Desemprego e mínimo enlutam o 1.º de Maio

O desemprego continua a crescer nas regiões metropolitanas do País, especialmente na Grande São Paulo. No mês passado, atingiu seus piores índices na área paulista, conforme a pesquisa realizada em conjunto pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). A taxa subiu de 19,8%, em fevereiro, para 20,6%, em março, a mais elevada desde o início desses levantamentos em janeiro de 1985. Tal patamar já fora atingido em abril, maio e setembro do ano passado. Indica 2 milhões de pessoas sem ocupação, 74 mil a mais do que em fevereiro. Portanto, 1 em cada 5 trabalhadores estava desempregado na região.

Os dados coletados indicam ainda situação difícil para quem continua empregado. Em fevereiro (último índice disponível), o rendimento médio real dos ocupados caiu pelo segundo mês seguido. Passou a eqüivaler a R$ 953, valor 3,3% menor do que o registrado em janeiro. Para os assalariados, o achatamento do poder aquisitivo foi de 2,1%. O salário médio real passou a R$ 1.007, depois de dois meses em estabilidade.

Enquanto isso, o anúncio do novo salário-mínimo (R$ 260,00) pelo governo petista veio juntar-se, ontem, ao trágico panorama do desemprego em massa. E ambos os fatos enlutaram o 1.º de Maio, data que deveria ser festejada pelos trabalhadores. Pelas ruas, "miséria", "esmola", "vergonha" foram os mais mansos nomes ouvidos da boca do povo, que taxava as promessas de campanha não cumpridas pelo Partidos dos Trabalhadores - PT e seus aliados como "estelionato eleitoral".

Desemprego em todo o País

Em seguida à divulgação da pesquisa Seade/Dieese, o IBGE (Instituto Brasileiro de geografia e Estatística) publicou o levantamento que fez em todo o Brasil. A taxa de desemprego subiu mais uma vez e atingiu a 12,8% em março, o que indicava 2,7 milhões de desocupados nas seis regiões metropolitanas pesquisadas. Eram 203 mil a mais do que em fevereiro. Em relação a março do ano passado, o aumento foi de 8,4% ou 211 mil pessoas desocupadas.
As mulheres continuam sendo maioria entre os desempregados. Eram 52,3% em março de 2002, 54,8% em março de 2003 e em março último chegaram a 56,4%. Os jovens com menos de 24 anos de idade representavam 47%, em março.
Entre os trabalhadores sem ocupação, 20% estavam em busca de seu primeiro trabalho e apenas 26,3% eram responsáveis pela família, segundo a pesquisa do IBGE. Em relação ao tempo de procura, 18% procuravam trabalho por um período inferior a 30 dias; 49,7%, por um período superior a 31 dias e inferior a 6 meses e 7,9%, por um período superior a 7 meses.
Em março de 2002, 37,1% dos desocupados tinham pelo menos o 2º grau completo, contra 40% em março do ano passado e 43,3% em março de 2004.

Diagnóstico do Seade

Paula Montagner, gerente de Análises da Fundação Seade, disse que "baixos salários e mercado interno parado explicam esses dados". Ela acredita que o problema deva persistir por mais algum tempo.

"A expectativa é de que a taxa em abril permaneça no mesmo nível elevado do mês passado", diz Paula. A pesquisa mostra que nesta época do ano costuma haver criação de postos de trabalho, mas a gerente da Seade acha que a quantidade será insuficiente para atender o número de pessoas em busca de trabalho. "As pessoas que deixaram de procurar emprego no começo do ano retornam ao mercado quando há aumento de vagas", diz.

No mês passado, o aumento do desemprego foi resultado do fechamento de 94 mil postos de trabalho. O impacto do corte no emprego foi atenuado pela saída de 20 mil pessoas do mercado de trabalho - em sua maioria trabalhadores temporários que haviam sido dispensados após o término das festas de fim de ano. Mas o tamanho do problema foi maior do que o previsto.

"Esperava o fechamento de um número menor de postos de trabalho, ", observa Paula.

A indústria foi o setor que mais reduziu o nível de ocupação em março, na comparação com o mês anterior (-5,7%). As empresas do setor fecharam 87 mil postos de trabalho, um recorde para esse mês. Os mais afetados foram os trabalhadores autônomos e os assalariados com carteira assinada. A redução de postos foi generalizada em todos os ramos da indústria, mas atingiu mais intensamente as fábricas de produtos alimentícios (-16%) e gráfica e papel (-10,1%).

