Lula cita próprio exemplo em prol da auto-estima

"Eu acho que tem valores que nós temos que resgatar. Valores religiosos, valores familiares, valores do ciclo de amizade" – estas palavras, seguidas de menção ao próprio exemplo de criança criada apenas pela mãe com oito irmãos e dois primos, num quarto e cozinha com um só banheiro coletivo externo, sem que nenhum tenha resvalado para a criminalidade, sintetiza parte do pensamento exposto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao discursar de improviso, dia 19, em São Paulo, no lançamento da campanha publicitária "Eu sou brasileiro e não desisto nunca" pela Associação Brasileira de Anunciantes (ABA). A campanha objetiva fortalecer a auto-estima do povo brasileiro.
Lula afirmou que, em sua opinião, "uma campanha como esta pode mexer com valores (...) tão importantes quanto o econômico. Pode mexer com a questão da estrutura da família porque no Brasil se criou o hábito de achar que o Estado pode resolver tudo. Mas o Estado pode resolver uma parte dos problemas ou pode ser indutor e resolver parte dos problemas."

O presidente revelou que "pesquisas feitas entre todos os funcionários da Mercedes Benz, em todas as empresas que eles têm no mundo" demonstraram que "os trabalhadores de maior criatividade e de maior capacidade produtiva são os trabalhadores brasileiros". Assegurou ter ouvido isso, em Genebra, do próprio presidente da multinacional para a América Latina, diante de empresários de 24 países. Também recentemente, em Nova York, o vice-presidente mundial da Ford enalteceu em sua presença "a figura e a criatividade dos trabalhadores brasileiros contando, sobretudo, a experiência da nova fábrica da Ford na Bahia. As surpresas que eles tiveram na formação da mão-de-obra qualificada e na criatividade dos trabalhadores brasileiros, sobretudo, por serem todos muito jovens."

E Lula concluiu o pensamento: "Esses dois eventos, de que eu participei este ano, me chamaram a atenção. Por que tanta gente de fora acredita tanto no povo brasileiro e nós, às vezes, não acreditamos? Porque que nós mesmos, muitas vezes, preferimos o slogan ‘made’ em qualquer outro país, do que uma coisa produzida por nós, pela nossa criatividade, pela nossa inteligência, pela nossa cultura. Eu penso que isso vem de muito longe, vocês que são homens de publicidade, de comunicação, haverão de ter respostas que eu não tenho. Mas eu acho que isso vem ainda do tempo do Brasil Colônia. Eu acho que ainda tem gente que não descobriu que nós somos independentes, não porque D. Pedro gritou ‘Independência ou Morte’, mas porque nós aprendemos a ser uma nação. Nós aprendemos a estabelecer uma cultura própria, nós aprendemos a ter auto-estima. Lamentavelmente ainda tem muita gente que trabalha com o discurso de não acreditar na auto-estima."

Além disso, o presidente ressaltou: "Eu, na semana passada, tiver o prazer, o duplo prazer, de conhecer os meninos e as meninas que participam das Olimpíadas da Matemática. Eu vi um brasileiro, um menino de 19 anos, que já tem o doutorado em matemática. Vi um menino de 13 anos que já está fazendo mestrado em matemática. Vimos uma menina de 16 anos que já ganhou 5 medalhas no exterior participando das Olimpíadas de Matemática. E vejam que interessante, todos do nordeste, Ceará, Piauí, Sergipe, Rio Grande do Norte."

Íntegra do discurso

Eis a seguir, na íntegra, o que disse o presidente da República para a platéia de empresários e publicitários convidados pela ABA.

"Eu penso que depois que ouvimos o Orlando Lopes Batista, era preciso fazer uma reflexão mais profunda sobre uma campanha desse porte.

"Eu estava em Genebra no começo deste ano, com o ministro Furlan e outros ministros do meu governo, numa reunião com empresários de 24 países, e no almoço foi fazer uso da palavra o presidente da Mercedes Benz para a América Latina. E eu fiquei surpreso, porque ele fez um discurso qualificando o trabalhador brasileiro como poucas vezes eu tinha ouvido e assistido alguém falar. Nem no meu próprio meio sindical, onde vivi durante muitos anos, eu vi alguém qualificar tão bem os trabalhadores brasileiros como o diretor da Mercedes Benz, a ponto dele anunciar pesquisas feitas entre todos os funcionários da Mercedes Benz, em todas as empresas que eles têm no mundo. E os trabalhadores de maior criatividade e de maior capacidade produtiva são os trabalhadores brasileiros.

