia do partido à época, caiu de pau em cima de FHC. O acordo que assinou de superávit primário de 2,6% do PIB era "meta muito dura, duríssima. Podemos pagar como preço desse acordo uma recessão dura, duríssima na economia". Mudou. Agora ministro, apoiou superávit de 4.25% ofertado ao FMI.

E o acordo foi assinado no final do ano sem alarde. Estranhamente, ao fazer a analise de um ano de governo, Lula omitiu os termos do acordo. É secreto. Só os bacanas conhecem.

Existe temor de que esse pacto esteja nos mesmos termos de empréstimo do BIRD, sobre o qual o governo ainda não se manifestou. Alerta para o risco do Brasil, por causa de suas dívidas externas, próximas a um trilhão de dólares e causando turbulência econômica. Exige para concessão de novos empréstimos o aumento da contribuição previdenciária dos funcionários públicos ativos e inativos, extinção da multa de 40% do FGTS, mudanças do sistema tributário e trabalhista. Salienta que o Brasil está em situação vulnerável a eventos fora de seu controle e a situações de incerteza junto aos investidores. Fizemos a lição. Estão aprovadas as reformas tributária e da Previdência como foi "sugerido". Estranha coincidência.

Brasil gastou o ano passado, com a dívida pública interna e externa, mais de l54 bilhões de dólares, representando quatro vezes mais do que investiu em saúde e nove vezes mais do que destinou à educação. E cortou gastos sociais e de habitação.

Mesmo com esse empréstimo secreto, estamos no mato sem cachorro. Nossas reservas não são suficientes para cobrir nem metade dos vencimentos do corrente ano. Serão muito altos, superiores a 40 bilhões de dólares. Isso poderá pesar desfavoravelmente na avaliação do País pelas agencias internacionais de classificação de risco. Tudo faz antever nova ida ao FMI.

Estamos encalacrados, afundando cada vez mais nesse poço sem fundo. Tecnocratas do Fundo Monetário Internacional não perdoam nem a mãe, ao desenvolverem os programas de ajuste. Desconhecem a pobreza e pouco se importam com crianças, mulheres e homens miseráveis sem horizonte.

Precisamos abrir essa caixa preta informando quais as clausulas desse espúrio acordo. E já.

VEM AÍ UM MÍNIMO DE FOME

Começou a arenga do salário-mínimo que todos os anos se repete. Sempre o mesmo blá-blá-blá. Pais da pátria consignaram no orçamento a merrequinha de 276 reais. Apenas l5% dos indignos 240 reais. Inferior à queda na renda dos trabalhadores, que está perto dos 20%.

Catilinária de sempre. Previdência não suportará. Vai quebrar. Já está quebrada há muito tempo. Roubo, incompetência e outros desmandos bastante conhecidos.

Mágicos de cartola já se movimentam repetindo as velhas histórias de que municípios carentes vão falir, a Previdência sofrerá baque, inflação voltará, efeitos insuportáveis nas contas públicas, além de outras sandices. São os "engenheiros" financeiros insensíveis às necessidades dos pobres.

Salário mínimo que, dos mais vis, vem sofrendo uma degradação permanente. Não adianta comparações com o passado, do governo Vargas até o presente, ou com outros países.

Quando um repórter indagou do presidente João Baptista Figueiredo, que acabava de assinar decreto do novo mínimo, o que faria se ganhasse esse salário, ele respondeu:. "Daria um tiro na cabeça!" É o que muitos estão fazendo.

Aposentados ainda estão esperançosos. Lula prometeu dobrar o salário-mínimo em quatro anos. Seria 25% por ano, o que elevaria agora para 300 reais. Uma esperança que todos esperam se realize.

Túnel do tempo

"GALO CEGO"

A campanha comia solta. Em todo o Brasil aquele agito que muitos lembram. Iam ser reeleitos ou eleitos deputados estaduais, federais e senadores. Candidatos a governador e prefeitos disputariam. Não havia reeleição para cargos executivos.

Em São Paulo, um sabor diferente. Disputariam pela segunda vez Ademar de Barros e Jânio Quadros. Não se bicavam. Como cão e gato. Campanha em clima de provocações. Partidários desenvolviam campanha com provocações, ofensas e desforços físicos.

