UM CARONA

NO BONDE

DA HISTÓRIA

Que ninguém penetre meu íntimo

Amedrontado em conhecê-lo.

Que ninguém me conheça

Sem conhecer o meu íntimo.

Que todos sejam símbolos

Dos farrapos

Que me formam.

 

(Antônio Aggio Jr. em O Tempo – 1954)




PRÓLOGO



O que faz o tempo, nenhuma inteligência fará.”

Leon Feffer

(empresário, 1902 – 1999)



No Brasil, não há nem esquerda, nem direita.

negócios de esquerda e negócios de direita.”

Américo Mendes,

jornalista (Folha de S. Paulo, em abril/1964)



Sempre entendi o repórter como um carona tolerado pelos demais passageiros do bonde da História, aqueles que realmente marcam época. Mas, os repórteres representam a essência do jornalismo profissional. Sem eles não há notícias e, sem elas, essa bela profissão perde a razão de ser.

Qual, porém, a diferença entre fazer história e nela viajar de carona?

Um verdadeiro repórter permanece à margem dos acontecimentos. Faz de tudo para não se transformar em personagem. Só lhe importam informações que respondam às clássicas questões o quê, quando, onde, como e por quê aconteceu e quem está envolvido, para poder noticiar com exatidão. Talvez, quando muito, lhe caiba interpretar o fato, tarefa assaz perigosa devido às predileções pessoais. Comporta-se como um arguto, mas simples observador. Nada além disso. Se quiser extrapolar esses princípios para incitar, doutrinar, tentar protagonizar ou tornar-se coadjuvante, mesmo quando se imagine apto, precisa migrar para outras funções jornalísticas que deixem claras tais intenções ou valer-se de meios editoriais apartados da imprensa.

Embora acalente as próprias convicções, o repórter autêntico possui autodomínio suficiente para permanecer eqüidistante dos interesses e idéias defendidos pelos demais passageiros enquanto viaja de carona nos acontecimentos.

Que a opinião, no jornalismo, se restrinja a editoriais, crônicas e artigos de fundo. Só assim não se atraiçoa o leitor. Por isso, após mais de meio século como jornalista profissional, depois de exercer os mais altos cargos possíveis numa redação, elegi o livro como vitrina dos meus farrapos. Em parte, procurei costurá-los na terceira pessoa do singular com sentimentos próprios e alheios, presentes em períodos históricos dos quais fui caroneiro desde que nasci.

Se tenho pretensões? Nenhuma, exceto a de ainda ser ouvido e compreendido. O único intuito a me mover é a necessidade de narrar. Dizer o que sinto e penso, contar o que lembro de haver aprendido com os fatos.

Selecionei os episódios mais relevantes em minha existência, capazes de refletir ambientes e personagens presentes nos demais. Espero que sejam úteis como experiência de vida ou mero entretenimento.

O autor.

Como tributo de gratidão aos meus ancestrais e aos meus chefes  e mestres no Jornalismo profissional desde1954:

 

Hermínio Saccheta, Vergniaud Calazans Gonçalves, Vicente Deccara Neto - O TEMPO (SP, 1954-1955);

 

Fernando Pimentel, Enyldo da Silva Franzosi e Francisco Alves Pinheiro  - O GLOBO (RJ, 1955-1958);

 

Jarbas Hipólito de Oliveira Lacerda, Hideo Onaga, Carlos Laino Jr., Mário Lobo, Aristides da Silveira Lobo, Hélio do Amaral Pompeo, Lenine Severino, Pierre Lascol, Mário Mazzei Gumarães, José Nabantino Ramos, Francisco de Celio César (França), Domingos de Lucca Jr., Alcides de Moura Torrres, Francisco de Assis Rangel Pestana, Otávio Câmara de Oliveira, Moacir Costa Correia, José Reis - FOLHA DA MANHÃ, FOLHA DA TARDE,  FOLHA DA NOITE, FOLHA DE S. PAULO (1958-1986).

 

 


      O autor e o helicóptero da CPMI do Roubo de Cargas

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CAPÍTULO I

O país das 100 mil milhas

 

Rua Júlio Conceição n.º 42, um sobradinho da última travessa da José Paulino, na cidade de São Paulo.

Imigrantes de todo credo e origem misturam-se em paz no Bom Retiro, com predominância dos cristãos de origem  italiana e dos  judeus de muitas nacionalidades, mas principalmente de etnia eslava, ali já residentes no início do século XX. Um verdadeiro cadinho de raças, talvez o maior que o País conheceu. Tão importante que foi o primeiro bairro paulistano a ter uma rua – a da Graça – com iluminação pública de lampião a gás.

Era 30 de outubro de 1937. Naquela casa geminada, o jovem casal preocupava-se demais com o nascimento do segundo filho. O primeiro, do sexo feminino, perecera no parto prematuro provocado pela notícia do assassinato de um tio. Mas, agora, chamada às pressas, a parteira só teve tempo de dar palmadas para fazer o robusto menino chorar: por pouco, ele escapou de cair ao chão, com seus quase cinco quilos, tamanha fora sua pressa de alcançar luz e liberdade.

Assim o pimpolho veio ao mundo, conforme contavam os pais e vizinhos. O registro de nascimento de “Toninho” recebeu o n.º 10.272. Na certidão, figuram os nomes dos genitores – Antônio e Joannina Aggio –, além dos avós paternos (Amadeu e Antonia Tognolo Aggio) e maternos (Fioravante e Caetana Visone Carbone). Constam também as testemunhas Antonio Baraldi e Moyses Schwartzman, nomes e sobrenomes que espelham o Bom Retiro de então.

Após três anos, “Toninho” ganhou uma irmã, Marilena, que iria ser professora e diretora da escola municipal paulistana na qual se aposentou em 1987.

Até aquele ponto, há uma longa trajetória de antepassados corajosos, dispostos a arrostar a fúria do oceano a bordo de navios que ainda combinavam vela e vapor para cruzar o Atlântico. Vieram da velha Europa em busca da liberdade e do respeito que o bebê conquistou de supetão ao escapar do útero materno. Escolheram o Brasil como nova pátria para fugir de ódios, guerras, preconceitos, servidão e estratificação social que os povos antigos costumam impor e cultivar.

Se quisessem apenas “fazer América” em busca de fortuna, teriam escolhido plagas economicamente mais promissoras, a exemplo de tantos parentes imigrados para os EUA.

ooooooo –

- “Uê, cumpá, quisto é o país das 100 mil milhas. Aqui, o pai não conhece o filho.”

A afirmação, feita em dialeto napolitano, chocou o visitante Giuseppe Visone, a esposa e os filhos. Haviam desembarcado em Santos, na véspera, após longa e atribulada viagem marítima de vinte dias.

Ao contrário dos imigrantes dependentes do governo, Giuseppe – depois naturalizado José – decidira vender o que possuía e abandonar Nápoles para uma espécie de exílio voluntário com a família. Levaria o bastante em dinheiro na bagagem e nos bolsos para recomeçar a vida. Chegara em 5 de junho de 1897, a bordo do “San Gottardo”, procedente do Porto de Gênova.

Tão logo pisaram no Planalto de Piratininga, os Visone puseram-se à procura do compadre – “cumpá”, naquele dialeto –, seu ex-empregado que imigrara fazia mais de um ano. Buscariam orientação sobre onde e o que comprar para se estabelecer no comércio ou indústria e ganhar a vida. Afinal, o “cumpá” sempre escrevia a Giuseppe para contar maravilhas do Novo Mundo, longe de tudo o que martirizava os republicanos italianos no século XIX. Assim, deveria estar apto a orientá-los na chegada ao Brasil.

As maravilhas descritas pelo compadre nas cartas decidiram a escolha do Brasil pelos Visone, mesmo porque já se passavam oito anos desde a Proclamação da República brasileira. E Giuseppe queria presenteá-la à família. Além do mais, esperava causar imensa alegria ao suposto amigo, quando se apresentasse de mala e cuia as suas portas.

A odisséia migratória tivera início mais de um mês antes, na província de Caserta, região da Campânia, arredores de Nápoles. Envolvia Giuseppe (agricultor, 43 anos), a esposa Concetta (41) e os filhos Francesca (19), Caetana (17), Stella (11), Antonio (8) e Annina (5), todos católicos.

No bairro do Brás, proximidades da Hospedaria dos Imigrantes, bateram à porta do “cumbá”. Este se alarmou ao pensar que toda aquela gente estivesse a buscar casa e comida. E a breve conversa inicial culminou naquela frase insólita com valor de bofetada.

Giuseppe arrancou do bolso um grosso maço de notas, lançou sobre a mesa e retrucou no mesmo dialeto, antes de se retirar irado:

- Pois é, compadre, entendi tudo. Você, não. Trouxe todo o dinheiro que preciso e só queria que você me dissesse como gastar.”

Nunca mais se falaram.

A baixaria soara como verdadeiro desafio. Giuseppe aceitou-o imediatamente: escolheu o Bom Retiro, comprou o que pôde e prosperou. Transformou-se no brasileiro José e numa lenda do bairro, a ponto de se comentar que ajudara Francesco Matarazzo, recém-chegado da Itália, quando se pôs a fabricar velas e camisetas num porão, antes de se transformar no conde Francisco Matarazzo, o mais importante industrial da América Latina, um dos proprietários ocultos da empresa Folha da Manhã S/A e depois, às claras, da Folha de S. Paulo.

O fato é que a herança de Giuseppe serviu a filhos, genros, netos e bisnetos por toda a vida. E continuou a servir mesmo após a morte, pois inclui uma capela por ele erguida no Cemitério do Araçá sob a inscrição “Família José Visone”. O patriarca fez questão de nela ter o corpo sepultado com o melhor terno e o mais elegante chapéu depositado sobre o colete.

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Mesma época, mesmo porto. Desembarcam os recém-casados Amadeu Aggio e Antonia Tognolo Aggio. Vinham de Veneza, dispostos até a substituir a mão-de-obra liberta da escravidão pela Princesa Isabel.

Antonia nascera em Rovigo, no Vêneto, norte italiano contíguo à Áustria; Amadeu, um intelectual republicano de Veneza camuflado de campônio, apaixonara-se pela bela jovem interiorana, como ele inimiga do mote maquiavélico tão em voga entre a nobreza italiana de que “os fins justificam os meios”. Seguem de trem para Pirassununga, interior do Estado de São Paulo, onde os aguardam toscas acomodações na colônia de uma das fazendas cafeeiras da família Almeida Prado.

Nos fins de semana, para enriquecer a alimentação à base de polenta com “toccio”, Amadeu sai à caça de pombos e rolinhas. Usa sua garrucha de um só cano calibre .22. Leva tantas balas quantas serão as aves abatidas para Antonia ensopar nesse molho de tomate à moda vêneta. Por toda a vida, Amadeu irá orgulhar-se da pontaria infalível e, com a mesma pistolinha, transmitirá essa habilidade ao netinho paulistano.

Logo, o casal Aggio conquista a confiança e o respeito dos patrões, seja pela educação acima da que seria de se esperar, seja devido à facilidade em aprender nosso idioma e as técnicas agrícolas, o que lhe permite liderar outros imigrantes.

Amadeu, promovido a administrador da fazenda, torna-se sócio dos Almeida Prado num armazém de importação de bens de consumo para abastecer a região, inclusive mediante um ramal ferroviário particular. Prospera a olhos vistos e ganha nove filhos: Américo, Hildebrando, Danilo, Amadeu, Antônio, João, Brezeide, Luiza e Eulália.

Mas, vem a Revolução de 1924 e, com ela, o pavor causado pelas notícias de estupros e execuções sumárias atribuídas à Coluna da Morte, de João Cabanas. Autorizado pelos sócios, Amadeu distribui entre os colonos e moradores urbanos armas e munições importadas, que serviriam à resistência, caso a tal Coluna atacasse Pirassununga e Porto Ferreira. Com as armas, entrega agasalhos e mantimentos. Mas, ao retomar-se a paz, quase nada do que fora emprestado aos defensores voltou ao armazém. Nem o dinheiro correspondente. E Amadeu arcou com o vasto prejuízo.

A prosperidade retornou alguns anos depois. Todavia, em 1929, atrelada ao craque da Bolsa de Nova York, a ruína chegou. Para escapar da falência, o armazém foi liquidado e Amadeu passou a morar em São Paulo, com apoio dos filhos.

Dois deles – Hildebrando e João – permaneceram em Pirassununga, onde constituíram família e exerceram cargos públicos. Os demais já estavam na Capital paulista ou seguiriam em sua direção.

Os irmãos Aggio saíram-se bem. Por exemplo, Amadeu apelidado de “Zito”, abreviatura de “Amadeuzito”, passou a vida profissional na Phillips do Brasil. Faleceu na posição de sócio-cotista e diretor dessa empresa multinacional de origem holandesa, após especializar um filho em engenharia eletrônica, na Holanda.

ooooooo –

Em meados da década de 20, Antônio Aggio, nascido a 20 de dezembro de 1913 em Pirassununga, era xodó dos Almeida Prado. Além de fazendas, essa família então poderosíssima possuía o Banco de São Paulo, um dos maiores do País. A matriz do estabelecimento, na Praça Antônio Prado, zona central da cidade, deu lugar à atual Secretaria de Turismo do governo paulista, no edifício tão belo e característico que foi tombado pelo CONDEPHAAT como patrimônio histórico e artístico paulistano.

Inteligente, estudioso e de porte atlético, Antônio foi enviado pelos protetores para o seu primeiro emprego, na agência do banco em Santos. Correspondeu à expectativa, a ponto de granjear confiança para sempre. Nas horas vagas, satisfazia a paixão pelo remo num dos clubes de regatas da Ponta da Praia santista.

Mas, os patrões o queriam por perto. Mandaram-no trabalhar na matriz e custearam-lhe os estudos de Administração na Escola de Comércio “Álvares Penteado”, hoje ainda localizada no Largo de São Francisco, centro paulistano. Daí, ter sido sucessivamente chefe de seção, gerente e assessor da Presidência do Banco de São Paulo por 35 anos, até se aposentar.

A paixão pelo remo jamais se apartou da dupla formada por Antônio e o irmão “Zito”. Foi campeã várias vezes pelo Clube Espéria, que o governo obrigou a trocar o nome para Floresta durante a II Guerra Mundial. Só em 1965 voltou a ser Espéria, retomando a milenar designação dada pela Grécia à Itália.

As regatas aconteciam no Rio Tietê, ainda límpido e formoso no trecho que corta São Paulo. Às margens, perto da Ponte das Bandeiras, postavam-se multidões para torcer com frenesi principalmente nas disputas entre o Espéria e seu grande rival, o Clube de Regatas Tietê, ambos separados pelo rio. Nos intervalos, senhoras e senhoritas com vestidos longos e sombrinhas coloridas sentavam-se na relva à beira de toalhas de piquenique rodeadas por cavalheiros de terno, gravata e palheta. Degustavam petiscos regados a vinho e refrigerantes, enquanto aguardavam a próxima largada.

Um domingo de 1934 amanhece radiante. O juiz da regata dispara seu canhãozinho para dar a partida. Vibração geral. Mas, um olhar que vem da margem hipnotiza Antônio. Estático a bordo da iole a quatro com patrão, mantém a vista fixada na bela paulistana de 17 anos, que lá estava a lhe corresponder.

Aos berros, o patrão do barco – um crioulo forte e enérgico – e o irmão “Zito” exigem que ele preste atenção e comece a remar. Refeito do flerte paralisante, Antônio remou como nunca. Deu tudo o que tinha para se exibir à linda jovem. E sua guarnição conquistou o campeonato mais uma vez.

De regresso à terra, enquanto os companheiros recolhiam a iole sob aplausos da torcida, não descansou até reencontrar o olhar encantador. Com ajuda de um dos remadores, primo daquela beldade, convenceu-a a permanecer no clube para o grande baile comemorativo do Espéria.

Alguns meses depois, em 1935, Antônio Aggio e Joannina Visone Carbone estavam casados. Ela passou a assinar Joannina Aggio e o marido, em contrapartida para contentar o sogro, ingressou no Grande Oriente da Maçonaria. Nessa sociedade então secreta, pôs em prática seu espírito altruísta ao participar, entre outras coisas, da manutenção e administração dos Sanatorinhos de Campos do Jordão, única entidade paulista destinada a cuidar de graça dos tuberculosos pobres numa época de epidemias que dizimavam populações inteiras e não existia o SUS ou algo semelhante.

Até falecer aos 67 anos, em 4 de junho de 1981, Antônio persistiu no autodidatismo que lhe permitiu dominar quatro idiomas – inglês, francês, espanhol e italiano – para poder ler livros, revistas e jornais estrangeiros na linguagem original. E também para influenciar a família com idéias inovadoras adornadas pelo seu conhecimento ímpar do português.

Essa privilegiada qualidade intelectual levou-o, depois de se aposentar no banco, a ser um dos dirigentes da Convívio, entidade cultural pertencente  ao Ministério da Educação. Suas últimas palavras à família, no leito de morte, foram:

– “A única coisa importante é ser bom”.

Antônio Aggio virou nome de rua, no elegante bairro paulistano do Morumbi, e da maior escola estadual de 1.º e 2.º graus do Guarapiranga, zona sul de São Paulo.

Joannina preservou o amor, a fidelidade e a viuvez até o seguir na morte quase três décadas depois, aos 94 anos de idade.

 

CAPÍTULO II

As eleições a “bico de pena”

Meio século transcorrera desde o desembarque dos Visone, dos Carbone e dos Aggio até Joannina, nascida no Bom Retiro, se casar com o pirassununguense Antônio Aggio.

A mãe – Caetana (ou Gaetanella, como diziam os napolitanos) – era a filha de 17 anos de José Visone.

O pai, Fioravante Carbone, também viera de Nápoles no século XIX. Acompanhara os genitores (Salvatore e Giovanna) e dez irmãos, entre eles Vicente Carbone, depois famoso como cantor de cançonetas e opera no incipiente meio radiofônico brasileiro dos anos 30-40.

Salvatore Carbone recebeu o apelido de “Garibaldi”, por causa da semelhança física e afinidade ideológica com esse “herói de dois mundos”, o unificador da Itália, casado com a heoína brasileira Anita.

Soube-se, no final de sua vida, que Salvatore era “filho da Madona”, isto é, fora deixado pelos pais biológicos na "roda" de um mosteiro para escapar das matanças da guerra. Recebera o sobrenome da família que o recolhera das mãos das freiras e o criara num ambiente republicano radical. Talvez por isso, já em São Paulo, gostava de reunir jovens estudantes e levá-los a reuniões de doutrinação republicana.

Até pelo sobrenome, oriundo dos carbonários, os Carbone transpiravam espírito libertário e vocação política. Como líder, Fioravante foi o que mais se destacou dentre os irmãos. Ingressou na Maçonaria pelas mãos do pai, num tempo em que essa sociedade era obrigada à absoluta clandestinidade diante de perigosas perseguições clericais e políticas.

Fioravante herdou outra característica familiar: a teimosia. Por exemplo, seu irmão Francesco – o longevo “Chico Lingüiça”, assim apelidado devido à magreza – nunca bebia água, exceto na impossibilidade de encontrar vinho e, na pior hipótese, chope ou cerveja.

– “Água enferruja o corpo por dentro”, ainda proclamava após quase um século de vida bem vivida.

Inflexível nas convicções republicanas e nas obrigações de chefe de família, Fioravante transformou-se num senhor imponente, de feições sérias emolduradas por cabelos e bigodes loiros, que destacavam olhos azuis faiscantes a encimar o porte avantajado.

Temido e amado a um só tempo, tinha noutro republicano fanático, o major José Molinaro, o seu “alter ego”. Incentivados por José Visone e Salvatore Carbone, ambos haviam participado da fundação do Partido Republicano Paulista (PRP) e influenciado o que restava da antiga Guarda Nacional. Foi na eleição do Presidente  Washington Luiz Pereira de Souza que mais se empenharam.

