Lulinha Kung Fu

Cláudio Júlio Tognolli

Foi a 23 de maio de 2004, domingo, que editorial da Folha de S. Paulo gritava um encômio, vindicando os porquês de chineses estarem à nossa frente na corrida por um PIB que seja uma singular coleção de zeros. Disse a Folha, abusando inclusive das exclamações: "O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu de US$ 390 bilhões em 1992 para US$ 500 bilhões em 2003. Já o PIB da China, país que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ora visita, saltou, no mesmo período, de US$ 280 bilhões para US$ 1,4 trilhão. A despeito das enormes diferenças na forma de organização das duas sociedades, como poderiam ser explicadas trajetórias tão distintas? Uma economia que era menor do que a brasileira passou a ser quase o triplo desta em uma década!"

Em seu recente livro Culture Matters, Samuel Huntington envereda pelo mesmo axioma. Refere que, na década de 1960, Coréia do Sul e Gana tinham quase que o mesmo PIB per capita; recebiam os mesmos níveis de ajuda econômica; prodigalizavam uma alentada exportação; guardavam semelhanças siamesas, na economia, entre bens primários, indústrias e serviços.

Trinta anos depois, continua Huntington, a Coréia tornou-se um gigante industrial, com a décima quarta economia do mundo. Em Gana, o PIB de 1990 correspondia à décima quinta parte do da Coréia do Sul.

Se crermos sincera a petição de princípios de Huntington, os medidores do desenvolvimento estarão repousando na cultura, mais do que na realpolitik dos contabilistas. Vivemos ainda, no Brasil, o estado cartorial herdado da Contra-Reforma Católica. Como genialmente notou Roberto da Matta, aqui quando você é fechado no trânsito ouve do brutamontes do outro carro: Você sabe com quem está falando? Lá fora, quando se toma uma fechada, a parte prejudicada logo dispara: Quem você pensa que você é? Nossa cultura católico-medieval e autoritária, misturada com o babalaô cultural africano, engendra esse aleijão moral, em que nos atribuímos toda e qualquer autoridade. Em outras terras, o arranjo

cotidiano vai por outro caminho: o barato é contestar a autoridade do outro. Assim como nossas modelos mais vendidas lá fora levam o sobrenome alemão, outro tipo de construto cultural andamos dando de barato além-mar: os Pit Boys e o Jiu Jitsu.

Nos anos 70, quando David Carradine tornou o Kung Fu uma moda imperativa, essa arte marcial virou a bola da vez. Vagidos chineses davam conta que, na filosofias Kung Fu, quando vemos um problema há que nos desviarmos dele e prosseguir nosso caminho. Nosso Jiu Jitsu, que ganhou o mundo, vai na contramão: quando se defrontar com problema, agarre-o, o máximo que puder, nem que tenha de se desviar de teu caminho. Por isso somos tão violentos e nosso produto mais exportado é o rala-coxa-de-macho tão prodigalizado pelos Gracie. Por isso tanta gente morre no trânsito. E nossos vizinhos, em geral, converteram-se em homens de gatilho fácil.

Lulinha Paz e Amor herdou tudo isso e adotou outro tanto. Carrega nas costas um país que acreditava em São Tancredo Costurador, em São Covas o Ético, no Ministro Vampiro, o Calvo, na modelo que nos vende lá fora porque tem um filho do roqueiro bocudo, e na outra loira tingida que era humilde na Lapa, em São Paulo , mas conquistou o coração do rico corredor que morreu na curva do rio.

Lulinha Paz e Amor também parece gostar do Jiu Jitsu. Corrupção em gente do partido? Uai, mete um golpe de jiu jitsu, agarra o pessoal do bingo e extermina eles na porrada. O jornalista gringo fez fora do penico porque não apurou bem um boato que corria em letras garrafais por aí? Uai, mete no ianque outro golpe ensinado pelos Gracie, agarre-se o ianque pela goela, extermine-o mesmo que isso custe a indignação do ministro da Justiça e a má imagem perpetrada por todo aquele que gosta de meter porrada.

Rezemos para que Lula traga um pouco de Kung Fu para cá. Afinal, cultura é o que importa.

Cláudio Júlio Tognolli é jornalista, autor de Falácia Genética: a Ideologia do DNA na Imprensa, Editora Escrituras, 2004.

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