Metamorfose. Ademar ficou mansinho, mansinho. Cupinchada estranhou: onde se viu Ademar, sempre bom de briga, aceitar provocações sem reagir? Tinha explicação. Pela primeira vez em sua longa carreira política montou equipe de assessores para dizer como devia se comportar, ante as provocações de Jânio. Jornalistas de alto coturno convenceram-no de que não devia aceitá-las. Concordou. E assim foi durante toda a campanha, onde só tratou de seu plano de governo.

Jânio partiu para o pau. Bom de conversa, malhava Ademar como Judas em sábado de Aleluia. Não queria nem saber de plano governamental. Tinha sido governador, quando derrotou Ademar por pouco mais de dezoito mil votos e conhecia bem os problemas do Estado. Só atacava, denegria e caluniava, dando ênfase à corrupção que voltaria, se Ademar fosse o escolhido.

Quando Jânio assumiu o governo de São Paulo, mandou vasculhar a vida de Ademar desde que era criancinha de colo. Não encontrava nem pêlo em ovo. Vai daí que apareceu uma denúncia, segundo a qual Ademar havia comprado 36 automóveis Chevrolet sem concorrência pública. Processo correu feito raio. Justiça, que sempre foi lenta, dessa vez correu. Juiz de primeira instancia condenou Ademar por peculato. Jânio queria que ele fosse assistir sol nascer quadrado. Mobilizou toda policia para caçá-lo. Em vão. Ademar se mandou para o Exterior, foi morar num hotel de Santa Cruz de La Sierra, Bolívia. Depois, Paraguai, onde seu amigo, o ditador Stroessner, concedeu-lhe asilo. Não dormiu no ponto. Pediu "habeas corpus" ao Tribunal de Justiça paulista. Foi absolvido. Livre como passarinho, mas na tocaia. Queria dar o troco. Ficou com Jânio atravessado na garganta. Esperando dar o bote.

Carvalho Pinto sucedeu Jânio, realizando governo bem avaliado pela população. Jânio rompeu. Queria que o apoiasse. Carvalho Pinto tinha candidato próprio: José Bonifácio Coutinho Nogueira, que o povo chamava de "Zé Bonitinho".

Campanha eleitoral seguiu aos trancos e barrancos com agressões e acusações. Ademar bancou passarinho. Dizia que "canário na muda não canta".

Chegou o dia do encerramento da campanha. Momento para o palanque final. Cada qual escolheu uma cidade. Ademar decidiu por Ribeirão Preto, onde tinha densidade eleitoral. Cidade toda engalanada. Bandeiras e bandeirolas tremulando. Palhaços em enormes pernas de pau. Coristas exibindo as pernuxas. Uma "furiosa" – a banda de música – atacava marchinhas carnavalescas e outras músicas para delírio da multidão. Tudo era alegria e festa.

Palanque entupido de gente. Todos queriam aparecer ao lado do chefe e abraçá-lo. Flashes espoucando. Sinal de prestigio ser fotografado ao lado do líder. Prefeitos, deputados, vereadores e a cupinchada aguardando o grande momento. Assessores dando os últimos conselhos ao pé do ouvido, advertindo que qualquer crítica ou ofensa a Jânio poderia significar derrota. Dezenas de microfones das rádios da Capital e Interior próximos à boca do candidato.

Calmo, Ademar começou por agradecer aos correligionários e à população. No final, de repente, fez aquele gesto universal de "top-top" que todos conhecem, enquanto bradava: "Se o caolho, o galo cego ganhar, lá estou eu, pela segunda vez, fugindo para o Paraguai". Ovação geral, rojões espoucando. Ganhou a eleição com pouco mais de treze mil votos.

Apelido de Jânio prendia-se ao fato de ter uma vista perdida por causa do jato de um lança-perfume, durante baile carnavalesco. Quando presidente da República, um de seus primeiros decretos foi o que aboliu o uso de lança-perfume no País.

(*) Assis Corrêa Neto é jornalista e escritor. assiscorreaneto@uol.com.br

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