Os parentes mais velhos partilhavam um segredo guardado a sete chaves. Sabiam que, para felicidade de Fioravante, Molinaro, Washington Luiz e outros próceres do PRP, os porões de alguns antigos casarões do Bom Retiro, Brás e Mooca não falavam. Neles, como “seções eleitorais” improvisadas, livros emprestados por cartórios civis serviam ao preparo das atas de “eleições a bico de pena”. Até os mortos votavam. Valia tudo para preservar o que se entendia como “ideais e poder republicanos”, abrangidos pela “política do café-com-leite” que permitia a paulistas e mineiros sempre partilharem o poder.

Contava-se que Fioravante e Molinaro chegaram a “demitir” e expulsar da Assembléia Legislativa paulista, à golpes de rebenque, um deputado infiel que traíra o PRP.

Um dos lemas da família era “gostar das pessoas como do sal porque dão gosto à vida”. Daí a fixação de Fioravante pelas amizades. Muitas surgiram quando ele importou um cavalo puro-sangue e transformou-o em campeão na Sociedade Paulista de Trote com o nome de Raggio (“Raio”). Venerava o animal que lhe proporcionou alegria e muito dinheiro no hipódromo da Vila Guilherme, proximidades do Espéria. Mas, Raggio fraturou a perna e precisou ser sacrificado. Seu jóquei quase pagou o erro com a vida.

Assim transcorreu a existência de Fioravante até 1935, quando duas desgraças o exauriram. Primeiro, Molinaro morreu num atentado a tiros quando ia buscá-lo em casa. Depois, seu único filho homem – Salvador, o jovem “Turilo” – pereceu esfaqueado pelas costas ao apartar uma briga de rua entre um compadre e alguns lixeiros.

Fioravante entrou em profunda depressão. Morreu de complicações renais, em 1936. Ambos – pai e filho – estão sepultados na capela da Família José Visone, no Araçá.

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"Toninho", aos 3 anos, com o polegar ainda em recuperação.

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Turilo” tivera duas irmãs, Conceição e Joannina, como ele bom-retirenses de nascimento e criação.

Conceição – a “Concettina” (“Conceiçãozinha”) – casou-se com Antônio Baraldi, nascido em Bragança Paulista. Deu-lhe os filhos Luzia, Doroty e Jayme. Construíram riqueza a partir de uma padaria na Rua do Areal, continuação da Rua José Paulino, reforçada por um armazém de secos e molhados na Rua da Graça.

O casal trabalhava de sol a sol, principalmente na panificadora que servia o Bom Retiro e enviava grandes cestos de vime com pão “francês”, “suíço” e “italiano” – este o mais famoso, redondo e feito de massa d’água com fermento natural – a pontos de venda nos bairros da Casa Verde, Limão, Cachoeirinha e Freguesia do Ó, na banda norte do Rio Tietê até então pouco habitada.

Antônio Baraldi acumulava as funções de patrão, mestre-padeiro e confeiteiro. Com seus ajudantes, preparava as massas e os doces durante o dia. A esposa comandava o atendimento ao balcão, quando não estava na área industrial a controlar misturadores, amassadeiras e cilindros tocados por motores elétricos acoplados a grandes polias e correias de lona, fazendo barulheira infernal que excitava o sobrinho “Toninho”.

Foi num cilindro que “Concettina” quase perdeu a mão direita, prensada entre os rolos de aço. As engrenagens laterais dessa máquina também ofereciam perigo. Tanto que, antes daquele acidente, haviam esmagado o polegar direito de “Toninho”.

Então com três anos de idade, o menino escapara da vigilância dos tios e metera-se a curioso na área industrial. Só não perdeu o dedo, prestes a ser amputado no Pronto Socorro da Santa Casa, porque um filho de sua tia-avó Maria Carmem Visone Moccia, o major-médico e diretor do Hospital do Exército no Cambuci, Dr. Carmo Moccia, acorreu para restaurar o dedo esmagado.

Dia após dia, para os Baraldi, sempre era o momento de repetir a labuta na padaria. E nada de folgar em fins de semana e feriados, a não ser quando o casal podia contar com empregados capazes de algo mais além de carregar lenha e sacas de farinha trazidas dos depósitos nos fundos. Entre estes, destacava-se o ajudante  “Zé Padeirinho”, inteligente e sagaz, que “Toninho” reencontrou duas décadas depois, já dono da maior cadeia de cinemas ao ar livre (“drive in”) que São Paulo conheceu.

Toda madrugada, lá estava Antônio Baraldi de novo, a preparar os pães e as fornadas que só terminavam no final da manhã seguinte. Havia dormido apenas 4 ou 5 horas.

Produzir com qualidade significava arte. Da mistura e fermentação corretas, dependia a boa textura da massa, especialmente do “pão italiano”. O grande forno a lenha também exigia cuidados especiais. Só a temperatura e o tempo de cozimento controlados podiam garantir a satisfação da exigente clientela.

A maior parte dos pães seguia para os outros bairros num furgão inglês Fordson branco, que o filho Jayme, quando não o próprio pai, dirigia das 6 horas até findar a manhã. Ainda competia a Jayme, em seguida, cuidar do armazém da Rua da Graça, onde se comercializavam desde bacalhau português, arenque escandinavo, azeitonas européias, frios, conservas e biscoitos, até os vinhos Nova Bairrada, vindos de Portugal, e Chianti, da Itália. Tudo importado em volumosos caixotes e pipas. O cheiro delicioso e marcante espalhava-se pelas redondezas e era o melhor "marketing".

Entretanto, Concettina não usufruiu da riqueza que ajudou a criar. Faleceu aos 42 anos de cancer no seio, quando a doença ainda era incurável.

Mesmo profundamente abalado, o marido não esmoreceu. Trabalhar era vício e a total dedicação aos filhos, o seu mote.

CAPÍTULO III

Outros olhares fulminantes

Parece que um olhar capaz de trespassar corações constituía dom das mulheres da época.

Loira de olhos azuis, Luzia Baraldi, filha da Antônio e “Concettina”, também conquistou o esposo desse modo fulmipeculiar. Tinha apenas 14 anos quando foi assistir com amigas a uma parada de 7 de Setembro no Vale do Anhangabaú. Enfeitiçou o futuro marido, garboso aspirante a oficial do Exército Brasileiro.

Antônio Lepiane, filho dos imigrantes italianos Carmo e Carmela radicados em Minas Gerais, nascera em Guaxupé, começara pelo  Colégio Militar em Campinas-SP e tcontinuara a formação militar verde-oliva no Rio de Janeiro. Cadete inteligente, culto e corajoso, granjeou amizades imorredouras entre os superiores e colegas, vários deles, depois, foram seus companheiros na Escola Superior de Guerra e na Revolução de 31 de Março de 1964.

Naquela parada da Independência, embora pertencendo à Infantaria, Lepiane desfilava a cavalo, em uniforme de gala, à frente de um contingente de infantes. De repente, sentiu o encanto vindo do meio da multidão. Estava fisgado. Quebrou as regras para, com gestos, pedir à dona do olhar que ali o aguardasse.

Terminado o desfile, voltou àquele ponto do Anhangabaú. A jovem ainda o esperava. Luzia deu-lhe o endereço dos pais, mas mentiu ao se dizer com 16 anos, valendo-se da própria altura.

À noitinha, na casa geminada à panificadora da Rua do Areal, Antônio e Conceição Baraldi, estupefatos, revelaram a verdadeira idade da filha que o vistoso militar estava a pedir em casamento. Acabaram autorizando o namoro, desde que a tia da jovem, Joannina, e a irmã de criação, Nair, “segurassem vela”. isto é, permanecessem ao seu lado como era costume da época. Dois anos depois, Luzia e Antônio Lepiane uniram-se em matrimônio para toda a vida.

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Os parentes paulistanos do novo casal passaram a ter vínculos com Guaxupé. Tornaram-se corriqueiras as viagens a esse centro cafeeiro do sul de Minas Gerais, quase na divisa com o Estado de São Paulo. E lá se repetiu o olhar sedutor, desta vez partindo de Doroty, irmã de Luzia.

Ao andar pelas ruas guaxupeanas, o jovem mineiro Carlos Manoel Magalhães Ribeiro flertou casualmente com Doroty – loira, esbelta, olhos azuis como a irmã –, que fora visitar Seu Carmo e Dona Carmela Lepiane.

Descendente dos Ribeiro do Vale e acadêmico de engenharia agronômica na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queirós”, da USP, em Piracicaba, “Néo” passava férias na casa do pai, Seu José Maria, onde também moravam seu irmão, depois diretor da Bombril em São Paulo, e as irmãs solteiras. Sucumbiu à súbita paixão por Doroty.

Coube a “Néo”, em seguida à formatura e ao casamento com Doroty, modernizar as fazendas da família, especialmente a Limeira e a São João. Há séculos, cobriam mais de mil alqueires a partir de Tapiratiba, na divisa com São Paulo. Cafés finos para exportação, gado leiteiro, cana de açúcar e uma famosa destilaria de aguardente – a São João – garantiam a fortuna familiar.

Néo” contava com a experiência de ex-escravos, libertos por seus avós antes mesmo da Lei Áurea. Continuaram nas fazendas como colonos até morrerem, sob a liderança de Seu Joaquim, um preto velho maravilhoso, de carapinha branca a lhe atestar sabedoria ímpar, aprimorada durante quase um século de vida. Seus conselhos iriam valer muito até para “Toninho” Aggio, nascido poucos anos antes.

Néo” adicionou à experiência daqueles e de outros colonos o conhecimento técnico adquirido na faculdade. Começou por substituir todos os cafeeiros antigos e improdutivos, à revelia do pai porque, cauteloso como todo bom mineiro que se preze, Seu José Maria era infenso a trocar lucro certo por dádivas recendentes a aventura. Só acreditou no sucesso ao ver o investimento em práticas modernas e mão-de-obra satisfeita dobrar a produção e exportação de cafés finos. E acrescentou mais fazendas ao seu já  invejável patrimônio.

Enquanto isso, em São Paulo, o Bom Retiro servia de palco a um raro e conturbado acontecimento: casavam-se uma moça judia e um jovem católico. Verdadeiro anátema aos olhos religiosos.

Jayme Baraldi, filho de “Concettina” e Antônio, extasiava-se a cada olhar de Janete Szajndla Lewkowicz, nascida na Polônia em 1931 e, ainda meninota, imigrada com os pais para escapar dos horrores do nazismo.

Três anos mais jovem que Jayme, Janete também tinha o dom do olhar fascinante. Antes de o sentir, ele achava-se o galã conquistador do bairro. Recebera o apelido de “Violino”, devido à elegância física e no trajar, além dos dribles que dava em adversários durante os jogos de futebol, na várzea contígua ao Rio Tietê. Sobravam-lhe namoradas e amantes. Entre estas, algumas senhoras “bem” casadas.

A fama de mulherengo aumentou quando os pais lhe deram um Lincoln Continental, automóvel de luxo importado dos EUA, dotado de motor com 12 cilindros. Aliás, Jayme  entendia de carros como poucos.

Certa feita, ao distribuir pães pela região carente de densidade populacional na zona norte da cidade, o furgão Fordson da padaria sofreu pane seca. Jayme esquecera de abastecê-lo e não existiam postos de gasolina nos arredores. Tranqüilamente, comprou num botequim todos os litros de álcool e pinga disponíveis. Despejou-os no tanque de combustível, avançou o “ponto” de ignição no distribuidor, “afogou” um pouco o carburador e lá se foi a terminar as entregas sem problemas, acompanhado do inseparável primo “Toninho”.

Transcorreu muito tempo até que, já nos anos 70, essa mesma técnica permitisse a “Toninho” mover a álcool etílico o motor de popa Johnson de 140 HP, que era o maiis potente da época e impulsionava sua lancha Dalva III – casco de 21 pés, marca Caravela, moldado em fibra de vidro –, sob as vistas de incrédulos curiosos aglomerados sobre os flutuantes da Garagem Náutica Teto, no Mar Pequeno, em São Vicente.

Óleo de rícino puro, misturado ao etanol na proporção exata, tomou o lugar do lubrificante mineral destinado a motores de dois tempos a gasolina. E o desempenho ficou ainda melhor em seguida, graças a um diminuto rebaixamento do cabeçote para elevar a taxa de compressão nos cilindros.

Durante muito tempo, mesmo após ser vendida, Dalva III navegou perfeitamente com aquela inusitada substituição da gasolina azul de alta octanagem, que a Petrobrás deixara de fabricar.

Pois não é que, ao se apaixonar por Janete mais de duas décadas antes, Jayme  “virou santo”! E evitava prosear com alguém que desaprovasse o namoro. Nem conselhos aceitou, mesmo quando dados pelo Padre Ângelo Gioielli, pároco de Santo Eduardo, orientador espiritual das famílias católicas e amigo do rabinato das sinagogas bom-retirenses.

Jayme e Janete resolveram casar-se. Ela fugiu de casa para se abrigar na residência dos aflitos futuros sogros. Escândalo fenomenal no bairro! Nunca se presenciara algo do gênero, no Bom Retiro. O contrário, sim. Sabia-se de vários matrimônios entre judeus e mulheres cristãs. Isto porque, ao ver dos religiosos israelitas, a preservação de seu povo decorre exclusivamente do sangue materno. Filho de mãe judia sempre é judeu de nascimento. Os demais dependem de conversão para ser reconhecidos como tal. E era esse o tabu conflitante com o romance entre Jayme  e Janete.

Para poupar o padre Ângelo e preservar suas relações ecumênicas, o casório aconteceu na Igreja de N. S. Auxiliadora, no vizinho bairro da Luz, com direito a véu, grinalda e uma festança à moda italiana que agitou o Bom Retiro durante uma noite e um dia sem parar. Comida, bebida e música à farta, nos salões do Clube Luso-Brasileiro da Rua da Graça, inclusive com a presença dos israelitas ligados ao casal. Afinal, para que serviriam o armazém e a panificadora, caso não alegrassem os noivos, parentes e centenas de amigos nessa ocasião?

Em sinal de protesto, o pai de Janete fechou as janelas de casa, na Rua Nílton Prado (ou Newton Prado, segundo alguns), defronte da residência dos Aggio, durante uma semana. Declarou-se de luto pela “morte” da filha. Até cerimônias fúnebres encomendou às sinagogas.

Por via das dúvidas ante fofocas de iminente “ataque” à igreja durante o casamento, um primo de Jayme  – Henrique Checchia – deixou a postos um “pelotão de choque”.

Todavia, da radical posição do pai da noiva não partilhavam os amigos de Jayme, entre os quais pontificavam judeus (como Victor e Hernane), muçulmanos (a exemplo do “turco” Abdalla) e ortodoxos armênios (como Leão Tchakerian, destacado industrial calçadista). Nenhum deles, inclusive o próprio noivo, era “muito católico”, qualificação que se costumava dar às pessoas não carolas. Por vezes, essa turma chegava à irreverência, a exemplo do que sucedeu com Victor, em pleno Yon Kippur.

Faminto ao final do prolongado jejum, Victor abandonou às escondidas uma das quatro sinagogas bom-retirenses e foi devorar rechonchudo sanduíche de pernil no bar da esquina. Mas, alguém viu e denunciou ao rabinato.

Confusão danada! Victor, à beira da excomunhão, precisou de anos para se penitenciar do sacrilégio e convencer a comunidade israelita de que havia ingerido carne de porco “por engano”...

O tempo incumbiu-se de apagar aquele deslize, assim como de amenizar a indignação provocada pelo casamento proibido. Durante meses, Janete manteve contato com as duas irmãs, às ocultas, até o nascimento do primogênito Marco Antônio. Então, a avó materna não resistiu. Mandou a proibição às favas e quis conhecer o primeiro netinho. Fê-lo escondida do marido, que ainda estava de luto pela “morte” da filha.

As visitas amiudaram-se após vir ao mundo a netinha Myriam Baraldi, hoje brilhante advogada e artista plástica. O avô terminou curvando-se ao jeitinho brasileiro e, para alegria geral, Janete “ressuscitou”. Faleceu de verdade em janeiro de 2005, doze anos depois do eternamente apaixonado marido.

Essa quebra de dogma encontrou paralelo quando houve a união entre Flávio de Pilla, da turma de Jayme, e Sofia Wainer, irmã de Samuel, o fundador da cadeia de jornais Última Hora, todos também legítimos bom-retirenses.

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Flávio, jornalista, ator, intelectual e boa-vida na juventude, acabou transformando-se num dos mais prestigiados advogados de Brasília, nos anos 80. Era filho de Seu Heitor de Pilla, figura ímpar pela sabedoria e cultura política, que admirava como poucos as sagas da Revolução Mexicana, bem como líderes revolucionários dos séculos XIX e XX. Com a esposa, Da. Elizena, e os filhos Flávio, Nancy e Dulcinéia, morava no sobrado geminado ao imóvel da Rua Júlio Conceição, onde “Toninho” nasceu.

Família maravilhosa, mantinha estreitas ligações com os vizinhos. Eram comuns os jantares conjuntos em que se discutia de tudo, principalmente os ideais republicanos. Assim, Seu Heitor embasbacava o impúbere “Toninho” com suas revelações históricas.

A amizade era tão forte que o casal Pilla batizou com o nome Dulcinéia sua caçula, nascida logo após a morte da primeira filha dos Aggio para a qual esse nome fora reservado pelos pais. Daí para a frente, Antônio, Joannina, Heitor e Elizena só se trataram por compadre e comadre.

Num dos jantares, Seu Heitor apresentou aos compadres uma bela imigrante espanhola e o esposo, um médico brasileiro. Ela participara da Guerra Civil Espanhola, lutando contra o ditador Franco, e, apesar de gravemente ferida, sobrevivera às atrocidades cometidas naquele conflito por ambas as partes nele envolvidas. Tempos depois, imigrada para São Paulo, ela sofreu morte súbita.

Para determinar a “causa mortis”, recolheram o seu “cadáver” ao necrotério do Serviço de Verificação de Óbitos da Faculdade de Medicina da USP. Passou a noite na geladeira. De manhã cedo, estendida numa mesa, ouvia o que diziam ao redor, mas continuava paralisada e enregelada.

Ao vê-la, o jovem médico incumbido da autópsia encantou-se com sua formosura. Inconformado diante de morte tão precoce, optou por exame mais acurado antes de proceder às incisões de praxe. Descobriu sinais de vida e ressuscitou a futura esposa.

Pela primeira vez, “Toninho” ouvia falar de catalepsia. Ficou pasmo diante do relato do médico e esposa. Só em futuro distante, já como jornalista, viria a saber de outros casos do gênero, inclusive um ocorrido em sua família, quando uma exumação revelou o esqueleto de um primo virado de bruços no caixão mortuário.

Nancy de Pilla casou-se com Constantino – o “Tino” –, filho de um cacique político bom-retirense, Honório Montebello, dono do mais importante escritório de advocacia da região. Em meio a uma campanha eleitoral, alguns desafetos promoveram ruidosa manifestação de protesto às portas de sua residência, de madrugada. Montebello foi enfrentá-los na rua, de cueca e revólver em punho. Felizmente, alguém chamou o Padre Ângelo, cuja pronta intervenção transformou tudo em patuscada, sem grandes mágoas para nenhum dos lados.

CAPÍTULO IV

Um pároco fora de série

Um pároco como dificilmente se possa imaginar. Assim era o Padre Ângelo Gioielli antes de virar nome de rua. Participava dos festejos populares, organizava quermesses, mantinha acesa a fé do povo e fazia o bairro trepidar durante as festas juninas. Ergueu a imponente Igreja de Santo Eduardo, na Rua dos Italianos. Morava com a irmã e duas sobrinhas na Rua General Flores e, pelo bairro, sempre havia quem fofocasse maliciosamente para negar tal parentesco.

Nas festas juninas realizadas na Rua Sólon (pronunciava-se “Solôn”), esquina com a Nílton Prado, Padre Ângelo emprestava a batina para celebração do “casamento caipira” sobre um enorme caminhão de carroceria aberta, o “arraial” engalanado com bandeirolas ao estilo Alfredo Volpi. Um falso “padre”, devidamente paramentado, espargia água “benta” para todo lado, no alegre compasso das modinhas sertanejas. “Abençoava” os noivos e o povo com uma broxa ensopada num balde. Nem a batina saía incólume da sátira.

