"Nordestinado", Nildo lança "Olho por Olho"

Com coquetel na Livraria Cultura – Conjunto Nacional em noite de autógrafos, o escritor e jornalista Nildo Carlos Oliveira lançou dia 6 mais um livro, o romance "Olho por Ollho. Nada melhor que o prefácio de Paulo Dantas para descrever a obra. Ei-lo, a seguir.

Nordestinado

Paulo Dantas

Nildo Carlos Oliveira, autor deste notável romance Olho por Olho, conseguiu fazer essa transposição do Nordeste para São Paulo, de onde veio criança. Passou pelo interior (Marília), forjou-se no jornalismo e se tornou escritor. Tem provado, nos trabalhos já publicados, que maneja com muita habilidade os mecanismos da ficção. A novela Madalena e o livro de histórias Com a Idade da Terra são bem ilustrativos dessa capacidade. Agora, ele deu um salto maravilhoso com este Olho por Olho. No entanto, como a maioria dos autores nacionais, não tem a circulação que merece. E mais: até aqui não teve imprensa nem crítica. Não que ele ficasse magoado com esse fato. Quem escreve para viver, ou seja, para não morrer, consegue superar esse trauma. E continua escrevendo.

O Olho por Olho é um desses romances que a gente lê uma vez e quer continuar a ler. Diferente de outros, que a gente se dá por satisfeito em ler apenas uma vez. Pois bem. Eu li esse romance duas vezes, setenta vezes sete. Achei um trabalho fascinante. Tanto é que eu, que me encontrava no ostracismo, com ele me senti revitalizado. Porque Nildo ressuscitou um tipo de romance que tem a força daqueles romances do Nordeste, conquanto via São Paulo.

Há muito tempo que não tínhamos em São Paulo um romancista do calibre alumbrado desse escritor. Lembro-me que a ficção paulista se enriqueceu com vários escritores, entre os quais o Luís Martins (A Fazenda), Flávio de Campos (Planalto) e Tito Battini ( E agora, o que fazer?). Mas com esse romance, o Nildo nos dá uma nova dimensão ficcional, na medida em que transforma o imaginário dele, numa realidade positiva. Todos os personagens desse livro desfilam bem acabados e desenhados, numa galeria maravilhosa. O livro narra a história de uma vingança. A vingança do empregado submetido e humilhado, ao longo dos anos, por um tipo de patrão que tem um traço de tirano dos nossos tempos ou de todos os tempos. Esse tirano, Floriano, é um tipo bem traçado, tanto interior como exteriormente. Tipo curioso, dado a arrotar bravatas, exerce o poder obtido a custa do tráfico de influência e se dá ao luxo de vez outra citar máximas para alardear um conhecimento livresco a fim de impressionar comparsas ou subordinados. Outro personagem, o Valério, o autor da vingança praticada contra Floriano, em cujo desenho o romancista utilizou traços autobiográficos da infância e pedaços de sua vivência como jornalista, se destaca ao longo do livro pela costura que vai fazendo de cada acontecimento, recorrendo, com essa finalidade, à leitura que fez dos Ensaios, de Montaigne. A narrativa segue um ritmo constante, jamais monótono, tirando proveito das mudanças urbanas da cidade, das surpresas que esta provoca em Valério e vai criando o ambiente para a vingança. Quando se imagina que esta será definitivamente perpetrada, ela apenas continua.

A presença, no livro, das várias faces de São Paulo, se dá muito bem a golpes de saudade. O autor, egresso das Alagoas, daquela região de Arapiraca, Palmeira dos Índios, Limoeiro, se desdobra em vários personagens. E o amor demonstrado para com os mais humildes é comovente. É o caso do tratamento que ele confere às prostitutas que começam a se arranchar nas proximidades de uma das obras que ajudaram a fazer a fortuna de Floriano, uma hidrelétrica construída perto da cidade de Três Veredas (não seria Três Lagoas?). Uma dessas

prostitutas é a Mudinha, sacrificada porque denunciou uma das patifarias de Floriano. Ao lado disso, quem é que não se comove também com a história de amor frustrado vivida por Valério e pela pequena burguesa, Clarinda?

Merece destaque, reitero, a arte do diálogo. A coisa mais difícil, no romance, é diálogo bem feito, pois é ele que projeta e mantém a personalidade de cada personagem. E o diálogo, nesse caso, estabelece um equilíbrio, com Nildo proporcionando voz natural aos seus personagens. São 20 capítulos, cada de leitura mais agradável do que o outro. Como, retraído e deprimido, estava há muito tempo sem dedicar-me ao prazer das leituras, passei a ler esse romance e o que experimentei foi uma espécie de ressurreição. Saí do meu ostracismo, ocasionado por uma depressão profunda. Não lia, não fazia nada. Não tinha estímulo algum. A depressão fecha o escritor. Aniquila. Mas saí dessa depressão e fui me animando cada vez mais, na medida em que avançava na leitura desse Olho por Olho.

Acho que o editor desse romance, o Reginaldo Dutra, que encara a vida com um pouco de visão boêmia (senão não seria o editor que é, conforme salienta também o próprio Nildo), precisa encontrar meios para fazer esse livro ter a circulação que merece. O maior número possível de leitores precisa ter em mãos esse romance fascinante. Cativado pela sua beleza, acredito que ele ressuscita, em seu gênero, o romance urbano paulistano, com uma tintura de romance social. Social, porque o autor é um angustiado. E angustiado como todo escritor que vive marginalizado nessa cidade onde a única saída é escrever porque, senão escrever, morre.

Nildo é um autor que escreve todos os dias, num contínuo processo de pesquisa e aperfeiçoamento. Eu o conheço há muitos anos. Há muitos anos ele vem acumulando originais, por falta de editor. Só muito recentemente publicou a novela Madalena e Com a Idade da Terra. Felizmente, há o Reginaldo Dutra, que abre as portas de sua casa modesta para todos os escritores, entre os quais, esse autor cuja linguagem não é fechada ou delimitada pela introspecção, mas fruto de um talento, que precisa ser reconhecido e divulgado. Com o neologismo "nordestinado", que utilizo no título acima, quero dizer que Nildo veio do Nordeste e, cumprindo o seu destino, escreve aqui em São Paulo. O Nordeste, a contragolpe, está embutido na saudade dele. As passagens urbanas no livro são muito boas. Tenho a impressão de que ele anda com os passos perdidos, se unindo aos personagens que vai criando. Curiosamente, esse romance me lembra muito o Angústia, do mestre Graciliano Ramos, que também é a história de uma vingança, com motivação evidentemente diversa.

 

Olho por Olho, a exemplo de todo livro bem escrito, é uma catarse, na medida em que reflete, em sua plenitude, essa angústia do escritor. O problema do Nildo é que ele deixou de publicar seus livros quando, em anos passados, teve oportunidade para isso. Foi adiando a possibilidade, sob o argumento de que teria de refundir os seus textos, imaginando que o tempo – o tempo de todo o escritor – não passa tão rápido. Mas passa.

Nildo, romancista e amigo leal, conviveu com o escritor Osório Alves de Castro, autor que eu lancei na coleção Terra Forte, da Francisco Alves, e cujo romance, Porto Calendário, ganhou o Prêmio Jabuti em 62. Ele foi amigo de Osório até o amargo fim, em dezembro de 1978.

Todo livro corresponde a um estado de espírito. E cada estado de espírito dá um livro. Nildo, por modéstia ou por angústia pessoal, arquiva esses livros. Espero que, a partir de Olho por Olho, ele desengavete os seus outros originais, pois um romancista de seu calibre não pode ficar escondido na literatura.

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