São Paulo está comemorando mais um aniversário. Onze milhões de brasileiros nela rejubilam-se pelos 450 anos de existência que a transformaram numa metrópole com mais de 1.500 quilômetros quadrados de edificações e 16 mil quilômetros de vias públicas no Planalto de Piratininga.

A cidade engalana-se merecidamente para reverenciar os que lhe deram origem e fizeram-na grande o suficiente para figurar entre as três maiores do mundo.

Ao longo de quatro séculos e meio, homens e mulheres com fé e fibra transformaram-na numa vitrina do Brasil, cadinho de raças que garante miscigenação e combina sobrenomes oriundos de 78 nacionalidades.

É imensa a alegria dos que nela nasceram ou se radicaram para constituir família, formar-se, trabalhar e viver em paz. Eu mesmo, aqui nascido, posso desfrutar de uma descendência que segue o modelo paulistano, pois, em meus netos, circula sangue árabe, italiano, português, japonês e austríaco. Contam-se aos milhões as demais famílias de São Paulo com características semelhantes.

São Paulo nasceu a 25 de janeiro de 1554 no pátio de um colégio religioso, sob a égide da espiritualidade. Mas, tem origens que remontam às décadas anteriores e ainda causam polêmica entre os historiadores. Tanto que, embora não haja dúvida sobre o nome do fundador oficial – venerável Padre Manoel da Nóbrega –, há respeitáveis autores que atribuem todo ou quase todo o mérito, ora ao Padre e Beato José de Anchieta, ora ao controvertido personagem João Ramalho. Entre os que se envolveram na polêmica, há nomes como os de Washington Luiz, Guilherme de Almeida, Mário Neme, Aureliano Leite, Francisco Pati e Tito Lívio Ferreira.

De qualquer forma, São Paulo deve sua existência aos portugueses vindos habitar as plagas de São Vicente, no litoral paulista, em seguida ao Descobrimento. Depois, ali fundaram a primeira cidade das Américas, sob a liderança de Martim Afonso de Sousa, em 22 de janeiro 1532. Assim, essa "Cellula Mater" da Nacionalidade, onde funcionaram pela primeira vez em solo americano os poderes executivo, legislativo e judiciário, comemora aniversário três dias antes da metrópole à qual deu vida após gestação de 41 anos.

"O Povoador"

Em 1531, quando Martim Afonso aportou com sua frota lusitana na povoação de São Vicente para elevá-la à condição de vila, foi recebido por João Ramalho, náufrago que ali vivia desde 1513 e, conforme o ritual indígena, desposara a formosa índia Bartira, filha do legendário cacique Tibiriçá.

Grande era a prole de Ramalho, aliás reeditada em todos os locais pelos quais passou, inclusive no Planalto de Piratininga. Daí a antonomásia que lhe dedicaram como "O Povoador". Ele chegou a escrever ao Rei de Portugal, reclamando o envio de menos padres e mais leigos, de maneira a ampliar e acelerar aquilo que entendia como legítima povoação das terras recém descobertas.

João Ramalho encontra-se entre os personagens mais relevantes, porém, injustamente, menos celebrados da História do Brasil. Filho de João Velho Maldonado e de Catharina Affonso, moradores na aldeia portuguesa de Balbode, nasceu em Bouzela (ou Vouzela), freguesia e comarca de Vizeu, Portugal, entre 1430 e 1493. Morreu com pelo menos 100 anos de idade, por volta de 1580, depois de fundar povoados e vilas também até no Vale do Paraíba, onde passara os derradeiros anos em meio aos índios tupiniquins.

Em 1512, deixara a esposa, Catarina Fernandes das Vacas, em Portugal e navegara até o litoral vicentino, onde naufragou. Foi acolhido por Tibiriçá e sua tribo guaianá (índios tupiniquins, um ramo Tupi). Casou-se com Bartira, também chamada de M'bicy, que significa "Flor da Árvore". Tiveram nove filhos, todos por ele registrados anos depois em Portugal.

