GLOBALIZAÇÃO: O QUE É ISSO?

Prof. Alberto Aggio

Existem diferentes visões e definições a respeito da globalização. Alguns analistas a consideram simplesmente como um fenômeno econômico que se reporta quase que exclusivamente à integração de mercados financeiros e comerciais. Outros procuram dar mais atenção aos aspectos relativos à dimensão de comunicação do fenômeno ou então a dimensões culturais, tecnológicas, migratórias ou ecológicas para afiançarem a existência de um processo de interdependência mundial. Nesse emaranhado de referências percebe-se, contudo, que não há muita ênfase nos problemas relativos ao fluxo de mão de obra entre paises e regiões e nem nos diversos impactos que se pode observar na vida social das pessoas bem como no plano da subjetividade.

Sabemos que o processo de mundialização se iniciou com a expansão da Europa Ocidental a partir dos séculos XV e XVI, mas não é a isso que nos referimos quando falamos de globalização. É importante lembrar que globalização é um termo que aparece e se fixa na linguagem contemporânea – primeiro, acadêmica e depois coloquial - nas últimas décadas do século XX. Refletindo sobre esse momento da História, há autores, como Samuel Huntington, que vêem no colapso e desaparecimento do comunismo histórico e na retomada da democracia política em várias partes do mundo nas duas últimas décadas do século XX, o embasamento conjuntural da globalização. Esta seria, portanto, o resultado e a expressão de uma nova "onda democratizante". A globalização, enfim, estaria conectada à expansão da democracia pelo mundo.

Independentemente da validade dessas interpretações, o fato é que a partir do estabelecimento da globalização, o mundo ficou menor, as distâncias assumiram outra perspectiva e o contato entre os seres humanos se tornou muito mais efetivo do que antes. Como observou A. Giddens, passamos a estar "em contato regular com outros que pensam diferentemente e vivem de forma distinta de nós".

De forma mais contundente, o sociólogo Octavio Ianni procurou definir a globalização como "um novo surto de universalização do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório". Para o 

já saudoso sociólogo brasileiro, a globalização seria um processo que simultaneamente "desafia, rompe, subordina, mutila, destrói ou recria outras formas sociais de vida e de trabalho, compreendendo modos de ser, pensar, agir, sentir e imaginar".

Do outro lado destes já pequeno mundo, dois grandes especialistas no tema, David Held e Antony McGrew, entendem que se poderia pensar a globalização como algo bastante reconhecível. Ela é, antes de mais nada, um termo que visa identificar "a escala ampliada, a magnitude crescente, a aceleração e o aprofundamento do impacto dos fluxos e padrões transcontinentais de interação social". Com ela, foi a escala da organização humana que se alterou; a partir dela enlaçou-se todo o globo e expandiram-se as relações de poder por todo o planeta. Com a globalização evidenciou-se a dificuldade ou até o equívoco de se pensar separadamente os assuntos internos e externos dos países, em todos os âmbitos. Por essa razão, as principais tradições da política ocidental, tais como o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo, não ofereceram até o momento nem interpretações coerentes e nem conseguiram dar respostas adequadas a um mundo marcado pela globalização.

Dessa forma, seja qual for a definição, sabemos que os impactos da globalização não são homogêneos e por isso, em qualquer análise desse fenômeno, há que se observar sempre o grau e a magnitude de integração a ele de países, regiões ou mesmo grupos sociais. Em outras palavras, a globalização é efetivamente um processo irregular e não é vivida nem experimentada de maneira uniforme.

Uma coisa já sabemos: a globalização não é a prefiguração de uma sociedade mundial harmoniosa, como muitos imaginam. Não é tampouco um processo universal de integração global desprovido de conflitos culturais e civilizatórios. Ampliando a interdependência, a globalização tanto pode abrigar futuras animosidades ou antagonismos como também engendrar a xenofobia ou alimentar políticas reacionárias. O desafio é imaginar que ela possa, ao contrário, unificar o gênero humano.

N. da R. - Este artigo foi publicado originalmente no Jornal Comércio da Franca.

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