Ao redor do “arraial”, em meio à multidão, alto-falantes instalados nos postes de iluminação pública alardeavam as falas e a marcha “nupcial”. Marcavam a quadrilha e comandavam dezenas de dançarinos – homens, mulheres e crianças – trajados à caráter, com chapéus de palha esgarçada e vestes de chita rotas ou remendadas. Executavam a exuberante coreografia “caipira”. Só alegria e entusiasmo queriam o falso vigário e o reverendo verdadeiro para o seu “rebanho” de fiéis.

Padre Ângelo sempre estava a colaborar com o clube promotor da festança, o Corintinha do Bom Retiro, misto de time de futebol e agremiação social. Instalado na Travessa Matarazzo, orgulhava-se de ter sido o berço do Sport Club Corinthians Paulista.

Várias dessas comemorações foram animadas pelo pai de “Toninho”, com sua harmônica Scandalli de 120 baixos, revestida de cintilante madrepérola encarnada, que o primo Henrique Checchia lhe trouxera da Itália. Uma das festas está registrada em filmes de cinema 8 mm, feitos pelo próprio sanfoneiro que era palmeirense.

Também havia fogueiras nas ruas para assinalar as efemérides juninas. Punham-nas a esquentar panelas cheias de quentão e pinhões ou a assar batatas doces para alegria de adultos e da criançada.

Quando o fogo estava baixo, saltava-se sobre a fogueira. Numa noite, em meio ao frenesi, “Toninho” e a irmã pularam de lados opostos. Chocaram-se em pleno ar e Marilena caiu sobre as brasas. Sofreu sérias queimaduras, que só não deixaram cicatrizes graças à competência médica do primo Carmo Moccia. Tratou-a com toda a paciência e carinho, da mesma forma que fez anos depois com um “audaz” sobrinho, chamado Brasilino Paiolla, o “Lino”. Este sintetizou todas as maluquices das quais os moleques bom-retirenses seriam capazes.

Então, “Lino” queria enxergar o fundo de uma grande lata fechada. Desejava verificar se realmente estava vazia. Ao ser chocalhada, não produzia nenhum barulho. Por isso, com um fósforo aceso, tentou iluminar-lhe o interior através de uma pequena abertura, enquanto espiava por outra. Não viu ou respeitou o alerta impresso no rótulo: Gasolina - Cuidado.

À explosão, seguiram-se meses de intenso tratamento por Carmo, a quem “Lino” ficou devendo os olhos e a pele, literalmente. Antes disso, as maiores insanidades infantis ficaram restritas ao meio-dia dos sábados de Aleluia, quando acontecia a “malhação de judas”.

Mesmo sendo desprovida dos atos de vandalismo e agressão vistos, por exemplo, na Rua do Lavapés, bairro do Cambuci, a “malhação” bom-retirense chegava a causar muita preocupação aos pais porque a garotada saia a arrastar e esbordoar bonecos em chamas.

De pano e às vezes recheados de palha e bombinhas, os “judas” ficavam antes pendurados nos postes, com cartazes no peito para identificar os alvos do “protesto”. Quase sempre, eram políticos de má fama.

A meninada esmerava-se em alcançar o maior espalhafato. Quanto mais barulho, fumaça e restos em brasa, maior era o orgulho infantil.

Aguardavam-se as sirenas das fábricas anunciarem o meio-dia, sinal de partida para a arruaça. Por mera precaução, a meninada israelita sumia das ruas. Afinal, sempre seria possível aparecer alguém mal-intencionado quando se estivesse a “linchar” algo inspirado naquele personagem bíblico. Mas, nunca houve notícia de entreveros ou maldades.

Entre os adultos do bairro, cada qual comemorava a ressurreição de Cristo a seu bel-prazer. As beatas rezavam, os maridos brindavam nos bares e cantinas. Mas, todos respeitavam a “largada” ao meio-dia, exceto o tio padeiro de “Toninho”. Só ele afirmava que “a hora certa” era outra, sem explicar porquê. Ou seja: às 11 horas em ponto, todo sábado de Aleluia, lá estava Antônio Baraldi no quintal de casa, descarregando seu velho revólver espanhol HO 38 sobre um pequeno tapete que já virara peneira há anos.

ooooooo –

Pelo Natal, Padre Ângelo recolhia à paróquia brinquedos doados pelos comerciantes locais e no dia 25 de dezembro, logo cedo, travestia-se de Papai Noel. Distribuía os presentes entre a garotada.

Numa dessas ocasiões, “Toninho”, a irmã Marilena, a prima Doroty e a irmã de criação desta, Nair, dormiram além da conta e perderam a hora da distribuição. Acorreram à residência do reverendo, onde a irmã do padre os atendeu pela vigia da porta de entrada. Explicaram o que acontecera. A resposta veio em arremedo de ditado napolitano e em português macarrônico:

-“É, belo, qui dorme non pilha pexe! Tchau!

A portinhola fechou-se com estrépito. Voltaram para casa de mãos abanando, convencidos de que quem bobeia não pega peixe... E ainda pode levar uma descompostura pelas fuças.

Anos depois, Padre Ângelo gostava de visitar o antigo fedelho, então jornalista da Folha de S. Paulo. Não esquecia de embolsar, “por esquecimento”, toda caneta esferográfica que lhe emprestassem.

O religioso editava um jornal com a figura de Santo Eduardo no logotipo. Ao visitar “Toninho”, pedia-lhe a opinião sobre essa publcação paroquial periódica, de clara linha católica, mas que praticamente só apresentava anúncios de lojas e fábricas israelitas, como as instaladas ao longo da Rua José Paulino. Numa das vezes, “Toninho” quis saber do sorridente sacerdote que “milagre” era aquele. Ouviu em resposta:

-“É o ecumenismo, meu filho. Eles precisam anunciar. O jornalzinho precisa viver. E, além do mais, qual é o problema? Jesus não era judeu?

ooooooo –

Durante a II Guerra Mundial, a presença confortadora do insólito padre crescera em importância. Os adultos do bairro estavam temerosos, tanto pelo que pudesse acontecer aos parentes deixados na Europa, quanto aos jovens pracinhas e aviadores da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lá embarcados.

A preocupação aumentava a cada exercício de blecaute e a cada cartão de racionamento esgotado. Tudo o que estivesse ligado ao esforço de guerra permanecia racionado pelo governo, a exemplo da gasolina e de alguns gêneros de primeira necessidade.

A farinha de trigo importada tornou-se rara e provocou o racionamento do pão. Longas filas formavam-se às portas das padarias, açougues e quitandas desde a madrugada. Mas, nem assim a mercadoria disponível bastava. O sacrifício era geral. As compras dependiam de cartões de racionamento com tíquetes destacáveis. E os custos proibitivos, impostos pelo mercado negro de matérias-primas, fizeram as filas diminuírem às portas daqueles estabelecimentos perto do final do conflito.

Durante os blecautes, o silêncio nas ruas permitia escutar ao longe as sirenas instaladas no topo do antigo prédio do jornal A Gazeta, na Avenida Cásper Líbero, a dois quarteirões da Estação da Luz. Acirravam o clima de temor que parecia saído dos documentários de guerra exibidos nos Cines Lux, Marconi e Jaraguá, os três únicos cinemas bom-retirenses. Ao ouvi-las, apagavam-se todas as luzes e acendiam-se velas ou lampiões no interior das casas. As pesadas cortinas das janelas tinham que permanecer fechadas.

Pois coube ao Padre Ângelo espalhar calma e otimismo nessas ocasiões. Ninguém punha em dúvida sua palavra quando afirmava que a guerra estava muito longe e jamais chegaria a terras brasileiras. Quanto mais ao Bom Retiro! Mas, por via das dúvidas, nada lhe custava promover novenas e procissões em louvor a Santo Eduardo. Assim, com garantia de proteção divina, fazia a tranqüilidade imperar.

A posições antifascistas do pároco, robustecidas pelas histórias contadas por refugiados israelitas, todas de arrepiar os cabelos, contribuíram muito para imunizar ideologicamente os imigrantes italianos e seus descendentes. Permaneceram solidários com vítimas e testemunhas das atrocidades nazi-fascistas.

O pai e o avô paterno de “Toninho” assinavam e colecionavam jornais e revistas estrangeiras com fotos que documentavam tais narrativas. Mostravam-nas a vizinhos e amigos. Ficaram gravadas na mente do menino.

Durante esse período, moravam na Rua do Areal o Seu Collaço, chefe dos investigadores da então Superintendência de Ordem Política e Social, antecessora do DOPS, e um diretor da Guarda Civil. Ambos afirmavam nunca ter detectado no bairro sequer um caso de atividade movida pelas idéias de Hitler ou Mussolini.

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Ainda no tempo da guerra, a maioria dos donos de automóveis precisou adaptá-los para funcionar a gasogênio. Isso lhes permitia trafegar, porém, com ponderável perda de desempenho. Mais pareciam fumarentas locomotivas depois que se acendia o carvão de duas fornalhas em torre, fixadas sobre o pára-choques traseiro.

Os parentes de “Toninho” gostavam de excursionar às praias de Santos e São Vicente. Lá iam várias vezes ao ano, em caravanas automobilísticas tocadas a gasogênio e vinho. Passavam o dia em piqueniques, geralmente no Gonzaga e Itararé. De quando em vez, chegavam à Praia das Vacas pela Ponte Pênsil, verdadeira obra de arte feita em 1914 e que ainda orgulha os vicentinos, na época chamados de "calungas".

Tais viagens desdobravam-se em autênticas aventuras pela única via existente: a Estrada do Mar, íngreme e tortuosa pista rasgada na Mata Atlântica e pavimentada com escorregadios paralelepípedos chamados de "macacos".

Mas, como diz o ditado, “pra baixo todo santo ajuda”. Assim, o gasogênio não atrapalhava a descida para o litoral. O motor funcionava só como freio para aliviar o breque mecânico a varejão.

Sucessivas curvas em cotovelo exigiam bastante destreza dos motoristas e sobressaltavam os passageiros. A mais perigosa recebeu o nome de Curva da Morte porque lançara vários veículos no precipício. Ao transpô-la, todos os viajantes se benziam.

Odisséia, mesmo, era a volta para São Paulo. Os carros empacavam nos trechos mais inclinados. Passageiros precisavam descer para os empurrar, pois os motores, enfraquecidos pelo gás pobre e contaminados com pó de carvão, resfolegavam, tossiam e podiam pifar de vez. As mãos e pernas de quem empurrasse deviam ser protegidas do calor das torres de gasogênio e das brasas expelidas pelo cano de escapamento.

Devido a tais problemas, o pai de “Toninho” resolveu proteger o Ford modelo 1934 preto, que havia comprado com sacrifício em meio ao período da guerra. Não converteu o motor e manteve o veículo sobre cavaletes. No final do conflito, o “fordinho” parecia novo em folha.

Em 1945, com a liberação da gasolina, decidiu transportar a família numa “grande viagem”: chegar ao Rio de Janeiro através da única estrada existente, estreita, sinuosa e de terra batida. Levou a esposa, Joannina; a sogra Caetana (“Noninha”); e os filhos, Marilena e “Toninho”.

Até Mogi das Cruzes, tudo correspondeu ao planejado. Depois, as coisas se complicaram e quase impediram o prosseguimento da aventura.

Chovia sem parar nos restantes 300 quilômetros do trajeto. O vetusto e maltratado caminho virou rio de lama, principalmente no trecho do município de Bananal. A habilidade do motorista supria as dificuldades decorrentes da direção pesada e do freio mecânico. Mas, a certa altura, foi impossível impedir o encalhe. As rodas afundaram no barro e o carro assentou-se no leito da estrada.

Seguiram-se horas de espera até surgir um motorista da região, ao volante de seu antigo "Ford bigode”. Providenciou uma junta de bois para tirar o carro do atoleiro e ensinou a maneira correta de transpor os lamaçais.

Anoitecia no momento em que o “fordinho” dos Aggio cruzava a região de Resende por terra seca. Atropelou um tatu de bom tamanho, que morreu em segundos apesar dos esforços para o salvar. Ao lado da estrada, às portas de modesta casa, uma caboclinha observava. Correu a pedir que deixassem sua mãe transformar o tatu em quitute. E assim foi feito.

No fogão a lenha, o bicho virou apetitoso guisado, que ambas as famílias degustaram com arroz. Ainda sobrou um pouco para ser acondicionado numa pequena lata e levado ao Rio de Janeiro. Horas depois, deliciava os primos e padrinhos de “Toninho”, Luzia e seu marido, o capitão Antônio Lepiane, que estava cursando a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército para poder ser promovido a major.

Sem dúvida, o “Fordinho 34” foi um dos carros mais valentes que a família possuiu. Entre outros feitos, levou-a ao alto do Corcovado, através de uma vereda da exuberante floresta carioca da Tijuca para escalar até o Cristo Redentor.

No final do ano seguinte, “Toninho”, a mãe e a irmã passaram os três meses das férias escolares hospedados pelo casal Lepiane em Resende, na vila de oficiais da Academia Militar de Agulhas Negras, onde Lepiane era instrutor.

Então, no cinema da Academia, assistiram diariamente a documentários militares e entenderam para sempre tudo o que a guerra representa em termos de sofrimento e horror. Todavia, algumas cenas heróicas fizeram “Toninho” transbordar adrenalina. E ele resolveu dar vazão à ânsia por novas aventuras com uma “excursão” a pé ao Pico de Agulhas Negras.

Vestiu a fardinha caqui do paulistano Liceu Coração de Jesus, no qual cursava o Curso Primário. Colocou um capacete de palha, cantil na cintura e mochila às costas. Insistiu no “projeto” até a mãe concordar em acompanhá-lo à montanha, que ele achava não estar tão distante assim. Na verdade, Joannina aquiesceu somente porque, além de ver o filho seguro, desejava dar-lhe uma lição inesquecível.

Quanto mais andavam, mais o Pico parecia afastar-se. Caminharam da manhã à tarde, parando de vez em quando, até “Toninho” se convencer do tamanho das besteiras que decisões impensadas podem motivar. Ainda a quilômetros do objetivo, aprendeu a raciocinar com os pés no chão. Desistiu da empreitada e pediu à mãe para voltar à  vila da Academia Militar.

Era época de Natal e o pai foi visitá-los na residência dos sobrinhos. Para as comemorações, a madrinha Luzia resolveu preparar um pato assado. Comprou robusta ave nas vizinhanças e pediu à empregada Gilda que a abatesse. Mas, como todos os de casa, a simpática e legítima crioula carioca, que ficou na família durante mais de uma década até falecer, não tinha prática em matar patos. Também os vizinhos pouco sabiam a respeito, porém, sugeriram uma solução: decapitar a ave a machadada.

Imobilizado pelas pernas e asas, o pobre pato nem deve ter sentido o fio do machado a lhe cortar o pescoço. Um só golpe certeiro de Gilda e todos saltaram de banda porque o sangue do pato descapitado esguichava, enquanto ele desandava a correr às cegas. Pavor total! Nesse momento, o pai de “Toninho” chegou de São Paulo, entrou no quintal e quase perdeu o melhor terno, antes de a “vítima” tombar exangue.

Foi difícil ingerir o coitado na ceia, apesar do requinte culinário que lhe conferiu o melhor dos sabores.

Pouco tempo depois, Lepiane foi deslocado para a Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, Grande São Paulo, onde hoje também funciona o Aeroporto Internacional “Governador André Franco Montoro”. Recebeu a missão de coordenar o curso militar de especialização no emprego combinado das forças de terra e ar. E graças a isso, mais uma vez, “Toninho” teve contato direto com atividades militares.

Um dos oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) integrado àquele curso – o capitão-aviador Joinville, audaz e competente piloto de provas do Campo de Marte, zona norte da capital paulista – exercera seu primeiro emprego como bancário no Banco de São Paulo, sob a chefia do pai de “Toninho”, pouco antes de ingressar na Aeronáutica. Joinville e Antônio Aggio nunca esqueceram desse período de convivência que os fez excelentes amigos.

O irmão de Joinville, também piloto da FAB, pereceu num acidente aéreo e nem assim o capitão desistiu de voar. Contava ter ido recolher na mata os despojos do irmão carbonizado que couberam numa pequena caixa de papelão. Apesar disso, como piloto de provas, continuou a testar aviões submetidos a manutenção no Campo de Marte, desde os Cessna monomotores e caças P-47, até bombardeiros A-20 e B-25, além dos primeiros caças a jato Gloster Meteor comprados da Inglaterra para modernizar a FAB.

Exceto nos caças birreatores, Joinville levou “Toninho” a voar naquelas aeronaves. Transmitiu-lhe as primeiras noções de pilotagem e despertou-lhe alguma propensão para a aeronáutica, que o garoto ficava a alardear pelo bairro, a ponto de lhe granjear o temporário apelido de “Ágio PT-15”. Sua procura por conhecimentos nessa área levou-o a praticar aeromodelismo durante um bom tempo. Mas, o jornalismo foi mais forte e venceu.

Leda Maria, filha de Lepiane, participou de vôos em B-25 para se curar de coqueluche. Passou por enjôos homéricos, até vencer a “tosse comprida”.

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No início dos anos 40, Doroty Baraldi, a prima um pouco mais velha, sempre com a inseparável irmã de criação Nair, conduzia a criançada a espetáculos circenses. Por exemplo, foram à apresentação do fenomenal cantor Vicente Celestino, num circo armado no Vale do Anhangabaú, ao lado do Viaduto Santa Ifigênia, local em que viria a ser erguida a sede do jornal Última Hora.

Caracterizado, ora como mendigo, ora como filho ou amante, Vicente Celestino pôs a multidão em prantos. Ao lado d a cantora e atriz Gilda Abreu, comoveu a platéia ao interpretar “O Ébrio” e “Porta Aberta”. De certa forma, por ser filho de calabreses, o cantor despertava orgulho entre os bom-retirenses. Mas, os supersticiosos alimentavam a crença de que cantar “O Ébrio” dava azar.

Numa das idas a um circo da Barra Funda, depois de se esbaldarem com Piolim, o mais famoso palhaço da época, as crianças presenciaram uma tragédia. O picadeiro funcionava num terreno da Avenida São João, principal artéria da cidade. De regresso, tomaram um bonde e no cruzamento da avenida com a Alameda Glete, um caminhão arrancou a balaustrada esquerda do coletivo, varreu-lhe toda a lateral. Felizmente, não havia ninguém nesse estribo, porém, um passageiro apoiava o braço no balaústre. Foi arrancado pelo veículo desgovernado, visão dantesca que “Toninho” jamais esqueceu.

Então, aos cinco anos de idade, “Toninho” sentiu sua verdadeira vocação. Alegrava-se em contar a quem quisesse ouvir tudo o que vira e ouvira ou sentira naquelas andanças conduzidas pelas primas. Chegou a improvisar um “megafone” com lata enrolada na forma de cone ligado a uma mangueira de borracha. Prendia esse “alto-falante” na porta de entrada da casa dos tios e ficava horas a falar ao "microfone", no outro extremo do tubo, acreditando ser ouvido por quem passasse pela calçada da Rua do Areal.

Usava esse “rádio” quando não estava a infernizar a vida dos vizinhos, a bordo de um estrepitoso carrinho de rolimãs pela calçada. Os moradores incentivaram-no a manter o “jornal radiofônico” no ar para se livrarem da barulheira, pois a falação do menino  incomodava menos do que os ruidosos  carrinhos envolvidos nas corridas de imberbes “pilotos”. O “veículo” de “Toninho”, apelidado de “Masseratti”, incluía-se entre os “tecnicamente” mais incrementados. Possuía direção ligada ao eixo dianteiro por cordéis. Ao lado, uma alavanca de madeira pressionava o chão com um pedaço de pneu à guisa de freio.

