Se o Nordeste padece há décadas sob o peso da "indústria da seca", pode-se dizer que a cidade de São Paulo é flagelada pela "indústria das águas". Levantamento feito pelo jornal "DIÁRIO DE S. PAULO" gerou matéria publicada dia 11 último, dando conta de que, nos últimos 15 anos, a Prefeitura paulistana investiu R$ 1 bilhão em obras de combate às enchentes sem impedir o que se viu: destruição, desespero e pelo menos 140 mortes. Eis o que revelou a matéria assinada pela repórter Viviane Raymundi:

"A cidade de São Paulo tem pago nas últimas décadas pela falta de planejamento que permitiu a ocupação das margens de seus córregos e rios, reduzindo as áreas próprias para o escoamento de água. As enchentes, que desorganizam a rotina da cidade inteira, levam milhares de pessoas ao desespero e arranham a reputação de qualquer prefeito, não surpreendem os especialistas. São previsíveis pela época e pela localização. As regiões do Aricanduva, do Pirajussara e do Anhangabaú são só alguns exemplos de pontos que sempre podem submergir, levando na correnteza carros, móveis, utensílios, casas — e vidas. Levantamento feito pelo DIÁRIO mostra que, nos últimos 15 anos, pelo menos 140 pessoas morreram por causa das chuvas.

"Nesse período a Prefeitura de São Paulo investiu quase R$ 1 bilhão em obras de combate às enchentes. Não é muito dinheiro. Seria necessário gastar 15 vezes mais, nos próximos 50 anos, para

conseguir controlar a selvageria das águas.

"Em São Paulo foram feitas canalizações, ampliações de galerias, muros de contenção, além dos piscinões, que se tornaram idéia fixa dos políticos depois do pioneiro reservatório do Pacaembu, na Zona Oeste. Antes dele, a cena de carros boiando pela Avenida Pacaembu era até corriqueira no verão. Planejada por Luiza Erundina mas inaugurada por Paulo Maluf, a obra foi recebida em clima de grande desconfiança.

"Hoje, há na cidade 14 piscinões. "Há ainda diversas obras para serem feitas, que exigem muito investimento. Algumas foram realizadas, mas os resultados não são imediatos", lembra o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Mário Thadeu Leme de Barros. A situação do Córrego Aricanduva é um exemplo. Em fevereiro de 2001, o córrego transbordou. Carros foram arrastados e a água chegou ao teto das casas. Na região, existiam três piscinões. Mais cinco foram construídos, mas ainda faltam três para o projeto ser concluído.

"Com a chuva fortíssima de 104 mm de quarta-feira, os oito piscinões pareceram inúteis — mas podem ter evitado tragédia maior. "A chuva foi muito além da média da região", explica o secretário de Infra-Estrutura Urbana, Roberto Bortolotto. Só para a Capital, estão planejados mais 29 piscinões. Além das obras municipais, há ainda as estaduais, como o rebaixamento da calha do Rio Tietê: nos últimos dois anos, o rio não transbordou. "Mas não há solução definitiva. É como reumatismo: tem tratamento, mas não tem cura", diz o professor de drenagem urbana da USP, Rubem La Porto".

Mensagem para O JORNAL

Volta à 1.ª página