"E isso, meu caro Maciel, foi pouco diante do que nós ouvimos da vice-presidente mundial da Ford, num encontro recente que fizemos em Nova Iorque. Ela falou em nome dos empresários americanos, e mais uma vez, enalteceu a figura e a criatividade dos trabalhadores brasileiros contando, sobretudo, a experiência da nova fábrica da Ford na Bahia. As surpresas que eles tiveram na formação da mão-de-obra qualificada e na criatividade dos trabalhadores brasileiros, sobretudo, por serem todos muito jovens.

"Esses dois eventos, de que eu participei este ano, me chamaram a atenção. Por que tanta gente de fora acredita tanto no povo brasileiro e nós, às vezes, não acreditamos? Porque que nós mesmos, muitas vezes, preferimos o slogan made em qualquer outro país, do que uma coisa produzida por nós, pela nossa criatividade, pela nossa inteligência, pela nossa cultura. Eu penso que isso vem de muito longe, vocês que são homens de publicidade, de comunicação, haverão de ter respostas que eu não tenho. Mas eu acho que isso vem ainda do tempo do Brasil Colônia.

"Eu acho que ainda tem gente que não descobriu que nós somos independentes, não porque D. Pedro gritou "Independência ou Morte", mas porque nós aprendemos a ser uma nação. Nós aprendemos a estabelecer uma cultura própria, nós aprendemos a ter auto-estima. Lamentavelmente ainda tem muita gente que trabalha com o discurso de não acreditar na auto-estima.

"Eu me lembro que nos anos 70, numa grande assembléia no estádio da Vila Euclides, eu disse uma frase que até hoje é repetida pelos metalúrgicos mais antigos, e olha que já faz muito tempo que eu deixei de ser dirigente sindical, mas eu me lembro de uma assembléia muito tensa em que o Exército sobrevoava o estádio da Vila Euclides com helicópteros, ameaçando os trabalhadores.

"Eu me lembro de uma frase que eu falei: "que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores brasileiros." E essa frase, até hoje, quando eu encontro um metalúrgico daquela época, eles lembram dela. Porque, na verdade, ela foi utilizada para mexer com a auto-estima dos metalúrgicos, que estavam fazendo uma assembléia pacifica e de forma acintosa, sendo provocados pelo Exército Brasileiro que, na época, era representado por um general muito duro que tinha aqui em São Paulo e que não gostava de greve.

"Mas eu me lembro que tinha essa campanha, ela mexe com o que nós temos de mais sagrado dentro de nós, ou seja, não é possível um ser humano chegar a lugar nenhum se ele não gostar de si mesmo e se não acreditar em si mesmo.

"Se você não acredita em você, se você não tem esperança, você já levanta de manhã mal humorado, você já cumprimenta as pessoas mal humorado, você vai dormir mal humorado. Eu acho muito difícil alguém ser feliz se não acreditar em si mesmo, se não tiver auto-estima, se não acreditar que amanhã ele poderá fazer melhor do que fez hoje.

"No Brasil, nós vivemos um momento, já há muito tempo, e eu tenho discutido isso com várias pessoas, numa perspectiva de tentar encontrar uma solução, que não é econômica, porque no Brasil, muitas vezes, as pessoas tentam simplificar tudo nas questões econômicas. Eu me lembro que nós temos um processo de desagregação da estrutura da sociedade brasileira, a partir da família. Quando eu vim de Pernambuco, depois de Santos, eu fui morar na Vila Carioca, aqui em São Paulo, e eu morava num quarto e cozinha com oito irmãos e mais dois primos. Ao todo, nós éramos em 13 pessoas que moravam num quarto e cozinha, onde o banheiro era utilizado pelos fregueses do bar e era lá que a gente tinha que tomar banho. Passávamos muita necessidade.

"Entretanto, eu fico me perguntando como é que pode a minha mãe criar oito filhos e mais três sobrinhos. E todos virarem trabalhadores e ninguém caiu na bandidagem, na criminalidade, ninguém foi para o caminho errado. Era porque no fundo, pobreza – a razão pela qual as pessoas se desviam do seu caminho – muitas vezes, é a própria relação dentro de casa. Muitos pais, e vou dizer muitos de nós, para não tirar o nome do Presidente da questão, muitas vezes nós não 

Foto: Ricardo Stuckert / PR

nos perguntamos quantas vezes conversamos por dia, por semana ou por mês, com os nossos filhos. Quantas vezes nós passamos meses sem perguntar para ele alguma coisa? Ou seja, como a nossa vida está resolvida, nós achamos que a vida deles também está resolvida.