Mas, João Ramalho gerou um número incalculável de descendentes com outras índias, tanto na região próxima a São Vicente, como no Planalto de Piratininga. Com o apoio desses mamelucos e dos genros, estabeleceu postos ao longo do litoral para comerciar com europeus, vender índios prisioneiros, construir bergantins e reabastecer navios em trânsito. Apesar da poligamia, era religioso e mantinha vínculos com a Igreja Católica, a ponto de fazê-la batizar-lhe todos os filhos, legítimos ou não.

Mausoléu de bronze na Catedral

Tibiriçá e Ramalho foram responsáveis pela expulsão, em 10 de julho de 1562, dos tamoios confederados que haviam assaltado a Vila de São Paulo. Aliás, desde o regresso de Martim Afonso de Sousa a Portugal, ambos permaneceram aliados a Braz Cubas contra os franceses e os que se diziam "antigos da terra", isto é, outras tribos que haviam formado a confederação para a Guerra dos Tamoios, de 1554 a 1567. Há registros históricos do assombro causado a visitantes lusos e castelhanos pela notável ascendência de Ramalho sobre os tupiniquins. Dizem, entre outras coisas, que ele podia "reunir cinco mil índios num só dia".

Martim Afonso presenteou-o com uma sesmaria no Planalto de Piratininga, onde, antes de São Paulo, Ramalho fundou a povoação da Borda do Campo, elevada a vila em 1553 pelo governador-geral Tomé de Souza. Deu-lhe o nome de Vila de Santo André da Borda do Campo. Hoje, a cidade de Santo André integra a região metropolitana de São Paulo como sede de um dos ricos municípios do ABCD, ao lado de São Bernardo, São Caetano e Diadema.

Tomé de Souza nomeou João Ramalho capitão e responsável pela segurança na região, onde também exerceu os cargos de alcaide e vereador. Ao escrever ao Rei de Portugal, o Governador-Geral do Brasil disse que Ramalho tinha "tantos filhos, netos e bisnetos que não ouso dizer a Vossa Alteza, ele tem mais de 70 anos, mas caminha nove léguas (a légua portuguesa eqüivalia a cinco quilômetros), antes de jantar e não tem um só fio branco na cabeça nem no rosto".

Após fundar São Paulo, o Padre Manoel da Nóbrega batizou Bartira com o nome de Izabel Dias e efetuou seu casamento com João Ramalho, abençoando uma união que já durava 40 anos. Com isso, Nóbrega resolveu um problema pendente desde 1550, quando o jesuíta Simão de Lucena excomungou Ramalho, devido a viver "amancebado" com Bartira.

O cacique Tibiriçá morreu em São Paulo de Piratininga a 25 de dezembro de 1562, após ter sido batizado pelo Beato José de Anchieta com o nome de Martim Afonso Tebiriçá. Seu corpo repousa num mausoléu de bronze, na cripta da Catedral Metropolitana de São Paulo, em reconhecimento ao decisivo apoio dado aos jesuítas para a fundação da cidade.

Tibiriçá e o genro ensinaram os padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta a chegar à região de "ares frios e temperados como os de Espanha" para fundar, no alto de uma colina do planalto, o Real Collegio de São Paulo, tosca cabana coberta de sapé, com 14 passos de comprimento por dez de largura. Servia de escola, dormitório, refeitório, enfermaria, cozinha e dispensa, conforme relato do próprio beato.

Nóbrega, a escolha

Como Superior da Companhia de Jesus no Brasil, Manoel da Nóbrega determinou a localização do colégio entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí e, como devoto do Apóstolo Paulo, escolheu o dia desse santo para fundar oficialmente aquela que viria a ser a primeira cidade brasileira estabelecida longe do litoral. A partir daí, a região de Piratininga serviu de base às Entradas e Bandeiras em direção ao interior, vindo a produzir a derrocada dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas.

