DEMAGOGIA NÃ0 ACABARÁ COM A FOME DO MUNDO

Miséria, pobreza e subdesenvolvimento são temas que empolgam. Durante cinqüenta anos, escrevi sobre assunto, entrevistando pessoas do ramo e acompanhando essas cansativas reuniões, verdadeiros piqueniques, que chefes de Estado programam em algum país para "salvar" a humanidade da chaga da miséria e do subdesenvolvimento. Pregação demagógica com frases feitas e de impacto.

Mais de uma dezena de encontros anuais, centrados em temas sociais como saúde, educação, promoção de desenvolvimento regional sustentável e crescimento com equidade, com vistas ao combate à fome, à pobreza, às desigualdades e à exclusão social. Agenda longa e complexa.

Neste ano, quatro cúpulas das Américas, Davos, Bombaim e Genebra. Inócuas. Sempre batendo na mesma tecla. Ao final, deitam bombástica e manjada declaração, assinada por chefes de Estado. Vários dias na mais absoluta mordomia, com presença de centenas de ministros, diplomatas e economistas. Resultados, sempre os mesmos. Blá-blá-blá.

A Cúpula das Américas, realizada em Monterrey, México, veio mais uma vez revelar a amplidão das divergências econômicas existentes entre os Estados Unidos e os países latino-americanos. Reencontro social de lideres ao final das reuniões produzem um texto chulo, cheio de lugares comuns abordando problemas mais velhos que a Sé de Braga: fome mundial e miséria.

Foi o que aconteceu no último encontro em Genebra. Com tantos problemas que afligem a humanidade, destacaram-se os manjados subdesenvolvimento, desigualdades sociais, miséria e fome. Temas surrados para os quais os grandes não estão nem aí.

Reuniões mais de caráter circense do que diplomático. Em Bombaim, representando o Brasil, Gilberto Gil, misto de cantor e ministro da Cultura, deu uma palhinha. Com seu pinho sempre afinado, lascou várias músicas de caráter social.

Lula, com fixação em acabar com a fome no mundo, propôs – e aceitaram – uma cruzada de todos mediante cobrança de imposto nos moldes da tupiniquim CPMF e de outros tributos. Todos assinaram, mas não deram a palavra. Não confirmaram de pé o que assinaram sentados.

É o que está acontecendo. Nos bastidores informa-se que, na realidade, as negociações foram muito duras e tensas, revelando que a forma de combater os problemas sociais não é alvo de consenso nem mesmo entre supostos aliados. A França insiste em aproveitar a iniciativa para incluir temas de segurança alimentar, que poderiam justificar o protecionismo na área agrícola. Argumento dos protecionistas é a necessidade de estabelecer a segurança alimentar na Europa e países pobres da África e Caribe.

Na ONU, o assunto é polêmico. A iniciativa de Lula significaria mudança na atual estrutura, que funciona como maneira de escoar alimentos produzidos nos Estados Unidos, com dinheiro americano. Sistema de subsídio via ONU. Lei de Gerson em Ação. Levar vantagem em tudo.

Muita falação e pouca ação. Em dez anos houve diminuição de apenas três milhões de famintos. Quem diz é a FAO – Organização da ONU para Agricultura e a Alimentação – acrescentando que serão necessários 47 anos para zerar a fome. E isto se forem cumpridas as Metas do Milênio, da ONU.

Os atuais 777 milhões de miseráveis poderão ser reduzidos a 440 milhões até 2030. Presidente Lula obcecado pelos famélicos alienígenas. Os nossos estão se lascando. Esperam as três refeições diárias prometidas na campanha eleitoral, que ainda não chegaram.

Comemorando primeiro ano do Fome Zero, que deveria ser grande marca social de seu governo, Lula não deslanchou. Precisou reformular as idéias. Advertiu que a expansão do projeto depende do crescimento da economia brasileira e de mudanças na estrutura social.

O forte naquelas reuniões internacionais são os banquetes pantagruélicos, onde os lideres jogam conversa fora. Desta vez não foi diferente. Produzida e assinada pelos 35 chefes de Estado presentes, a pomposa "Declaração de Leon" não gerará qualquer avanço nas relações entre os países. Apenas políticos tiveram alta visibilidade dos pronunciamentos, repassando aos respectivos públicos internos, com muito holofote e denúncias das iniqüidades sociais e econômicas, acompanhadas de ácidas críticas antiamericanas. Tudo como dantes no Quartel de Abrantes.

