Universidade plural, sociedade democrática

Alberto Aggio

O tema da universidade e dos seus destinos no Brasil continua na ordem do dia. Há um reconhecimento generalizado de que se devem enfrentar diversas questões para buscar a sua revitalização. Algumas dessas questões expressam conquistas, pelo menos em tese, já assimiladas, como a autonomia acadêmica e financeira. Outras envolvem problemas mais recentes, como os temas do acesso e da expansão, outras ainda tocam em problemas complexos do seu financiamento e da modernização de sua gestão interna.

Todas essas dimensões são de alta significação para a sociedade em seu conjunto uma vez que envolvem a atualização da imagem e do significado que tem a universidade para milhões de pessoas. Para elas, seguramente, as universidades ainda continuam a ser a referência mais importante para a produção científica do país, para um ensino de qualidade fundamentado na pesquisa e para uma generosa atividade de extensão de serviços à comunidade, de importância pública incalculável.

Por isso, talvez seja importante recordar alguns elementos que compõem a visão que o mundo moderno reserva à universidade - esta notável sobrevivente do medievo europeu, ainda legitimada entre nós. Em sua longa trajetória ela é a simultaneidade do ideal de conhecimento e de uma instituição voltada para ele. Essas duas dimensões muitas vezes andaram juntas na história e, outras vezes, se opuseram, chegando a segunda a se sobrepor sobre a primeira. A sua difícil articulação e, portanto, a manutenção da tensão entre ambas dimensões talvez explique a permanência da universidade no mundo em que vivemos.

Como ideal ela se nutre da inquietação de homens e mulheres dedicados às ciências, ao pensamento, às artes, à investigação. Mas a universidade também é uma relação social que se funda e se reproduz tendo como base aquilo que a sociedade demanda daqueles que procuram saber mais, daqueles que buscam conhecer melhor a realidade material e espiritual dos homens. É por isso que a universidade é uma instituição que expressa essencialmente a relação da sociedade com o ideal do conhecimento, agregando, em seu seio e em sua estrutura, intelectuais que têm nos problemas da própria sociedade a fonte de energia mais potente para a busca do conhecimento. A universidade não pode viver e se desenvolver sem uma íntima conexão com a vida social e com os problemas do seu tempo. Ela precisa apurar a sua percepção a respeito das demandas da sociedade, dialogar com ela a partir dos seus pressupostos e, a partir daí, estabelecer uma nova dinâmica e uma nova orientação interna que lhe permita vivenciar ativamente as mudanças que se operam no conjunto social. Por ser assim, a universidade possui uma vinculação orgânica com a sociedade e, como instituição, deve se esforçar para se manter atualizada com os ditames desse vínculo.

Os vínculos entre universidade e sociedade se cristalizaram com a adoção generalizada na maior parte do mundo ocidental do modelo caracterizado 

pelas grandes universidades públicas multifuncionais, vocacionadas para a unidade entre ensino e pesquisa, gratuitas e mantidas com recursos governamentais e/ou constitucionais. No Brasil, a adoção desse modelo possibilitou que o País passasse a produzir, nas ultimas três décadas, um conhecimento de alta qualidade que não pode ser negligenciado. Essa universidade assumiu para si também uma tarefa cidadã da maior relevância na história do País, tornando-se parte integrante das lutas e dos movimentos que visavam estabelecer e fazer avançar um caminho de modernidade e de democracia para a sociedade brasileira.

Contudo, essa universidade não pôde, ela sozinha, mudar a sociedade. Nem era essencialmente esta a sua função. Muito ao contrário, foi a sociedade, em suas transformações vertiginosas e avassaladoras, que alterou sua relação com a universidade. A massa de pessoas a demandar o ingresso nesta instituição configura-se como um processo generalizado, ao mesmo tempo em que avança irreversivelmente a idéia de uma sociedade do conhecimento como paradigma de futuro. Essas transformações acabaram por configurar uma espécie de mescla paradoxal de democratização social e de imposição do mundo dos interesses privados sem ainda sabermos qual deles irá vingar ou que combinação poderá emergir no futuro. O fato é que tudo isso invadiu o espaço acadêmico, alterando a sociabilidade universitária e colocando em xeque o arsenal conceitual até então em uso.

Podemos divisar, contudo, que a universidade que construímos já estabeleceu uma tradição reconhecidamente positiva entre nós. A Universidade brasileira até agora conseguiu responder tanto à sua demanda originária, isto é, avançar na pesquisa científica e tecnológica para o País, e também atender às expectativas de mobilidade social, facultando o acesso de setores da população tradicionalmente excluídos dela. Aberta à criatividade e à inovação, mas sem perder o seu precípuo papel, a universidade que deve nascer de uma reforma que se examina nos dias que correm deve reafirmar o seu caráter de massa bem como a sua marca de promoção da cidadania e do bem comum. Isso tem um nome: ela deve ser republicana e democrática. Por ser assim, como afirma Luiz Werneck Vianna, ela deve ser ideológica e politicamente plural, aberta a vocações diferenciadas e atuar em conformidade com as necessidades da comunidade sobre a qual atua.

Universidade e sociedade têm que voltar a acreditar que suas dinâmicas se encontram entrelaçadas para responder tanto ao anseio de melhoria de vida dos indivíduos como as demandas pelo "bem comum" e por um Estado republicano que assegure o direito de todos.

Alberto Aggio, bacharel e licenciado em História pela FFLCH-USP, mestre em História Social pela FFLCH-USP e doutor em História Social pela FFLCH-USP, fez pós-doutorado na Universidade de Valência (Espanha) e é livre-docente em História da América pela FHDSS da UNESP. Este artigo foi publicado originalmente no jornal Comércio da Franca.

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