Estes versos de Castro Alves resumem a saga daqueles destemidos missionários:

"Nada turbava aquelas frontes calmas,

Nada curvava aquelas grandes almas

voltadas para a amplidão...

No entanto, eles só tinham, na jornada,

por couraça a sotaina esfarrapada

e uma cruz por bordão."

A data de 25 de janeiro de 1554 foi marcada pela histórica missa que o padre Manoel de Paiva celebrou defronte à cabana, por ordem de Nóbrega, na presença do Beato José de Anchieta. Ao redor, formou-se uma povoação de índios convertidos. Dizia-se que todos eram parentes de João Ramalho.

Em 1560, a população de Santo André da Borda do Campo, situada no Caminho do Mar (a rota para São Vicente), mudou-se para as imediações do colégio por ordem de Mem de Sá, que a extinguiu como vila. Concomitantemente, São Paulo foi elevada a tal categoria.

Durante os séculos XVI e XVII, a vila paulistana mostrava-se pobre e isolada, mas em 1711 ganhou a condição de cidade. Seus habitantes eram basicamente portugueses e índios. Os primeiros negros africanos, trazidos do Congo e Angola, chegaram 35 anos depois.

Anchieta também nas origens

Ao lado de João Ramalho, Tibiriçá, Manoel da Nóbrega e Manoel de Paiva, o Beato José de Anchieta é personagem que marca as origens paulistanas de maneira terminante. Suas ações foram capitais para a consolidação do povoado, principalmente nos dez anos seguintes à fundação.

No colégio de sapé, Anchieta e outros jesuítas ensinavam Língua Portuguesa, Latim, Matemática, Teologia e História. Mas, logo o barracão mostrou-se pequeno demais. Entre 1556 e 1557, deu lugar a novas instalações feitas de "taipa de pilão", uma mistura de barro, areia, fibras, sangue e estrume de boi. E a catequese pôde ser ampliada.

Em 1760, os jesuítas foram expulsos da América Latina e tiveram todas as posses confiscadas, inclusive o colégio que passou à propriedade do governo. Renomeado como Largo do Palácio, abrigou a sede dos capitães-generais.

Dez anos mais tarde, foi transformado em centro cívico e cultural com a instalação da Academia Paulista de Letras. Em 1821, abrigou o Governo Provisório de São Paulo, um dos primeiros passos para a Independência do Brasil. No ano seguinte, o "Páteo do Colégio" (como está escrito em placas e documentos) recebeu um ilustre hóspede. Ou seja: após o Grito do Ipiranga, Dom Pedro I ali permaneceu por onze dias e escreveu o Hino da Independência.

Em 1881, o Presidente do Estado, Florêncio de Abreu, ordenou ampla reforma na fachada do prédio que, depois, com a República, teve a igreja transformada em Palácio do Congresso.

No início do século 20, a edificação estava totalmente descaracterizada. Passou a abrigar a Secretaria da Educação e foi demolida em 1953. Somente uma parede de "taipa de pilão" permaneceu preservada.

Finalmente, para resgatar a memória do local, ergueu-se outro prédio no Pátio do Colégio, área que reúne hoje uma capela e o Museu de Anchieta, com peças de arte sacra, relíquias, quadros, fotografias e objetos recuperados durante as obras entre 1953 e 1956.

Imigração maciça

Na primeira metade do século XIX, a cidade viu crescerem suas possibilidades de desenvolvimento, com a criação da Faculdade de Direito e a conseqüente afluência de estudantes e mestres que lhe enriqueceram a vida cultural. A maciça chegada de imigrantes acentuou o processo de crescimento na última década do séc. XIX.

Em 1808, surgiram os primeiros imigrantes não portugueses, um inglês de nome Mawe e um sueco chamado Gustavo Beyer. Mais três décadas, e a cidade ganharia seu primeiro Prefeito, quando a população era de 21.933 habitantes.