Contradição com a FIESP

Os números da Seade/Dieese conflitam os da pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No mês passado, a entidade apurou alta de 0,25% no nível de emprego do setor, com a recuperação de 3,8 mil postos de trabalho. A causa da discrepância estaria nas metodologias de pesquisa diferentes.

A Fiesp pesquisa o emprego em todo o Estado de São Paulo, mas refere-se apenas aos empregos formais (com carteira assinada). Já a Seade/Dieese, se restringe à Região Metropolitana de São Paulo, mas incorpora o trabalho informal, além do autônomo e por conta própria.

Além dos cortes na indústria, a pesquisa da Seade/Dieese mostra que o setor de serviços fechou 27 mil postos no mês passado, enquanto o comércio eliminou outras 15 mil ocupações. Houve abertura de 35 mil novas vagas nos serviços domésticos e na construção civil. Indica também que foram fechados 306 mil postos de trabalho ao longo do primeiro trimestre de 2004.

Foi o terceiro pior início de ano desde 1995 (início da pesquisa). Só fica atrás do primeiro trimestre de 1992, quando foram eliminadas 472 mil ocupações, e de 2002 (332 mil vagas fechadas).

O levantamento mostra ainda que a massa de rendimentos do trabalho caiu 4,8% em fevereiro, comparada com janeiro. Esse resultado reflete a queda do nível de emprego e, principalmente, do rendimento real médio. Em relação a fevereiro de 2003, a massa de rendimentos mostra crescimento de 2,4%.

Carteira assinada

Os indicadores Seade/Dieese abrangem a População Economicamente Ativa (PEA). Por sua vez, números do Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged) indicam que neste primeiro trimestre foram criados mais postos de trabalho com carteira assinada do que nos últimos 12 anos.

Para o professor do Instituto de Economia do Trabalho da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), Claudio Dedecca, o que ocorre é que a velocidade de criação de postos de trabalho é inferior ao ritmo de crescimento da PEA, que aumenta entre 1,7% e 1,8% ao ano. "A geração de empregos é limitada e insatisfatória", observa o economista. Segundo ele, o volume de criação de postos de trabalho formais apontados pelo Caged é muito baixo para fazer frente ao crescimento da população brasileira em idade de ter alguma atividade produtiva.

Nem mesmo as ressalvas de que os números do Dieese refletem a dura realidade da Região Metropolitana de São Paulo enquanto as estatísticas do Caged mostram um universo maior e alentador do restante do País fazem o especialista ter uma avaliação mais positiva da ocupação. "Tudo vai mal e em São Paulo a situação é mais grave", afirma Dedecca. Para o economista, mesmo que esteja ocorrendo alguma recuperação no nível de ocupação, como a velocidade é lenta, deverá demorar alguns meses para se refletir nos indicadores de nível de emprego.

"Em relação à ocupação, estamos no limbo", resume o economista Fábio Silveira, sócio da MS Consult. Ele também reforça a análise de que há descompasso entre a recuperação do emprego e crescimento da PEA. Silveira ressalta que a economia hoje vive uma fase de indicadores aparentemente contraditórios, por isso fica difícil saber qual o rumo que a atividade econômica está tomando.

Ele enfatiza que é necessário avaliar não apenas a quantidade, mas a qualidade dos empregos que estão sendo gerados.

"Aumentou a quantidade de pessoas com vínculo de trabalho precário."

Silveira observa também que setores responsáveis hoje pelo dinamismo da economia, como o agronegócio e as exportações, não são intensivos na criação de postos de trabalho, apesar de já empregarem muita gente. Na indústria automobilística, por exemplo, como a ociosidade é grande, de 43% da capacidade, é possível ampliar a produção sem contratações.

O ex-ministro do Trabalho e sócio da Tendências Consultoria, Edward Amadeo, diz que não é incompatível aumento do desemprego com crescimento do emprego.

"Existe um fluxo maior de pessoas entrando no mercado de trabalho para procurar emprego." Com isso, a PEA cresce e o desemprego também porque a criação de vagas ocorre em ritmo mais lento. Para Amadeo, normalmente é possível demorar um ano para que a geração de emprego possa ter impacto positivo no índice de

desemprego.

Centrais sindicais: recado

Ao tomar conhecimento das pesquisas, os presidentes das duas principais centrais sindicais mandaram um duro recado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Está passando da hora de implantar medidas emergenciais para combater o desemprego", disse Luiz Marinho, da CUT, lembrando que a situação é de desespero.

O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, cobrou a imediata redução dos juros e mudanças na política econômica.

