"Síndrome do Reizinho"

José Nêumanne

Assinado pelo jornalista e escritor José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde, a seção "Espaço Aberto" do jornal O Estado de S. Paulo publicou dia 19 último artigo sob o título acima. Merece reflexão. Ei-lo na íntegra:

"A estúpida e autoritária decisão de expulsar Larry Rohter, repórter do New York Times que deu status internacional à fofoca favorita dos círculos políticos e jornalísticos brasileiros sobre os excessos de libações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também teve efeitos benéficos, confirmando a velha máxima de que "há males que vêm para o bem". Pois ela serviu para revelar a natureza dos atores da tragicomédia política nacional contemporânea.

"Na entrevista exclusiva à revista semanal IstoÉ, o protagonista do caso e da tragicomédia disse o suficiente para justificar o pânico de seus assessores pela expectativa de suas falas de improviso. E para explicar as razões psíquicas e políticas de uma decisão ao mesmo tempo estulta (por ter produzido a repercussão internacional que o texto original não causara) e brutal (pela desproporção entre a ofensa e a retaliação).

"Mais até que machismo e ânimo revanchista, o que motivou a reação atrabiliária foi o completo desconhecimento do chefe do governo sobre o papel institucional que ele representa e as relações que deve ter com a Nação, intermediadas pelos órgãos de comunicação. "Eu não sou o Lula", disse, como se a faixa presidencial o transformasse numa espécie de Zeus inalcançável, acima do bem, do mal e de qualquer suspeita. Ao contrário: o posto não exime o ocupante de defeitos e vícios pessoais, mas os exibe, obrigando-o a natureza pública do cargo a adotar atitudes morigeradas, pois passa a ser apontado como exemplo.

"É tentador pensar que o argumento absurdo que abre a entrevista - o de que a expulsão não atenta contra a liberdade porque o jornal poderia substituir o expulso - resulte do despreparo do entrevistado. Mas convém resistir à tentação, pois a permissão para o punido ser substituído, que em nada reduz a violência da punição pelo Estado democrático de Direito de um acusado de um delito de opinião, não é da lavra de Lula, mas de dois doutos membros de sua Corte.

"O primeiro a falar nisso foi o líder do PT na Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (SP), diplomado em Medicina. E o cientista político, filho de respeitável economista e com passagem por uma

editoria de grande jornal, André Singer, chegou a assinar a asneira em tinta sobre papel. Os deslizes do presidente na entrevista (que vão dos cerimoniais, ao chamar Rohter de "esse cara", aos de má educação, ao lembrar os problemas de parentes do ex-aliado e hoje adversário Leonel Brizola com o alcoolismo) preocupam mais que uma eventual dosagem elevada de álcool no sangue. Pois, em seu conjunto, eles formam um quadro coerente com os esforços de seu "gerentão" José Dirceu para aparelhar a administração pública com militantes do partido; a existência de um gabinete ocupado por sua mulher no mesmo andar que o dele no Palácio do Planalto; e, last but not least, a ostentação de estrelas vermelhas, símbolo do partido, na lapela dele e nos jardins das residências presidenciais.

"Isso compõe um quadro inquietante que faz qualquer cidadão responsável se lembrar da bazófia do rei de França Luís XIV, o lema "l'État c'est moi" ("o Estado sou eu"), que passou a simbolizar os males crônicos do totalitarismo. O mais dramático de tudo é que, ao se irritar com a divulgação da informação irrelevante de que seu pai seria alcoólatra (e não era?), o presidente do Brasil lembra menos qualquer Luís francês do que o Reizinho, aquele monarca pequeno e roliço criado por O. Soglow numa tira de quadrinhos, cuja aparente ingenuidade era usada para ocultar uma refinada (e vaidosa) brutalidade. Seria injusto, porém, não lembrar que essa "síndrome de Reizinho" não passaria de detalhe folclórico se não ocorresse num ambiente de tolerância e negligência, não apenas de uma assessoria notoriamente sabuja, na qual se destacam Luiz Gushiken, de quem se confunde o silêncio parvo com sabedoria zen, e Celso Amorim, que cuspiu no prato em que comeu, ao se dizer um perseguido da ditadura, mesmo tendo dela, na verdade, usufruído uma sinecura, a presidência da Embrafilme. Mas também da claque política apressada em exibir a própria hipocrisia disputando um bom lugar na fila do beija-mão e dando testemunhos "fidedignos" de uma sobriedade que o presidente nunca teve e da qual, aliás, nunca se jactou.

"Quem viver verá: ao se ver liberta da solicitude com que finge acreditar que as afinidades eletivas de Lula e Zé Dirceu com Fidel e Chávez se limitam a polenta, charutos e lágrimas no dólmã, a elite dirigente nacional, que concede ao presidente o benefício da origem humilde, ao tratá-lo com um preconceito às avessas, permitindo-lhe e lhe perdoando tudo, será implacável quando encontrar um meio de continuar mamando nas tetas do Estado nacional sem precisar da ajuda dele. As mãos dessa gente, que hoje afagam o operário que chegou ao paraíso, o apedrejarão assim que lhe convier."

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