AS MUITAS MORTES DE ARAFAT 

Moisés Rabinovici

O Arafat de sempre, até o último instante: morreu? não morreu? morreu de quê? qual o seu herdeiro político? Homem de versões e rumores, enigmático, controverso, superterrorista e Nobel da Paz, símbolo de salvação para um povo, o palestino, e de destruição para outro, o israelense.

Mohammed Abdel-Raouf Arafat Al-Qudwa Al-Hussein, nome de guerra Abu Ammar, ou Pai Construtor, nasceu em 1929 no Cairo, oficialmente, mas também, ao mesmo tempo, em Gaza, como o bíblico Sansão, e na amada Al-Quds, A Santa, o nome árabe de Jerusalém, segundo as versões que ele próprio propagou.

Um sobrevivente, como provou mais uma vez a sua agonia parisiense interrompida por várias mortes anunciadas. Ele morreu na queda de seu avião no deserto líbio, em 1992. Morreu também de uma trombose cerebral. Ele morreu em vários edifícios de Beirute arrasados pelo seu arquiinimigo Ariel Sharon, hoje primeiro-ministro de Israel, que o caçava com aviões F-16, Marinha, infantaria e artilharia, em 1982. Morreu na vingança dos agentes do Mossad ao massacre dos atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Ele morreu perseguido pelo rei Hussein, da Jordânia, no Setembro Negro de 1970. Morreu em várias traições de facções de sua OLP e num golpe da Síria. Ele morreu, politicamente, para Israel e os Estados Unidos, em 2000, quando rejeitou a melhor oferta de paz jamais feita aos palestinos, em negociações que desembocaram numa nova intifada, a rebelião palestina na Cisjordânia e Gaza.

Bom sobrevivente, exímio equilibrista em ambigüidades. Em 1974, ele entrou com um revólver no coldre na Assembléia-Geral da ONU e um ramo de oliveira na mão: "Não deixem cair o ramo de oliveira da minha mão", pediu ao mundo, diplomata e guerrilheiro. Seu caminho para a paz foi sempre minado por atentados terroristas espetaculares, ou pelo uso de mais ou menos intifada. Seu reconhecimento do Estado de Israel nunca chegou a ser convincente. Uma vez ele tentou uma façanha impossível: apoiar a invasão do Kuwait por Sadam Hussein sem perder os US$ 100 milhões anuais de patrocínio dos primos árabes ricos do Golfo Pérsico. E caiu em desgraça.

Lembro-me do nosso primeiro encontro no porto destruído de Beirute.Keffieh preta e branca na cabeça, enrolada para dar a forma de diamante do mapa da Palestina, o revólver Magnum, o sorriso, a multidão delirante querendo tocá-lo, enquanto uma banda tocava Biladi, Biladi, ou Meu País,o hino da pátria que Abu Ammar, o Pai Construtor, deveria 

liberar e construir para seu povo. Estava zarpando para o exílio na Tunísia, expulso do Líbano pelo então ministro da Defesa israelense Ariel Sharon, num navio de nome curioso para exilados em busca de Biladi: Atlântida - o continente perdido. Quando o reencontrei em Gaza, 12 anos depois, ele já não tinha mais a auréola do combatente. Suas mãos tremiam. Balbuciava palavras em inglês com dificuldade. Carregava a pecha de corrupto, ditador e incompetente. Censurava a nascente imprensa palestina.

Perseguia intelectuais. Explodia com os parceiros mais íntimos. Mas ainda falava da "paz dos bravos", a que lhe valeu o aperto de mãos histórico com o então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, nos jardins da Casa Branca.

Em Beirute e em Gaza repeti a Arafat uma mesma pergunta: Por que, perseguindo o ideal, ele deixava sempre escapar o possível? A seu pedido, uma vez me expliquei: "Porque o que os palestinos querem agora é muito parecido com o que a ONU lhes ofereceu na partilha da Palestina, em 1947." Abu Ammar não respondeu. Um assessor justificaria depois: "A pergunta foi mal formulada". Conta-se que Abu Ammar resolveu consultar uma cartomante sobre seu futuro. "Tenho uma notícia estranha", ela disse. "Você vai morrer num grande feriado judaico." Quando o Sobrevivente passou a divagar sobre os mistérios da vida e de seu surpreendente destino, ela o interrompeu:

"Olha: qualquer dia em que você morrer será um grande feriado judeu..." O trio palestino que foi de Ramallah a Paris para saber se Arafat estava apenas sobrevivendo mais uma vez, ou se agora sucumbiria a sua última e definitiva morte, imaginou uma coincidência religiosa para um desfecho de importância histórica: o dia sagrado de Lailat al-Kader, que comemora a revelação do Alcorão por Alá ao profeta Maomé, coincidia com o diagnóstico de coma profundo e hemorragia cerebral. Era uma chance para o Sobrevivente passar à outra condição: a de mártir. Mas ele sobreviveu u dia mais.

Agora morto, o Arafat de sempre: funeral de estadista sem Estado, em Paris e no Cairo; e enterro popular e caótico em Ramallah, a multidão emocionada prometendo redimi-lo "com sangue e com a alma". Sobre o caixão de "Mister Palestina" espargiu-se a terra de Jerusalém, a capital de Israel que ele uma vez prometeu destruir; a capital da Palestina que ele não libertou; e o símbolo da paz que ele não conquistou.

(*) Correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Israel e no Líbano, de 1977 a 1984.

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