Desemprego bate novo

recorde em São Paulo

Mais um nível de desemprego recorde foi atingido na região metropolitana de São Paulo. Prevendo o que está por vir, o PMDB, principal partido de sustentação do governo no Congresso Nacional, ameaçou retirar seu apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso não mude o rumo da economia nacional, no sentido de promover crescimento econômico, distribuição de renda e geração de empregos. E o líder do governo na Câmara – deputado Miro Teixeira - renunciou ao cargo.

A taxa cresceu de 19,1% (janeiro) para 19,8% (fevereiro) da População Economicamente Ativa (PEA), o mais alto índice registrado no mês desde o início das pesquisas pela Fundação Seade/Dieese em 1985. Este é também um dos piores índices dos últimos meses. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, a taxa de desemprego atingiu o recorde de 20,6% da PEA, em abril, maio e setembro.
Economistas ligados ao PT argumentam que o desemprego costuma aumentar em fevereiro. Mas, a crise econômica agravou a situação este ano. Para os técnicos do Seade/Dieese, somente um crescimento sustentável pode garantir a criação de postos de trabalho continuamente.

A combinação de dois elementos – a crise econômica e a crise política desencadeada pelo escândalo Waldomiro Diniz – pôs abaixo a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. Em março, teve queda de 5,7 pontos percentuais, segundo pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte.
Entre os dois mil entrevistados, 59,6% aprovam o desempenho de Lula, contra 65,3 %, em fevereiro. O índice dos que desaprovam passou de 24,2% para 30,5%. O governo também perdeu pontos. Os que avaliam a atuação da equipe de
Lula entre ótima e regular caiu de 80,5% para 77,3%. Entre os que consideram entre ruim e péssimo, o aumento foi de 4,3 pontos percentuais, de fevereiro para março. Há poucos dias, nova pesquisa mostrou desprestígio governamental ainda maior.

Quase 2 milhões de desempregados

De acordo com levantamento Seade/Dieese, o número de desempregados na região metropolitana chegou a 1,926 milhão. Mais 58 mil pessoas passaram a fazer parte do número de desempregados. Isso porque foram eliminadas 109 mil vagas, enquanto 51 mil pessoas deixaram de procurar emprego.
Todos os setores fecharam postos. A indústria eliminou 21 mil vagas, enquanto o comércio fechou 25 mil postos. O setor de serviços foi o que mais demitiu, com o fechamento de 42 mil vagas, principalmente do trabalhador registrado no iniciativa privada e no setor público. Os setores da Construção Civil e Emprego Doméstico também eliminaram 21 mil vagas. Com isso o nível de ocupação caiu 1,4% no período, estimando-se que o número de trabalhadores tenha ficado em 7,801 milhões de pessoas.

Situação do País

O que está acontecendo na região metropolitana de São Paulo reflete-se na situação do País e está embutido nos índices divulgados há dias pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). De acordo com esse levantamento, a taxa de desemprego foi de 12% em fevereiro.

O rendimento médio real cresceu ligeiramente (0,5%) em relação a janeiro de 2004, mas caiu 5,7% em relação a fevereiro de 2003. Segundo o IBGE, os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego indicam que a taxa de desocupação ficou estável, em comparação com janeiro, nas seis regiões metropolitanas onde a pesquisa é realizada.

PMDB ameaça retirar apoio

Dia 24 último, logo após a divulgação do levantamento Seade/Dieese, a cúpula e as bancadas federais do PMDB reuniram-se em Brasília e divulgaram nota na qual dizem, entre outras coisas, que é inaceitável o discurso de incompatibilidade entre controle da inflação e crescimento econômico.

Pelo documento, fica condicionado a "uma política que promova o crescimento, distribua renda e gere emprego" o apoio do principal partido da base aliada de Lula. O presidente da agremiação, deputado Michel Temer (SP), assegurou que, se o governo não atender a nenhum dos pedidos, não há porquê ter apoio partidário.

Afirma a nota que, sem o crescimento, é praticamente impossível a redução da pobreza e a melhora da distribuição de renda no País, ressaltando: "é preciso ter ousadia para romper os obstáculos que constrangem o crescimento da economia".

