O JORNAL - N.º 34 - Maio/2005 - São Paulo - Brasil - Página Interna

Efervescência militar cobra a promessa salarial de Lula

A efervescência reivindicatória chegou às fileiras das Forças Armadas. Mas, em molde diferente daquele que desaguou na queda do presidente João Goulart em 1964. À época, a agitação era política e promovida pelo próprio governo, a caminho de implantar uma República Sindicalista no País. Para isso, precisava romper a barreira representada pela hierarquia e disciplina dos militares. Tentou, sem conseguir.

Hoje, o objetivo das reivindicações é recuperar as perdas salariais que estão deixando os integrantes da Marinha, Exército e Aeronáutica a um passo da penúria desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

Como a hierarquia e a disciplina impedem os militares de reivindicar em manifestações publicas, fazem-no através das esposas, organizadas em entidades representativas. Elas cobram o cumprimento da promessa recebida do governo no ano passado durante entendimento que teve a participação, direta e indireta, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos ministros da Defesa e da Fazenda.  

Embora insatisfeitos, os militares concordaram à época em receber 10% de correção imediata dos salários, complementada por 23% até março deste ano. A primeira parcela (10%) foi paga em setembro. Mas, eles nada viram dos 23% restantes porque o Ministério da Fazenda alegou desconhecer aquele acordo, apesar de ter sido amplamente noticiado.

As conseqüências avolumaram-se até que, durante a comemoração do 357.º aniversário do Exército Brasileiro, há dias, o presidente Lula presenciou 70 dos seus soldados reprimirem esposas de militares trajando camisetas pretas com os dizeres "Nada mais temos a perder".

Também estavam no palanque, isolado pela tropa da Polícia do Exército, o vice-presidente da República e ministro da Defesa, José Alencar, e os presidentes do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal (STF), além de outras autoridades.

Pouco depois do tumulto, as manifestantes protestaram na Câmara dos Deputados durante a sessão comemorativa do Dia do Exército. Em seguida, ficaram acampadas nas proximidades do Palácio do Planalto.

Trabalho de um ano

As esposas estão empenhadas em sensibilizar o governo Lula há pelo menos um ano. Congregam-se em três organizações: Anemfa (Associação Nacional das Esposas de Militares das Forças Armadas), Apemfa (Associação de Pensionistas e Esposas de Militares das Forças Armadas) e Unemfa (União Nacional das Esposas de Militares das Forças Armadas).

A liderança mais ativa é de Ivone Luzardo, 45 anos, vendedora autônoma e presidente da Unemfa. Formada em pedagogia, com duas filhas adolescentes, Ivone diz que a família passa necessidade com o salário do marido, segundo-tenente do Exército. Ele recebe um líquido mensal inferior a R$ 2.000.

Por sua vez, Marina Bavaresco, 55 anos, vice-presidente da Anemfa, fez greve de fome em frente ao Congresso em 2004 e participou de "apitaços" e vigílias. O salário do marido ficou ainda mais corroído em conseqüência de gastos com uma cirurgia já realizada e de uma dívida bancária contraída pela família, no montante de R$ 20 mil. "Noventa por cento dos militares têm empréstimos hoje", assegura Marina.

Como Ivone e Marina, a presidente da Apemfa, Ester Araújo, 37 anos, elabora e organiza documentos, distribui faixas de protesto e dialoga com representantes do governo. O marido é segundo-sargento e, apesar de ter 27 anos de Exército, ganha cerca de R$ 1.700 por mês. Ester revela: "Temos medo de que persigam nossos maridos, mas alguém precisa dizer ao governo que é hora de parar de maltratar as Forças Armadas."

Cenas dramáticas

Na manifestação do Dia do Exército, Ivone Luzardo conseguiu furar o cordão de isolamento, no final da solenidade, e chegar até o automóvel da segurança que acompanhava Lula (foto). Agarrou-se ao espelho retrovisor, mas não conseguiu falar com o presidente, que saiu noutro carro.

Aos gritos, as manifestantes afirmavam que a situação financeira dos militares é tão grave que já causou o suicídio de três deles em Brasília. Marina Bavaresco tentou romper o bloqueio várias vezes. Chegou a passar mal. Caiu ao solo, foi retirada de maca e atendida por um médico. 

"O governo pede sensibilidade na negociação, mas sensibilidade não enche a barriga de ninguém" - ela reclamava.

