Editorial

UFANISMO HIPÓCRITA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conferiu ares de dever de ofício à fala em prol da auto-estima brasileira (matéria à parte). Mas, não explicou como recuperar o orgulho nacional onde existem leis que mandam fazer justiça às avessas, em contradição com tudo o que se aprende como direito.

Como ter amor próprio onde toda reforma legal feita por representantes do povo acaba favorecendo quem massacra, atemoriza, desestimula e magoa a população até como fora-da-lei?

Um país em que o ensino superior gratuito é reservado aos ricos e a escola pública elementar funciona como fábrica de alienados semi-analfabetos, exatamente para garantir aquele acesso aos afortunados possuidores de dinheiro suficiente para se formar e transformar em novos patrões;

Onde dá vergonha ser honesto porque isso significa ser "otário", em função da desonestidade exemplar de quem deveria conduzir a feitura e a aplicação das leis;

Onde crianças ainda morrem de desnutrição quando não conseguem arrebatar dos urubus restos de comida nos "lixões";

Onde índices de mortalidade infantil são comemorados quando simplesmente parecem menores do que em alguns países africanos;

Onde grandes exemplos de sucesso pessoal derivam da sonegação fiscal, dos desvios do dinheiro público e da corrupção;

Onde um jovem de 1m80 de altura pode estuprar e matar uma jovem mãe e ainda sair sorridente da delegacia para voltar a casa sob as garantias da lei porque lhe faltavam algumas horas para completar 18 anos de idade;

Onde a lei penal só progride para traumatizar ainda mais as vítimas e beneficiar os seus algozes;

Onde o "jeitinho" é eufemismo para exaltar o "quebra-galho" como algo legítimo, inteligente e, portanto, admirável;

Onde terras incultas e férteis a perder de vista continuam a distanciar-se de quem poderia cultivá-las, mas é tolhido por lideranças e rótulos ideológicos que não entende e, mesmo assim, precisa aceitar;

Onde se rasga a Constituição para garantir legitimidade e impunidade à agiotagem dos bancos  e financeiras;

Onde saúde, previdência e segurança pública são aviltadas para permitir lucros bilionários ao "mercado";

Onde atos que parecem motivados por puro idealismo num período de "luta armada" acabam revelando-se, depois, como peças da mais engenhosa indústria de indenizações e pensões já inventada na História do Brasil para premiar quem queira reduzir-se à expressão mais simples, isto é, descer ao nível de mero ex-ladrão, ex-seqüestrador ou ex-assassino;

Onde se evaporam montanhas de dinheiro aplicadas em ornamentos, reformas e provisões palacianas, além de doações a governos estrangeiros, enquanto existem brasileiros passando fome e sem emprego fora dos palácios governamentais;

Onde tragédias criminosas como as do Bateaux Mouche e do Palace II permanecem impunes e sem ressarcimento por anos e anos a fio;

Onde se consegue chegar ao poder reiteradamente com promessas ilusórias que se planeja jamais cumprir;

Onde o "rouba mas faz" e "é dando que se recebe" são legendas de "boa administração pública";

Onde os jovens "caras-pintadas" somem na hora em que o povo mais deles precisa porque só dançam conforme uma música que nem sabem de onde vem;

Onde a máquina de propaganda governamental bem ajeitada dissolve qualquer problema e apresenta pesadelos coletivos como bem-aventurança, de um dia para o outro, num passe de mágica;

Onde essa mesma máquina passa a reger a grande imprensa inadimplente, depois de salvar seus capitães do estado pré-falimentar com verbas públicas dosadas na medida certa para que eles continuem de joelhos e pires na mão, ou melhor, "na gaveta";

Onde, depois dessa esmola, ouvimos a desculpa esfarrapada de um dos mais importantes dentre tais formadores de opinião entregues à vassalagem: "E tem outro jeito?"

Assim, enquanto a Associação Brasileira de Anunciantes - ABA e o Partido dos Trabalhadores - PT tentam insuflar o ufanismo hipócrita em prol da melhoria dos índices de pesquisas de opinião sobre o desempenho do governo – algo que lembra propaganda nazi-fascista ou soviética adaptada a nível "marqueteiro" caboclo -, vai-se amesquinhando nossa República como Estado Democrático de Direito.

De que maneira podemos nos orgulhar disso, Sr. Presidente?

Mensagem para O JORNAL

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