Portugueses, italianos e espanhóis começaram a chegar em massa por volta de 1880 e, após 7 anos de fluxo imigratório constante e crescente, o governo inaugurava a Hospedaria do Imigrante, no bairro do Brás, com capacidade para abrigar 4 mil pessoas. No ano seguinte, libertos da escravidão, os negros do Interior foram procurar emprego em São Paulo e criaram vários bairros na periferia.

Em 1890, a abundância de mão-de-obra estrangeira, em meio a uma população de 64.934 habitantes, permitiu a construção da Avenida Paulista. A imigração continuou a crescer e, em 1897, havia dois italianos para cada brasileiro. O italiano era a língua mais falada na cidade. Três anos depois, os espanhóis representavam 12% da população, que atingia a 239.820 habitantes. Fundaram, então, o Clube Hispano-Brasileiro, no Brás.

Os primeiros imigrantes sírios e libaneses chegaram em 1905. Desse ano até 1946, a Síria

nos mandou 50 mil novos habitantes. Entre eles – orgulha-me poder dizê-lo – estavam os meus pais.

Em 1908, surgiram os japoneses desembarcados do navio "Kasato Maru" e, em 1920, os primeiros 20 mil imigrantes armênios, na mesma época em que a Prefeitura inaugurava o Teatro Municipal. Três anos depois, a inauguração da escola judaica Renascença, no bairro de Higienópolis, marcava a chegada dos judeus. Quase todos foram fixar-se no bairro do Bom Retiro, mesclando-se à maior concentração de italianos já existente na cidade. Até o final da II Guerra Mundial, mais de 50 mil judeus imigraram para São Paulo.

Entre 1900 e 1920, a população dobrou, atingindo 580 mil habitantes. Ainda devido à II Guerra Mundial, aconteceu, em 1940, uma grande onda imigratória de japoneses. No total, durante o século, mais de meio milhão de súditos nipônicos iria incorporar-se à vida paulistana. Ao mesmo tempo, houve grande imigração de refugiados de guerra vindos principalmente do leste europeu. A população ultrapassou a marca do primeiro milhão e atingiu, no final da década, 1.326.261 habitantes. Isto porque, entre 1819 e 1940, 60% dos 4.705.367 imigrantes chegados ao Brasil haviam permanecido no Estado de São Paulo.

Os refugiados de guerra foram fundamentais para o crescimento da indústria. Entre os dois conflitos mundiais, a cidade recebeu pelo menos 100 mil europeus e orientais de elevada qualificação profissional.

Nordeste, fonte de migrantes

A década de 50 marca o início da migração provinda do Nordeste brasileiro, ao mesmo tempo em que cresce intensamente a atração de paulistas do interior do Estado para a capital, graças a sua acelerada industrialização. Os anos 60 assinalam a chegada de migrantes mineiros em grande número, ao mesmo tempo em que se intensifica ainda mais a migração nordestina, predominante até hoje.

Na metade da década de 60, uma nova onda imigratória tomou força quando a cidade já tinha 7 milhões de habitantes. Isto é, como resultado da guerra em seu país, levas de sul-coreanos deslocaram-se para São Paulo, onde vieram a destacar-se especialmente no mercado de confecções.

Na última década do século passado, diminuiu a migração e mais de 600 mil pessoas deixaram São Paulo. Mas, o crescimento vegetativo permitiu-lhe superar o índice de dez milhões de habitantes.

Hoje, mais de dez mil toneladas de alimentos frescos são comercializados por dia em mil supermercados, 950 feiras livres e 30 "sacolões".

A capital paulista adquiriu ares de centro prestador de serviços, mas ainda possui mais de 27 mil indústrias, além de 72 mil estabelecimentos comerciais. Os de serviços superam a marca de 90 mil. A metrópole dispõe também de 54 grandes "shoppings centers", 65 teatros, 200 cinemas, 33 bibliotecas e 29 museus.