Dez anos depois, o gosto pela comunicação fez “Toninho” pedir a Flávio de Pilla e Sofia Wayner, para conhecer o jornal de Samuel – a Última Hora – no Vale do Anhangabaú, onde ambos trabalhavam. Ali, diante do que se fazia com linotipos, calandras e rotativas, acometeu-o a mania irrefreável, apesar de desaconselhada por aqueles amigos:

-“O jornalismo é lindo, mas extremamente sacrificado”, afirmaram Sofia e Flávio.

CAPÍTULO V

Uma turma irreverente e insólita

As atividades culturais no Bom Retiro giravam principalmente ao redor do Grêmio Dramático Musical Luso-Brasileiro, amplo e movimentado clube da Rua da Graça, fundado em 1900 e também conhecido como ponto de reunião das principais associações sindicais da cidade, entre elas a agitada Liga Operária. De luso, o clube só tinha o nome, pois possuía sócios de toda nacionalidade. As maiores festas de casamento e aniversário nele aconteciam, assim como tradicionais representações profanas da Paixão de Cristo. Jayme Baraldi e os amigos participaram como atores de algumas dessas encenações teatrais. Numa delas, coube a Jayme o papel do crucificado.

Atrás do pano de boca, ele deixou-se amarrar à cruz, enquanto mantinha o cigarro aceso entre os lábios. O muçulmano Abdalla, o israelita Victor e outros figurantes trajados de “legionários romanos” fixaram o madeiro de pé, no meio do palco. O “crucificado” continuou a fumar até que, erguendo-se a cortina, cuspiu a bituca do cigarro. Fê-lo, porém, sem força e pontaria. A guimba em brasa caiu-lhe entre os pés cruzados e amarrados sobre a cruz”.

Soavam clarins, trovões e lamentos pelos alto-falantes do teatro, ninguém ouvia o que Jayme resmungava alarmado. Balançava a cabeça e apontava com o nariz para os pés, enquanto repetia num crescendo:

- “Olha o cigarro! Olha o cigarro!”

Ninguém, sequer o ponto oculto num buraco do palco, compreendeu aqueles sinais até a bituca queimar para valer.

Então, espanto geral! O crucificado berrou:

-“OLHA O CIGARRO, SEUS  FILHOS DA PUTA! TÁ ME QUEIMANDO!”

Pano rápido, muito rápido. Difícil mesmo foi impedir depois uma crucificação verdadeira.

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Essa turma insólita protagonizava situações hilariantes em série. Dela fazia parte José Visone, neto de Giuseppe e filho de Antônio, o “Pale-Pale”. Tanta água bebia que ganhou o apelido de “Zé Camelo”. Adorava a agitação dos companheiros mais jovens ao levá-los em algazarra nas incursões de fim de semana pelos cabarés e salões de dança noutras regiões da cidade.

Mal enxergava a 10 metros de distância com seus óculos tipo "fundo de garrafa", porém, possuía carta de motorista profissional e um táxi dado pelo pai. Ignorava-se como conseguia passar nos exames médicos para renovação da carta de motorista. Aos passageiros alarmados por sua postura, aconselhava:

-“Não esquenta a moringa, não. Eu sei fazer até vôo cego.

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Entre os bom-retirenses famosos, havia um campeão sul-americano de boxe, Paulo Sacomã, apelidado de “Sininho”, filho de árabe com mãe negra e irmão de outro famoso boxeador, de nome Jorge.

Quando Paulo disputou um dos títulos internacionais no Ginásio do Pacaembu, para lá seguiram os irreverentes torcedores em três ou quatro carros, “Zé Camelo” à frente da caravana. Eram mais de uma dúzia, ruidosos e dispostos a tudo por “Sininho”.

Zé Camelo” recolheu deles todo o dinheiro necessário para comprar os ingressos, já que havia longas filas nas bilheterias. Mas, comprou uma só entrada de um cambista e segurou-a na mão com outros papéis, de maneira a disfarçar quantos ingressos realmente tinha. Gesticulando à frente da catraca, parecia cheio de bilhetes e pôs-se a chamar os amigos. O porteiro, zonzo com tanta confusão, franqueou a entrada dos rapazes um a um, enquanto “” lhe dizia:

- “Esse tá comigo. Aquele também é meu. Esse outro aí não...

Pobre porteiro! Só percebeu o logro quando, ao final, “Zé” lhe entregou o único ingresso comprado. Entrou em fúria. Exigiu o restante. E “” respondeu:

-“Calma aí, sô! Eu só falei que eles tão comigo. O senhor é que deixou entrar. O meu bilhete, sim, tá aqui.”

A encrenca só terminou no distrito policial mais próximo. O delegado não conseguia conter o riso ao acalmar o porteiro e admoestar “Zé Camelo”. Mas, com simpatia e humildade, “” transformou tudo em pizza. E os demais da rapaziada só souberam do final depois de voltar de carona para o Bom Retiro. Presentearam seu “piloto-herói” com o dinheiro que lhe haviam confiado.

ooooooo –

Um alvo comum dessa turma atrapalhada era o Cassino Vila Sófia, gafieira de luxo em Interlagos, extremo sul da cidade. Verdadeira viagem que Jayme, “Zé Camelo” e uma dezena de rapazes faziam em fins de semana, ostentando as melhores roupas domingueiras. Numa das vezes, outra tragicomédia.

Iniciava-se o baile com salão lotado, mas “” sentiu a barriga desandar. Suportou o aperto o quanto deu, em busca de um banheiro. Houve tempo apenas para chegar a uma salinha dos fundos.

Já em desespero e vendo uma janela aberta, não titubeou: sentou-se na beirada dela, de costas para o pátio escuro, e “aliviou-se”, conforme confessou depois. Ouviu-se intenso ganido, pois, sem querer, Zé acertara em cheio o cachorro que dormia sob a janela.

Assustado, o bicho fugiu latindo e enveredou para o salão de baile. Invadiu a pista de danças, esbarrou em muita gente, espanejou sujeira para todo lado e safou-se porta afora, ganindo cada vez mais alto devido aos chutes desferidos pelas vítimas.

Minutos depois, à socapa, “Zé Camelo” voltou à pista de danças. Mal se conseguia ouvir a música, tamanha a gritaria. Cavalheiros e damas vociferavam contra o incógnito desgraçado que havia emporcalhado o cão e o salão.

Ao vê-lo nos fundos, alguém apontou o dedo e acusou:

-“Foi ele! Só pode ser ele!”

E lá se foi o “” correndo a toda, atrás da pança balançante. Já na rua, teve que pisar fundo no acelerador do táxi para escapar da turba enfurecida.

As patuscadas envolvendo esse famoso táxi e seus usuários hilariantes desdobraram-se até 1950. Então, o carro acabou de vez. Foi na inauguração do Estádio “Jornalista Mário Filho” (Maracanã), durante a Copa do Mundo.

Os torcedores bom-retirenses cotizaram-se para a viagem ao Rio de Janeiro em três veículos, um deles o famoso táxi. “Zé Camelo” convidou cinco amigos, sob o compromisso de pagarem apenas o óleo lubrificante. É os convidados toparam a viagem de pronto, pois não sabiam que o motor do veículo, extremamente desgastado, consumia quase tanto óleo quanto gasolina. Só sentiram a diferença de preço e perceberam o tamanho do prejuízo ao longo dos 400 quilômetros de estrada. Precisaram “completar o nível do cárter” inúmeras vezes, mas já era tarde para desistir.

Mesmo expelindo brasas pelo escapamento, o carro cobriu o trajeto São Paulo-Rio de Janeiro ida e volta. Todavia, assim que retornou resfolegando ao Bom Retiro, virou sucata. Seguiu para o ferro-velho, pois não mais tinha conserto. Sua perda pareceu abater os viajantes tanto quanto a derrota da seleção brasileira para os uruguaios. Mas, de qualquer forma, as despesas compensaram: eles haviam extravasado tanto entusiasmo no Maracanã que até figuraram em fotos de primeira página nos principais jornais.

ooooooo –

O pai de “” – Antônio Visone, o “Tzindó” ou Tio António – possuía um restaurante típico e famoso, na Rua Barra do Tibaji. Chamava-se Cantina do Pale-Pale. Freqüentavam-na célebres figuras, como o governador Adhemar de Barros e o craque Leônidas, inventor da “bicicleta” quando jogava no São Paulo Futebol Clube. Ambos carregaram “Toninho” no colo.

Dentre os jovens garçons da cantina, um viria a ser o mais famoso dono de restaurantes de São Paulo. Giovanni Bruno, cujo nome, virou grife de franquia. Já crescido e transformado em jornalista, “Toninho” costumava cear com os colegas em seus restaurantes. E, toda vez que o dono estivesse presente, lá se iam pratos e mais pratos para o chão e, seus cacos,  para o lixo. Ao final de cada refeição, eram espatifados no solo por Giovanni, enquanto gritava:

-“Prato em que comeu o sobrinho-neto do ‘Pale-Pale’, ninguém come mais.”

Todas as mulheres daquele ramo dos Visone, a começar pela esposa de “Pale-Pale” (a “Tzilena” ou Tia Helena), trabalhavam na cantina, casarão localizado a poucos metros da Rua Nílton Prado. Os filhos de José Visone (o “Zé Camelo”, e Domingos, investigador de polícia apelidado de “Mingo”), também ajudavam no que podiam.

Tzilena” tinha na esposa de “Mingo” – de nome Filipina – o seu braço direito no comando da cozinha, de onde saíam inesquecíveis coxas de cabrito ao forno com batatas coradas e o incomparável “fusilli com bracciola”, duas das especialidades que deram fama à casa.

O outro braço de “Tzilena” era a mulher de “Zé Camelo” – a “Maria Hungaresa” -, igualmente infatigável e eficiente colaboradora.

Nina” (Ana, a filha mais velha de “Pale-Pale”) desfilava sua beleza nas piscinas do Clube Espéria. Ali encantou Emílio Mencarini, esbelto nadador do clube e herdeiro do Café Jardim, poderosa organização comercial e industrial depois transformada em Café e Massas Jardim, concorrente dos Matarazzo. Casaram-se em poucos meses.

Então, a “troça” de “Toninho” engendrou algo capaz de infernizar os Mencarini. Os carros de entrega do Café Jardim alardeavam a chegada com buzina musical que ecoava longe pelas ruas bom-retirenses. A molecada criou uma letra marota para essa música. Bastava-lhe ouvir os primeiros acordes para sair a correr atrás dos veículos, cantando em alto e bom som:

Café Jardim

Dá dor no rim

Porque é feito

De capim.”

De nada adiantaram os apelos e ameaças dos motoristas, nem de Emílio, até que os endiabrados “cantores” cansaram dessa gozação e escolheram outros alvos.

Tica” (Conceição, a caçula de “Pale-Pale”) casou-se com Manoel Baptista, o “Neco”, disputado goleiro do Sul-Americano e outros clubes de futebol bom-retirenses. Sempre bem humorado, solidário e disposto a ajudar qualquer um, tornou-se o principal auxiliar do sogro na cantina, embora sem coragem para substituí-lo na pior das tarefas, ou seja, matar e esfolar os cabritos duas vezes por semana. De quando em vez, participava com o sogro da caça a porcos do mato – os catetos - na Serra do Mar. Dizia-se que, para saboreá-los assados ou à “cacciatora”, Adhemar e Leônidas adiavam qualquer compromisso.

ooooooo –

Outro ponto centralizador da parentela de “Toninho” era o casarão de sua tia-avó Maria Carmem Moccia, irmã de “Pale-Pale”, na Rua Nílton Prado. Em fins de semana e feriados, ali iam ter seus pais e a avó – “Noninha” – para jogar escopa ou tômbola a leite de pato durante horas.

Também participavam os filhos de Maria Carmem: o medico Carmo Moccia, casado com Irene; Miguel, esposo de Nella; Anita, mulher de Osvaldo Paiolla; Esperança, esposa de Fiorino Checchia; e José, prestes a se formar em medicina e noivo da futura esposa, Ana. Havia ainda 9 netos, além dos sobrinhos-netos e outros parentes.

O comando da criançada ficava com Fiorino, especialista em incentivá-las às traquinagens. Imagem ímpar de gozador na meia idade, Fiorino maquinou impagáveis brincadeiras, às vezes com graves transtornos para a maioria dos jogadores, entre os quais alguns dedicados à “prestidigitação” com o baralho e as pedras de tômbola. De qualquer forma, até nos protestos contra a algazarra infantil, tudo era alegria de festa.

Houve uma fase em que o médium e comerciante conhecido por “Vulcão Paulista”, amigo da família, quis convertê-la ao espiritismo depois da prematura morte do Dr. Carmo por enfarte. Numa noite, os adultos, exceto Fiorino, sentaram-se em redor da mesa sob tênue luz avermelhada. Pretendiam comunicar-se com espíritos aparentados.

Enquanto isso, Fiorino reunia a molecada no pátio da residência. Estabeleceu a estratégia e distribuiu tarefas. Todos subiram silenciosamente ao andar superior pela escada externa. Lá, Fiorino cobriu-se com um lençol branco da cabeça aos pés. Esbugalhou os olhos com óculos de brinquedo e pôs na boca horrenda dentadura feita de casca de laranja. Completou a figura fantasmagórica acendendo um lampião multicolorido sob a “mortalha”. Realmente, era algo assustador.

A escadaria interna desembocava na sala da sessão espírita, onde mortos estavam a falar pela boca do “Vulcão Paulista”. Foi então que o espectro surgiu no alto da escada e pôs-se a descer devagar, grunhindo num crescendo:

-“Uuuh! Uuuh! UUUH!”

Imediatamente, as crianças jogaram panelas e uma bacia metálica escada abaixo, enquanto sapateavam no piso de madeira como se houvesse um terremoto.

Debandada geral na sessão. A correria chegou à rua, em meio a tudo que seja blasfêmia, com o “Vulcão Paulista” à frente. Fiorino e seus pequenos arruaceiros riram às gargalhadas. E nunca mais ouviram falar daquele médium.

Mas, infelizmente, o convívio com Fiorino foi rápido demais. Aos 42 anos, esse estupendo personagem faleceu. Ingeriu porco mal assado e adquiriu cisticercose, doença que o levou à morte em poucos meses. A tragédia serviu para comprovar o acerto da ojeriza de judeus e muçulmanos à carne suína.

ooooooo –

Naquele tempo, quase todos os falecimentos tinham causas naturais. Pouco se falava de crimes violentos, embora existissem valentões como “Castelinho”, “Barraca” e outros que davam o tom da violência local. Diziam-se “homens de honra e respeito” à moda siciliana, porém, a exemplo do polaco “Galinha”, alguns nem ascendência italiana tinham. De qualquer forma, procuravam manter a criminalidade violenta, fosse a própria ou a dos outros, apartada do bairro porque nele possuíam família.

Galinha”, alto, magro, loiro, de gélidos olhos azuis e descendente de lituanos, conseguiu ser renomeado três vezes como investigador de polícia durante os anos 40, graças a esporádicos encontros com o governador Adhemar de Barros na Cantina do Pale-Pale. As nomeações independiam de concurso público, inexistia a Academia de Polícia e os antecedentes criminais do candidato pouco importavam, desde que ele fosse simpático a algum político. E quem melhor do que Adhemar para escolher o “Galinha”, talvez com endosso do “Pale-Pale”?

Realmente, “Galinha” possuía muitos defeitos e algumas qualidades. Adorava crianças e bichos. Possuía dois ou três filhos do matrimônio e adotou pelo menos dez órfãos, alguns deles recolhidos das ruas. Deu-lhes casa, escola e nome como se deles o verdadeiro pai fosse.

Em compensação, não aceitava desaforo em nenhuma hipótese. Portava dois vistosos revólveres niquelados, com cabo de madrepérola, pendurados na cintura e nem sempre escondidos pelo paletó. Quando lhe perguntavam o porquê de andar armado com armas de calibre 32, desconversava:

-“Calibre maior é besteira. O coice de um calibre maior faz errar o tiro e o que importa é onde a gente acerta.

Dubiedade à parte, devia ter razão, pois matou muita gente até mais violenta do que ele. -“Só bandido, em legítima defesa”, afirmava. Entretanto, pelo menos três desses casos deixaram sérias dúvidas.

Ainda pequeno, “Toninho” sentia algo errado no ar quando “Galinha” estava presente. Entretanto, gostava dele pela maneira como o tratava, dando atenção às perguntas e aos pedidos. Por diversas vezes, levou-o de carro para comprar pizzas e guloseimas.

Numa dessas ocasiões, devido ao calor excessivo, “Galinha” deixou o paletó no carro. Com “Toninho” nos braços e os reluzentes revólveres à mostra na cintura, entrou numa tradicional pizzaria da Rua São Caetano esquina com a Avenida Tiradentes, bairro da Luz. Estava lotada de fregueses, porém, diante da cena insólita, não ficou nenhum. Saíram à sorrelfa, amedrontados, e “Toninho” sentiu-se o máximo, o dono do pedaço.

Galinha” era viciado em jogo e ávido por mulheres. Não gostava de álcool, odiava drogas e passava dias e noites no carteado, às vezes sem arredar pé. Jogava ronda e vinte-e-um nas duas ou três casas de tavolagem clandestinas do bairro. Numa delas, instalada na Rua de Graça, sentiu-se ludibriado pelo jogador alcunhado “Polaco”, bem mais forte que ele e também agressivo.

Ninguém entrava nessas casas portando armas de fogo. Quem as possuísse, devia deixá-las na portaria e retirá-las ao sair. O mesmo não acontecia com as chamadas “armas brancas”, isto é, facas e punhais.

As diferenças entre jogadores, se acontecessem, deviam ser decididas longe do “estabelecimento” no qual imperava o “respeito”. Pois não é que o “Polaco”, desmascarado por “Galinha” ao trapacear, desafiou-o para brigar na rua? Depois do confronto, “Galinha” disse ter esperado por uma “luta justa” porque ambos saíram sem retirar nenhuma arma na portaria. Cometera um erro quase fatal.

Era madrugada, rua da Graça deserta, sem ninguém para interferir. “Polaco” sacou uma “faca espanhola”, dessas cuja lâmina salta do cabo por efeito de mola. Tentou esfaquear várias vezes o contendor desarmado. Ágil como gato, “Galinha” esquivou-se até conseguir agarrar-lhe o braço e tomar-lhe a faca. Inverteu a situação. Acuado até uma árvore da calçada, “Polaco” sofreu tantas perfurações que sequer os médicos entenderam como chegou vivo ao pronto-socorro. Faleceu durante o atendimento.

Galinha” voltou ao carteado, apanhou seus revólveres e foi apresentar-se ao 2.º Distrito Policial, o do bairro. Processado pelo Tribunal do Júri, argüiu legítima defesa e obteve absolvição.

A valentia de “Galinha” rivalizava com a de “Castelinho”, outro famoso “homem de respeito” local. Jovem e metido a galã, também havia morto desafetos e cumprira pena por isso. Quando “Castelinho” esteve preso na Penitenciária do Carandiru, um dos condenados achou-se dono do presídio e resolveu transformá-lo em “esposa”.

Ao saber de tais intenções, “Castelinho” improvisou um estoque, aguçando um cabo de vassoura. Quando os sentenciados tomavam banho de sol no pátio, trespassou o tórax do inimigo com esse “chuço” de madeira e ninguém ousou denunciá-lo pelo homicídio.

Algum tempo depois, a fama de “Castelinho” precedeu-o no retorno às ruas. Cresceu a ponto de fazê-lo querer lucrar às custas de um protegido de “Galinha”. E isso foi sua desgraça.

Um comerciante árabe, sócio de “Galinha” na venda de produtos contrabandeados, entregou uma partida de relógios suíços a “Castelinho” sob promessa de receber o pagamento em alguns dias.

O tempo passou e nada de dinheiro. Ao ser cobrado, “Castelinho” retrucou com ameaça de morte. Não a retirou nem quando soube da perigosa sociedade nos relógios.

Numa madrugada, como costumava fazer, “Castelinho” divertia-se com amigos no maior “táxi-dancing” do centro da cidade. Acompanhado do sócio, “Galinha” entrou na pista de danças, dirigiu-se calmamente à mesa do devedor e deu-lhe um ultimato:

-“O dinheiro, os relógios ou a vida?

