Folhas de coca são matéria-prima,

afirma ex-executivo da Coca-Cola

No programa "100% Brasil" da Rede TV!, apresentado pelo jornalista Marcos Barrero na madrugada de 26 último, o ex-executivo da Coca-Cola, Placídio José Mendes, que diz já ter sido responsável pela liberação de entrada no Brasil do Extrato Vegetal utilizado nesse refrigerante, declarou que a bebida "possui derivados de folhas de coca em sua fórmula", o que é proibido pela legislação brasileira.

A Coca-Cola renovou desmentidos. E a direção da Dolly, empresa em guerra com aquela multinacional há meses, aproveitou para alardear: "Todo mundo conhece alguém ‘viciado’ em Coca-Cola, que mais do que beber normalmente o produto como um refrigerante qualquer, não consegue passar sem ingeri-lo."

"Manobras para abafar"

Mendes alega ser hoje "um perseguido" porque saberia demais sobre a "Mercadoria n.º 5", nome dado àquela parte da fórmula. Assegura que "o extrato vegetal líquido nunca foi analisado pelo Ministério da Agricultura, nem pelo da Saúde, nem pelas áreas de Comércio Exterior, nem pela Cacex. Há um leque de manobras políticas e estratégicas utilizadas para abafar esse assunto". Citou casos, documentos e disse que, em 1980, a Cacex chegou a proibir a importação do extrato pela falta de respostas convincentes da Companhia. "Mas nada ia para frente. E se havia algum funcionário das instituições que criasse caso, ou ele ia para a rua, ou era transferido do setor imediatamente" – afirmou.

Citando estudos feitos por toxicologistas, incluindo o dr. Octávio Medeiros Brasil, que já dirigiu o Instituto de Criminalística da Polícia Federal, Mendes disse ainda que o uso de derivados de folhas de coca seria imperceptível em análises no produto final: "O refrigerante utiliza ácido fosfórico em sua diluição, o que homogeiniza e mascara a utilização dos alcalóides. É mentira também que se trata do segredo da fórmula, que se chama 7 X. É mais uma forma de escamotear o assunto".

Impasse em Brasília

O programa da Rede TV! também entrevistou parlamentares sobre o que está acontecendo na Câmara dos Deputados com relação ao assunto. Entre eles, estavam Inocêncio de Oliveira (PFL/PE) e Severino Cavalcante (PP/PE), dois integrantes da Mesa diretora da Câmara. Externaram a opinião de que a questão deve ser investigada a fundo.

Foram reprisados momentos da Audiência Pública realizada na Câmara Federal, dia 3 de julho passado, e que foi paralisada por manobras regimentais quando era questionado o presidente da Coca-Cola no Brasil, Brian Smith, sobre se havia ou não derivados de folhas de coca no produto.

No início de maio foi aprovado - por unanimidade - o requerimento n.º 1866, do deputado federal Renato Cozzolino (PSC/RJ) que solicita análise do Extrato Vegetal. Mas, o pedido continua parado, esperando decisão do presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT/SP). 

"A Coca-Cola é igual à mulher de César. Deveria, ela mesma, comprovar que é pura, para acabar com as dúvidas que sempre pairaram sobre esse assunto" – afirmou o deputado Inocêncio de Oliveira na entrevista à Rede TV!

Questão antiga

A dúvida sobre o que contém o tal extrato vegetal é antiga e já causou polêmicas, inclusive judiciais, até nos Estados Unidos.

Há três anos (25 de março de 1991), matéria da Folha de S. Paulo, assinada pelo jornalista Rogério Wassermann, dava conta de que aquele país, que financia a destruição de plantações de coca, havia comprado 99,9% de toda a produção comercializada legalmente durante 1999 pelo Peru e Bolívia. Era, portanto, o maior importador legal de folhas de coca, enquanto promovia com centenas de milhões de dólares o combate às plantações naqueles mesmos países. Segundo dados da ONU, os EUA haviam importado naquele ano 110 mil toneladas de folhas.
Segundo Wassermann, a razão desses números seria "a demanda para a fabricação de um dos mais conhecidos produtos norte-americanos, a Coca-Cola, vendida em mais de 200 países, que tem em sua fórmula um extrato "descocainizado" de folhas de coca. Ou seja, o refrigerante não tem cocaína, que é retirada por meio de processos químicos."
No ano seguinte, apenas o Peru exportou para os EUA, através da empresa Stepan Company, com sede em Maywood, Nova Jersey, empresa detentora de autorização da DEA (a agência de controle de drogas norte-americana) para comprar as folhas e produzir o extrato alimentício vendido à Coca-Cola. A mesma empresa, originalmente chamada Schaefer Alkaloid Works, depois Maywood Chemical Works, produzia o aromatizante para a Coca-Cola desde 1903.