"Eu acho que uma campanha como esta pode mexer com valores que, na minha opinião, são tão importantes quanto o econômico. Pode mexer com a questão da estrutura da família porque no Brasil se criou o hábito de achar que o Estado pode resolver tudo. Mas o Estado pode resolver uma parte dos problemas ou pode ser indutor e resolver parte dos problemas.

"No Brasil, historicamente, o Estado criou muitos problemas. Mas uma outra parte é a sociedade que tem que resolver, sobretudo, a família. Quando vejo notícias nos jornais de crianças da Febem, crianças que fogem, crianças violentas, fugas na Febem, eu fico me perguntando com que autoridade o Estado tenta substituir a família de um menor. Como é que pode o Estado querer recuperar aquela criança fora do seio da família, porque o problema pode estar na família desestruturada, no pai que bebe, na mãe, na violência dentro de casa. Afinal de contas, todas as pesquisas mostram que grande parte da violência acontece dentro de casa, praticada por maridos, por ex-maridos, por namorados, ou seja, é uma coisa muito difícil de ser resolvida se a gente ficar achando que as questões são apenas econômicas.

"Eu acho que tem valores que nós temos que resgatar. Valores religiosos, valores familiares, valores do ciclo de amizade, porque, hoje, as crianças estão, cada vez mais, cercadas dentro de uma casa com uma grade cada vez mais alta, presas diante do computador. Eu acho maravilhoso as crianças trabalharem com computação, crianças com 6 anos trabalham melhor que pessoas com 50 anos de idade. Entretanto, por mais que ele seja inteligente, ligado ao computador, ele não pode prescindir da relação humana, ou seja, o contato direto entre as pessoas é que define o tipo de sociedade que nós vamos ter. E nós nos esquecemos disso com muita facilidade.

"Eu fico pensando a repercussão que uma campanha dessas pode ter na cabeça das mães, na cabeça dos nossos jovens que, muitas vezes, estão desesperançados porque não conseguem a chance que deveriam conseguir, não conseguem uma oportunidade. Parece fácil a gente ver o Ronaldinho, depois daquela contusão que ele teve no joelho, se recuperar. Agora, se ele não tivesse uma boa formação, a partir da relação com seu pai, com a sua mãe, se ele não tivesse uma boa relação com os seus empresários, se ele não tivesse uma boa relação com ele mesmo... Nós já tivemos exemplos de pessoas que não se recuperaram, que se deixaram levar pelo desespero e, ao invés de acreditarem que poderiam construir um amanhã muito mais sólido, preferiram desistir, achando que o destino estava selado.

"Quem é que não viu manchetes de jornais dizendo que Herbert Viana estava acabado? Alguns até quase fizeram o enterro dele. Entretanto, a crença dele, a fé, a vontade de viver, ou seja, a auto-estima que ele tinha, permitiu que hoje nós pudéssemos continuar ouvindo e assistindo o Herbert Viana. Isso vale para eles, mas vale para as crianças mais pobres deste país.

"Eu, na semana passada, tiver o prazer, o duplo prazer, de conhecer os meninos e as meninas que participam das Olimpíadas da Matemática. Eu vi um brasileiro, um menino de 19 anos, que já tem o doutorado em matemática. Vi um menino de 13 anos que já está fazendo mestrado em matemática. Vimos uma menina de 16 anos que já ganhou 5 medalhas no exterior participando das Olimpíadas de Matemática. E vejam que interessante, todos do nordeste, Ceará, Piauí, Sergipe, Rio Grande do Norte.

"O ITA, a nossa querida Universidade aqui de São José dos Campos... Eu penso que 30% desses meninos que passaram no vestibular, participam das Olimpíadas de Matemática, quase todos do Nordeste. Parece que o Sul teve dificuldades para colocar as meninas no ITA, e o Nordeste colocou 30%. Por quê? Porque se encontrou uma fórmula de estimular aquela criança, de despertar neles o sentido de responsabilidade, de fazerem descobrir alguma coisa que tinham dentro deles e que não conseguiam descobrir.

