Estação Clínicas - IML

Eduardo Ferreira Santos

(Medico-Supervisor no Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da FMUSP e Coordenador do GORIP (Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica) que atende vítimas da Violência Urbana no HC-FMUSP)

Estava ali, à minha frente, um homem com a face crispada de dor e amargura pelo filho morto. Seu rosto expressava a mais profunda dor que um ser humano pode sentir. Suas mãos tensas, nervosas, esfregavam-se continuamente, como a esquentar-se por um frio que lhe corria na alma.

E aquele homem, maduro, pai de família, experiente em muitas atividades ao longo de uma longa existência, não conseguia conter as lágrimas francas que jorravam impedindo-o de falar.

Ali, à minha frente, estava mais uma vítima desta violência insuportável, ignóbil, incompreensível que derrama o sangue de gente direita, de gente do bem.

Aquele homem chorava a morte do filho morto há 5 anos, brutalmente assassinado com 8 tiros por homens que queriam bens materiais e, sabe-se lá porque, também se divertiam vendo um quase ainda adolescente morrer esvaindo-se de sangue à sua frente...

O filho querido daquele homem, criado com todo o amor, carinho, esforço, esperanças e expectativas, havia se transformado, em questão de minutos, em apenas mais uma das 400.000 mortes por homicídio nos últimos 10 anos no Brasil, enriquecendo estatísticas frias e vazias como o coração daquele homem a pranteá-lo, ali, à minha frente.

As pessoas – se é que podemos chamá-las de pessoas – que o mataram fugiram e não foram encontradas pela polícia. E se foram, por acaso, parar em alguma delegacia, certamente alguma ONG ou mesmo a OAB veio prontamente em socorro destas vítimas das "injustiças sociais", alegando a defesa dos direitos humanos de quem nem sequer humano consegue ser.

E aquele pai continua a chorar, relatando, pormenorizadamente, como o filho, ensangüentado e agonizante, exalou o último suspiro em seus braços, deixando toda uma família absurdamente atordoada e eternamente traumatizada.

E, mais ainda, aquele homem ali à minha frente, repetia uma história que tenho ouvido de outros 

pais, mães, seqüestrados, estupradas e outras vítimas de toda uma série de barbáries cometidas em nome da "injustiça social"... E eu, médico como o dr. Dráuzio Varela, descendo em uma estação de metrô como o Dr. Drauzio Varela, percebo que estou do outro lado do "front" desta guerra suja e sem regras travada nas ruas e casas da cidade de São Paulo.

Não desço na Estação Carandiru do Metrô, mas sim na Estação Clínicas-IML, a outra ponta de uma linha cruel, marcada por dores e sofrimentos de gente baleada, esfaqueada, machucada, violentada, morta, amortecida em vida que busca algum tipo de socorro para suas dores físicas e psicológicas e vagam, quase sonambúlicas, pelo imenso Complexo do Hospital das Clínicas de São Paulo ou pelos corredores do Instituto Médico-Legal.

São pessoas que simplesmente estavam vivendo suas vidas também injustas, com dificuldades e sofrimentos, mas de forma honesta e humana e se viram, de um momento para outro, mergulhadas na tortura de uma cadeira de rodas, de uma cama hospitalar, da beirada de uma sepultura...

Como médico, psiquiatra, trato ou procuro tratar a dor da alma destas pessoas. Como pessoa compartilho por empatia com suas dores indescritíveis.

Como cidadão, sito-me obrigado a gritar em voz bem alta, para que alguém, sei lá quem, possa ouvir o tamanho da dor, a verdadeira tortura, a trajetória ébria destes verdadeiros mortos sem sepultura que não encontram abrigo para sua dor em lugar algum.

Posso até entender que haja tanta gente preocupada com o Judiciário, o Sistema Penitenciário, os Direitos Humanos e todo um discurso demagógico e oportunista. Só não entendo porque há tão poucas pessoas dispostas a assumir verdadeiramente este lado tão doloroso, tão ou mais injusto, tão desprovido de amparo e solidariedade...

Sinto-me triste, tanto quanto aquele homem sentado e chorando à minha frente e pergunto, imitando Fernando Pessoa:

Arre! Onde é que há gente neste mundo!

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