A situação somente se acalmou quando o comandante militar do Planalto, general Marius

Teixeira Neto, resolveu conversar com as manifestantes.

O presidente Lula não recebeu as mulheres, mas afirmou, em mensagem aos militares, que "somente quando pudermos recuperar o poder aquisitivo de todos aqueles que trabalham na defesa da Nação, dando a eles condições de trabalho adequadas e salário digno e justo, é que o Estado voltará a ser um verdadeiro Estado democrático e republicano".

Disse ainda que "todos nós sabemos que o Estado brasileiro sofreu nestes últimos anos um desmonte. Para que possamos recuperar o papel do Estado brasileiro e fazê-lo cumprir as suas obrigações com o nosso povo e com os servidores civis e militares, temos muito trabalho pela frente".

O relato de uma líder

A presidente da Unemfa, Ivone Luzardo, rememorou os acontecimentos do Dia do Exército. Eis o seu relato dramático:

"Pretendíamos entregar pacificamente três documentos: um ofício ao presidente da República, um pedido aos parlamentares do Congresso Nacional e uma carta aberta ao presidente. Desejávamos que ele a lesse, antes de ser publicada na imprensa, para evitar constrangimentos. O ofício foi assinado pelas três associações. 

"Só nos posicionamos, tentando impedir a saída do carro do governo, porque não veio uma resposta sobre a data em que o Presidente vai nos receber.

"Ao chegar às proximidades do QG de Brasília, observamos que ele estava cercado de cones por todos os lados. Levávamos duas faixas, uma de homenagem e outra de pesar, com os seguintes dizeres: "A Unemfa - União Nacional das Esposas de Militares das Forças Armadas Brasileiras saúda o Exército Brasileiro pelo seu dia" e "A Unemfa lamenta profundamente o desrespeito do governo para com as FFAA brasileiras".

"Tentamos ir em direção aos cones para ficar no outro lado da rua, em frente à Concha Acústica. Fomos informadas por um soldado PE, no cumprimento de seu dever, que ninguém tinha permissão para ultrapassar aquela barreira. Ele nos conduziu até cerca de 400 metros da Concha Acústica, onde, debaixo de uma árvore, já se concentrava um grupo de senhoras vestidas de preto, como nós.

"Ali se encontravam duas associações de esposas – a Anemfa, com Marina Bavaresco, vice-presidente, e a Apemfa, com sua presidente, Ester Araújo. Estavam impedidas de abrir suas faixas. Indaguei o porquê. Um soldado disse: são ordens que recebemos. Respondi que estava ali para abrir aquelas duas faixas, uma de homenagem e outra de pesar, além de entregar um documento ao presidente. Afirmei que ninguém iria me impedir.

"Quando comecei abrir uma das faixas, soldados PE aproximaram-se e tentaram tirá-la de minhas mãos. Segurei a faixa com toda a força que tenho. Ao tentar arrancá-la, os soldados me machucaram, pois houve uma luta entre eles e eu. A faixa de 3 metros de largura por 1m40 de altura ficou ainda mais pesada com a ação do vento combinada com a força dos soldados. Conseguiram extrapolar o meu limite. Reagi. Eles só pararam quando a Aparecida disse que estava fotografando a cena.

"Clamei a todas as mulheres naquele momento. União, união, mulheres! Abram suas faixas, exerçam o seu direito de cidadã e sigam-me. Não tenham medo, venham, venham!

"Nesse momento, elas abriram suas faixas e também reclamaram. Avancei sobre o cordão de isolamento com a minha faixa. Foi aí que alguém segurou a faixa e fiquei livre para abrir caminho. Conseguimos avançar uns duzentos metros e chamar a atenção das autoridades.

"No cordão de isolamento, desciam lágrimas dos olhos de alguns soldados. Chegou a imprensa. Começou a registrar tudo e veio capitão da guarda correndo, pedindo sem parar: "Não toquem nelas, não toquem nelas! Dona Ivone, por favor, compreenda a minha situação" Respondi: "E o senhor compreenda a nossa. Estamos defendendo o seu salário também". Ele repetia o tempo todo: "Não toquem nelas!" 

"A partir daí, está tudo registrado na imprensa.

"A Marina é diabética e foi operada para extração de um nódulo do pulmão há pouco tempo... Essa é a pseudo democracia que vivemos. Agradecemos o apoio recebido e vamos continuar na busca para conquistar nossos direitos, com a Graça, a Sabedoria e o Poder de Deus."

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