Che, além da motocicleta

Alberto Aggio

Muito se falou recentemente sobre a vida de Ernesto Che Guevara em razão do êxito do filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles. O filme é, sem duvida, bem feito e nos captura do início ao fim. Vale a pena vê-lo, para quem ainda não o viu, embora trate apenas da aventurosa viagem de Guevara pela América Latina no início da década de 1950. Contudo, seria importante não esquecer que Che Guevara foi um personagem da história latino-americana, para além daquela viagem de motocicleta.

Muitos daqueles que analisaram o filme chamaram atenção para isso. Ao comentar o filme, o jornalista norte americano Paul Berman, na Folha de São Paulo de 10 de outubro de 2004, disparou uma crítica contundente: "o culto a Ernesto Che Guevara é um episódio da indiferença moral de nossos tempos. Che foi um totalitário. Ele não realizou nada, a não ser o desastre. Muitos dos líderes da primeira fase da Revolução Cubana eram a favor de uma direção democrática ou democrático-socialista para a nova Cuba. Mas Che era defensor ferrenho da facção de linha-dura, pró-soviética, e sua facção venceu". Ainda que essa última observação não possa ser considerada como inteiramente correta, para Berman, o filme, intencionalmente ou não, colabora para uma hagiografia do Che, celebrando uma vez mais o mito já consagrado (o titulo original do artigo é The cult of Che, Slate, 24.09.2004).

Não é difícil dar razão ao analista norte-americano quando ele cita textualmente o grande herói da Revolução Cubana a respeito do que deveria motivar os seus comandados. Para Guevara, os soldados deveriam cultivar "o ódio como elemento da luta; ódio inabalável pelo inimigo, que impele o ser humano para além de suas limitações naturais, transformando-o numa máquina de matar, eficaz, violenta, seletiva e a sangue frio". Diante do mito que se construiu em torno do Che essas palavras são assustadoras e paradoxais.

Para analisar esse paradoxo é preciso lembrar que a Revolução Cubana vitoriosa em 1959 não era uma revolução socialista. Ela foi uma revolução conduzida pela guerrilha, teve apoio popular e também propósitos nacionalistas e democráticos. Ela somente veio a se tornar socialista depois de 1962, após uma fracassada invasão comandada pela CIA. A conjuntura internacional da Guerra Fria impeliu e consolidou o alinhamento de Cuba à ex-URSS, e foi isso que permitiu sobrevida àquela revolução socialista.

Como se sabe, a rebeldia é a representação mais forte na imagem que se tem da Revolução Cubana. Rebeldia como doação integral à causa, como apelo absoluto à vontade e à ação permanente, motivada pela indignação "contra o sistema", como se dizia na época. Che foi a máxima expressão dessa revolução movida pela rebeldia. Foi o teórico da guerrilha como ação revolucionária, uma espécie de "teoria pura da revolução". Da mesma forma que as revoluções contemporâneas, a Revolução Cubana também acalentou a idéia de que "revolução" era uma ruptura na trama do tempo histórico que tornaria tudo inteiramente diverso do presente.

O Che se foi, assassinado na Bolívia, em 1967, mas a Revolução Cubana seguiu o seu curso. Ao contrário das décadas de 1960 e 1970, nas quais a imagem da Revolução Cubana inebriava a juventude com o seu sonho guerrilheiro, não apenas na América Latina, hoje se torna cada vez mais evidente que a energia histórica da Revolução Cubana se esgotou e não guarda mais nenhum impulso histórico em direção ao futuro, deixando atrás de si uma dimensão negativa de repressão e ausência de liberdade e de democracia.

Em nosso entendimento, ao contrário das vãs tentativas de resgate do "espírito revolucionário" ou da "cultura política heróica" presente no guevarismo, é preciso convocar os jovens a lutarem para garantir um acesso cada vez maior ao mundo da ciência, da tecnologia, da cultura e da política, visando, dentre outras coisas, compreender a complexidade do mundo em que vivemos, as dificuldades e os dilemas que temos pela frente. E que precisamos enfrenta-lo com sabedoria, paciência e objetivos claros, valorizando as opções existentes e criando novas alternativas no sentido de aprofundar a democracia, enfrentar a pobreza e alcançar uma maior justiça social.

Uma motocicleta pode nos levar a muitos lugares ou a lugar algum. Essa viagem está concluída. Mas há outras aventuras dignas de serem vividas à nossa frente e o espírito que nos move deve buscar a sua poesia no futuro.

Alberto Aggio, bacharel e licenciado em História pela FFLCH-USP, mestre em História Social pela FFLCH-USP e doutor em História Social pela FFLCH-USP, fez pós-doutorado na Universidade de Valência (Espanha) e é livre-docente em História da América pela FHDSS da UNESP. Este artigo foi publicado originalmente no jornal Comércio da Franca.

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