matraca2.gif (20686 bytes)A MATRACA

Assis Corrêa Neto

BRASIL NÃO TEM PROJETO

Estou de saco cheio. Povão também. Não suporta mais. Reinvenção da roda, cópias de programas já existentes, que só mudam de nome, falácias, saudosismos, rompantes, metáforas, promessas de que País está melhorando e vai melhorar ainda mais. Em todos os escalões. Otimismo vivido pelos poderosos da ilha da fantasia que estão em outra galáxia. Ainda não caíram na real.

Todos os setores estagnados. Bancos, fundos de pensão, grandes empresas e aqueles que operam apenas o capital especulativo, únicos que conseguem auferir lucros estratosféricos.

Desemprego cresce ultrapassando dois milhões e meio, renda da população continua caindo e economia despencando. Esse o quadro real do Brasil atual.

Estamos nos aproximando de uma situação crítica. Governo sem projeto, determinando a criação de uma linha mais propositiva. Falta definição de diretriz.

Muitos são os fatores impedindo deslanche de nosso processo de desenvolvimento econômico. Entre eles a dissensão entre integrantes do governo e PT, desestimulando o empresário a investir em grandes projetos, especialmente, se faltarem segurança jurídica para a aplicação do capital.

Setores de energia, mineração, portuário, ferroviário, rodoviário vêm sentindo os efeitos da burocracia ambiental. Maior responsável é IBAMA. A pretexto de cuidar do meio ambiente vem protelando a liberação de licenças. Ministério, comandado pela esquerdínha festiva e capitaneado pela ministra Marina Silva, vem dificultando investimentos na área de infraestrutura.

Dos quase dezessete bilhões de reais do orçamento da infra-estrutura, foi liberado pelo BNDE um bilhão. Desembolsos para projetos industriais de porte estão rareando.

Investimentos produtivos vêm encolhendo cada vez mais e nossa economia continua se sustentando nas comodities agrícolas e minerais.

Estamos não só à margem do comércio mundial, mas também da fonte de Investimentos Diretos Estrangeiros –IDE. Estão saindo mais do que realmente entram no País. Ingresso bruto de IDE até setembro passado somou 6,4 bilhões de dólares em contraste com 23,5 no mesmo período de 2002. No ano passado 7,7 bilhões de dólares foram repatriados, voltaram para seus países de origem, enquanto 2,45 bilhões foram conversão de dívidas. Ocorreu retrocesso de 4,2 bilhões de dólares.

Investimentos externos estão buscando países mais atraentes para implantar seus projetos. Investidores internacionais disponibilizaram no ano passado 650 bilhões de dólares para o comércio e os investimentos. China, México e Índia receberam em torno de 190 bilhões. Nossa participação foi da ordem de 1,5%, considerada inexpressiva. Participamos com apenas de um por cento das exportações mundiais. Estamos à margem do comércio exterior e perdendo terreno para a enorme quantidade de recursos externos privados em busca de oportunidades. Se não houver drástica reação, ficaremos na crescente dependência de empréstimos e de saldo comercial.

DECISAO JUDICIAL É PARA SER CUMPRIDA

Decisão judicial não se discute. Cumpre-se. É o que INSS deveria fazer sem chiar. Amir Lando, outro mágico de cartola, quer transferir para patrões e empregados a conta de treze bilhões de reais, que o governo garfou dos trabalhadores.

Felizmente presidente Lula abortou insanidade de seu ministro. Ministério da Previdência tem caveira de burro. Primeiro Berzoini, que obrigou velhinhos de noventa anos a se recadastrar, e agora Lando com proposta pouco criativa.

Ministros como esses e muitos outros incompetentes e sem experiência administrativa é quem vem determinando queda na avaliação de Lula.

Pagamento da diferença aos aposentados não pode ser feito por toda sociedade, sem que governo sangre um real de suas contas. Há gorduras a cortar, desperdícios a conter e cobranças a fazer. É daí que deve sair dinheiro dos aposentados e não do bolso, já bastante combalido, de empresas e empregados. Nada de pagamento parcelado com prazos humilhantes. Vamos exigir pagamento à vista. Dinheiro da tunga de que fomos vitimas.