Recebeu um palavrão em resposta. Sacou ambos os revolveres e fuzilou “Castelinho” ainda sentado.

De novo, um processo por homicídio e a mesma tese: legítima defesa. Mas, como, se “Castelinho” caíra morto sem esboçar reação, embora estivesse armado?

Durante o julgamento, o defensor do réu – Valdir Troncoso Péres, o mais famoso advogado de júri à época – ficou o tempo todo tentando abotoar o coldre recolhido da vítima. Tentativas infrutíferas e enervantes, pois a presilha teimava em soltar-se, tão desgastado pelo uso estava o fecho.

Troncoso repetiu tais movimentos à vista dos jurados a perder de conta, enquanto discorria sobre o “tenebroso passado do morto”. Já na tréplica, como se houvesse lembrado de algo de repente, aproximou-se do júri com o coldre de “Castelinho” nas mãos e a presilha balançando no ar. Pediu a cada jurado que os manuseasse. E proclamou que ali estava a “incontestável” prova da legítima defesa: a vítima tanto se acostumara a sacar a arma por dá cá aquela palha que o desgaste inutilizara a presilha. Portanto, se “Galinha” titubeasse um segundo, nem teria chance de atirar. Tombaria morto.

Absolvição por sete votos a zero, resultado que “Neco” aguardava há dois dias na platéia do tribunal e correu a transmitir aos ansiosos bom-retirenses. Todavia, em benefício do próprio “Galinha”, melhor teria sido uma condenação. Pelo menos, poderia tê-lo impedido de cometer a maior estupidez de sua vida.

Já avançado em idade, “Galinha” apaixonou-se por uma das filhas adotivas. Platônico de início, o amor virou paixão à medida que a jovem se transformava em formosa mulher. Ao pretender noivar, produziu ciúmes no pai adotivo. Tornaram-se doentios, a ponto dela ser proibida de ver o rapaz disposto a desposá-la e que “Galinha” considerava desprovido de condições morais e materiais para contrair matrimônio.

Houve muita rusga e ameaça até “Galinha” os surpreender juntos num automóvel. Matou-os a tiros no interior do veículo, depois de breve discussão. Terminou seus dias condenado pela Justiça e arrasado pelo remorso.

Barraca”, outro valentão bom-retirense, teve fim diferente. Alto e encorpado, também era investigador de polícia. Infundia temor só pela presença. Considerava-se o protetor, quase dono, do Clube Sul-Americano, onde se mesclavam futebol e carteado. Gostava de andar com chapelão e sobretudo até as canelas, à moda dos mafiosos da “Mão Negra”. E resolvia desavenças geralmente com um só murro bem aplicado. Ninguém, nem “Galinha” e “Castelinho”, ousara desafiá-lo.

Como costumava fazer, “Barraca” sentou-se numa cadeira de engraxate da Rua José Paulino. Ordenou ao humilde profissional que desse brilho aos sapatos de cromo alemão. Mostrava-se aborrecido com algo e desforrou a raiva no engraxate – um mulato franzino - que passou a ofender com palavrões. Só por capricho, ordenou-lhe que refizesse o serviço várias vezes.

O engraxate aturou tudo calado. Mas, ao receber o pagamento, curvou-se sobre a caixa de engraxar, fingiu procurar troco, apanhou uma faca de sapateiro e, rápido como raio, enfiou-a olho a dentro de “Barraca” até o cérebro. O valentão soltou um urro estarrecedor e tombou morto. Subestimara quem jamais poderia ver como uma uma ameaça.

ooooooo –

-“Sininhooo’! Vem pra fora seu filho da puta!

O campeão sul-americano de boxe Paulo Sacoman (“Sininho”) saiu do Bar Torino, na pracinha formada pela confluência das ruas da Graça, Sólon e do Areal, onde se divertia com amigos. Tomou uma machadada na cabeça e tombou desacordado, com seus quase dois metros de altura. Precisou da força de três homens para ser erguido do solo e levado ao Hospital das Clínicas. Quem o ferira gravemente fora “Liminha”, o franzino atacante do Palmeiras, antigo Palestra Itália.

Também morador do Bom Retiro, “Liminha” dividia popularidade com “Sininho” e Lima, outro histórico craque palmeirense. Mulato como “Sininho”, “Liminha” morava humildemente com os pais na então Travessa do “Pitchaturo” (do Mictório, na gíria local), que se transformou na vistosa Rua Matarazzo. Por sua vez, Lima vivia no fausto e “Sininho” pertencia à classe média. Vivia com os genitores – ele árabe branco, ela cabrocha retinta – na Rua Nílton Prado, a poucos metros da casa de “Toninho”.

Além da mútua inveja, não se sabia o porquê de tanta animosidade entre “Liminha”, pequeno como o diminutivo, e “Sininho”, de físico conflitante com o apelido. Numa noite, ambos estavam a beber naquele bar, quando se engalfinharam a socos e pontapés. Evidentemente, “Liminha” levou a pior. Correu para casa, apanhou uma machadinha, voltou e acertou “Sininho” na cabeça só de viés, por pura sorte.

Desacordado e ensopado de sangue, o boxeador deixou pasmos médicos e enfermeiros do pronto-socorro do Hospital das Clínicas por ter escapado. Autêntico milagre. “Sininho” recuperou-se do ferimento, mas nunca mais brilhou como dantes nos ringues. Ninguém denunciou “Liminha”, embora fosse um astro alviverde e o bar estivesse coalhado de corinthianos. Aliás, o Sporte Clube Corinthians Paulista, nascido no Bom Retiro, disputava com o Palmeiras o fanatismo futebolístico do bairro.

Lima casou-se com festança de marcar época. “Toninho”, então com uns quatro anos, foi o “cavalheiro de honra” da cerimônia religiosa, numa vistosa miniatura de “smoking” que custou os olhos da cara a seus pais.

Alguns anos depois, Jorge Sacomã, irmão de “Sininho”, resolveu ensinar boxe aos coleguinhas. Conseguiu luvas emprestadas e armou um ringue em plena calçada da Rua Nílton Prado, onde morava, quase na esquina com a Barra do Tibaji. Mas, logo demonstrou carecer de paciência professoral. Na primeira “aula”, pôs “Toninho” a nocaute com um direto no queixo. O “round” seguinte degenerou em pancadaria generalizada e o “curso de pugilismo” feneceu no nascedouro por falta de segurança...

Nem de longe, no Bom Retiro, o boxe superava o gosto pelo futebol, especialmente nos finais de campeonato entre Palmeiras e Corinthians. Na época, nem se ouvia falar em televisão. Por isso, o jeito era comparecer ao campo ou torcer ao redor de algum rádio. Ter este aparelho, porém, equivalia a possuir agora uma TV digital de LCD ou plasma de muitas polegadas e alta definição. Daí, por vezes, torcedores de ambos os times juntarem-se nas casas onde houvesse rádio, como a dos tios de “Toninho”, os Baraldi, na Rua do Areal. Lá existia um grande receptor para deleitar as torcidas, desde que observassem respeito mútuo.

Naquela residência, uma final entre aqueles times transcorria empatada em 1 a 1. Uma dúzia de palmeirenses e corinthianos vociferava a cada lance irradiado. O dono do aparelho, Antônio Baraldi, palmeirense fervoroso, torcia desesperadamente pelo desempate. E o viu chegar, mas no sentido inverso do esperado. Nos últimos segundos, o placar virou a favor do Corinthians. Ao ouvir “goool!”, o tio padeiro atravessou o rádio com um murro e expulsou toda a platéia de casa.

Na moradia dos Visone, anexa à Cantina do Pale-Pale, a reação foi ao contrário. Festa de graça com cabrito, “fusilli”, vinho e chope para quem fosse comemorar a vitória do “time da casa”. “Tzindónio” dizia-se fundador do SC Corinthians Paulista e aquela era a melhor maneira de externar alegria, enrolado na bandeira da agremiação.

Até no falecimento de “Tzindónio”, devido a um terceiro enfarte do miocárdio, o pavilhão corintiano se fez presente. Colocaram-no sobre o caixão, mas dividindo espaço com a bandeira do Sindicato dos Motoristas, que “Pale-Pale” também ajudara a fundar. O féretro cruzou o bairro lentamente, acompanhado a pé por uma contristada multidão.

CAPÍTULO VI

Do cabrito à “troça”

O garoto nascido na Rua Júlio Conceição em 1937 cresceu nesse cenário pitoresco, rico de idéias, pleno de acontecimentos, farto de vida, calor humano, liberdade e solidariedade. Formou sua própria “troça”, nome comum aos agrupamentos de moleques no bairro.

Justo, Ayrton, “Camelinho” (filho de “Zé Camelo”), Jorge, Hernane, Isaac, Abrãozinho, Brasilino, Salvador, Manezinho,... muitos da “troça” já sumiram no tempo. Todavia, alguns, como israelita Hernane Klapp, continuam na sua agenda de amigos vivos e próximos. Até hoje, Hernane – o “Carioca”, devido ao sotaque –, dono de uma fábrica de jóias para exportação na Rua Matarazzo, teima em chamá-lo de “Tonico”. Hernane ajudou muitos joalheiros em início de carreira até se transformarem em proprietários de cadeias de lojas internacionais, como Tobias Drizun, por exemplo.

A época carecia de coisas como penicilina e TV, é verdade. Papel higiênico figurava por vezes nas listas de supérfluos substituíveis por jornal. Em contrapartida, porém, as famílias dispunham de tempo e segurança para bater-papo à noite, nas ruas, sentadas em cadeiras às portas das casas. Meninas brincavam de “amarelinha” e mantinham vivas as cantigas de roda. Meninos revezavam-se nos jogos de botões, piões, gude ou tampinhas, quando não estavam a disputar “casinha”, numa tosca simulação de críquete em meio à via pública, sem atrapalhar o trânsito ainda imune a congestionamentos. Em dias chuvosos, podia-se ouvir vozes infantis por todo o bairro a repetir em coro: “Sol e chuva, casamento de viúva; chuva e sol, casamento de espanhol”.

Referir-se a alguém como “esse indivíduo”, podia ser tomado por difamação, tamanho o respeito devido às pessoas. Via-se na palavra “vagabundo” algo tão ofensivo quanto o pior palavrão dirigido à honra materna. Tanto que ainda funcionava a Delegacia de Polícia Especializada em Vadiagem para aplicar o Artigo 59 da Lei de Contravenções Penais aos que se mantivessem desocupados por vontade própria.

A palavra desonra tinha significado até entre patifes auto-excluídos, como ladrões, traficantes, drogados, estelionatários e outros. Temiam-na porque podia segregá-los das famílias e da sociedade.

Na capital paulista, a prostituição ficava restrita à “zona do meretrício”. No Interior do Estado, às “casas de tolerância” ou “do padre”. Se governantes, parlamentares, magistrados, sacerdotes e empresários ousassem agir como meretrizes ou imitá-las em despudor, como viria a acontecer corriqueiramente anos depois, ficariam no mínimo ruborizados.

Até os anos 50, a descoberta de “mensalões”, “valeriodutos” e coisas que tais causaria opróbrio sem dúvida maior do que o motivador do suicídio de Getúlio Vargas em 1954.

Seria inimaginável alguma trapaceira travestida de jornalista ufanar-se em público de haver emporcalhado o Congresso Nacional, mesmo porque ainda não existia novela de TV para confundir, na mente do povo, gabinete da cúpula parlamentar com “quarto de cópula” presidencial. Nem ostentaria orgulho ao apresentar uma prole abastardada e sustentada pela corrupção governamental. Muito menos posaria nua para capas de revistas eróticas, no auge do escândalo “político”, como se estivesse a leiloar órgãos genitais entre altos escalões da República.

A vida era simples, mais difícil que agora. Entretanto, realçava valores como sinceridade, obrigações e respeito mútuos.

ooooooo –

Do sobradinho da Rua Júlio Conceição, os pais de “Toninho” mudaram-se com os filhos para um dos casarões deixados pelos antepassados da mãe Joannina. Moraram quase uma década na Rua Tucumã, depois rebatizada de Dr. Leonardo Pinto, onde nasceu a filha Marilena. Daí, foram para a Nílton Prado, onde permaneceram outra década até aceitarem a tendência predominante de seguir para bairros mais modernos e chiques, conforme as posses de cada família. As de origem judaica, preferiam Higienópolis; as de linhagem italiana, os bairros-jardins. Em grande parte, foram substituídas por imigrantes coreanos.

Todavia, antes disso suceder, o Bom Retiro funcionara quase como cidade-estado, tanta atividade profissional, religiosa e política desenvolviam os seus moradores.

O velho Amadeu Aggio e a esposa tinham vindo de Pirassununga para residir defronte da primeira montadora de automóveis Ford no Brasil, à Rua Sólon, quase na divisa com a Barra Funda.

Toninho”, com 10 anos, gostava de visitá-los e passar tardes no quintal do avô. Amadeu usava a velha garruchinha .22 para treiná-lo em pontaria, enquanto Vovó Antonia preparava com todo o carinho, em fogão a lenha e panela de ferro, a polenta com “toccio”, prato característico das suculentas refeições à vêneta.

Netinho e avô, quando não estavam a praticar tiro em latinhas, punham-se a examinar livros e revistas que o idoso casal Aggio colecionava. O menino deliciava-se com as lembranças, as idéias e os conhecimentos de Amadeu em história, homeopatia, farmacologia vegetal e agricultura. E extasiava-se com os gestos de bondade e as demonstrações de paciência da avó.

ooooooo –

A casa da Rua Tucumã possuía amplo quintal, uns 50 metros de comprimento. Nela, “Toninho” absorveu dos pais a mania de criar bichos de estimação. Alguns, como os sagüis, porquinhos-da-índia e coelhos chinchila, faziam diabruras por todo canto. De tempo a tempo, precisavam ser presenteados a amigos e parentes, de tanto que proliferavam.

Além deles, havia o cão carinhoso e companheiro, o papagaio falador e os galos garnisés e caipiras que, apesar da disparidade física, logravam dividir as atenções das galinhas. Estas, se de Angola, ficavam a repetir “tô fraco, tô fraco” o dia inteiro e também contribuíam com ovos à farta. Coitados dos perus, que não punham ovos, nem geravam peruzinhos. Eram imolados nas vésperas de Natal, depois de ingerir alguns tragos de cachaça.

Nenhum desses animais despertou tanto amor em “Toninho” quanto uma cabra leiteira malhada e seu cabritinho preto-e-branco. Nem o pavão malabarista que, trepado no muro ou na mangueira, fazia reverências e abria iridescente leque de plumas, de olho no cercado onde viviam a pavoa e alguns faisões.

Até uma araponga havia. Mas, gritava tanto e tão alto que logo precisou ser doada a um zoológico. Além disso, assustava a cabra. Fê-la perder o leite, insuportável ofensa a “Toninho”, à irmã Marilena e ao cabritinho.

De quando em vez, surgia algum problema sério. Por exemplo, um gatão preto, verdadeira fera surgida não se sabia donde, começou a se fartar de porquinhos-da-índia e pintinhos, sem temer a fúria do cão. Mas, encontrou o merecido fim sob a mira de “Toninho”.

O garoto, acompanhado do pai, ficou de tocaia. Bastou-lhe dar um só tiro de Winchester .22 para por fim à rapinagem. Legítima defesa da vida de terceiros. Pontaria certeira graças à técnica recebida do avô: manter ambos os olhos abertos, sem piscar nem com o estampido; focalizar a massa de mira através da alça, de maneira a ver o alvo desfocado à frente; enquadrar o ponto a atingir e, sem ansiedade, puxar o gatilho apenas com a ponta do dedo indicador.

Antes disso, a ala caprina protagonizara duas tragédias.

Nas datas festivas, a parentela de “Toninho” e os agregados costumavam comer, beber e cantar ao ar livre. Daí, a preferência por habitar casas e vilas com quintal ou pátio onde coubessem compridas “tavolas” (mesas).

Aliás, no Bom Retiro, tudo justificava comilança. Até os falecimentos. As famílias dos mortos de confissão cristã ficavam três dias sem cozinhar, pois vizinhos e parentes faziam questão de lhes levar as melhores iguarias. Na ala israelita, acontecia algo semelhante, mas com maior rigor no luto religioso.

Numa antevéspera de Páscoa, o cabrito de “Toninho” sumiu. Ambos eram tão apegados que, às vezes, dormiam na mesma cama. Alarmado com o desaparecimento, o menino, então com cinco anos, procurou o cabrito inutilmente pelas redondezas.

Na manhã do domingo, fervilhavam caldeirões na cozinha dos tios Baraldi, como noutras residências familiares envolvidas no iminente banquete. Num telheiro contíguo à panificadora da Rua do Areal, “Toninho” encontrou uma pele do cabrito preto-e-branco coberta de sal grosso, secando ao sol. Percebeu a tragédia de imediato. Pôs-se a gritar e espernear. Correu à cozinha e entornou os caldeirões. Para o almoço, só restou o que se assava no forno da panificadora. E, para ele, sobrou uma surra de cinto inesquecível, a única aplicada pelo pai em toda a vida.

Meses depois, a cabra-mãe comeu folhas da videira que crescera demais na casa vizinha à da Rua Tucumã e se debruçara sobre o muro. Erguida nas patas traseiras, alcançou a parreira e fartou-se, sem perceber que tinha sido borrifada com formicida. A gula matou-a em questão de minutos.

Passada a comoção, a fonte de leite de cabra mudou. “Toninho” e Marilena juntaram-se às crianças servidas por um cabreiro, que anunciava a passagem pelas ruas com sinos presos em colares dos cabritos e suas mães. Ordenhava na hora, ao preço de alguns réis.

Outros ambulantes passavam pelo bairro com carrinhos de mão ou carroças. Havia, por exemplo, o que deliciava as crianças com maria-mole. E também o árabe, vendedor de frutas, especialmente abacaxi, abricó e ameixa, que gritava num linguajar arrevesado e malicioso:

-“Abaixaqui, abricu, mexe!

ooooooo –

Poucos anos depois, já crescida, a “troça” de “Toninho” era de amargar. Sucediam-se aventuras nas quais “chocar o bonde” (“camarão” ou “aberto”) na Rua dos Italianos representava a menor das travessuras. Só devido a “cabeça quebrada”, ele precisou de curativos e pontos três vezes na farmácia de Seu Antônio, na Rua “Solôn”, devido a uma queda do bonde e duas de bicicleta – Bianchi Milano aro 18 e Phillips aro 20.

Nos bondes tipo “camarão” (os fechados), a “troça” pendurava-se no pára-choques traseiro, até ser posta a correr pelo cobrador. No “bonde aberto”, a coisa era mais fácil. Bastava saltar de um estribo ao outro quando o funcionário se aproximasse.

Numa das vezes, a molecada foi surpreendida pelo professor Miguel Rolando Perruso, mestre de “Toninho” no curso primário do Liceu Coração de Jesus. Preocupado, o mestre foi à residência dos Aggio e alertou-os sobre as “loucuras” do filho. Entretanto, reprimendas e castigos não bastavam para arrefeceram a ânsia do menino por aventura.

Miguel integrava uma equipe de professores e sacerdotes salesianos estupenda. Nela, também se destacavam os mestres Nolasco e Ignácio de Aquino Rocha, mas foi Miguel o que se tornou amigo de “Toninho” para sempre.

ooooooo –

Certa feita, a “troça” descobriu uma maneira de viajar de graça em trens da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí que partiam da Estação da Luz. Foi época de nadar em lagoas do município de Ribeirão Pires e visitar cidades “tão longe” quanto Jundiaí... Os pais nem desconfiavam.

A atração pela Estação da Luz era irresistível porque fora praticamente destruída por um incêndio e, em pouco tempo, reconstruída sob as vistas da garotada. No jardim à frente, abundavam frutas muito apreciadas pelos traquinas: coquinho, jaca e pitanga. Para apanhá-las, os “destemidos” trepavam nas árvores e precisavam correr dos guardas. Até que, um dia, os vigias municipais, irados pela perda de “suas” frutas, bolaram um plano de ataque e capturaram a “troça”. Onze dos liderados por “Toninho” viram-se cercados e trancados no porão do grande coreto central do Jardim da Luz.