" Eu penso que esta campanha, isso que vocês mostraram aqui, essas peças e outras que possivelmente outros publicitários, outros empresários farão, pode mexer com uma coisa que nós temos de mais sagrado, que é a nossa criatividade, que é a nossa capacidade de reagir às adversidades.

"Ontem, eu estava assistindo o filme do Cazuza e estava pensando, que não é apenas a questão financeira que leva um jovem a fazer isso ou a fazer aquilo. Eu acho que as coisas estão muito mais ligadas à família, ao meio ambiente em que a pessoa vive, mas a família é a célula principal. Se o pai não servir como referência, se a mãe não servir como referência, se o Presidente da República não servir como referência, se o governador não servir como referência, se o prefeito ou a prefeita não servirem como referência, se os deputados não servirem como referência, se os juízes não servirem como referência, em quem esse jovem vai se apegar para dizer: eu posso, eu acho que eu posso. E a partir do "eu acho que eu posso," ele chega lá.

"Aí acho que nós temos que estudar corretamente que tipo de livro nós lemos, que tipo de programa de televisão nós assistimos, que tipo de cinema nós assistimos, ou seja, não tem uma coisa única, mas um conjunto de coisas e vocês, empresários e publicitários, mais do que em qualquer outro segmento da sociedade, podem ajudar. E por que vocês precisam ajudar? É porque se fazer as coisas certas está difícil; se as vagas nas universidades são menos do que a quantidade de alunos que querem estudar; se a qualidade do aprendizado não é a que ele gostaria de ter; se as oportunidades de emprego não são tantas quantas necessárias, significa que fazer as coisas certas está ficando cada vez mais difícil e quando fazer as coisas certas fica difícil, pode parecer mais fácil fazer as coisas erradas.

"Se a sociedade, o governo e todas as instituições não oferecem a oportunidade, alguém pode oferecer, possivelmente, aquela que não seja a que nós estamos querendo. O certo, é mais fácil, o certo é o ideal. Garantir que as pessoas tenham acesso às coisas mínimas, eu acho que é um compromisso ético, muito menos do que uma lei, é um compromisso ético. E na medida em que se apresenta a dificuldade, aí sim, entra a questão da auto-estima, entra a questão da família, entra a questão da sociedade.

"Por isso, Orlando Lopes Batista, eu quero dizer que não sei qual será o resultado de uma campanha como esta. O que eu penso é que se as pessoas que assistirem em casa tiverem a mesma reação que eu tive, se as pessoas que estão assistindo em casa, assumirem para si a responsabilidade de valorizar um pouco mais a sua casa, a sua família, a sua rua, a sua cidade, o seu estado, o seu país; valorizar aquilo que nós temos, valorizar aquilo que nós possuímos... Se eu só tenho um par de sapatos, eu tenho que valorizar aquele par de sapatos; se eu tenho um terno, eu tenho que valorizar aquele; se eu não tenho um carro novo e tenho um fusquinha, eu tenho que valorizar aquilo; ou se tenho um carro da Ford, um Fiesta, sei lá, nós temos que valorizar aquele.

"Nós não podemos ficar apenas dependendo do que alguém pode fazer por nós; temos que descobrir que nós poderemos fazer muito por nós mesmos.

"Por isso eu quero terminar te dando os parabéns, dizendo que os companheiros e as companheiras que compõem a Associação Brasileira de Anunciantes estão de parabéns. Eu não sei onde vocês vão parar, e é bom não saber mesmo, porque nem vocês sabem. Se essa onda pegar, eu penso que nós poderemos, daqui a algum tempo, ter um povo acreditando em si, muito mais do que já acreditou em qualquer outro momento, e é maravilhoso não mostrar apenas o artista. Não sei se vocês perceberam que no Brasil nós não temos heróis, não sei se vocês perceberam que o Brasil é um país em que nós não cultuamos heróis.

"Em qualquer lugar do mundo que eu vou, eu tenho que levar flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem, Ciro Gomes. No Brasil, quando a gente fala em herói, a gente fala em Ayrton Senna, a gente fala em Pelé, a gente fala nos jogadores que foram campeões do mundo, de vôlei, de basquete, de natação. A gente não tem a figura que todo país do mundo tem, porque em algum momento, neste país, se achou que era possível viver sem referência. E eu acho que nós temos obrigação de contribuir com a construção de um outro momento na vida do nosso país. Por isso, muito obrigado Orlando, eu acho que vocês estão contribuindo para que a gente sonhe em ter um país que acredita em si mesmo.

"Obrigado e boa sorte para a campanha."

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