Missão surpreendente

Gen Ex José Carlos Leite Filho

O dono de uma fábrica que não disponha de capacidade ociosa e queira intensificar a sua produção necessitará de investimento e, certamente, algum planejamento. Se for um colégio ou uma faculdade, não bastará a vontade do seu diretor para, repentinamente, dobrar o seu efetivo de alunos ou apenas aumentar várias turmas à sua capacidade de formação, uma vez que sem investimentos adicionais em recursos humanos e financeiros a empreitada não logrará êxito.

Assim, vejo com surpresa a decisão do governo federal determinando a incorporação extraordinária ao Exército brasileiro de um contingente de 30.000 jovens já dispensados do serviço militar obrigatório, fato ocorrido na primeira semana deste mês, não para a formação do militar, mas a fim de contribuir para o propalado "programa do primeiro emprego"! Em Natal, o acréscimo foi de cerca de 450 soldados.

Vale lembrar que o esvaziamento do serviço militar foi uma prática do governo FHC, repetida pelo atual, ao não destinar para as Forças Armadas as verbas essenciais e indispensáveis ao cumprimento do mandamento constitucional. Sei bem da frustração conseqüente nas casernas, onde os militares, certamente, hão de estranhar o ocorrido e lamentar ver a defesa do País ignorada enquanto não falta dinheiro para a compra de um novo, caro e luxuoso avião presidencial e para a realização de generosas progressões econômicas, a título de indenizações, para "companheiros", supostas "vítimas da ditadura militar", para os quais a disponibilidade orçamentária atual é superior a R$1 bilhão!

Conheço, embora superficialmente, as atuais promessas de convênios com entidades tais como CEFET, SEBRAE e outras equivalentes, mas fica difícil imaginar a disponibilidade repentina de dotações orçamentárias para esse novo mister a fim de satisfazer necessidades básicas dos quartéis em 

alojamento, banheiros, fardamento, alimentação, munição, combustível, etc.

No contexto enfocado não há como esquecer manifestações recentes de autoridades governamentais, notadamente o Ministro Mantega, que ao negar recomposição salarial aos militares, evidenciou o seu despreparo, como membro da cúpula do Governo, aconselhando, de forma desrespeitosa e sem compostura, que mandassem suas esposas trabalhar a fim de reduzir os indisfarçáveis apertos financeiros familiares!

Não sou porta-voz institucional, mas valho-me dos meus 50 anos dedicados ao Exército, a serviço do Brasil, e da autoridade de haver galgado a mais alta hierarquia militar e conquistado o título de "doutor em aplicações, planejamento e estudos militares" para exteriorizar a minha revolta com a mesquinharia política praticada no meu País, caracterizada pela falta de estadistas capazes de identificar os interesses nacionais, máxime os essenciais à defesa da soberania e da integridade territorial, enquanto abundam os aproveitadores do poder que dele se valem para satisfação de vaidades, interesses pessoais e de partidos políticos.

Consola-me a certeza de que o EXÉRCITO, como sempre, levará a bom termo essa nova e surpreendente missão, que não lhe é própria, graças à dedicação, seriedade, competência, engenhosidade e capacidade de improvisação dos seus integrantes, comandantes e comandados, os quais, felizmente ou infelizmente, desconhecem o caminho das greves reivindicatórias e da exteriorização de suas insatisfações, pois apenas aprenderam o caminho do dever e, talvez por isso, são vítimas úteis de quem não reconhece os seus valores, mas sabe usá-los para a solução de problemas que entregues a outros faria aflorar dificuldades e absurdos inerentes.

Mensagem para O JORNAL

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