Indultados 4 terroristas que tentaram matar Fidel

A presidente do Panamá, Mireya Moscoso, indultou dia 25 do mês passado os quatro terroristas de origem cubana que cumpriam pena porque tentaram assassinar o presidente cubano Fidel Castro, durante a reunião de chefes de Estado realizada, em novembro de 2000, naquele país centro-americano. Quiseram deflagrar uma bomba que mataria Fidel e quem mais estivesse nas proximidades. São eles Luis Posada Carriles, Gaspar Jiménez Escobedo, Guillermo Novo Sampoll e Pedro Remón Rodríguez, todos possuidores de extensa ficha de antecedentes criminais em diversos países. Um deles participou do narcoterrorismo. Em conseqüência, no dia seguinte, Cuba rompeu relações diplomáticas com o Panamá "por tempo indefinido".

O perdão presidencial foi executado de madrugada, pouco depois de o embaixador cubano, Carlos Zamora Rodríguez, ter abandonado o Panamá diante da decisão de expulsá-lo, anunciada pelos panamenhos. O governo cubano emitiu nota de protesto, qualificando o indulto de vergonhoso e a expulsão como "uma manobra destinada a criar as condições para a libertação dos terroristas".

Os perdoados

Luís Posada Carriles, o mais importante dos indultados, reconheceu em 1998, em entrevista ao jornal "The New York Times", haver organizado a série de atentados a bomba que atingiu centros turísticos de Cuba e ter recebido apoio da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA).

Consta que, em 1961, ele havia deixado Cuba para entrar no Exército dos Estados Unidos e, dois anos depois, foi recrutado pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA. Em 1964, comandou um acampamento paramilitar de uma autodenominada "Junta Revolucionária". Em seguida, integrou um grupo de infiltração da CIA que agiu em solo cubano, vinculando-se a grupos terroristas como o Alpha 66, os Comandos "L" e o Movimento 30 de Novembro.

Sob a fachada proporcionada por uma agência de detetives, Carriles movia-se com facilidade para realizar operações de sabotagem. Em 1976, coordenou o atentado a bomba que derrubou uma aeronave da companhia Cubana de Aviação e matou 73 pessoas de diversas nacionalidades. Em 1985, com apoio da FNCA, fugiu do cárcere na Venezuela e voltou a assessorar organizações anticastristas.

Em 1994, tentou assassinar Fidel Castro em Honduras. Quatro anos depois, participou de plano semelhante na República Dominicana, a exemplo do que viria a acontecer em 1999 e 2000, quando foi capturado no Panamá. Antes, porém, os atentados que praticou contra hotéis cubanos custaram a vida do jovem italiano Fabio di Celmo e ferimentos graves em várias pessoas.

Seqüência de homicídios

Por sua vez, o indultado Gaspar Jiménez Escobedo é autor de vários crimes, entre os quais o assassinato do técnico em pesca cubano Artañán Díaz Díaz, no México. Também participou da preparação das bombas usadas contra aqueles hotéis e do recrutamento de mercenários para tais atentados. É fugitivo da justiça mexicana que o processou também sob a acusação de tráfico de explosivos e drogas.

Outro indultado pela presidente panamenha - Guillermo Novo Sampoll – apresenta passado delituoso semelhante. Colocou bombas em diversas embaixadas de Cuba ao redor do mundo, além de aeronaves e embarcações de países

que mantêm relações comerciais com Havana. Estava a serviço da DINA – policía política do Chile ao tempo da ditadura Pinochet – quando matou em Washington, EUA, o ex-chanceler chileno Orlando Letelier. Em 2001, envolveu-se diretamente na infiltração de terroristas procedentes dos EUA, capturados logo após desembarcar em praias cubanas com o objetivo de realizar nova série de atentados contra instalações civis e turísticas. 

Finalmente, Pedro Remón Rodríguez é o sicário que executou em Nova York, o diplomata Félix García Rodríguez, em 11 de setembro de 1980, e o imigrante José Eulalio Negrín, ambos cubanos. Além disso, colocou bombas na sede da Missão Permanente de Cuba junto à ONU, em fins de 1979, e atentou contra a vida do embaixador de Cuba nesse organismo internacional meses depois.

Extradição foi negada

O governo cubano vinha alertando Mireya Moscoso, publicamente e pelas vias diplomáticas, sobre "as graves conseqüências para credibilidade do Panamá", caso os terroristas fossem libertados. O indulto, porém, foi concedido como um dos últimos atos da presidente, uma semana antes de deixar o poder.

Segundo declaração oficial de Havana, enviada pela Embaixada de Cuba no Brasil a O JORNAL, a decisão foi tomada "em conluio com o governo dos Estados Unidos e com a máfia terrorista de Miami". Os cubanos afirmam que "o processo de comprometimento com o terrorismo" se iniciou em 10 de abril de 2001, quando a presidente panamenha recusou o pedido de extradição dos quatro facínoras apresentado por Havana. Com isso, "impediu o seu julgamento pelos crimes que enlutaram a população cubana."

Conforme o documento, os processos existentes contra eles no Panamá ainda não terminaram. A justiça panamenha condenou Luis Posada Carriles e Gaspar Jiménez Escobedo a oito anos de cadeia. Pedro Romón e Guillermo Novo Sampoll receberam pena de sete anos. Contra isso se insurgiram organizações operárias, estudantis e indígenas panamenhas, cujos advogados apelaram no sentido de que tais condenações "não correspondem à gravidade do delito cometido". Eles apontaram ainda diversas irregularidades no processo.

"Cúmplice do terrorismo"

"Mas – diz a declaração cubana – a presidente Moscoso não esperou sequer que os tribunais superiores se manifestassem sobre o processo de apelação, o que constitui, além de uma violação da legislação panamenha, uma flagrante falta de respeito pelo Poder Judiciário de seu próprio país."

Um comunicado emitido pelo governo Panamenho, logo após Mireya Moscoso ter baixado o decreto de indulto, lembra que a Constituição local autoriza o perdão presidencial para delitos políticos, além de diminuição das penas e liberdade condicional para réus de delitos comuns. Por isso, em sua nota oficial, o governo de Fidel pergunta:

"Por acaso a presidente Mireya Moscoso considera que o terrorismo é um ‘delito político"?

A nota ressalta que a presidente violou a legislação panamenha e os instrumentos internacionais contra o terrorismo, subscritos pela República do Panamá. Afirma que tal atitude "constitui uma afronta às vítimas do terrorismo e a seus familiares, e converte a presidente do Panamá em cúmplice do terrorismo e responsável pela impunidade dos quatro assassinos." Termina dizendo que Mireya será "igualmente responsável pelos novos crimes que esses execráveis assassinos possam cometer no futuro".

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