Anistia faz 25 anos e eu continuo sendo torturado

Celso Lungaretti

Sou jornalista e ex-preso político, com lesão permanente resultante de tortura. Na semana em que a Lei da Anistia completou 25 anos, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça me preteriu duas vezes e praticou evidente discriminação contra mim, mesmo tendo pleno conhecimento de que eu e meus dependentes estamos em situação financeira dramática. Peço o apoio de todos os cidadãos com senso de justiça e solidariedade, pois essa burocracia arrogante quer me levar à loucura com seu jogo de gato-e-rato.
O julgamento do meu pedido de anistia foi pautado para 23/08. Depois de uma viagem de 14 horas, de São Paulo a Brasília, o relator disse na abertura da sessão que não tivera tempo de preparar o relatório, mas o faria para a sessão seguinte. Saí arrasado: além de prolongar minha agonia, haviam-me imposto uma viagem inútil e estressante. Mas, ainda confiava na promessa. Na página com os andamentos do meu processo, constava apenas "adiado".
Quando foi para o ar a pauta da reunião extraordinária de 31/08, entraram todos os requerentes cujo julgamento fora adiado - menos eu. Aí, fui ver os "resultados" da sessão de 23/08 e verifiquei que, unicamente no meu caso, colocaram "retirado de pauta" em vez de "adiado", preparando o terreno para postergar

de novo o julgamento. Até quando?
Por que me torturam dessa forma? Porque não me conformei em ser preterido, vendo distorcerem os critérios mês a mês para privilegiar seus favoritos, enquanto minha situação financeira ia se agravando. Porque, de uns 30 mil anistiandos na fila, tive a coragem de protestar contra a preterição de que estava sendo vítima e os favorecimentos indevidos a celebridades, sindicalistas e políticos, apresentando queixas consistentes ao Ministério Público Federal, à Comissão de Direitos Humanos da OAB e à Ouvidoria Geral da República, que as acolheram e estão apurando. E também por conta de antigos ressentimentos que parte da esquerda tem contra mim, referentes a episódios ocorridos em 1970 (!).

Preciso desesperadamente que estes fatos cheguem à opinião pública. Toda ajuda será muito bem-vinda. 

Celso Lungaretti tem o e-mail lungaretti@uol.com.br

N. da R. - A situação de Celso Lungaretti não é diferente de outros peticionários que aguardam decisão do Ministério da Justiça. Por exemplo, a petição da escritora e jornalista Lenita Miranda de Figueiredo, também torturada quase ao extremo e perseguida profissionalmente, continua a mofar na Comissão. É que, no Ministério da Justiça, só se observa boa vontade  com relação a quem, na verdade, pode até não ter participado da "luta armada", mas conte com a simpatia das facções político-ideológicas hoje no poder.

 

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