Fome, problema tão antigo quanto a própria vida. Velho como a humanidade. Em jogo, a própria sobrevivência da espécie humana que, para garantir perenidade, luta contra intempéries e outros inimigos. Precisa, dia após dia, encontrar com que subsistir – comer.

Como repórter há meio século, tive oportunidade de entrevistar no início da carreira o insigne professor Josué de Castro, autor de Geografia da Fome e primeiro diretor da FAO, organismo da ONU, para a Agricultura e a Alimentação. Analisou esse flagelo em todos os aspectos e apresentou sugestões como minora-lo, diminuindo a pobreza. Poucas foram adotadas.

Por outro lado, a pretexto lutar contra a fome e desigualdade, ativistas estão engajados na luta para criar uma rede mundial de protestos contra os Estados Unidos, Organização Mundial de Comércio –OMC e alguns países do primeiro mundo.

São milhares de agitadores promovendo passeatas e outros protestos, como os que ocorreram em Bombaim, na Índia, durante o IV Fórum Social Mundial. O primeiro encontro fora realizado em Porto Alegre e, como outros três, não fez nada de útil a não ser vociferar contra a globalização como um mal capitalista, uma exploração dos países mais pobres. Chavões da esquerdinha festiva como "soberania alimentar" ou "neoliberalismo é uma ideologia a serviço dos ricos". Invocando "Che" Guevara e Ghandi, afirmam que, diante do "imperialismo financeiro", a solução é cada comunidade produzir os alimentos que consome, pois "alimentos não são mercadorias". Não podia faltar a presença do ativista francês José Bovê, misto de agricultor e agitador violento. No Rio Grande do Sul, mobilizou centenas de fanáticos que participavam do l Fórum para destruir plantações de soja transgênica.

Agora, pretendem resolver os problemas universais da fome com reuniões e falatórios. Esquecem que a erradicação das piores manifestações de pobreza e miséria não é apenas um imperativo moral. Começa com investimentos nas crianças.

CORRUPÇÃO INCENTIVADA

Viva a corrupção! Países participantes da Cúpula das Américas derrotaram proposta americana de combate à corrupção em toda América. Foi rejeitada por 31 dos 34 participantes. A cláusula para abrir caminho à expulsão de países corruptos da OEA –Organização dos Estados Americanos não foi aceita. Sua adoção poderia significar a extinção do órgão. Portanto, a porteira continua aberta. Movimenta anualmente mais de um trilhão e meio de dólares no planeta, equivalente a 5% da economia mundial.

No Brasil, as práticas antiéticas, como sonegação, falsificação e contrabando, desviam aproximadamente 160 bilhões de reais, anualmente. Daria para financiar um em cada três dos projetos de infra-estrutura indispensáveis à modernização do País.

Lamentavelmente, continuamos assistindo a uma verdadeira sucessão de capítulos dessa nauseante e continuada novela da corrupção. Precisamos de uma "Operação Mãos Limpas", mais abrangente que a italiana, com integração de magistrados, promotores, parlamentares, policiais, executivos públicos e privados. Estamos na iminência de perder a luta para crime organizado.

NOVO FRACASSO NA FORMAÇÃO DA ALCA

Redundou no mais absoluto fracasso a reunião de Puebla, México, destinada a estabelecer novo formato para a Alca. Os Estados Unidos responsabilizaram o Mercosul pelo desfecho inconclusivo do encontro. Querem tudo em acesso a mercado de bens e agricultura, sem assumir compromissos em investimentos, compras governamentais e outras áreas.

O grande embate ocorreu entre Brasil e Estados Unidos. Uma vez mais. Não arredaram pé de suas posições. Americanos negaram-se a prometer a retirada dos subsídios agrícolas bilionários que oferecem aos seus agricultores e tornam impossível aos estrangeiros competir com eles. O Brasil, por sua vez, insistiu na tese de fazer uma Alca que entre em vigor aos poucos, com a liberação de um grupo grande de produtos só daqui a mais de uma década. A posição de ambos contribuiu para que o acordo continue se arrastando em ritmo incompatível com ganhos reais de prosperidade e modernização, associados à adoção das práticas do livre-comércio.

Muitos interesses. Protestos de milhares de pessoas. Impasses acalorados. Debates diplomáticos que duram mais de dez anos.

A Alca poderá se transformar no maior bloco comercial do universo, reunindo 800 milhões de consumidores, em 34 países com PIB total de doze trilhões de dólares. Para os destinos do Brasil, sua importância é das maiores. Supera a de qualquer medida que o governo possa adotar internamente.