-“Daí vocês só saem pro reformatório”, vociferava um vigilante alto e forte, enquanto acorrentava a portinhola da cela improvisada. Incorria em ledo engano: o porão servia de depósito para jardinagem e estava coalhado de ferramentas. Portanto, os “presos” dispunham de instrumentos para fugir.

Os guardas sumiram por uma ou duas horas, tempo mais que suficiente para a “troça” arrancar a portinhola dos gonzos. Já estava a correr à distância quando apitos e gritos deram o alarma.

Os garotos espalharam-se e só pararam na várzea em que a Rua Nílton Prado desembocava. Pelo caminho, outros moleques iam juntando-se ao bando, de maneira que se contavam às dezenas. Mesmo que a perseguição continuasse, seria impossível apontar quem estava em fuga e quem aderira aos fujões por farra.

Todavia, valeu o susto. As “incursões” no Jardim da Luz cessaram, mesmo porque a segurança ficou tão reforçada que as tornou impraticáveis.

ooooooo –

Na década de 50, aquela várzea deu lugar a avenidas, sedes de clubes e ao Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, apelidado de “Diamante do Bom Retiro”. Antes, porém, o Rio Tietê não fora retificado e, na época das chuvas, as enchentes espraiavam-se desde a parte baixa da Casa Verde, na margem norte, até a Rua Barra do Tibaji, no lado sul. Uma delícia que a “troça” aguardava avidamente todo ano. Época de se aventurar com “jangadas” e alarmar ainda mais as famílias. Foram períodos de arriscada folgança, mas sem sequer um naufrágio.

Quando as águas baixavam, começava a temporada de caça às rãs ou aos preás com ronqueira, um rudimentar bacamarte. A extremidade posterior de um cano de ferro em brasa era dobrada a marteladas e selada com chumbo derretido para servir de culatra. Essa peça ficava amarrada a um pedaço de madeira (a coronha) e recebia pequeno orifício limado (a “orelha”) para acolher a espoleta a ser percutida. Carregada com pólvora negra, a “arma” expelia pregos, pedregulhos, bolinhas de gude e cacos de vidro.

Em geral, o “mecanismo” de disparo constava de tirantes metálicos basculantes, dobrados em retângulo e presos por parafuso nos dois lados da coronha. Correspondiam a um percussor liberado pelo gatilho e puxado por tiras de borracha até bater na espoleta.

Loucura total! Perigo, mesmo, corria o atirador, pois o cano poderia explodir. Havia mais barulho – o “ronco”, daí o nome “ronqueira” – e fumaça do que precisão e alcance. Entre as preás, pouquíssimas tiveram a infelicidade de tombar sob a mira dos “caçadores”. Mas, estes nunca escaparam de boas palmadas em casa quando descobertos. Todavia, apesar do risco, nunca se soube de acidentes graves.

Se não estivessem a “caçar”, os traquinas dividiam-se em times de pelada na rua ou na várzea. Numa dessas disputas, a “troça” de “Toninho” engalfinhou-se com a torcida adversária. Foi tamanha a confusão que ninguém conseguiu ser reconhecido vencedor. Daí, a pancadaria quando ambos os grupos seguiram um costume local, isto é, tomar “pixaxa” depois do jogo.

O “pixaxeiro” conhecido por “Tchentcho” produzia e servia aquela garapa ligeiramente fermentada no quintal de sua casa, final da Rua Nílton Prado, a poucos metros da várzea. Aí, com o encontro das torcidas, a briga recomeçou.

Em desvantagem numérica, entre socos e pontapés, a “troça” sentiu-se à beira de um massacre. Espancado por três desafetos, “Camelinho”, o filho de “Zé Camelo”, vertia sangue pelo nariz. “Toninho” não teve dúvida: derrubou “Alemãozinho”, o líder adversário, com uma tijolada na cabeça.

Trégua imediata. Correria para todo lado. “Toninho” e “Camelinho” procuraram ajuda de parentes, na Rua do Areal. Pouco depois, a casa estava cercada por uma turba, com “Alemãozinho” e sua mãe à frente. A salvação foi ficar escondido no telhado até a situação serenar.

Nos meses seguintes, “Toninho” e “Alemãozinho” fizeram as pazes. Amigos novamente, ficavam a rir daquele episódio, enquanto tomavam a “pixaxa” do “Tchentcho”, afamado como “espanhol”, mas em nada diferente dos napolitanos.

ooooooo –

O período de asfaltamento de várias ruas do bairro, entre elas a do Areal, converteu-se em “grande farra” e resultou em mais algumas cabeças quebradas.

A centenária pavimentação de pedra – os escorregadios e irregulares “macacos” – foi arrancada. Através da Rua General Flores até a várzea e a margem sul do Rio Tietê, o Departamento de Águas e Esgotos cavou largas e profundas valas para receber galerias de águas pluviais em concreto armado. Depois, os tubulões sumiram sob terra e asfalto. Mas, enquanto abertos, os fossos constituíram um irresistível atrativo para impúberes ciclistas bom-retirenses.

Os traquinas queriam imitar as acrobacias dos motociclistas vistos no interior do “Globo da Morte” em alguns circos. Estavam eletrizados. Na falta de “equipamento” apropriado, improvisaram como puderam.

Com suas pequenas bicicletas, posicionavam-se numa borda daqueles imensos buracos e lançavam-se barranco abaixo. Subiam pelo lado oposto, pedalando furiosamente até sair voando para o espaço e conseguir aterrissar vários metros à frente. Adrenalina à solta, faziam o percurso inverso com crescente ímpeto.

Às vezes, estatelavam-se sob aplausos da platéia, na maior parte composta de garotas bem apanhadas. Foi assim que “Toninho” precisou costurar duas vezes o couro cabeludo e tratar de escoriações e hematomas na farmácia do Seu Antônio.

Tempos depois, um fidalgo padeiro lusitano – Seu Manoel – comprou dos Baraldi a panificadora da Rua do Areal. Como não era motorista, substituiu o furgão Fordson por uma carroça atrelada a belo alazão. Quando não estava a trabalhar, o cavalo descansava numa estrebaria da Travessa Matarazzo.

Manezinho, filho do padeiro, logo se integrou à “troça”. Levou “Toninho” à cocheira e, daí por diante, ambos se transformaram em autênticos cavaleiros “clandestinos”. Quase todas as tardes, punham um pedaço de corda entre os dentes do animal à guisa de rédeas e revezavam-se na garupa “em pelo”, sem cela e estribo, galopando várzea afora.

As cavalgadas amiudaram-se e Seu Manoel acabou descobrindo a traquinagem porque elas extenuavam o cavalo. Mostrava-se cansado antes mesmo de iniciar o trabalho. Manezinho berrou como o diabo ao receber uma surra homérica e os gritos chegaram a alarmar “Toninho” na casa do tio, vizinha à panificadora.

Nos meses seguintes, Seu Manoel tirou carta de motorista. Substituiu a carroça e o cavalo por um furgão com pouco uso. E não deu outra: enquanto ele dormia à tarde, Manezinho e “Toninho”, com onze ou doze anos de idade, “treinavam” diariamente ao volante. Aquele aprendeu a “dirigir” com este, que recebera ensinamento do pai, do tio Baraldi e do primo Jayme. Mas, finalmente, com mais uma boa surra em Manezinho, Seu Manoel logrou impor o bom comportamento que exigia em casa e, por tabela, também na vizinhança.

ooooooo –

As lições de tantos hábeis motoristas fizeram “Toninho” dirigir precocemente dois Ford Prefect da família, importados da Inglaterra. Quando o tio ia visitar a filha Doroty em Guaxupé, deixava-o guiar durante boa parte da viagem, sentado sobre uma almofada para ficar mais alto e “enganar” os guardas.

Além disso, nessa época, “Toninho” ensinou a mãe e as primas mais velhas, que tiraram carta. Mas, ele mesmo só procurou habilitação de motorista depois de se tornar motociclista aos 18 anos, quando as motos eram a sua nova paixão.

Um daqueles Prefect fora vendido a seu pai pelo famoso goleiro palmeirense Oberdã. Dizia-se ele primeiro e único dono do carro aparentemente novo. Todavia, a arguta Joannina percebeu que, conforme o ângulo de incidência da luz solar, surgiam sinais de algo encoberto pela tinta “original”. Parecia com as faixas pintadas nos veículos de auto-escolas. Questionado à moda bom-retirense, Oberdã admitiu o “erro” e devolveu o dinheiro. O automóvel fora mesmo de treinamento.

Um Austin A-40 branco, igualmente inglês, substituiu aquele Ford Prefect. Levou a família ao Rio de Janeiro pela recém-aberta Via Dutra. Mas, quebrou tantas vezes que acabou vendido a uma loja da então Capital Federal. Os Aggio retornaram a São Paulo pela litorina da Estrada de Ferro Central do Brasil e compraram um Prefect azul celeste, este sim forte e novinho em folha.

CAPÍTULO VII

No Espéria e Rio Tietê

Nos anos 40, as enchentes espraiavam as águas do Tietê até a esquina das ruas Nílton Prado e Barra do Tibaji. Constituíam fonte de copiosas emoções que “Toninho” poderia dispensar sem arrependimento porque, desde o nascimento, era sócio do Espéria, seu berço e segundo lar. Afinal, devia a própria existência ao clube em que os pais se conheceram, namoraram e resolveram casar.

Mas, para desgosto dos filhos Antônio e “Zito”, o avô paterno de “Toninho”, Amadeu Aggio, persistia em ser sócio do maior rival do Espéria, o Clube de Regatas Tietê. Nele conquistou o título de campeão sul-americano de bocha.

O pai ensinou “Toninho”, ainda nenê, a nadar na piscina rasa do Espéria antes que se aventurasse na olímpica, onde os 50 metros de extensão, 25 de largura e 5 de profundidade pareciam oferecer os riscos de um oceano.

O gosto pelo remo, também herdou-o do pai, assim como o de pescar lambaris, mandis, carás, bagres e traíras no Tietê e lagoas adjacentes. Quando não estava a remar ou nadar, usava a pista de atletismo para correr os 100 metros rasos, que chegava a cobrir em 13 segundos, aos 12 anos de idade.

O grande prazer, porém, estava em desafiar a correnteza do Tietê. Cruzava-o a nado sem se desviar muito do ponto de chegada na margem oposta. Ciente dessa doidice, o pai resolveu proporcionar-lhe algo capaz de absorver a inquietação de vez. Comprou um sandolim, espécie de caiaque de madeira de lei envernizada, com cinco metros de comprimento, duas bancadas e leme comandado pelos pés do remador de popa. Tinha o nome Vxy², ou seja, “raiz quadrada de x vezes y ao quadrado”, fórmula predileta do construtor do barco, um professor de Engenharia.

Para aumentar ainda mais o interesse do filho, deu-lhe um motorzinho de popa italiano, marca Marelli, de um HP a dois tempos. Adaptado a um suporte lateral, permitia a pai e filho navegarem durante horas, rio acima, rio abaixo, com apenas um litro de gasolina. Ficava silencioso ou barulhento conforme a posição de uma válvula do cano de escape.

A montante do Espéria, nos períodos de seca, surgia uma corredeira perigosa, quase intransponível. Formavam-na as pedras que haviam alicerçado a antiga Ponte Grande, ali erguida no século XVI e substituída nos anos 40 pela Ponte das Bandeiras, portentosa e bela até hoje, com seus 120 metros de comprimento e 33 de largura. Na década de 50, as pedras foram removidas a dinamite. Antes, porém, a transposição dependia do motor a toda força e da ajuda dos remos. Depois, só liberdade e tranqüilidade.

Isso, porém, não impediu “Toninho” de capitanear a “troça” sobre jangadas improvisadas com madeira e câmaras de ar, dessas que inflam pneus à moda antiga. Acontecia durante as enchentes, quando os moleques e algumas garotas impeliam aquelas “embarcações” pela várzea alagada, com longas varas de bambu e remos improvisados.

A Ponte Grande é da lavra do maior Prefeito da história de São Paulo, Francisco Prestes Maia, um dos mais realizadores e sérios políticos que o País conheceu. Foi dos poucos que fizeram sem roubar. A admiração de “Toninho” por ele começou ali. Cristalizou-se por influência do pai. Agigantou-se quando se tornou repórter do jornal O Tempo e pôde conhecer pessoalmente Prestes Maia e esposa, a “Maria Tamanco”, celebrada pela sinceridade e que se acreditava militar no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Não havia domingo e feriado sem a presença do sandolim Vxy² no rio. Às vezes nos dias úteis, após as aulas da manhã, “Toninho” aventurava-se sozinho. Para chegar ao Espéria, bastava sair de casa, andar dois quarteirões da Rua Nílton Prado, cruzar a várzea, margear o rio por uma trilha de terra, transpor um tosco tablado sobre o afluente Tamanduateí e chegar à novíssima Ponte das Bandeiras. Uns vinte minutos a pé ou dez de bicicleta, no máximo, sempre carregando o litro de gasolina misturada a um pouco de óleo lubrificante, combustível suficiente para uma tarde inteira de “aventura” à revelia dos pais.

Nos fins de semana e feriados, o rio chegava a ficar “congestionado” de tantas embarcações, principalmente catraias dos clubes ribeirinhos que os sócios utilizavam para namorar. E lá ia “Toninho” com o sandolim e o motor roncando, esgueirando-se entre ioles, esquifes e catraias enquanto alertava os desatentos aos berros:

-“Proa! Proa! Olha a proa!”

Até nesse grito de advertência, imitava o pai.

Todos os barcos precisavam de licença municipal e recebiam uma plaqueta metálica lacrada. O “bigode” e a esteira levantados pela lancha Cris Craft da Prefeitura, empregada na fiscalização, causavam a maior admiração a “Toninho”. Ele tornou-se amigo do “piloto municipal”, um português de fartos bigodes e boa praça. Prometeu a si mesmo que, algum dia, navegaria com aquela imponência e velocidade numa embarcação própria.

Mas, o Tietê foi-se poluindo rapidamente. “Toninho” só pôde realizar esse sonho muitos anos depois. E no mar. Habitantes e indústrias de São Paulo e municípios a montante e jusante violentaram o rio. Sujaram-no, embruteceram-no e transformaram-no em esgoto a céu aberto. Quem o via naquela época, jamais poderia imaginar a extensão do crime que se iniciava em nome do progresso. Verdadeiro atentado ao meio ambiente. Transformou o formoso Tietê em algo abominável no trecho paulistano. Também criou imensurável fonte de riqueza para governantes inescrupulosos.

Ao tempo da retificação para diminuir enchentes, duas ou três dragas bastavam para lhe garantir profundidade e curso. Muitas foram acrescentadas em seguida. Ficaram a navegar rio acima, rio abaixo, durante décadas, e a sorver milhões de dólares para uma máquina de corrupção política, sem que nunca a obra terminasse. Enquanto isso, cada vez mais a pestilência se apoderava das águas. Justificou a criação de fenomenais cabides de empregos. E em tudo lembrou o que sucede com alguns templos eternamente em construção para garantir inescrupulosas “rendas”.

Houvessem os governos agido honestamente à época para impedir a poluição, os paulistanos estariam desfrutando das antigas benesses, a exemplo dos habitantes de cidades estrangeiras como Londres e Paris que resolveram problemas semelhantes sem impedir o progresso. E o rutilante sandolim Vxy² ter-se-ia livrado da deterioração e do melancólico fim num dos barracões do Espéria.

CAPÍTULO VIII

Uma “zona” no meio do caminho

Ainda na década de 40, “Toninho” cursava o Primário do Liceu Coração de Jesus, colégio mantido pelos padres salesianos. Os pais exigiam-lhe dedicação aos estudos, principalmente para ficar imune à gíria bom-retirense de inspiração napolitana. Até os israelitas, fossem polacos, russos ou de qualquer origem, falavam “italianado”. E isso castigava os ouvidos do pai e do avô Aggio, que tanto procuravam esmerar-se no uso do português. Também caprichavam na caligrafia porque – afirmavam – “pela escrita se conhece a educação da pessoa”.

Apesar de várias notas, exceto em Português, mal excederem a média necessária à aprovação, “Toninho” granjeou a simpatia dos mestres leigos e seus superiores religiosos, especialmente o diretor, Padre Avelino. Graças a este, escapou da expulsão duas vezes devido às travessuras.

Os alunos, tanto do Internato como do Externato, usavam dois tipos de uniforme: o cáqui, nos dias comuns, e o de gala, branco com quepe de aba preta, assim como talabarte e sapatos preto-e-branco de verniz para memoráveis desfiles. A banda, afinadíssima, fazia inveja a muitas profissionais. Tudo era belo, vibrante e esmerado, sob a inspiração patriótica de Dom Bosco.

O rigor do ensino esmaecia durante os jogos de futebol em dois grandes pátios e nas encenações do moderno teatro da escola. Estas, “Toninho” tentou sem sucesso porque se sentiu ridículo sob a maquilagem exigida dos “atores”.

No futebol disputado com a equipe de alunos internos, a técnica e a garra do capitão contrário extasiava-o. Era ele Sérgio Fernando Paranhos Fleury, quatro anos mais velho e órfão de médico-legista mortalmente infectado pelo bisturi durante uma autópsia.

Num ou noutro domingo, os traquinas amansavam-se. Até decoravam frases em latim para receber os 300 reis que os padres ofereciam aos coroinhas que ajudassem à missa. “Toninho” e Fleury estavam entre os costumeiramente premiados. Foram reencontrar-se somente em 1954, aquele como repórter de O Tempo, este iniciando a carreira policial de investigador e estudando de Direito para se transformar no delegado de polícia mais amado e odiado do País.

ooooooo –

Para poder ajudar à missa celebrada em latim, era obrigatório comungar e a comunhão ainda dependia de formal confissão dos pecados. Parecia ladainha iniciada pela afirmação:

-“Padre, perdoe-me porque pequei. Faz (tantos) dias que me confessei.”

Imerso na escuridão do confessionário, o reverendo ia perguntando o que o garoto fizera, quase sempre com a mesma resposta:

-“Eu fiz porcaria!

Mas, se o questionamento se tornava minucioso – “com quem? quantas vezes? como foi? onde foi? o que sentiu?”“Toninho”, desconfiado, desconversava. Para se sentir absolvido das faltas que ocultava, penitenciava-se espontaneamente, duplicando a “pena” imposta pelo sacerdote, muita vez uma dezena de pais-nossos e ave-marias.

Nunca entendeu porquê a Igreja Católica abandonou o seu mais poderoso instrumento de domínio: a confissão. Deixou-se substituir pela ciência e pela política num setor em que era imbatível. Remeteu a absolvição dos pecadores, isto é, a remissão das culpas dos fiéis aos campos da psicoterapia e da autocrítica. E esta é a maneira mais simples e eficaz de atrelar alguém a uma pessoa ou à causa por ela representada.

Da mesma forma, jamais compreendeu porquê os católicos se viram privados das cerimônias em latim, pois só se respeita ou teme aquilo que se desconhece. Algum mistério insondável sempre compõe o cerne de qualquer fé. O desvendar enigmas pode conduzir ao conhecimento, ao destemor, à razão, ao raciocínio e até à negação de dogmas que produzem e alimentam uma crença.

Na maioria das vezes, a explicação da fé colide com evidências que podem enfraquecê-la ou mesmo eliminá-la. Assim, em termos religiosos, a comunicação enigmática é tão importante quanto o ritual.