Em contrapartida, o IBGE aponta a existência de 612 favelas, enquanto a Prefeitura diz ser esse número de 1.905. Dos 8.706 moradores de rua encontrados no último censo realizado pela Fipe – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, 64 por cento vieram de outros Estados.

Pólo educacional

Além de centro econômico e cultural, São Paulo transformou-se em pólo educacional ímpar para formação acadêmica em todos os campos da ciência e técnica. Suas universidades públicas e particulares formam milhares de profissionais e pesquisadores a cada ano, após atrair estudantes de todos os cantos do País. Obviamente, a cidade e, por conseqüência, o Estado beneficiam-se do imenso potencial assim gerado. Com ele, têm garantia de que sempre haverá base para verdadeiro desenvolvimento sustentado.

Para termos noção desse imenso potencial, basta exemplificar com a Universidade de São Paulo - UPS, a maior instituição de ensino superior e de pesquisa do País, a terceira da América Latina, classificada entre as cem organizações similares dentre as seis mil existentes no mundo.

Máquina de saber

A USP, como diz sua descrição institucional, "forma grande parte dos mestres e doutores do corpo docente do ensino particular brasileiro e carrega um rico lastro de realizações, evoluindo nas áreas da educação, ciência, tecnologia e artes." Oferece cursos de bacharelado e de licenciatura em todas as áreas do conhecimento. Na pós-graduação, dez dos 23 programas nacionais receberam nota máxima atribuída pela Coordenação de Cooperação de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério de Educação. Nela colam grau em média 4.600 estudantes por ano. A instituição dispõe, para isso, de 4.705 professores e 14.659 funcionários.

Criada em 1934 por decreto do governador Armando de Salles Oliveira, incentivado pelo então diretor do jornal O ESTADO DE S. PAULO, Júlio Mesquita Filho, a USP começou por incorporar algumas escolas existentes. A mais antiga é a Faculdade de Direito, que data de 11 de agosto de 1827 e por isso merece considerações à parte. Existe desde a instalação dos cursos jurídicos em São Paulo e Olinda pelo Imperador D. Pedro I e sempre permaneceu no Largo de São Francisco, no centro da cidade.

A Faculdade de Direito

De início, o curso jurídico ocupava o Convento dos Franciscanos, demolido para dar lugar ao prédio atual, em 1934. Um edifício de apoio veio complementá-lo, em 1993. Funcionam nesse conjunto a Biblioteca Central – a maior da América Latina na área jurídica – e as congêneres departamentais, à disposição de estudantes e quaisquer interessados.

Importante centro de discussão de idéias e temas de interesse nacional, a faculdade contribuiu e continua a contribuir para o pensamento jurídico, a política e a cultura brasileiros. Formou líderes do quilate de José Bonifácio de Andrade e Silva, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Visconde do Rio Branco e nove Presidentes da República: Prudente de Moraes, Campos Salles, Afonso Pena, Rodrigues Alves, Delfim Moreira, Wenceslau Brás, Arthur Bernardes, Washington Luiz e Jânio Quadros. Legou-nos também incontável número de governadores, prefeitos, parlamentares, magistrados, promotores públicos e delegados de polícia.

Entre os literatos que passaram pelas Arcadas – característicos arcos ao redor dos pátios da faculdade – figuram Castro Alves, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, José de Alencar, Vicente de Carvalho e Guilherme de Almeida.

Outros nomes de igual brilho indicam sua influência no cenário jurídico, entre eles Clóvis Beviláqua, João Mendes Júnior, Pimenta Bueno, Teixeira de Freitas, Vicente Ráo e Miguel Reale

Sempre surgiram acadêmicos da São Francisco à frente de importantes movimentos cívicos, como a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República e a Revolução Constitucionalista de 1932.

