matraca2.gif (20686 bytes) A MATRACA
Assis Corrêa Neto
CHEGA DE SER POBRE

Vocação não se discute. É dom divino. Brasil acredita que encontrou a sua. Ajudar países pobres, com fome e miséria. Fixação. Como se fosse a nação mais rica da terra. Patrícios estão pela aí. Muitos com fome, entregues à própria sorte, no aguardo de providências cantadas em prosa e verso, mas que não saíram do papel.

Documento elaborado pela Organização das Nações Unidas enfatiza a concentração da pobreza extrema brasileira nas regiões metropolitanas, reafirmando o continuo processo de redesenho da geografia da miséria no País, em curso nos últimos vinte anos. Imagem do Brasil mais difundida no mundo, segundo a ONU, é a da pobreza rural do Nordeste, em oposição aos arranha-céus de São Paulo e às mais vistosas praias do Rio de Janeiro.

Alerta o organismo que, na periferia do Rio de Janeiro, por exemplo, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas em áreas com Índice de Desenvolvimento comparável ao da Suazilândia, um dos piores países do mundo. Trata-se de um enfático alerta às ações erradas do governo Lula no combate à fome e à miséria. Opção do governo pela continuidade de programas assistencialistas deve acrescentar crônicos problemas de operação, controle e fiscalização de programas como Fome Zero e Bolsa Família, hoje reunidos numa só vitrina.

Continuamos à espera de ações racionalmente coordenadas entre muitas áreas, como saneamento, saúde, habitação, educação e transporte. Na pulverização de programas – enlameada ainda pela corrupção –, alimenta-se a nova face da miséria e desigualdade, finaliza.

Governo precisa sair do discurso e começar a agir. O mesmo tema continua. Uma no cravo, outra na ferradura. Prossegue a andança. Todo ano a mesma coisa. Inicia em janeiro. São dezenas de congressos tratando dos mesmos assuntos, sem nunca ter chegado a uma solução. Proselitismo, retórica, futilidade e inutilidade, movimentando exercito de personalidades e chefes de governo, burocratas, diplomatas, batalhão de jornalistas a falar e escrever sempre a mesma coisa que é o batido tema da desigualdade, fome e miséria ainda a assolar o mundo.

Davos reuniu fina flor do capitalismo selvagem, juntando a maior concentração de lobistas que domina humanidade, enquanto Fórum Social de Porto Alegre caiu de pau em cima dos ricos, em uma crítica radical do capitalismo e da globalização. Sempre a mesma catilinária. Lá como cá.

Esquerdinha festiva como sempre agitando. Em Davos ativistas subversivos tentando impedir reunião que naturalmente encontrou novas fórmulas para ferrar emergentes. Em Porto Alegre, espetáculo circense. Predominaram escritores, cantores e ativistas ideológicos, culminando com recomendação para que não fossem vendidos por ambulantes refrigerantes e cervejas de multinacionais, para cumprir disposição contrária às grandes corporações.

No frigir dos ovos na reunião de Porto Alegre, intelectuais como sempre fazem lançaram bombástico manifesto com doze propostas para a construção de um outro mundo possível, o que desejamos como toda humanidade. Mais uma vez ficou assentado que essa gente não tem muita coisa a dizer.

PARECE QUE ENSINO VAI SER MORALIZADO

Milagres acontecem. Está acabando a pouca vergonha do licenciamento e credenciamento de muitas faculdades e universidades fajutas de fim de semana. Ministério da Educação tomou tenência e está entrando de botina em um dos setores mais rentáveis do País, que é o ensino superior. Igual pizzaria. Em cada esquina uma dessas arapucas. MEC está abrindo os olhos. 

Falta de qualidade descredenciou 36 cursos de mestrado e doutorado, dos quais dez em São Paulo e nove no Rio de Janeiro. Tradicionais centros de ensino, como a USP e as Universidades Federais dos Estados do Rio, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Pernambuco, serão fechados.

Medicina, Direito e Administração foram campeões da rejeição. Esse quadro demonstra, analisando apenas três setores da educação que o ensino no Brasil vai de mal a pior. Cada vez aumenta mais o numero de profissionais desqualificados e despreparados para o atendimento de nossas carências. Já começaram as pressões por algumas escolas, muito poderosas, no sentido de que o descredenciamento seja revisto. Até quando o MEC resistirá a pressões espúrias dos potentados donos de escolas?

OS DONOS DA NAÇÃO

Existem leis que pegam e as que não pegam. Reforma de Meia Boca da Justiça não pegou? Dormiu treze anos nos corredores do Congresso e agora serve para gerar, polemica e confusão nas várias esferas do Judiciário e meios jurídicos do País. Judiciário, que costumava manter certa coerência e uniformidade em suas manifestações, tem sido palco de discussões acaloradas, culminando com palavras ácidas do próprio ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, que, em crítica anticorporativa, dirigida aos seus colegas magistrados, concita-os a agirem como servidores públicos e não como "donos da Nação." Recado direto àqueles que ainda resistem à reforma do Judiciário que veio para ficar.

LEI DE FALENCIAS PARA INGLÊS VER

Cada enxadada uma minhoca. Espertalhões não dormem. Mal sancionada pelo presidente da República a Lei de Falências, estão agindo para tirar vantagens do dispositivo que demorou onze anos para ser aprovado pelos diligentes parlamentares. Muito controvertida, facilita soluções de mercado para casos de quebra patrimonial. Afirma-se a boca pequena que foi feita sob medida para atender empresas aéreas que estão encalacradas e em situação pré-falimentar, além de outros seguimentos. Precisamos ficar de olho aberto.

GOVÊRNO QUER IMPEDIR CONCORRENCIAS FAJUTAS

Um dos grandes focos de corrupção no País parece que está com dias contados. Depois de mais de dois anos para ocultar a inércia burocrática, governo anuncia que vai moralizar as concorrências públicas, focos de histórica corrupção. Salvo exceções de praxe, raras as concorrências que acontecem dentro dos conformes. Obras públicas são as mais visadas. Grandes empreiteiras conhecidas como irmãs gêmeas são sempre as beneficiadas. Acertam os preços e cada vez uma é a beneficiada. Muitas vezes, perdedoras "acertam", recebendo a mesma obra em regime de subempreitada que passa a custar mais. É o pulo do gato.

Governo precisa agilizar junto ao Congresso, a fim de que as empreiteiras, conhecidas por seu poder de fogo e sua contribuição financeira para campanhas eleitorais, não dificultem ou mutilem projeto moralizador. Principalmente agora que se anunciam investimentos de muitos bilhões de reais para obras de infraestrutura. É o que se espera

POLVO DO FMI ESTÁ RONDANDO

É como endemia. Vai e volta. É o FMI. Novamente está afiando suas garrinhas, rondando, para que o Brasil volte a cair em suas redes. Poderosos de plantão negam que Brasil cuida de uma nova prorrogação de débito de 6,150 bilhões de dólares de juros pelos empréstimos recebidos entre os anos de 1988 e 2004. Eles não perdoam nem a mãe.

(Assis Correa Neto jornalista e escritor - assiscorreaneto@uol. com. br

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