De qualquer forma, “Toninho” acabou descobrindo a duras penas que isso tudo pouco tem a ver com os ensinamentos de Cristo, sintetizados no amor a Deus e ao próximo, no fazer aos outros somente o que desejamos a nós mesmos e na simples reunião em Seu nome para orar o Pai Nosso. O restante, como em todas as religiões, são adornos e complicações inventadas por seres humanos.

ooooooo –

As tais “porcarias” mencionadas no confessionário significavam não raras brincadeiras “de médico” com meninotas, algumas fogosas demais, apesar de pouco avançadas na puberdade. Além disso, durante meses, uma “pistola-projetor” presenteada pelo pai permitiu a “Toninho” fazer “cineminha” quando fosse possível projetar na parede imagens estáticas, que se alternavam a cada toque no gatilho, como um filmete no estilo de história em quadrinhos. A geringonça importada funcionava a pilha. Tinha uma objetiva como “cano” e lâmpada de lanterna atrás do filmete.

O “cineminha” acontecia geralmente às escondidas, onde houvesse espaço e obscuridade suficientes. O ingresso custava alguns botões ou bolinhas de gude. Meninas entravam de graça. Enquanto as cenas “emocionantes” se sucediam na “tela”, aconteciam os “amassos” na platéia. O “operador” embolsava os ingressos como compensação por sempre ficar em desvantagem devido a ter pelo menos uma das mãos ocupada com o “projetor cinematográfico”.

Que fase! Durou enquanto ninguém deu com a língua nos dentes. Mas, a história vazou, castigos abateram-se sobre a molecada e a “pistola-projetor” sumiu do mapa. Havia, porém, cumprido a missão. Despertara o libido e imunizara a garotada da “troça” do mal mais temido e raro no bairro: a “veadagem”.

Aliás, a palavra homossexualismo permaneceu quase banida do Bom Retiro naquele período. Existia, isto sim, a prostituição confinada por decreto governamental à “Zona de Meretrício” entre as ruas Itaboca e Aimorés, nas proximidades da Estação da Luz. Uma chaga que nada teve a ver com as famílias do bairro e demorou muitos anos para ser fechada.

Mas, vá desinibir-se assim no inferno! Aos 11 anos, “Toninho” viu-se “seduzido” pela empregada de casa, anos mais velha, apetitosa e sedenta de sexo. Num quarto dos fundos, levou-o ao primeiro orgasmo, que parecia não terminar e chegou a assustá-lo. Daí em diante, a cada “porcaria” mencionada no confessionário, ele sabia muito bem o que associar.

Ao assumir ares de patroa, a “musa doméstica” despertou suspeitas. Feitas as averiguações comuns em tais casos, foi demitida “por via das dúvidas”. Mamãe Joannina nada descobrira, mas seu instinto lhe dizia existir algo errado. E, se algo nunca falhava, era exatamente o seu instinto materno.

ooooooo –

Uma das matérias do Curso Primário do liceu chamava-se Civilidade e realmente interessava a “Toninho”. Ele sorvia com prazer os textos do grosso Compêndio e ia bem, apesar da rebeldia inata. Gostava das regras sociais por achá-las “lógicas” e dos hinos pátrios pela facilidade em decorar e cantar. Além disso, por costume familiar, já respeitava várias dessas normas, como o ceder lugar às pessoas mais velhas e mulheres grávidas, atitude em geral não levada a sério hoje em ambientes públicos nem por força de lei e sob pena de multa.

Entretanto, parece que civilidade imposta produz efeito contrário nos mais perversos do que rebeldes. Tanto que um colega por pouco não o matou.

Chamava-se Gáudio. Invejoso, empurrou “Toninho” do alto da passarela divisora dos pátios do liceu, pelas costas, quando estava sentado no parapeito a torcer durante uma partida de futebol. Queda de uns cinco metros. Braço e pulso fraturados. Cortes nos lábios e um dente quebrado. Precisou de remoção às pressas para o Hospital da Cruz Azul, de onde saiu engessado e enfaixado, dois dias depois.

Queriam expulsar o agressor. Só não o fizeram porque, com dó, o agredido ajudou-o a convencer o Padre Avelino de que tudo acontecera “sem querer”. Com o passar do tempo, Gáudio fez jus ao perdão e tornou-se um bom amigo.

Entretanto, nem o Compêndio de Civilidade como matéria reprovativa arrefecia o entusiasmo pelas molecagens fora da escola.

Até o segundo ano primário, “Toninho” era levado ao liceu pela mãe ou pela prima de criação, a linda e negra Nair. Com o tempo, porém, convenceu-as da inutilidade desse “sacrifício”. Passou a ir sozinho.

Na Rua dos Italianos, “chocava” o bonde que seguia pela Silva Pinto até as portas do liceu, ocupante de vasta área entre a Alameda Nothman e o Largo Coração de Jesus. Assim, podia divertir-se e embolsar os parcos réis da passagem para reforçar as mesadas de fim de semana.

Na Rua Silva Pinto, o coletivo percorria um trecho adjacente à “zona”, na esquina com a Itaboca, rua reservada às doidivanas do “baixo meretrício”, as mais propensas a escândalo. Com alguns coleguinhas de “troça”, dependurados na traseira do “camarão” ou no estribo do “bonde aberto”, ficava a provocar as infelizes aos gritos, só para rir das reações.

-“Aí, putana! Tá feia, hem! Vai trabalhar!

Até que as mulheres pareciam gostar de extravasar a fúria, levantando a saia para exibir partes pudendas:

-“Moleque filho da puta! Oi prô ce! Desce aqui! Vai ver o que é bom!

Sensacional desordem diária em plena rua. As prostitutas tanto se acostumaram à pândega que, às mesmas horas, já aguardavam a aproximação do bonde para começar o “show” antes mesmo de avistar a turma de arruaceiros. A maioria dos passageiros nada entendia e ficava cada vez mais indignada por se ver envolvida em ofensas imerecidas. Até bondes “inocentes” passaram a pagar o pato e a polícia expulsou o mulherio para o interior da “zona”.

Foi por causa de uma dessas arruaças, vista pelo professor Miguel Rolando Perruso e denunciada aos pais de “Toninho”, que a “troça” achou melhor abandonar a insanidade. Além disso, essa reclamação complementou um acontecimento que, dias antes, havia mostrado aos moleques o risco da “brincadeira”. Uma locomotiva caíra da ponte ferroviária sobre a Rua Silva Pinto e ficara entalada na via pública. Por milagre, não atingiu o “Camarão” que estava sendo “chocado”, mas bloqueou o trânsito a poucos metros da esquina da Rua Itaboca, à vista do mulherio desvairado. Os moleques apearam da traseira do bonde e deram no pé pela Rua Anhaia afora, rezando para não ser alcançados.

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A alfabetização de “Toninho” aconteceu pelas mãos do professor Nolasco, mestre à moda antiga, adepto de amansar rebeldes e preguiçosos, fazendo-os ajoelhar-se sobre grãos de milho. Às vezes, brandia uma palmatória reservada às faltas mais graves. Felizmente, nunca a usou. Mas, se o fizesse, não seria de estranhar ou recriminar, tão senhor de si mostrava-se o corpo discente.

Os pais e o tio, Antônio Baraldi, deram a “Toninho” noções das primeiras letras, entre os 6 e 7 anos de idade. Ao perceber sua predileção pelo Gibi, incentivaram-no a soletrar pacientemente cada palavra das histórias em quadrinhos. O bê-á-bá por Nolasco completou a alfabetização.

Ao conseguir ler frases dos quadrinhos por inteiro, “Toninho” exultou. Pulava e gritava pelo corredor da casa do tio, Gibi nas mãos:

-“Já sei ler! Já sei ler!

Depois, se tornava inconveniente de tanto demonstrar essa conquista a quem quisesse ouvi-lo.

Na aposentadoria, Nolasco foi substituído pelo prof. Miguel, que convencia os alunos sem impor. Aboliu o castigo do milho e, líder tanto quanto mestre, ganhou a simpatia e o respeito espontâneo da garotada. Seguiu-o o professor Inácio de Aquino Rocha, outro disciplinador exemplar e igualmente um portento em Português.

Graças a isso, os conhecimentos gramaticais e ortográficos de “Toninho” iriam adaptar-se sem problemas às sucessivas reformas da língua, condição fundamental para exercer o jornalismo. O entendimento das novas regras tornou-se fácil também porque, em casa, dispunha da melhor fonte de erudição que poderia encontrar, isto é, o próprio pai.

Na residência dos tios Baraldi, tão logo soube ler, saboreou a coleção Tesouro da Juventude. Principalmente, o tio, o pai e o avô paterno esclareciam dúvidas quanto aos textos e ilustrações dos 18 volumes dessa insuperável enciclopédia.

Foi a maneira de assinar do professor Inácio que levou o menino a descobrir a Maçonaria. Mesmo lecionando num colégio salesiano, o mestre acrescentava à assinatura três pontinhos dispostos triangularmente. “Toninho” questionou-lhe o significado.

-“É meu costume”, respondeu Inácio com certo ar de mistério.

O menino recorreu ao pai. Recebeu as primeiras explicações sobre Maçonaria, algo que calou fundo e ficou-lhe mais claro quando, anos depois, se tornou “lowton” (pronuncia-se “láutom”) na Loja integrada pelo genitor, a mais antiga do Grande Oriente de São Paulo, então instalada na Rua Tabatinguera, centro paulistano. O saudoso radialista e apresentador de rádio e TV Manoel da Nóbrega foi o orador da cerimônia de adoção no rito escocês e um conhecido banqueiro, o padrinho do adotado. A alegria do novo “lowton” cresceu ainda mais ao descobrir entre os maçons mais ativos na primeira década de existência daquela Loja, em 1800, o nome do padre Diogo Antônio Feijó.

CAPÍTULO IX

Fanfarra substitui a “troça”

Aos 10 anos, em 1947, o garoto terminou o Curso Primário e migrou do Coração de Jesus para o Instituto de Educação “Caetano de Campos”, instalado em edifício de estilo, num quarteirão inteiro da Praça da República. Colégio-modelo do Estado, de tão requestado não aceitava transferências, a não ser mediante uma espécie de “vestibular”.

O Instituto impressionava pelo renome do corpo docente, recursos didáticos e instalações. Pátios imensos apinhavam-se durante o recreio e as atividades de Educação Física. E “Toninho” pôde trocar a “troça” do Bom Retiro pela fenomenal fanfarra que o professor dessa matéria estava organizando.

Pavilhão Nacional e bandeiras de todos os Estados brasileiros à frente, a fanfarra “caetanista” chegou a ser levada de trem ao Rio de Janeiro, às expensas do Governo Federal, para participar da abertura dos Jogos da Primavera num estádio carioca, à frente da Banda dos Fuzileiros Navais. Os viajantes, entre os quais “Toninho” e o hoje renomado advogado Ise Isaac Fajnzylber, ficaram hospedados no Arsenal da Marinha, Ilha das Cobras, no então Distrito Federal. Ali, conheceram cruzadores, contratorpedeiros (“destroiers”) e submarinos.

Ao desfilarem no estádio, foram aplaudidos pela multidão que ladeava o Palanque Presidencial, onde estavam Getúlio Vargas e ministros de Estado. Em seguida, receberam cumprimentos do presidente da República e dos fuzileiros da banda mais importante do País.

ooooooo –

A maioria dos colegas do “Caetano de Campos” iria destacar-se na vida pública ou privada. Por exemplo, entre eles estavam o futuro maestro e compositor Erlon Chaves; o dramaturgo, diretor de TV e cineasta Valter Avancini; o jornalista e radialista Alexandre Kadunc; e o vice-governador paulista e ex-deputado federal Alberto Goldman.

Outros, como o argentino Eduardo Alberto Escalante e José Maria Allie, de ascendência francesa, notabilizaram-se de maneira diferente. Na Universidade de São Paulo (USP), o maestro Escalante realizou preciosas pesquisas para documentar, em som e imagem, todas as formas de folclore brasileiro. Mas, Allie, capitão e instrutor da Academia Militar de Agulhas Negras na década de 70, foi morto por uma bomba lançada, à noite, de um avião da FAB no alvo errado. Nos tempos de “Caetano”, quase convencera “Toninho” a acompanhá-lo à carreira militar.

Os professores eram respeitados e prestigiados pelo governo, inclusive com bons salários. Dispunham de todos os recursos em aula. Por exemplo, a cátedra de Ciências envolvia, entre outros, um mestre de Física germânico que lecionava com equipamentos de última geração, iguais aos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Bicos de Bunsen, provetas, tubos de ensaio e frascos com os principais reagentes ocupavam as bancadas dos laboratórios, nos quais máquinas eletrostáticas, dínamos e alternadores emparelhavam-se com bobinas de Runkorf, transformadores, condensadores, retificadores e pilhas de todo tipo.

Foi então que, ao fazer a eletrólise da água, “Toninho” teve uma idéia reputada de genial pelos professores. Bolou um meio de fazer automóveis se moverem a hidrogênio e oxigênio dissociados por aquele meio. Demonstrou o “projeto” no quadro negro e, daí para frente, recebia boas notas em Física e Química por mais besteira que fizesse.

A idéia, aparentemente simples, consistia em separar eletricamente o hidrogênio e o oxigênio de água levemente acidulada, contida num tanque inoxidável. Esses gases substituiriam a gasolina em motores de explosão. Seriam injetados nos cilindros diretamente através do tubo de admissão do carburador ou mediante bicos parecidos com os de motores diesel. Comprimida pelos pistons, a mistura explodiria a cada faísca de vela e, pelo escapamento, sairia apenas vapor de água.

Uma versão posterior previa ignição quando a mistura fosse pressionada na presença de uma esponja de platina no lugar da vela, sem necessidade de faísca elétrica. A platina catalisaria a reação explosiva sob compressão. Em ambas as concepções, o vapor expelido poderia ser resfriado e liquefeito numa serpentina para reabastecer o tanque de água.

Apesar de teoricamente admissível, esse hipotético sistema não chegou a ser testado no “Caetano”. Prévias e cautelosas experiências com tubos de ensaio, infundiram medo na garotada e preocuparam o professor. Mas, um colega de classe, de sobrenome Matarazzo, levou o projeto adiante, ao cursar Engenharia na Poli.

Jornalista da Folha de S. Paulo na década de 60, “Toninho” surpreendeu-se com uma notícia de seu jornal: alunos da Poli haviam feito um motor comum de automóvel funcionar a água. Na foto, Matarazzo aparecia à frente da equipe, como coordenador do experimento. O problema é que a ausência das partes inoxidáveis, previstas no ginásio, enferrujou e inutilizou o maquinismo em pouco tempo. Também por vê-lo antieconômico, numa época de petróleo a preço de banana, os universitários abandonaram o projeto.

Na década seguinte, ao comentar o assunto na redação, “Toninho” iria ter outra surpresa. Ouviu de um notável colaborador da Folha, jornalista e herói da Resistência Francesa chamado Pierre Lascol, o relato de uma corrida de automóveis “sui generis” por ele presenciada na Espanha, nos anos 30. Participaram da disputa “baratinhas” movidas a hidrogênio e oxigênio extraídos d’água, com desempenho semelhante – afirmava Pierre – ao de carros de corrida a gasolina.

O “projeto” também acabou esquecido no “Caetano de Campos”, tanta era a atenção exigida pelas matérias do antigo curso ginasial. Havia Português, Latim, Francês, Inglês, Espanhol, Matemática, História Geral e do Brasil, Geografia, Música e Trabalhos Manuais, além de Ciências e Educação Física. Quatro anos de estudo capaz de suplantar o de muito curso universitário hodierno. Talvez fosse exagerado para a faixa etária dos alunos. O futuro iria demonstrar, porém, o valor de uma base de conhecimentos desse porte.

ooooooo –

Embora adorasse o compêndio de Ciências Físicas e Naturais, “Toninho” reservava a maior reflexão às palavras do professor de Português, chamado Filipe Jorge, de origem árabe. Esmerava-se em absorver os ensinamentos desse portento do ensino porque os sentia fundamentais para a concretização de seu grande projeto de vida: o jornalismo. Afinal, além da ânsia por comunicar, o garoto tinha vocação para tanta coisa que só essa profissão poderia satisfazê-lo. É a única capaz de responder plenamente à curiosidade de qualquer ser humano. Leva-o a entender de tudo um pouco, sem precisar ser nada.

Foi Filipe Jorge, com idéias claras, simples e precisas, além do entusiasmo professoral, quem lhe fez compreender o porquê das regras e buscar mais conhecimento em obras literárias. Por isso mesmo, não estranhava o fato de os livros didáticos escritos por ele serem adotados nas principais escolas do País. Sem dúvida, Filipe concedeu-lhe a plataforma para realizar seu sonho.

Algumas cadeiras tinham medalhões, ao estilo das faculdades. Por exemplo, pelos manuais que assinara, pontificava o professor Orestes Rosolia, autor dos compêndios de História Geral e História do Brasil. Quem o secundava em fama – o professor Bueno - já impunha respeito só pela carranca a lembrar um pequinês. Todavia, como na maioria daqueles mestres, o conteúdo não correspondia à aparência severíssima.

Muito educado e metido a quatrocentão, Bueno disfarçava a personalidade pela sisudez. Pura representação. Seu maior mérito também foi o de ensinar a pensar e pesquisar. Sem impor, soube incutir prazer pelo estudo ao instigar a curiosidade comum entre adolescentes.

Além do mais, sua existência representava uma vantagem pessoal para “Toninho”. Bueno trabalhara com seu pai no Banco de São Paulo. O ex-chefe e o ex-subordinado continuavam amigos desde os tempos em que este marcara presença no banco sob o carinhoso apelido de “Bueninho”. Formou-se em História enquanto ainda era um jovem bancário. Através de “Toninho”, seu cognome espalhou-se entre os “caetanistas”.

Fiel às origens familiares desde os Bandeirantes, “Bueninho” conferia excepcional valor à pesquisa genealógica. Nunca realizou uma prova sem exigir, como passaporte, a linhagem atualizada do aluno ou de algum vulto histórico. Aparentava despreocupação com as possibilidades de “cola” e ensinava que, se colassem, os discípulos estariam simplesmente enganando a si mesmos. Sabatinas e exames aconteciam com os alunos à vontade para consultar livros e até se socorrer das monumentais bibliotecas do Instituto. O mestre queria que memorizassem os fatos principais e soubessem onde buscar os pormenores quando necessário.

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Nem tudo era um mar de rosas no edifício projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894. Havia romances secretos e sofridos, como o que culminou na demissão de uma professora e do mestre de Latim, um dos mais queridos por “Toninho”. De repente, ele deixou a esposa e dois filhos para sumir, acompanhado da professora de Inglês pela qual se apaixonara.

O Instituto também inspirava paixões de primeira idade. Muitas iriam resultar em casamentos com mocinhas do Normal, curso que dera origem à escola no século XIX sob o nome de um exponencial médico e educador carioca, Dr. Antônio Caetano de Campos. “Toninho” gostou dessa história porque envolvia o nome Antônio, predominante em sua família, e lembrava o da avó materna Caetana, a “Noninha”.

As belas normalistas, futuras professoras, estudavam apartadas dos garotos. Espaço para isso havia de sobra nos três andares do prédio. Ergue-se majestoso até hoje, limitado pela Praça da República e Avenida Ipiranga. Foi transformado em sede da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Mais de dois mil alunos espalhavam-se por sessenta salas de aula com grandes lousas e, no máximo, cinqüenta cadeiras cada uma. Havia duas imensas bibliotecas, quatro salas de professores, três secretarias, três pátios internos abertos, dois cobertos, laboratórios de Física, Química e Biologia, um gabinete médico e dois dentários, teatro-auditório, cantinas e oficinas para aulas praticas no subsolo.

Por vezes, aconteciam aulas “práticas” demais. Extrapolavam quaisquer objetivos curriculares, a poucos metros daquelas salas do subsolo. Ali passava o estreito “túnel do ponto” do teatro para aflorar numa casinhola do palco.

Que delícia! Quem se considerasse “esperto” podia usar o túnel para namorar à vontade, a salvo de repressão. Mas, esse tipo de molecagem durou pouco. Logo transpirou e o túnel foi lacrado, sem que o inesquecível diretor Francisco Cimino conseguisse identificar os habituais “pombinhos”.

