Promovido por várias entidades e incentivado por parentes de vítimas dos criminosos violentos, o Movimento Chega de Impunidade continua a crescer. Dia 14, promoveu mais uma manifestação de repúdio ao banditismo, desta vez sob a Marquise do Parque Ibirapuera, defronte ao MAM – Museu de Arte Moderna.

Enquanto tentam sensibilizar quem pode barrar a escalada da violência através do aperfeiçoamento e aplicação da lei, aquelas entidades vêem repetirem-se fatos que estão a demonstrar uma total inversão de valores: para os criminosos, tudo; para as vítimas, o rigor da lei. É o que aconteceu dia 6 do corrente em Recife, onde o delegado Cleurinaldo de Lima autuou em flagrante de homicídio e encarcerou a universitária A.K.B.A., de 25 anos.

Ela fora estuprada sob ameaça de revólver, após deixar a faculdade na companhia da irmã, de 20 anos, e uma prima, de 22, também alunas do estabelecimento. O ex-presidiário Fábio Galdino de Sena, de 25 anos, em liberdade condicional após cumprir parte de uma pena por seqüestro e estupro, atacou as três e levou-as no automóvel de A.K.B.A. até o matagal onde as seviciou. Durante os momentos de terror, Fábio descuidou-se e a garota apoderou-se da arma. Mas, o criminoso não se intimidou e retomou o revólver. Todos entraram em luta corporal. A.K.B.A. conseguiu recuperar a arma e alvejou o peito do delinqüente. O estuprador entrou no carro, conseguiu dirigir por 100 metros e morreu. As vítimas saíram desesperadas à procura da Polícia, mas a autora do disparo acabou no xadrez.

O episódio dá clara demonstração de que o racional, entre algumas autoridades, é interpretar canhestramente a lei para privilegiar os bandidos, até quando morrem durante e em conseqüência direta da própria ação criminosa.

"Um equivoco lastimável"

O pesadelos das estudantes durou 1 hora. Foram raptadas por Fábio Galdino às portas da faculdade. Pensaram que ele quisesse apoderar-se do Santana prata de A.K.B.A. O marginal, porém, sentou-se no banco traseiro e obrigou-as sob a mira da arma a seguir adiante. Depois, estuprou as duas irmãs e, quando pretendia repetir a violência, foi morto.

Uma guarnição do Núcleo de Segurança Comunitária da Muribeca foi solicitada pelas vítimas, que correram pela estrada PE-25 em busca de ajuda. A autora do disparo estava nua, ainda segurando o revólver do estuprador.

Levadas à Terceira Turma do Plantão dos Prazeres, o delegado Cleurinaldo de Lima optou

pela prisão em flagrante e, depois, disse à imprensa: "Foi apurado a conseqüência da legítima defesa, mas não cabia a mim dirimir os fatos jurídicos e sim à Justiça".

Horas depois, o diretor da Polícia Civil pernambucana, Anibal Moura, afastou o delegado e justificou: "Foi um excesso, um equívoco lastimável e eu determinei a instauração de sindicância para apurar o fato."

Todavia, mesmo depois de as vítimas serem levadas ao pronto-socorro, A.K.B.A. permaneceu sob custódia, pois o flagrante fora lavrado e só um juiz poderia libertá-la. Ficou presa até a tarde do dia seguinte, quando o advogado de sua família conseguiu que o juiz Ossamu Eber Narita, do Júri da Comarca de Jaboatão dos Guararapes, relaxasse a prisão. O magistrado argumentou, entre outras coisas, que "também não houve flagrante delito, uma vez que as vítimas se apresentaram espontaneamente à autoridade policial não para confessarem qualquer crime e sim para buscarem socorro e amparo".

Nem os bichos do Zôo escapam

Enquanto isso, em São Paulo, nem os animais do Jardim Zoológico da capital paulista escapam da violência. No maior zôo da América do Sul, dez bichos foram envenenados e mortos em treze dias, desde o mês passado: uma elefanta importada da África do Sul, três dromedários da República Checa, três antas brasileiras e três chimpanzés doados por circos daqui. Os exames de laboratório comprovaram que os animais ingeriram dois tipos de veneno para ratos, um deles de uso proibido no Brasil.

Entre as antas estava "Melancia", nascida recentemente e que recebeu tal nome devido às faixas brancas na pele. Fora escolhida como símbolo do 450.º aniversário da cidade de São Paulo.

A polícia paulista está investigando o caso e a vigilância no Zôo foi reforçada. Nos 45 anos de existência do estabelecimento, nunca havia acontecido algo semelhante. E ainda há quem duvide da maldade congênita que renasce em alguns seres humanos.

Manifestação no Ibirapuera

A manifestação organizada pelo Movimento Chega de Impunidade, no Ibirapuera, teve o apoio da APADDI – Associação Paulista de Defesa dos Direitos e das Liberdades Individuais, Associação Paz com Justiça "Liana Friedenbach" e MRC – Movimento de Resistência ao Crime, entre entre outras entidades. Participam também as famílias de Felipe Caffé, José Carlos de Souza, Marcel Gonçalves e Rodrigo Damús, todos mortos por celerados.

Os organizadores valeram-se principalmente da Internet para a divulgação. Apelaram para a solidariedade e informam que continuarão colhendo assinaturas em manifesto a favor da redução da maioridade penal.

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