Governo continua mantendo sua postura habitual, desviando verbas orçamentárias especificas, como saúde, combustíveis e outras para tampar buracos. Tudo para cumprir metas de superávit fiscal, estabelecidas pelo polvo devorador que é o FMI. Como somos bonzinhos e subservientes ultrapassamos as metas exigidas. Pagamos ano passado, de juros, impressionante cifra de 154 bilhões de dólares. São quase treze bilhões por mês ou 433 milhões por dia. Este ano, 174 bilhões. Não há tatu que agüente.

Líder do governo no Senado, com porte de senador romano e cérebro de Primo Carnera, boxeur do passado, descobriu a pólvora. Diz que esse dinheiro deve sair da sociedade. Memória fraca. Esquece que a sociedade é que banca tudo neste País. Inclusive seus polpudos subsídios e aquele imoral pagamento de 25 mil, pela convocação extraordinária do Congresso. Inútil e escandalosa serviu para engordar a bolsa de deputados e senadores.

Nossa carga tributária é a segunda maior do mundo e não suportaria mais 3% que Lando queria nos impingir. Virou ministro. Como Berzoini, queria ferrar os coitados dos velhinhos.

Seus suplentes no Senado, na mira da justiça. Mário Calixto, que foi sócio de Amir Lando, teve sua posse anulada pelo Senado, muito embora "exercesse" o mandato por onze dias, com direitos políticos cassados. Igualmente alvo de 146 processos.

Por sua vez, segundo suplente, Eifas Paulo da Silva, empossado, é alvo de l7 processos na justiça, com ações penais, cíveis, de reparação de danos, indenizatórias e execuções fiscais. Fatos como esse já têm ocorrido, o que vem demonstrar a necessidade da extinção dessa esdrúxula figura do suplente. São os senadores sem voto. Dez na atual legislatura. Sem nenhuma densidade eleitoral, biografia desconhecida,

alguns com desvio de conduta, surgem como verdadeiros "pára-quedistas". São grandes financiadores titulares, muito dos quais estão na mira da justiça. Enfiam-nos goela abaixo filhos, mulheres, irmãos, primos e pessoas que não conhecemos e não votamos. Eleitor foi enganado. Comprou um senador e levou outro.

Com a discussão da reforma política, espera-se que o Congresso examine esse e outros assuntos, oferecendo ao País instrumentos destinados a melhorar nosso sistema eleitoral.

GOVERNO RECUA COM BERRO DO MST

Bastou um berro do MST para governo abrir as pernas.Com um passe de mágica, abriu baú e liberou grana para a desapropriação de três fazendas para reforma agrária. Lula mandou liberar verba suplementar, l,7 bilhões de reais, que se somará aos l,4 bilhões ao orçamento.

João Pedro Stédile disse que sem-terra vão "infernizar" País com invasões neste abril, chamado por ele de "mês vermelho". Essa tem sido a tônica do MST, com ameaças e incitações ao crime, à violência, às invasões ao desrespeito da lei e ordem pública.

Agitador José Rainha Jr., outro líder sem-terra, afirma que a reforma agrária não será feita por meio de decreto e sim com "facão". Seu único objetivo: desestruturar governo, solapar estruturas do Estado de Direito e acabar com a propriedade privada.

Não podemos de forma alguma ser contra o movimento sadio dos sem-terra que querem seu pedacinho de terreno para plantar e com isso no mínimo alimentar suas famílias. Mas, não podemos concordar com esses pretensos e ignorantes defensores dos humildes que usam métodos violentos, espúrios e raivosos. Pretendem com isso instituir o socialismo no País.

Complacente e leniente, Lula em mais um de seus rompantes acaba de afirmar que a reforma agrária "não vai ser feita no grito, nem no grito dos trabalhadores nem dos que são contra. Nenhuma terra produtiva será mexida". Ledo engano. Ninguém deu a mínima. Em apenas l3 dias foram invadidas 27 fazendas, em dez Estados, muitas das quais produtivas.

