matraca2.gif (20686 bytes) A MATRACA
Assis Corrêa Neto
CHEGOU A HORA DE O CONGRESSO SE REDIMIR

Esta na hora de o Congresso Nacional demonstrar que realmente legisla a favor do povo. Este já não acredita mais na classe política. Chega de subserviência e humilhações. Os parlamentares precisam exercer o poder de legislar, coisa que há muito tempo não se faz. Comem prato feito pelo Planalto, através das abomináveis Medidas Provisórias que se perpetuam e só ferram povão.

Deputados e senadores têm o dever moral de aprovar um salário mínimo maior que 260 reais, imposto pelo rei da cocada preta que prometera dobrá-lo em quatro anos. Não pode concordar com os míseros vinte reais de aumento, sob pena de convalidar o salário da indignidade.

A história desse espúrio aumento está cheia de contrastes e equívocos. É muito estranho que a medida somente tenha sido anunciada depois da chegada de Palocci dos "States", onde foi parlamentar com FMI. Trouxe a lição no bolso: equilíbrio orçamentário das contas públicas para gerar um superávit fiscal da ordem de setenta bilhões de reais. Bons alunos. Pena que não imitamos a Argentina. Kirchner mandou o FMI para o espaço e não se rendeu à pressão.

O presidente Lula, tão preocupado em acabar com a fome mundial, não pode ignorar que melhor aumento do mínimo seria alavanca para melhorar os níveis sociais que vão muito mal. É a melhor forma de distribuição de renda. Fome zero não deslanchou, o mesmo ocorrendo com outros programas sociais que ainda estão no papel.

AMARELINHOS NÃO SÃO MAIS VERMELINHOS

China não é mais aquela. Aderiu ao capitalismo. Com seu fabuloso e acelerado processo de desenvolvimento, em toda as áreas, está deixando países capitalistas de cabelinho em pé.

Com o mundo ocidental atravessando turbulência, sua economia cresce 9,4% ao ano. Tem uma população de 1,3 bilhões de habitantes, apresentando um PIB de 1,38 bilhões de dólares. Representa a sétima economia do universo. É o terceiro maior importador, com 412,8 bilhões de dólares, e o quarto exportador, com 439,4 bilhões de dólares.

Lula vai chefiar delegação de quatrocentos empresários brasileiros, a maior da história, que visitará Xangai e Pequim entre os dias 23 e 25.

Nossas exportações alcançam 4,533 bilhões de dólares e as importações 2,347 bilhões. E a China pode tornar-se nosso principal parceiro comercial. Ainda exportamos uma pequena gama de produtos, destacando-se: minério de ferro, produtos siderúrgicos, soja em grão, óleo de soja, papel, celulose, peles e couro, madeiras, autopeças e veículos.

Embora os números e a realidade nacional demonstrem o quanto estes negócios têm sido importantes para o País, não podemos nos limitar à atual pauta de produtos. A abertura do mercado chinês poderá oxigenar outros setores de nossa economia. Falta muito arrojo e maior visão dos empresários brasileiros sobre a real extensão e potencialidade do mercado chinês.

Nossas importações situaram-se em 2,147 bilhões de dólares, destacando-se aparelhos e componentes eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, produtos químicos orgânicos, instrumentos de ótica e precisão.

Um dos fatores que podem incrementar nossos negócios prende-se ao fato de suprir algumas das carências chinesas. Possuindo 22% da população mundial, a China tem apenas 19% de terras cultiváveis em seu território, 7% da água que necessita e 2% do petróleo que consome. Isso demonstra que a carência alimentar é bastante crítica. Sua produtividade agrícola está se exaurindo, a despeito do uso de fertilizantes, da adoção de variedades melhoradas e da irrigação controlada. A produtividade estancou devido à erosão e ao esgotamento de recursos naturais: falta d’água, limitação de áreas e uso excessivo de fertilizantes.

Consumo "per-capita" de alimentos subirá de 300 quilos anuais para 400. Seu déficit alimentar é de 400 milhões de toneladas anuais. Aí, está entre outras, uma oportunidade para o Brasil.

Euforia brasileira deve ser contida. Em mais uma medida para esfriar o crescimento econômico, evitar uma inflação galopante e levar a economia a um crescimento controlado, mais nenhum projeto direcionado aos setores de aço, alumínio e cimento será aprovado este ano. Para evitar investimentos desnecessários, serão reexaminados todos os projetos já aprovados. Empreendimentos imobiliários, como prédios de escritórios, "shoppings" e campos de golfe serão reavaliados. O Banco Central pode adotar uma política monetária ainda mais rigorosa. É água no chope.