Pede ainda a redução da carga tributária para ajudar as pequenas e médias empresas a crescer; a correção da tabela de Imposto de Renda

para estimular o gasto da classe média; a redução ordenada dos juros, com redução também do "spread" bancário; definição clara de um programa de investimento em infra-estrutura e habitação popular com grande impacto sobre a renda; e ousadia para romper obstáculos.

A divulgação das exigências foi decidida após a reunião de próceres com o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, presidente do diretório do PMDB de São Paulo. Ele disse não ter considerado constrangedor o tom do documento.

- O país não está crescendo. Precisa crescer - afirmou, ao chegar ao Palácio do Planalto para um encontro com o ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Íntegra da nota do PMDB

Eis a manifestação do PMDB na íntegra:

"O desenvolvimento do País foi sempre a bandeira do PMDB. O apoio que o partido dá ao governo federal é subordinado a uma política que promova o crescimento, distribua renda e gere emprego.

Daí, acreditamos que:

1 - É inaceitável o discurso da incompatibilidade entre controle da inflação e crescimento econômico.

2 - Sem crescimento é praticamente impossível a redução da pobreza e a melhoria da distribuição da renda.

3 - A combinação entre aumento da carga tributária, elevação do superávit fiscal e taxa real de juros muito alta impede a estabilização da relação dívida-PIB e bloqueia o crescimento.

4 - É preciso ter ousadia para romper os obstáculos que constrangem o crescimento da economia, adotando imediatamente:

a - Redução da carga tributária sobretudo para a micro, pequena e média empresa;

b - dilatação em 30 dias do prazo do recolhimento dos impostos;

c - correção da tabela do IR para estimular o aumento da renda disponível da classe média;

d - redução ordenada da taxa de juros com esforço efetivo de diminuição do spread bancário, o que envolve uma atuação decidida dos bancos públicos do crédito;

e - criar um amplo programa de investimento em habitação popular;

f - o governo deve usar a sua capacidade de coordenação para estimular a grande empresa estrangeira a aumentar suas exportações e seus investimentos de forma a equilibrar o balanço de divisas;

g - o governo deve compromissar as multinacionais a reinvestir parte expressiva do lucro na produção destinada à exportação e acelerar o processo de transferência tecnológica ao mercado brasileiro;

h - Eliminação de tributação sobre investimento do setor de bens de capital;

i - O governo deve estimular o aumento do crédito dos investimentos nos setores de bens de capital, fruticultura irrigada, confecções, calçados e turismo."

Oposição verbera governo

PFL, PSDB e PDT, partidos que fazem oposição ao governo, também divulgaram nota e, em conjunto, cobraram geração de empregos e respeito à ética.

A oposição diz que as condições internacionais são favoráveis e as exportações crescem, mas, apesar disso, a economia retrocede porque o governo é "apático, confuso, sem liderança, imaginação, projeto e deixa escapar oportunidades de retomada do crescimento".

No mais contundente discurso contra o governo no encontro das oposições, o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, disse que não existe no País uma crise de governabilidade, mas sim uma crise de autoridade.
- Essa crise tem nome, chama-se Lula - afirmou.

Os oposicionistas fizeram questão de ressaltar que há uma crise de governo, mas não uma crise institucional e que o documento não tem por objetivo tentar desestabilizar o governo. "Não queremos nem saberíamos fazer o jogo do quanto pior melhor. Interessa-nos, acima de tudo, evitar que a decepção se transforme em desespero, canalizando-a para ação a política, regular, legítima e aberta" - afirmaram.

As críticas da oposição foram mais brandas do que as feitas por partidos aliados ao governo. O PL, por exemplo, pediu a substituição do ministro da Fazenda, Antônio Palloci.
O documento partidário marca a criação do Fórum Permanente das Oposições, no Senado. Da cerimônia de criação, participaram os presidentes do PSDB, José Serra, e do PFL, Jorge Bornhausen, o líder do PDT no Senado, Jefferson Peres (AM), e parlamentares do PMDB, partido pertencente à base aliada.

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