A morte inglória de

um herói verdadeiro

Modesto Spachesi

Dia das Mães, 10 de maio de 1970. Há 34 anos, portanto, era executado a coronhadas de fuzil o então tenente da Polícia Militar Alberto Mendes Jr. pelo bando terrorista comandado pelo desertor do Exército, Carlos Lamarca.

A mata úmida do Vale do Ribeira, na região de Registro, Estado de São Paulo, continuou em silêncio, enquanto os sicários – Lamarca, Fujimori, Lucena ... – ocultavam o corpo numa vala. Assim haviam decidido fazer para permanecer incógnitos, pois tropas das Forças Armadas e da Polícia Militar paulista vasculhavam a floresta à procura de guerrilheiros cuja presença fora assinalada por agricultores.

O jovem tenente, de 23 anos de idade, entregara-se a Lamarca dois dias antes como refém em troca da vida de um punhado de comandados, feridos a tiros numa emboscada. Esvaindo-se em sangue, precisavam de socorro imediato. Cercados pelo bando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), viram seu comandante oferecer-se como refém para salvá-los da morte certa. E, graças a esse gesto de coragem, puderam deixar o local da cilada em busca de auxílio, enquanto os bandidos desapareciam no mato levando o prisioneiro.

100 mil no sepultamento

Os matadores resolveram fugir da área ao perceber que o cerco militar da região se apertava. Mas, antes, decidiram esmigalhar a cabeça do tenente a coronhadas para se livrar dele sem fazer barulho. Para convencê-los do acerto na execução, Lamarca lhes disse considerar o tenente como responsável pelo sumiço de dois comparsas que, na verdade, se haviam perdido pelo caminho.

Esses fatos só foram descobertos quatro meses depois, em 9 de setembro, quando um dos assassinos, ao ser preso, apontou onde estava enterrado o corpo. Calcula-se que 100 mil pessoas de todos os níveis sociais participaram do cortejo fúnebre que levou os despojos ao Cemitério do Araçá para sepultamento.

Alberto Mendes Jr. nasceu na cidade de São Paulo, a 24 de janeiro de 1947. Filho de Alberto Mendes e Angelina Plácido Mendes, manifestava desde cedo desejo de ingressar na Polícia Militar, pois os tios não poupavam elogios à corporação. Concretizou esse ideal ao terminar o ginásio. Em 15 de fevereiro de 1965, alistou-se nas fileiras da PM. Classificou-se no concurso de ingresso ao Curso Preparatório de Formação de Oficiais, que concluiu quatro anos e dois meses depois.

Carinhosamente, "Português"

Em 21 de abril de 1969 – por estranha coincidência, dia e mês em que Tiradentes foi enforcado -, Mendes foi declarado Aspirante a Oficial, aos 22 anos de idade. Em 2 de julho de 1969, apresentou-se ao 15.º Batalhão Policial, onde fora classificado devido a promoção.

Em 15 de novembro de 1969, foi promovido por merecimento intelectual ao posto de 2º Tenente, permanecendo naquela Unidade. Em 06 de fevereiro de 1970, deslocou-se para o Batalhão "Tobias de Aguiar" ao ser transferido por conveniência do serviço.

Logo à chegada, se entrosou com os novos companheiros, que lhe deram o carinhoso apelido de "Português". Alegre, sempre sorridente, dedicava-se com afinco ao serviço, desempenhando com galhardia todas as missões.

A emboscada

No final de abril de 1970, era descoberto o foco terroristas da VPR no Vale do Ribeira, próximo ao Litoral Sul paulista. Tropas do Exército, da Força Aérea, Marinha e Polícia Militar do Estado de São Paulo deslocaram-se para aquela região inóspita.

O 1.º BP "Tobias de Aguiar" foi designado pelo Comando Geral da PM para prestar apoio à

Companhia Independente com sede na cidade de Registro. Para lá seguiu o tenente Mendes no comando de um pelotão. Todos os policiais-militares daquele e de outro pelotão estavam subordinados ao capitão PM Carlos de Carvalho.

Após uma semana naquela cidade, o capitão recebeu ordens para regressar com um de seus dois pelotões a São Paulo, deixando em Registro apenas o outro, comandado por um dos oficiais à sua escolha. Não houve opção: Mendes apresentou-se e solicitou a permanência. Mais uma prova de sua dedicação ao serviço.

Por volta das 21 horas de 8 de maio, seis terroristas comandados por Lamarca atacaram de surpresa um dos postos guarnecidos por oito integrantes do pelotão remanescente, nas proximidades de Sete Barras. Começava uma cilada. Ao saber que aqueles seus soldados estavam feridos, o tenente acorreu ao local para lhes prestar socorro. Era o que os sicários de Lamarca queriam. Haviam mantido sob vigilância os PMs feridos para atrair seus companheiros. Assim, no total, puderam cercar 20 soldados.

Os assassinos

Sob fogo de fuzis FAL e metralhadoras por todos os lados, o tenente Mendes precisava tomar uma decisão: ou ordenava o cessar fogo e entregava-se sozinho, ou morreriam todos. Como autêntico líder, propôs aos gritos que ficaria como refém em troca da vida dos comandados.

No dia seguinte à captura do tenente, dois terroristas perderam-se pelo caminho. O grupo ficou reduzido a cinco elementos e Lamarca considerou os desaparecidos como mortos. Ordenou que o refém pagasse a "traição" com a vida.

Enquanto Ariston Oliveira Lucena e Gilberto Faria Lima vigiavam o prisioneiro, Lamarca, Yoshitane Fujimore e Diógenes Sobrosa de Souza afastaram-se. Constituíram o que chamaram de "tribunal revolucionário" e condenaram o tenente à morte.

Em seguida, Yoshitane Fujimore desferiu-lhe coronhadas de fuzil pelas costas. Caído e com a base do crânio partida, o tenente Mendes gemia e contorcia-se de dor. Diógenes Sobrosa de Souza desferiu-lhe os golpes finais, esfacelando-lhe a cabeça. Ali mesmo, numa pequena vala e com os coturnos ao lado da face ensangüentada, o corpo foi enterrado.

Estes fatos só foram esclarecidos após a prisão do terrorista Ariston Oliveira Lucena, que apontou o local onde os despojos estavam enterrados. As fotografias tiradas do crânio atestam a violência desmedida. Ao saber do que acontecera, a mãe da vítima entrou em estado de choque e ficou paralítica por quase três anos.

Morte inglória

Descoberto o crime, a VPR – organização baseada na ideologia comunista – emitiu um comunicado "Ao Povo Brasileiro", onde tenta justificar o covarde e frio assassinato. Dele consta o seguinte trecho:

"A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado."

Alberto Mendes Jr. recebeu promoção "post mortem" a capitão. Figura entre os verdadeiros heróis supliciados nos chamados "anos de chumbo". Entretanto, da mesma forma que outros heróis autênticos daquela trágica época, como, por exemplo, o recruta Mário Kozel Filho, estraçalhado a bomba na entrada do QG do II Exército, Mendes teve morte inglória na medida em que seus algozes continuam a ser glorificados em reportagens, livros, filmes e até com nomes de ruas e de escolas. Além de motivar indenizações e pensões milionárias às custas do dinheiro do povo.

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