Causou espécie em Puebla a linguagem inadequada e ridícula do negociador brasileiro, Adhemar Bahadian. Segundo afirmaram delegados brasileiros, revelou sinais de que a diplomacia brasileira pode estar ficando obsoleta para negociar acordos comerciais. Ele disse que, em negociações semelhantes no passado, "não teve essa frescura de retaliações cruzadas". Descreveu sua visão sobre o encontro, arrematando: "A Alca é como uma odalisca de cabaré barato, que, à noite, sob aquela luzinha calma, você acha uma deusa, mas, de dia, não é a mesma coisa e, às vezes, não é nem mulher".

TRANSGÊNICOS: BRASIL PERDE BONDE DA HISTÓRIA

O Brasil perdeu o bonde da historia. A ciência foi vencida pelos pretensos defensores do meio ambiente. A Câmara Federal aprovou a Lei de Biossegurança, encarada como vitória pessoal da ministra do Meio Ambiente Marina Silva e seus aliados diante dos ruralistas.

Pelas regras que regulamentam o uso de trangênicos no País, Marina Silva terá o poder de vetar a liberação comercial de um produto geneticamente modificado caso o IBAMA julgue que seu uso possa degradar o meio ambiente.

Milhares de pesquisas foram feitas para detectar se produtos transgênicos prejudicam a saúde e o meio ambiente. Estudos e pesquisas promovidos por organismos científicos e cientistas de nomeada mundial confirmam que produtos geneticamente modificado não prejudicam a natureza e os seres humanos. Até mesmo o leite e a carne de animais clonados são seguros.

Mas, o problema escapou da órbita cientifica e descambou para a política e ideologia sem capacitação à altura de teorias que possam desmentir a ciência. Esse não é o seu oficio.

Felizmente o Senado reexaminará a matéria. Espera-se a vitória do bom senso.

QUINTA EDIÇÃO DE "O GRANDE LIDER"

Lançado pela editora Geração Editorial, a quinta edição de "O Grande Líder", do consagrado escritor Fernando Jorge que já publicou mais de trinta livros. Oportuna a edição, passados mais de trinta anos da primeira.

Trata-se de romance satírico e picaresco baseado em fatos reais e cenas da vida social, cultural e política brasileira. Seu personagem fictício é Juca Piranha da Fonseca Albuquerque. Caricatura de políticos brasileiros, muitos dos quais permanecem na ativa.

Fernando Jorge, um dos maiores polemistas brasileiros, apresenta assim uma sátira da história política brasileira de 1910 até o movimento militar de l964. Se não leu, faça-o.

Túnel do tempo

LACERDA, O DEMOLIDOR

Carlos Lacerda foi um demolidor. Derrubou três presidentes: Getúlio Vargas, João Goulart e Jânio Quadros. Deputado federal pela UDN, pôr inúmeras legislaturas. Governador da extinta Guanabara, líder da oposição no governo de Juscelino Kubitschek e grande orador, não dava tréguas. Sua grande vítima foi Vargas. Virulenta campanha contra o ex-ditador, ancorada no jornal de Lacerda, Tribuna da Imprensa, levou-o ao suicídio.

Lacerda falava e escrevia com facilidade e bem. Fecundou ou destruiu personalidades e coisas de seu tempo. De grande e rica versatilidade, era capaz de debater os mais variados assuntos, com os maiores parlamentares da época.

Na sessão da Câmara das Deputados, em 5 de novembro de l957, quando se discutia cortes em emendas do orçamento relacionadas à educação, afirmou:

"A UDN sustenta que é necessário neste País proceder revolucionariamente no terreno da educação, se queremos, realmente, transformar o Brasil, modernizando-o para que se ponha, de acordo com as suas responsabilidades, na vanguarda das nações modernas. Somente uma educação primária suficiente e eficiente poderá libertar o brasileiro da miséria econômica e da tutela demagógica sob as quais ele é reduzido à condição de paria. Sustentamos a necessidade de, através da escola, três ou quatro gerações que preparem si mesmas e o País para o advento da automatização industrial, para o advento e a generalização da mecanização agrícola e para as aplicações da eletrônica e da energia atômica, instrumentos atuais com os quais o País poderá dar um salto no grande de vácuo aberto ao seu caminho como nação entravada e asfixiada."

Indiscutivelmente o bom ensino básico é necessário para se chegar preparado à universidade. Equivocadamente, partimos para um sistema onde alunos não repetem o ano. O resultado aí está. Universitários despreparados e desqualificados para enfrentar a vida.

(*) Assis Corrêa Neto é jornalista e escritor. assiscorreaneto@uol.com.br

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