"Experts" advertem que investir na China é uma experiência boa, mas tem de ser competente porque a concorrência é muito forte.

ALCA EMPACOU: NÃO ATA, NEM DESATA

A Alca empacou. Nem ata, nem desata. Seu prazo de funcionamento está vencendo. Dez anos de conversa jogada fora. Centenas de reuniões, seminários,

conferências e fóruns inócuos ao redor do mundo.

As relações entre o Brasil e Estados Unidos sempre foram tumultuadas. Agora estão mais ainda. Parece samba do crioulo doido. Intransigência dos dois países determinou impasse, gerando singular desapontamento para boa parte do agronegócio, responsável principal pelos grandes saltos de nossas exportações.
Relacionamento dos mais confusos. Incoerência de representante norte-americano: primeiro o abandono e, agora, retorno às negociações para retomada do dialogo com vistas à Alca. Brasil desconversou. Pulou fora. Decidiu abandonar as negociações. Optou por fechar acordos bilaterais ao lado de sócios do Mercosul - Argentina, Uruguai e Paraguai. Deseja, o mais rápido possível, acordos comerciais com pelo menos trinta economias em desenvolvimento Sem admitir oficialmente seu afastamento da Alca, vai continuar com a vice-presidência do organismo.

Uma das razões que impediram o funcionamento da Alca foram as nossas posições ideológicas. Declínio dos entendimentos gerou desilusão para o agronegócio brasileiro. Ministério das Relações Exteriores e Planalto, sempre agindo sob fortes interferências ideológicas. Nossos negociadores nunca abandonaram o viés terceiro mundista adotado como regra.

Com a "vaca no brejo", é necessário que os empresários e outras áreas governamentais, tenham participação na formulação de uma estratégia diferente daquela que vem sendo coordenada pelo Itamaraty.

Com fracasso da Alca, as negociações entre Mercosul e União Européia estão próximas. Segundo analise do Banco Mundial, um acordo de livre comércio pleno com a Europa traria duas vezes mais ganhos econômicos ao Brasil que a criação da Alca. Uma liberalização na Europa para produtos brasileiro teria impacto na renda da população e um ganho para a economia de cinco bilhões de dólares, aumento de 3,8% na população mais pobre e um aumento de 4,2% de trabalhadores sem qualificação.

Mas, existem opiniões contraditórias. Europa protege mais sua agricultura porque depende dela e nela há maiores interesses regionais do que nos Estados Unidos. Além disso, houve estagnação da economia européia, enquanto americanos sempre cresceram. EUA importam mais do que podemos exportar. Ou fazemos algum acordo com parceiro mais importante ou vamos correr o risco de ficar sozinhos.

Túnel do tempo
POLÍTICA DO "CAFÉ COM LEITE"

 

Getúlio Vargas: "Pai dos Pobres"

A política do "café com leite" reinou absoluta no País entre l894 e l930, quando se iniciou a Era Vargas.

Em São Paulo, Minas Gerais e outros Estados, as oligarquias estavam bem organizadas em torno de dois partidos políticos: PRP - Partido Republicano Paulista e PRM – Partido Republicano Mineiro. São Paulo era o maior produtor de café e Minas Gerais o maior produtor de leite. Daí a denominação "República do Café com Leite".

A partir das coligações com lideranças dos demais Estados, São Paulo e Minas Gerais mantiveram o controle político do País durante toda a República Velha. Predominavam os coronéis da antiga Guarda Nacional, que eram em sua grande maioria proprietários rurais com grande base local de poder.

A eleição para Presidente da República era quase sempre uma farsa. Jogo de cartas marcadas pelas oligarquias. Antes das eleições, os lideres do PRP e PRM se reuniam e depois chegavam a um acordo a respeito de quem seria o próximo presidente do Brasil.

Acordo da "República do Café com Leite" foi rompido pelo presidente Washington Luiz, quando preteriu o nome da vez. Era o mineiro Antonio Carlos de Andrada e Silva, o candidato natural da coligação. Washington Luiz lançou a candidatura do paulista Júlio Prestes.

Oligarquias dissidentes, especialmente de Minas Gerais, juntam-se então ao Rio Grande do Sul e Paraíba. Formam a Aliança Liberal e lançam o candidato Getúlio Vargas contra Júlio Prestes, que ganhou as eleições. Mas, a Revolução de 1930, movimento empreendido por políticos e militares, derruba o então presidente Washington Luiz, estabelece o fim da República Velha e inaugura a chamada era Vargas. Levou o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas ao poder presidencial que exerceu por quinze anos.

(Assis Corrêa Neto é jornalista e escritor. assiscorreaneto@uol.com.br )

E-mail para O JORNAL

Volta à 1.ª página