Diz ainda a matéria: "No processo de extração do

alcalóide das folhas, a empresa produz também algumas dezenas de quilos de cocaína. Parte disso é destruída. Outra parte é utilizada em pesquisas médicas ou como anestésico em cirurgias. Oficialmente, tanto a Coca-Cola quanto a Stepan Company se recusam a comentar o assunto."

E prossegue: "A fórmula da Coca-Cola é um segredo muito bem guardado, sobre o qual a empresa não faz comentários", disse à Folha um porta-voz da empresa.
O mesmo ocorre na Stepan Company. "A empresa tem uma política de não comentar esse assunto", afirmou John O’Brien, gerente da fábrica de Nova Jersey.

"A Folha tentou ouvir também a DEA sobre o assunto, mas, após mais de dois meses de tentativas, com diversos contatos com o setor de Relações Públicas do órgão em Washington, com o representante do órgão no Brasil, Patrick Healy, e com o adido de imprensa da Embaixada dos EUA no Brasil, Terry Davidson, o órgão se limitou a enviar, na semana passada, um e-mail com apenas algumas das informações solicitadas.

"A Folha pediu informações sobre a empresa (ou as empresas) autorizadas a importar coca e sobre o tipo de utilização do produto nos EUA, mas a DEA informou que são ‘dados particulares que não podem ser divulgados’.

"Segundo o órgão, a destinação primordial da importação de coca é comercial. ‘Há um uso muito limitado de folhas de coca para aplicações de pesquisa’, relatou o órgão em e-mail enviado à Folha. A reportagem também pediu uma entrevista à DEA, mas não obtivera resposta até anteontem."

Eis, a seguir, o final da reportagem:

"Fórmula divulgada
"Certamente é a demanda da Coca-Cola que explica a grande quantidade de folhas de coca importada anualmente pelos EUA", disse à Folha Mark Pendergrast, autor do livro ‘Por Deus, pela Pátria e pela Coca-Cola - A História Não-Autorizada do Maior dos Refrigerantes e da Companhia que o Produz’, de 1993, no qual ele divulgou uma suposta fórmula do refrigerante.
"Que eu saiba, a Coca-Cola é a única empresa a utilizar esse extrato de coca na fabricação de seu produto", disse. Pendergrast afirmou ter encontrado as informações sobre a fórmula do produto em documentos achados nos arquivos da própria companhia.

"Apesar de todo o mistério e proteção, a importação de folhas de coca e a fabricação do extrato aromatizante seguem regras legais e são fortemente controladas pela DEA e pela Jife (Junta Internacional Fiscalizadora de Entorpecentes), órgão ligado à ONU responsável pela aplicação da legislação internacional sobre drogas.

"A Convenção das Nações Unidas sobre Narcóticos, de 1961, permite o cultivo controlado da coca nos países em que ela já era tradicionalmente cultivada -Bolívia e Peru-, mas condena seu consumo tradicional -mascada ou em forma de infusão- pelas populações indígenas.

"Em seu artigo 27, porém, a convenção admite a produção de extratos aromatizantes a partir da folha de coca, desde que não contenham alcalóides. "O artigo foi escrito sob medida para a Coca-Cola", afirma Pendergrast, que diz não saber se a empresa fez lobby para a aprovação dessa ressalva na convenção.

"Sem contradição

"Para o secretário-geral da Jife, Herbert Schaepe, não existe contradição entre a política norte-americana de combate às drogas e o uso das folhas de coca para a produção do aromatizante usado pela Coca-Cola. ‘Tudo isso é permitido pelas convenções internacionais, autorizado pelos órgãos competentes dos países e fiscalizado pela Jife’, disse Schaepe à Folha. ‘O que se combate é a produção para fins ilegais.’
"Segundo ele, não existe nenhum impedimento legal para que os países produtores incentivem outros usos legais para a coca ou para qualquer outro produto de uso controlado, mas isso poderia criar dificuldades para as campanhas de prevenção às drogas.
’Se a coca, a maconha ou a papoula (matéria-prima do ópio e da heroína) se tornam comuns, a acessibilidade traz a sensação de que não são produtos que provocam algum tipo de dano’, afirma.
Esse problema não acontece, na sua opinião, com a presença de um extrato de coca na Coca-Cola. ‘Quem toma o refrigerante não o faz por causa disso, diferentemente de um jovem alemão que toma cerveja de maconha achando que está consumindo de maneira legal um produto ilegal -apesar de que essa cerveja, assim como a Coca-Cola, não tem nenhum traço de droga em sua composição’, diz Schaepe.
’Essa suposta transgressão faz parte do marketing da cerveja, mas a Coca-Cola não faz isso. Alguém poderia até avançar dizendo que o nome do produto faz alusão à coca, mas seria avançar demais."

 

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