Alma de São Paulo

Há quem diga que o "espírito das Arcadas" reflete a "alma de São Paulo", tão impregnados ambos estão dos mesmos princípios libertários, igualitários e de solidariedade. Essa lendária correlação adquire ares de veracidade e sabor de mistério ao ver-se que, no único túmulo erigido em meio às Arcadas, repousam os restos mortais de João Júlio Godofredo Luís Frank – ou simplesmente Júlio Frank –, marco da trajetória iluminista incutida por esse enigmático personagem à faculdade.

Mas, São Paulo espelha uma sociedade aberta, sem segredos, sem tergiversações. Fácil é penetrar-lhe o íntimo, mesmo aos que nela aportam pela primeira vez. Nisso reside um de seus recursos para cativar a todos, logo incorporados como se em casa estivessem, graças aos ideais de vida, liberdade e solidariedade reforçados, durante séculos, por milhões de sofridos imigrantes. Cada qual, a seu modo, marcou a cidade com legados das origens, de maneira que tais marcas exteriorizam hoje a alma paulistana.

Aliás, a alma paulistana está à mostra para quem quiser ver e sentir. Basta despirmo-nos de preconceitos, andar atentos pelas ruas, olhar, ouvir e conversar. Encontraremos de tudo um pouco. Ou muito, caso percebamos que a cidade exibe em macro escala amostras de tudo aquilo que as civilizações levaram milênios, ao redor do mundo, para amoldar a parâmetros aqui acrescidos do repúdio a barreiras de cor, raça e credo político ou religioso. Parâmetros cimentados com o calor humano dos paulistanos, natos ou por adoção, que ignora desníveis sociais e minimiza a necessidade de longa convivência na criação de laços de amizade.

Facilidade de percepção

A facilidade de percepção da alma paulistana começa pelas coisas mais simples. Por exemplo, provar um bolinho de bacalhau acompanhado do chope que um bar da zona central da cidade oferece, desde 1940, religiosamente a zero grau e sempre com igual colarinho. Passa por uma visita a alguns dos teatros, bibliotecas, museus, centros culturais, "shoppings centers", livrarias, "cebos" e parques ecológicos que existem por toda parte. Leva à degustação das saborosas e exóticas iguarias do Mercado Municipal Central ou do Ceagesp. Atinge o frenesi consumista que se espalha ao redor das ruas 25 de Março, Oriente e José Paulino. E culmina com a observação da megalópolis, seja do cume do Pico do Jaraguá, seja do alto de algum dos imponentes arranha-céus espalhados pela cidade, inclusive o Edifício Itália. Há três décadas, no 46.º andar desse prédio, o mais elevado, um restaurante serve jantares em baixelas de prata com a cidade literalmente aos seus pés.

Qualquer roteiro para quem deseja sentir a alma paulistana pode, por exemplo, abranger uma passagem pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ali perto, está o Teatro Municipal, jóia arquitetônica construída a partir de 1903 e inaugurada oito anos depois como a idealizaram Ramos de Azevedo, Cláudio e Domiciano Rossi. Em seu palco, já se exibiram as maiores expressões internacionais da música clássica, da ópera e do balé. Agora, uma mini-série da TV Globo tem mostrado às novas gerações o teatro ambientado a um dos períodos que marcaram época, isto é, a Semana de Arte Moderna de 1922.