Os dois sindicalistas estiveram com o secretário de Relações de Trabalho, Osvaldo Bargas. Disseram que já esperavam o agravamento da situação e que é também preocupante a queda da renda. Se continuar nesse ritmo (3,3% ao mês), significará redução de 50% no ano.

Os sindicalistas criticaram ainda a solução encontrada pelo governo de dar reajuste maior para o salário mínimo via aumento do salário-família. "É interessante, mas não é a solução", disse Marinho. Paulinho lembrou que essa fórmula prejudica os aposentados, inclusive os que ganham o mínimo, porque não terão o salário família, que só é pago a quem tem filhos de até 14 anos.

Paulinho assegurou que vai continuar insistindo para que o governo cumpra a promessa de dobrar o valor real do mínimo em quatro anos. Contra o desemprego, ele disse que já é hora de o governo implementar as medidas sugeridas pelos trabalhadores e que compreendem redução da jornada de trabalho, criação de frentes de trabalho e proibição de trabalho aos domingos.

Palocci admite demora

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, admitiu que o Brasil ainda não conseguiu enfrentar o desemprego na dimensão exigida, ao ser questionado sobre a estatística Seade/Dieese. Palocci disse que, apesar do "forte aumento do número de postos de trabalho no primeiro trimestre", houve igualmente um fenômeno de elevação substancial da procura por emprego no período.

Embora não tenha apresentado os números, o ministro reiterou que os dados do Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram que, no primeiro trimestre de 2004, foram criadas "mais vagas que nos últimos 12 anos". Palocci, entretanto, esquivou-se de responder à avaliação do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, de que a taxa de desemprego de março indica que o País está à "beira do caos". Limitou-se a afirmar que "cada um tem o direito a fazer seu comentário".

"O Brasil não conseguiu enfrentar a questão do desemprego na dimensão que o País exige", afirmou o ministro, pouco antes de embarcar para Washington, onde participará de reuniões no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial. "Mas o que há de mais positivo é que a geração de empregos é positiva. E fortemente positiva neste ano", enfatizou Palocci.

Berzoini agarra-se a "discrepância"

Por sua vez, o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, procurou enfatizar a "discrepância" entre os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e a pesquisa Seade/Dieese.

"Há uma inconsistência entre os dois dados", disse o ministro. Ele informou que iria procurar o Dieese para tratar do assunto. Segundo Berzoini, os dados do ministério, coletados em todas as empresas do País, dão como resultado para o primeiro trimestre do ano a criação de 347,4 mil empregos com carteira assinada. Foram mais de 108 mil só em março, das quais 51,2 mil em São Paulo. Desses, 18,8 mil correspondem à região metropolitana, enquanto o interior ficou com 32,4 mil.

A pesquisa do Dieese, segundo Berzoini, apurou um acréscimo de 94 mil no número de desocupados na região metropolitana. Mesmo considerando a diferença de metodologia, o ministro achou muita grande o desvio. O Caged, ao contrário dos dados do Dieese, não é uma pesquisa, mas um registro que as empresas são obrigadas a fazer e a comunicar ao governo a cada movimentação de pessoal. O Dieese faz, mensalmente, uma pesquisa por amostragem só no Estado de São Paulo. Ela abrange também o emprego informal, daí a designação de ocupação, pois não trata apenas do trabalho com carteira assinada. "Pode estar havendo desvio no processo de apuração de dados", ponderou Berzoini.

Desvios e "desvios"

O ministro disse que esse desvio tanto pode ser do Caged quanto da pesquisa do Dieese. Ele também salientou que o crescimento do emprego formal vem se dando de forma mais dinâmica no interior, que fica fora das pesquisas. O ministro explicou que, ao apontar a discrepância, não estava procurando invalidar a pesquisa do Dieese. "Hoje temos um fato positivo, que é o Caged, e um negativo, que é a pesquisa do Dieese", observou.

O ministro admitiu que o desemprego é grave e as 347 mil vagas criadas não anulam os milhões de desempregados. "A nossa preocupação é que o desemprego continua elevado". Ele disse que, mesmo que se mantenha o atual ritmo de crescimento do emprego formal, o ano fechará com a geração de 1,3 milhão de vagas, equivalentes à força de trabalho que todo ano entra no mercado.

