Salários não bastam a um mês nos lares brasileiros

Apesar dos esforços da máquina de propaganda governamental para mostrar que nossa economia ingressou numa fase cor-de-rosa, problemas como desemprego, empobrecimento, inflação e salários humilhantes continuam a atormentar os brasileiros. Toda a "mass mídia" está sendo usada pelo governo do Partido dos Trabalhadores – PT para difundir informações e interpretações que melhorem os índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim, é preciso procurar em jornais do Exterior notícias não contaminadas pelo arremedo de "Dipe" (Departamento de Informação e Propaganda do Estado da era Vargas), tarefa hoje facilitada pela Internet.

Há dias, por exemplo, El Pais, um dos principais jornais de Montevidéu, Uruguai, publicou editorial intitulado "Uma massa submersa" que diz o seguinte:

"O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística acaba de apresentar um informe dizendo que 85% das famílias desse país não chegam ao fim do mês com o dinheiro que ganham.

"A isso se acrescenta que ‘o mercado brasileiro dotado de capacidade de consumir pouco mais que o básico se limita a 15% da população, o que representa só 27 milhões em meio aos 170 que povoam o Brasil.

"No outro extremo, assinala o informe, ‘o dinheiro basta e sobra a 0,7% das famílias’, quer dizer a 1.250.000 pessoas. De acordo com o texto, entre 1975 e 2003, os lares brasileiros foram perdendo sua capacidade aquisitiva até alcançar os preocupantes índices de hoje.

"Nesse contexto, fala-se de um menor 

endividamento das pessoas, mas também esse registro ‘é um fator negativo, já que as famílias brasileiras devem menos por falta de acesso ao crédito’ ou porque têm medo de financiamentos a longo prazo ‘quando o panorama econômico é vacilante’ como o que o Brasil apresenta atualmente. E, caso um observador uruguaio lance a vista sobre essa realidade, não deve crer que as penúrias são alheias, mas sim que deve começar por lamentar – e alarmar-se – ante o panorama socioeconômico de seu próprio país. Porque o número de uruguaios em situação de pobreza duplicou nos últimos cinco anos, passando de 406.700 (em 1999) a 849.500 (em 2003). E as cifras também são terríveis quando se compara a massa de pobreza de 2002 (645.600 pessoas) com a do ano seguinte, já que em apenas doze meses esse setor cresceu 31%.

"Convém esclarecer que se fala de pobreza quando o ganho de uma família é insuficiente para cobrir suas necessidades de alimentos, roupa, moradia, saúde e educação. Mas, num degrau abaixo se pode falar de ‘indigência’, desamparo que se produz quando ‘um lar carece de renda suficiente para alimentar-se adequadamente’. (...)

"Quando se cotejam essas cifras uruguaias com o documento brasileiro e quando ambas as realidades se somam à de uma Argentina onde certos índices de recuperação não foram capazes, até o momento, de aliviar a sorte de uma massa marginalizada que cresceu brutalmente desde fins dos anos 90, pode-se concluir que esta zona latino-americana – que costumava olhar sobre os ombros para o resto da região porque se ufana de seus privilégios e superioridades – deve deixar de fazê-lo para aceitar que, finalmente, ingressou no campo das precariedades que caracterizam o hemisfério inteiro."

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