Grito foi oficialmente instituído para atender descontentes, de sua base de apoio. Governo recuou diante da chantagem do MST, da mesma forma como havia recuado, concedendo cargos e liberando emendas de parlamentares, diante das chantagens de quem ameaçou deixar a base aliada,. Nessa picaretagem estão incluídas emendas excluídas relativas a 2002/2003. Mais três bilhões de reais sangrando bolsa da viúva. Estão abertas as "burras", de onde se esvaem dinheiro público e autoridade governamental. Basta gritar para continuar levando a grana.

ESTAMOS PERDENDO GLOBALIZAÇÃO INDUSTRIAL

Brasil abandonou a Alca –Área de Livre Comércio das Américas. Adotará a tática de fechar o mais rápido possível acordos comerciais com pelo menos trinta economias em desenvolvimento, na seqüência da linha de aproximação Norte-Sul. Pé em duas canoas. Continuará como co-presidente da Alca ao lado dos Estados Unidos.

Vamos chegar atrasados. Existem no mundo, já assinados, 270 acordos bilaterais ou regionais de livre comércio e sessenta novos dos quais sete estão em negociações. Perderemos mais espaços irreversíveis se for mantida situação atual, na qual outros, mesmo emergentes ou em desenvolvimento, agem enquanto ficamos falando em soberania.

Precisamos de nova estratégia, abrangendo condições de acesso, regras de investimentos, serviços e compras governamentais. Cobramos abertura de mercado, mas não oferecemos propostas suficientes no capitulo de regras, o que é irrealista. Venceu corrente esquerdista. Itamarati e setores do Planalto sempre subestimaram possibilidades da Alca. Com essa estratégia é bastante evidente que as exportações brasileiras, ainda que em expansão, crescerão menos do que poderiam crescer. Um país que detêm menos de um por cento do comércio mundial não precisa de "soberania" nesse campo. Há quem considere tal política uma prova de patriotismo.

Túnel do tempo

VACA FARDADA

Último dia 1º de abril foi marcado pelas comemorações do quadragésimo aniversário do movimento militar, que redundou na deposição do presidente João Goulart.

Com exceção da Guanabara, onde governo dispunha de uma situação favorável. Vila Militar, unidade de maior poder de fogo, controlada pelos oficiais legalistas. Dispositivo do governo contava ainda com a Base Aérea de Santa Cruz e o Corpo de Fuzileiros Navais. As demais unidades de todo País conspiravam há muito para depor Goulart.

Diante de uma possível reação das forças legalistas, com ameaça de reações violentas, os conspiradores decidiram que movimento eclodisse em outro Estado. Escolhida Minas Gerais, marchar contra a ex-capital da República, onde, se supunha, haveria forte resistência das tropas fiéis a Jango.

Marcha deveria ocorrer entre os dias 2 e 8 de abril. Curiosamente, uma superstição do general Carlos Luís Guedes, comandante da Quarta Divisão de Infantaria, em Belo Horizonte, tornou-se o fator "sobrenatural" do sucesso da operação, mesmo considerando-se que a surpresa da decisão facilitou deslocamento das tropas sem enfrentar nenhuma resistência. Segundo Guedes, a ação deveria ser desfechada antes do dia 2 ou depois do dia 8, porque "tudo que começa em quarto minguante não dá certo".

Por sua vez, o general Olímpio Mourão, comandante da Quarta Região Militar, teve sua ação definida como uma "manobra intempestiva". Definiu o dia, depois de passar a noite em claro. Com o "Estado-Maior Revolucionário", às 3 horas do dia 3l de março de l964, determinou para as 6 horas o inicio das operações.

Mourão não era muito familiarizado com imprensa. Ao chegar à Guanabara, dias depois, declarou: "Sobre política, sou uma vaca fardada".

(Assis Corrêa Neto é jornalista e escritor. assiscorreaneto@uol.com.br )

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