O esforço do governo, segundo o ministro, para combater o desemprego vai continuar na linha da macro e microeconomia. Ele mais uma vez defendeu a política econômica do governo dizendo que foi preciso no passado recente elevar os juros para combater a inflação, apesar dos efeitos nocivos sobre o trabalho. Na microeconomia, de acordo com Berzoini, a política do governo é aumentar o crédito para áreas de mão-de-obra intensiva, como saneamento, habitação e infra-estrutura. "Não conheço política que produza milagre no curto prazo."

Caem vendas em supermercados

Os supermercados fecharam o mês de março com queda no faturamento. As vendas em valores reais, descontada a inflação, recuaram 2,86% na comparação com o mesmo mês do ano passado. É o 11.º mês seguido de perda de vendas na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo os números da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Em relação a fevereiro, o maior número de dias úteis levou a um aumento de 5,76%. No trimestre, o faturamento do setor está 2,38% abaixo do mesmo período em 2003.

O baixo poder aquisitivo da população e o desemprego, além das altas taxas de juros, estão afetando os resultados do setor, na avaliação da Abras. A expectativa é de recuperação apenas a partir do segundo semestre. A previsão dos supermercados, de acordo com a entidade, é de que o faturamento fechado do ano cresça 2% em relação a 2003, mas só se houver melhora dos indicadores macroeconômicos, como renda, desemprego e taxas de juros.

Segundo o presidente da entidade, João Carlos de Oliveira, os percentuais podem ser revistos no final do primeiro semestre. Ele adverte que os resultados acumulados no trimestre são mais preocupantes quando se considera a base de comparação. O ano de 2003 foi ruim para os supermercados, que tiveram perda de 4,5%.

A pressão por reajustes ocorrida no começo do ano, lembra o presidente da Abras, diminuiu. Na segunda quinzena de janeiro e primeira quinzena de fevereiro, em razão do aumento da Cofins, várias indústrias apresentaram tabelas remarcadas, mas, de forma geral, os aumentos não vingaram.

Conforme o índice da entidade, apurado em parceria com o instituto Indicator GFK e que mede a variação de 35 produtos de largo consumo, os preços até recuaram. Em fevereiro, caíram 0,13% e, em março, tiveram retração de 0,72%, mostrando que a baixa demanda, segundo Oliveira, não avaliza repasses.

A cesta no mês passado custava R$ 193,05, ante R$ 194,46 de fevereiro. Em relação a março de 2003, o recuo é de 4,25%.

Na procura, vale tudo

Com desemprego recorde na Grande São Paulo, um anúncio de vagas costuma atrair milhares de pessoas que, muitas vezes, sequer sabem o salário.

Movidas pela esperança de um emprego fixo, com carteira assinada, ficar horas na fila não é motivo de desânimo. O ex-auxiliar de almoxarife José do Patrocínio Ribeiro, de 43 anos, sonha em voltar ao mercado formal há 14 anos. Quando foi divulgada a pesquisa Seade/Dieese, ele estava entre cerca de mil pessoas que passaram pela agência do Banespa do bairro de Pirituba para se inscrever em um concurso da Prefeitura. "A situação tá difícil, mas é preciso tocar o barco", disse ele, que não tinha idéia do valor dos salários oferecidos.

Depois de ter sido demitido da então companhia de transportes CMTC, em 1990, Ribeiro buscou outro emprego mas, sem sucesso, começou a fazer bicos como pedreiro, encanador e eletricista. "Não ter trabalho fixo é complicado, pois não se consegue fazer crediário, nem empréstimos", disse ele, que paga R$ 250 de aluguel de uma casa em Perus, onde mora com a esposa e três filhos.

A Prefeitura informou que vai abrir, ao longo dos próximos meses, 3.854 vagas para agentes de apoio (recepcionistas, telefonistas, auxiliares, pessoal para construção civil etc.), com salário de R$ 429,66. Também oferece 1.468 vagas para professores, com salários de R$ 493,34 a R$ 596. As inscrições para o concurso, que será realizado no próximo mês, já se encerraram.

Sem emprego fixo há oito anos, Cristina Auxiliadora da Costa, de 39 anos, também vai disputar uma vaga de agente de apoio. Ela trabalhava como recepcionista de uma loja de carros. Ficou desempregada e foi trabalhar com a mãe na área de costura. "Quando se trabalha em casa não há folgas, férias, nem garantia de salário. Quero um emprego fixo", disse ela.

O professor Dácio Montilia, de 47 anos, dá aulas diariamente em uma escola pública e recebe R$ 500 por mês. Para completar a renda, pretende conseguir emprego também na rede municipal. "Com esse salário, um emprego só não dá."

Mensagem para O JORNAL

Volta à 1.ª página