Guerra Dolly x Coca chega até à Operação Anaconda

Os embates entre a Dolly Refrigerantes e a Coca-Cola acabam de adquirir um aspecto inesperado: Fábio Claro Figueira de Mello, consultor contratado pela multinacional para se infiltrar naquela empresa brasileira e tentar destrui-la, está comprometido na Operação Anaconda da Polícia Federal, destinada a apurar amplo esquema de corrupção policial-judicial. Figura ao lado do agente da PF César Herman Rodriguez, que se encontra preso desde o inícios das investigações.

Fábio Melo foi acusado de fraude processual e falsificação de documentos, juntamente com Herman e mais dois indiciados, Hugo Sterman Filho e a advogada Maria Regina Marra Guimil. As acusações relacionam-se à libertação de Paulo César de Oliveira, que havia sido preso em flagrante, em 2002, acusado de liderar uma quadrilha de falsificadores de passaportes em Guarulhos. Fábio Melo já respondia, na Justiça, a processo por crime falimentar.

Destruição da concorrência

Segundo a direção da Dolly, "esses fatos reforçam ainda mais as denúncias feitas desde agosto sobre práticas criminosas executadas pela Coca-Cola e sua engarrafadora em São Paulo no plano que idealizaram em 2000 para destruir a concorrente nacional."

- "Fábio Mello, que também foi sócio de Jorge Giganti, o ex-presidente da Coca-Cola e mentor do plano contra a Dolly, se infiltrou na nossa empresa, roubou documentos e sumiu com os valores e pagamentos de uma série de tributos. Agiu durante sete meses, mas nesse período chegou a receber dois milhões de reais pelos ‘serviços prestados’ contra nós" – afirmou Laerte Codonho, presidente e dono da marca Dolly. "O próprio Capistrano do Amaral que, em gravações em nosso poder, revelou detalhes do plano, teme o Fabinho, como é chamado pelos amigos e comparsas".

1 milhão por ponto de mercado

Ainda segundo a Dolly, Fábio Melo foi sócio de

Jorge Giganti, que presidia a Coca-Cola no Brasil, na Argentina e no México. A cada ponto de mercado que tirasse da Dolly, receberia 1 milhão de reais, pagos pela Spal através de outra empresa (a Rio Branco), que repassaria o dinheiro para ele e seus sócios, conforme afirmam os acusadores. Além disso, coincidentemente, depois que ele subtraia documentos da Dolly, surgia alguma denúncia relativa ao conteúdo desses papéis. Diz a empresa que se defendeu e foi absolvida em todos os casos.

Codonho assevera ter "provas de que, inclusive, havia um contrato assinado com a empresa Rio Branco, que recebia os cheques, e então os repassava a Fábio Melo e seus sócios". Acrescenta possuir gravações de conversas nas quais o próprio Fábio Melo conta como pressionou fornecedores. Nesse trabalho, ele teria recebido, conforme Capistrano, R$ 2 milhões de reais, correspondentes a dois pontos de venda desviados da Dolly.

"Tínhamos planos de estrangulamento total", diz Capistrano nas gravações já entregues às autoridades. "Não ia ter mais matéria prima no mercado para você. Não estou brincando, não. Nem açúcar, nem plástico".

Desdobramentos em Brasília

A partir de hoje, a guerra Dolly x Coca-Cola ganha novo cenário. É a Câmara dos Deputados, em Brasília, onde a Comissão Permanente de Defesa do Consumidor começará a ouvir, em audiência pública, o atual presidente da Coca-Cola, Brian Smith, o ex-presidente Jorge Giganti e o executivo Luís Eduardo Capistrano do Amaral. Laerte Codonho também estará presente e deverá enfatizar as acusações de concorrência desleal, abuso do poder econômico e práticas criminosas.

Por sua vez, a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara pretende emitir mais de 30 convocações para esclarecimentos, envolvendo autoridades, executivos e ex-executivos. Neste caso, a pauta principal será ampliada para investigar também se houve elisão e sonegação fiscal por parte da multinacional.

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