Pujança por todos os lados

Nosso passeio incluiria observar os edifícios Sampaio Moreira e Martinelli, os primeiros arranha-céus da cidade, além do Copan, que leva a assinatura de Oscar Niemeyer, e do Banespa, um dos cartões-postais mais populares. Defrontar-nos-ia com a imensidão do Vale do Anhangabaú, visto do Viaduto do Chá ou do Viaduto de Santa Ifigênia. Depois, nos levaria à fachada do Teatro Cultura Artística, com seu imenso painel de Cândido Portinari; à majestosa Catedral da Sé; ao antigo prédio dos Correios e Telégrafos na Avenida São João; ao Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, no Ibirapuera; à Casa das Retortas onde funcionava a Companhia de Gás, o extinto Gasômetro que se tentou transformar em centro cultural; ao Teatro Oficina, epicentro de movimentos político-sociais nos anos 60; à chaminé histórica da Avenida Matarazzo, verdadeiro monumento à industrialização do País; ao pedacinho de Japão reproduzido no bairro da Liberdade, especialmente o templo zen da rua São Joaquim; à Estação e ao Parque da Luz, também centrais, ambos totalmente restaurados; à imponente Catedral Ortodoxa, com sua cúpula fenomenal no bairro do Paraíso; a algumas das belíssimas sinagogas, como a Beth-el, na rua Martinho Prado; à magnificente mesquita da Avenida do Estado; ao Mosteiro de São Bento, fundado em 1598, no mesmo local em que até hoje acontece a tradicional apresentação do canto gregoriano aos domingos; à arquitetura gótica do prédio da Santa Casa de Misericórdia, construído em 1886 e que serviu de cenário para a novela "Terra Nostra"; ao poderio e à exuberância arquitetônica da Avenida Paulista; ao evocativo Palácio dos Campos Elísios; à Fundação Maria Luiza e Oscar Americano, no Morumbi; ao Museu da Imigração, onde se pode descobrir as próprias origens; ao histórico roteiro da Ladeira da Memória, com o primeiro monumento público de São Paulo, um obelisco em forma de pirâmide erguido em 1814; às autênticas vilas napolitanas ainda existentes no coração da Barra Funda; às elegantes butiques, que procuram imitar as lojas de grife responsáveis pela fama de São Paulo como capital de elegância e marcas famosas; às charmosas capelas que se engalanam para os casamentos, como a de São José, no Jardim Europa, e de São Pedro e São Paulo, no Morumbi; às festas típicamente italianas de N. S. Achiropita, no bairro do Bexiga, ou de São Vito e de São Genaro, no Brás.

Ficaríamos horas a sonhar com esse passeio imaginário, tantas são as opções de visitas existentes. Poderíamos ainda partir do Pátio do Colégio e seguir até o Autódromo de Interlagos, o Horto Florestal no Tremembé, o Museu do Ipiranga ou o Museu de Arte de São Paulo - MASP, um dos mais representativos neste hemisfério. Se andássemos mais um pouco, ficaríamos boquiabertos com o contraste existente no Jardim Ângela que concentra, lado a lado, portentosas mansões e algumas áreas humildes consideradas como de maior violência na cidade.

Existem, enfim, mil maneiras de sentir São Paulo. Mas, se houver muita pressa, será suficiente bater um papo enquanto se saboreia o inigualável pastel com caldo da cana, em qualquer uma das centenas de feiras-livres que se repetem por todos os bairros.

Problemas correspondem ao tamanho

Sabemos que os problemas paulistanos fazem jus ao tamanho da cidade. Infelizmente, há pelo menos duas décadas, tais problemas têm-se agravando, principalmente nos aspectos que mais angustiam a população como reflexo direto do que ocorre em todo o País. Ou seja: a insegurança e o desemprego. Deve-se lembrar, porém, que a hoje radiante metrópole nasceu de um ato de fé e esperança, no pátio de um humilde colégio. Para chegar a ser como é, precisou superar adversidades muito maiores por mais de quatro séculos.

São Paulo foi forjada na dificuldade e na luta. Retrata o dinamismo de uma população corajosa e determinada, que só almeja engrandecer o Brasil, trabalhar e viver em paz. É tudo o que sabemos fazer. E é o que continuaremos a fazer, sempre.

(*) Romeu Tuma é senador pelo PFL-SP, 1.° secretário e corregedor do Senado Federal. Aposentou-se como delegado da Polícia paulista após 50 anos de serviço. Foi diretor-geral e secretário da Polícia Federal, além de secretário da Receita Federal. O texto acima foi extraído de pronunciamento feito no Plenário do Senado Federal.

("Link" para "São Vicente recebeu o nome de mártir que morreu pela fé")

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