Maçantes mesmo eram as aulas do irascível professor de Matemática. Baixinho, até menor que alguns alunos, procurava destacar-se dos demais mestres pelos ternos caros e notas baixas aplicadas a esmo. Além disso, ampliava de propósito as dificuldades naturais da matéria com explicações eivadas de reticências. Se questionadas, podiam produzir um imediato e solene zero. Como de nada adiantava reclamar, o drama precisou ser desfeito mediante um “golpe de mestre” ou, melhor, “no mestre”.

O pai de “Toninho”, aficionado da fotografia, possuía um laboratório amador, muito bem equipado, nos fundos da casa da Rua Nílton Prado. Durante a guerra, inventara um sistema de revelação e ampliação para substituir filmes virgens por papel fotográfico comum. Cortava, emendava e enrolava tiras desse papel em carretéis originais das máquinas. Seriam os negativos.

Antonio Aggio, pai, havia calculado aberturas de diafragma e velocidades de obturador necessárias para as câmeras proporcionarem boas fotos em cada ambiente. Feitas a exposição e revelação do “filme”, ele projetava a cena no papel virgem normal, através de um ampliador acoplado a um jogo de espelhos. E pronto: com poucos centavos, obtinha o que, para outros, custava os olhos da cara. Quase todas as fotos da infância de “Toninho” e da família se originaram desse processo.

Seu Antônio incentivou o filho a segui-lo no amadorismo fotográfico. Em 1947, como presente pelo ingresso no ginásio, deu-lhe uma Kodak “caixão” para filmes de 120 milímetros. Dois anos depois, a “salvação” viria dessa máquina.

No aniversário do professor de Matemática, “Toninho” convenceu a turma a esperá-lo à frente da escola. Envaidecido pelos parabéns e elogios ao seu colete novo, o mestre concordou em posar para fotos, de pé, atrás dos discípulos, num degrau mais alto da escadaria de entrada da escola. Assim, apareceu como o mais alto entre os figurantes.

Dito e feito. Ao ver as imagens, o mestre “derreteu-se” todo e mudou de postura com relação aos espertalhões. Passou a tratá-los com carinho e a mostrar até alguma condescendência, coisa rara e “inexplicável” pelo que se comentava depois entre o corpo docente.

ooooooo –

Nessa época, aconteceu outra coisa inusitada na história do Instituto. Foi a verdadeira guerra entre “caetanistas” e alunos do antigo colégio particular “Osvaldo Cruz”, localizado nas proximidades.

O “Caetano” era invejado por causa das centenas de meninas-moças matriculadas em seu Curso Normal. Para a rapaziada, as futuras professorinhas inspiravam devaneios, com os saiotes azuis e blusas brancas, num tempo em que a regra social era ocultar pernas femininas até os tornozelos. Os “caetanistas” consideravam as normalistas “propriedade” do Instituto. Insurgiam-se contra a presença de colegas de outras escolas.

Um desentendimento devido a isso culminou em violento entrevero com alunos do “Osvaldo Cruz”, às portas do Instituto. Em desvantagem, os “invasores” bateram em retirada, mas voltaram na manhã seguinte, com reforços e dispostos a tudo. Sobraram até pauladas de ambos os lados. Desta vez, a desvantagem ficou com os “caetanistas”, obrigados a se refugiar no interior da escola.

No terceiro dia, mais uma desordem generalizada na Praça da República. A polícia estava à espreita e acabou com a farra a bastonadas e bombas de efeito moral. Todos os jornais paulistanos publicaram fotografias consideradas “emocionantes” por ambos os lados. Quem não gostou foram os diretores de ambos os colégios. Celebraram um “acordo” e conseguiram acabar com o belicismo sem punir ninguém.

O noticiário deixou as famílias envolvidas em polvorosa. Daí, a mãe de “Toninho” ter resolvido buscá-lo de bonde na escola, repetindo o que fizera durante algum tempo no início do curso. Seu filho e Ise são amigos inseparáveis desde essa época porque Joannina, sabedora da rebeldia latente em ambos, escoltava-os todo dia até em casa. Quando ela faleceu, em 2006, Ise estava em prantos no velório como se filho fosse, a ponto de sua saúde causar preocupação.

Mas, no “Caetano”, nem freio materno arrefecia a admiração masculina pelas garotas do Normal. Deve ter contribuído para isso o samba intitulado Normalista, de autoria de Benedito Lacerda e David Nasser. Campeão em todas as paradas de sucesso, inspirou até crônica de Carlos Drummond de Andrade. Sua letra diz:

“Vestida de azul e branco / Trazendo um sorriso franco / No rostinho encantador / Minha linda normalista / Rapidamente conquista / Meu coração sem amor / Eu que trazia fechado / Dentro do peito guardado / Meu coração sofredor / Estou bastante inclinado / A entregá-lo ao cuidado / Daquele brotinho em flor / Mas, a normalista linda / Não pode casar ainda / Só depois que se formar... / Eu estou apaixonado / O pai da moça é zangado / E o remédio é esperar.”

Realmente, à margem das aulas, o que polarizava a atenção dos jovens eram as normalistas e a fanfarra, esta porque levava àquelas. Pouco se lhes dava a política, embora de vez em quando tomassem alguma atitude por pura diversão ou para massagear o ego. Numa delas, o governador Adhemar de Barros transformou-se em vítima. Diziam-no desonesto e, por isso, foi “ovacionado” ao visitar o Instituto. Isto é, levou uma saraivada de ovos comprados pelos imberbes “manifestantes” nas vizinhanças.

ooooooo –

Apesar da relativa ausência de politização ou talvez até por isso, a história do “Caetano” legou grandes vultos a todos os setores de atividade. Seu passado glorioso mobilizou a sociedade civil na década de 70 para impedir a demolição do edifício e sua substituição pela Estação República, do Metrô. Através de abaixo-assinados e manifestos, assim como pelas notícias de jornais e ações nos bastidores do governo, via-se que as salas “caetanistas” haviam acolhido sobrenomes como Abreu Sodré, Almeida Prado, Amaral Gurgel, Barros Mott, Capote Valente, Carvalho Pinto, Cerqueira César, Costa e Silva, Eiras Garcia, Eiró, Gomes Cardim, Mesquita, Milliet, Monteiro Lobato, Peixoto Gomide, Pereira de Queiroz, Sampaio, Tavares Andrade, Toledo Piza, Ulhoa Cintra e Valle.

Ali também despontaram, desde o final do século XIX, nomes como os de André Franco Montoro, Cecília Meireles, Cincinato Braga, Ernest Mange, Euzébio Mattoso, Francisco (Ciccillo) Matarazzo, Guiomar Novaes, Lygia Fagundes Telles, Mário de Andrade, Modesto Carvalhosa, Oscar Americano, Renato Consorte e Sérgio Buarque de Holanda.

 

CAPÍTULO XI

Senhor Aggio, fora!”

Um rol de ex-alunos célebres pode representar faca de dois gumes para os demais discípulos. Se, por um lado, valoriza o diploma, por outro estimula a má vontade de mestres obtusos, com relação aos menos afortunados. Foi isso que “Toninho” descobriu em 1951, ao se transferir para o Colégio Estadual “Presidente Roosevelt”, estabelecimento público à altura do “Caetano de Campos” e, como ele, fundado no final do século XIX. Distribuía-se por três seções na cidade de São Paulo, uma das quais instalada na Rua São Joaquim e escolhida por “Toninho”, devido ao nome do bairro: Liberdade. Ele optou pelo Curso Científico, pois, realmente, nutria paixão pela Física.

Os cursos do “Caetano” limitavam-se a Primário, Ginasial e Normal. Quem quisesse prosseguir nos estudos, precisava cursar o Clássico ou o Científico em outras escolas, entre as quais pontificava o “Roosevelt”. A diferença curricular estava na opção entre Latim e Grego, assim como na individualização da Física, Química e Biologia por respectivas cátedras.

A lista de ex-alunos do “Roosevelt” resplandecia de nomes como Armando Salles de Oliveira, Benedito Castrucci, Carlos Pasquale, Carvalho Pinto, Cásper Líbero, Eleazar de Carvalho, Euclides de Figueiredo, José Carlos Macedo Soares, Júlio Prestes, Orígenes Lessa, Paulo Setúbal, Ranieri Mazzili e Wladimir de Toledo Piza, entre outros. Muitos deles tinham sido discípulos do decano do corpo docente, o professor de Matemática chamado Cruz, quase tão antigo quanto a escola. Entre estes, estava Lucas Nogueira Garcez que, em 1951, tornou-se Governador do Estado de São Paulo.

No “Roosevelt”, era notório o fato de Garcez ter ingressado “direto”, na Escola Politécnica da USP, no início da década de 30, graças à rigidez do professor Cruz no ensino da matéria que seria a mais difícil do vestibular. Dizia-se que, anos depois, na condição de professor doutor da Poli, visitara o colégio para deixar de público o seu reconhecimento ao velho mestre. Daí, todos aceitarem Cruz como virtual “dono” da escola e respeitarem a sua peculiar maneira de ser.

Acostumado ao “Caetano”, “Toninho” estranhou os cartazes colados na entrada do Centro Acadêmico “Presidente Roosevelt”, entidade administrada pelos alunos. Conclamavam à compra de cópias mimeografadas das “apostilas do professor Cruz”. Os nomes e as assinaturas dos compradores ficariam registrados num livro e dizia-se que, sem estudar pelas apostilas, fatalmente seriam reprovados.

Aquele mestre impunha-se pelos quase dois metros de altura, voz tonitruante e cabeleira alvíssima, tudo a combinar com imponência que o jaquetão e a gravata de seda impecáveis acentuavam. Na primeira aula, indicou alguns livros que poderiam ser adquiridos pelos alunos. Na segunda, começou a chamá-los à lousa para os sabatinar. Na chamada por ordem alfabética, o nome Antônio ficou entre os dez primeiros. Tão logo os antecessores voltaram a sentar-se decepcionados e humilhados, Cruz dirigiu-lhe uma pergunta como fizera aos demais:

-“Sr. Aggio, o que é logaritmo? Explique, por favor.”

Toninho” definiu logaritmo, mas sentiu ferver-lhe o sangue nas veias diante de um subseqüente rosário de questionamentos que tinham a nítida intenção de humilhar, pois ainda nada daquilo fora dado em classe. Lá pela terceira ou quarta pergunta, retrucou:

-“Mas, professor, o senhor ainda não explicou isso. Comprei os livros, mas esperava pela explicação do senhor, não que os alunos dessem aula.”

Cruz replicou, irado:

-“Pelo visto, o senhor ignorou as apostilas. Pode sentar-se.”

Realmente, “Toninho” não adquirira as apostilas. As aulas seguintes repetiram aquele procedimento autoritário até que toda a classe – cerca de 50 alunos – fosse à lousa. Por isso, permanecer ausente do livro de compradores passou a constituir ato de afirmação e protesto.

Dias depois, Cruz pôs-se a ler uma lista de nomes e a dizer:

-“Sr. Fulano, Sr. Sicrano, Sr. Beltrano... Já estou ciente de que os senhores não se interessam pela matéria das apostilas. Digo-lhes que, se quiserem freqüentar as aulas, não me oporei. Mas, se não o fizerem, dar-me-ão prazer.”

O absurdo fez crescer a indignação entre os mencionados, embora continuassem silenciosos. Inutilmente, “Toninho” comunicou ao Centro Acadêmico o porquê de comprar os livros e não as apostilas.

Os diretores dessa entidade eram escolhidos por um Conselho de representantes eleitos pelas respectivas classes. “Toninho” elegeu-se como o conselheiro efetivo da sua. Ao final da eleição, manifestou acerba crítica a Cruz. E, daí por diante, as coisas desandaram de vez.

Chegou a primeira prova mensal e todos os ligados àquela renitência tiraram zero. O professor, solenemente, anunciou:

-“Sr. Fulano, Sr. Sicrano, Sr. Beltrano... Como eu previa, os senhores saíram-se mal. Digo-lhes mais uma vez que, se quiserem presenciar as aulas, não me oporei. Mas, estejam cientes de que os considero reprovados.”

A “reprovação” atingiu metade da classe, com apenas um mês de aulas. Os “reprovados” requereram revisão das provas à Diretoria. De nada serviu. Revê-las era atribuição exclusiva do próprio examinador e os zeros continuaram. Soube-se que isso vinha de muitos anos e fizera a fama de Cruz como o mais implacável mestre de São Paulo.

Perdido por perdido, perdido e meio” dizia-se no velho Bom Retiro. Portanto, “Toninho” optou pela vingança. Juntou alguns teoremas, pesquisou outros e acabou criando algo indecifrável. Realmente, não tinha pé nem cabeça. Mas, na aparência, enganava bem. Confidenciou seu plano a alguns colegas.

No fim de uma aula, acompanhou respeitosamente Cruz até o corredor e pediu-lhe “uma audiência”. Disse-lhe ter descoberto aquele teorema entre os guardados do avô. Não sabia para o que servia, assim como não conseguia demonstrá-lo. O mestre olhou de soslaio, tomou-lhe o papel das mãos e só exclamou:

-“Vamos ver.”

Quando soou o sinal da aula subseqüente, a porta da classe foi violentamente escancarada. Bateu na parede, arrancou lascas do reboco e mostrou um Cruz de pé, vermelho de raiva, dedo em riste dirigido ao pátio. Esbravejou, sublinhando cada sílaba com ímpeto atroador:

-“Sr. Aggio, FORA!”

Toninho” saiu sorrindo e os partícipes da trama gargalharam até também serem expulsos da sala. Só meia dúzia de puxa-sacos desaprovou a “vendeta”.

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Assim, a situação tornou-se insustentável. Não haveria como continuar. “Toninho” apelou a sua melhor amiga na escola, a professora de Português chamada Filomena e carinhosamente conhecida por “Filó”. Acumulava as funções de mestra com as de Inspetora Federal.

Filó” já havia aconselhado “Toninho” a curvar-se à severidade de Cruz, mas o rapazote achara a advertência exagerada. Acreditara ser impossível existir alguém tão implacável. Mas, de fato, aquele mestre era.

Nessa época, intuindo que isto lhe seria útil no jornalismo, “Toninho” lia os compêndios de Medicina Legal que lhe caíssem nas mãos. Acompanhado de alguns colegas tão xeretas quanto ele, gostava de bisbilhotar na antiga Escola de Polícia, instalada a poucos metros do “Roosevelt”, na Rua São Joaquim. O museu dessa instituição, hoje Academia incorporada à USP na Cidade Universitária, era ideal para comparar o que se lia nos manuais forenses com os instrumentos e vestígios de antigos crimes neles relatados. Dois daqueles jovens – Edgar Vitor Milazotto e Rubens Manzini - iriam transformar-se em ótimos investigadores da Delegacia de Homicídios, atual Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O marido de “Filó” era médico-legista e, através da esposa, esclarecia dúvidas a ele submetidas por “Toninho”. Tal fato, aliado à condição de bom aluno em Português, criou profunda empatia entre a mestra e o aluno. Este costumava   visitar o casal em seu apartamento, na esquina da Alameda Barão de Limeira com a Avenida Duque de Caxias, no mesmo quarteirão da Folha de S. Paulo.

A professora-inspetora e o diretor do “Roosevelt” demoveram “Toninho” da “guerrilha” contra Cruz. Deixaram claro que o mestre era intocável. Mexer com ele significava comprar briga pessoal com o governador. 77

O aluno viu que todo o poder pertencia a Cruz e aceitou a proposta de se transferir para o período noturno, restrito ao Curso Clássico. E assim foi feito, mesmo sendo meado de ano letivo, o primeiro do Científico. Também, não havia jeito: ou aceitava, ou iria cantar em outra freguesia.

A única coisa que “Toninho” jamais perdoou a Cruz foi o fato de haver motivado sua pior altercação com os pais em toda a existência. É que Nemésio, bedel do “Roosevelt” e funcionário do Grande Oriente maçônico instalado na Rua São Joaquim, contou ao genitor de “Toninho” o que se passava no colégio. Daí, uma estéril e dolorosa discussão sobre a revolta contra o mestre.

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Diz um velho ditado que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Realmente, o Clássico e o período noturno revelaram-se muito mais úteis a “Toninho”. O currículo carregava no ensino de línguas (Português, Inglês, Francês, Espanhol e Latim ou Grego), História e Geografia, com menos ênfase nas demais matérias.

O curso iria ter bastante efeito prático em sua carreira profissional. Além disso, lhe proporcionou mais percepção da realidade. A maioria dos colegas trabalhava durante o dia para o próprio sustento ou da família. Portanto, esses alunos valorizavam o estudo como oportunidade para atingir metas, concretizar sonhos e ascender socialmente.

Ali, “Toninho” presenciou a tenacidade de dezenas de colegas privados da proteção oriunda de linhagens aristocráticas e que nem assim esmoreciam. A exemplo de Antônio Galvão Natalino da Luz e José de Anchieta Vidal de Lima, esses lutadores conquistaram lugar ao sol e brilharam pelos próprios méritos.

Anchieta, filho de bancário como “Toninho”, iria aposentar-se na cúpula diretiva da Caixa Econômica Federal. Da mesma forma que outros colegas do Roosevelt, foi seu amigo por toda a vida. Talvez o mais pertinaz deles fosse Natalino. Superou todos os fatores adversos, inclusive os imperantes naquela época de indisfarçável discriminação racial. Negro retinto, baixo e troncudo, não esmoreceu na busca do diploma de advogado, impondo a si mesmo uma condição: iria conquistá-lo na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP).

De início, nos vestibulares, Natalino passava na prova escrita, mas era barrado no exame oral. Tentou, tentou, até conseguir a aprovação. Daí em diante, demonstrou seu valor ao longo do curso para obter o diploma em posição exemplar. Depois, venceu um concurso público e transformou-se em excelente consultor jurídico da Caixa Econômica do Estado de São Paulo, onde alcançou uma confortável aposentadoria.

Sem dúvida, foi o convívio com esses autênticos heróis que transformou “Toninho” em Aggio, um homem, não um

CAPÍTULO XII

Nova fase de vida

 

Período 1912-1916.  As desavenças entre pequenos proprietários e posseiros de terras situadas na divisa entre Santa Catarina e Paraná envolvem os governos estaduais e Federal. Transformam-se em conflito armado, o pior confronto fraticida já visto  em solo brasileiro. Recebeu o nome de Guerra do Contestado, por causa da sangrenta  disputa pelo domínio territorial.

No Bom Retiro, devido à distância, esse conflito tem pouca ou nenhuma repercussão. Mesmo assim, já nos anos 59-60, seus reflexos produzem uma reviravolta na vida de “Toninho” e ditam um novo rumo a sua vida.

Nessa ocasião, “Toninho” trabalhava na Redação do jornal paulistano O TEMPO, sob a orientação e chefia do jornalista Hemínio Sacchetta, ao lado de outros “focas” como, por exemplo, José Hamilton Ribeiro, Helena Miranda de Figueiredo (Lenita) e Henrique Mateucci. ingressara em O TEMPO ao conquiatar a simpatia do famoso Sacchetta graças ao atrevimento em pedir emprego de repórter quando tinha apenas 17 anos, sem nenhuma indicação ou experiência prévias. Também pesou favoravelmente o seu bom texto, consequente aos ensinamentos do pai e dos professores Miguel Rolando Perruso e Ignácio de Aquino Rocha (no Curso Primário do Liceu Coração de Jesus); Filipe Jorge (Ginasial do Instituto de Educação Caetano de Campos) e Philomena (a inesquecível e incomparável mestra e amiga Filó do Colégio Estadual Presidente Roosevelr, Seção da Rua São Joaquim, bairro da Liberdade)

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“Toninho” e o tarimbado repórter Dirceu Coutinho estavam incumbidos da cobertura diária dos gabinetes dos 12 secretários de Estado então existentes. Mas, “Toninho”  gostava mesmo era de passar horas e horas no Palácio da Polícia (Rua  Brigadeiro Tobias), especialmente nos andares reservados ao Gabinete do Secretário da Segurança Pública e ao Departamento de Investigações - DI , aprendendo as regras e os segredos  da Reportagem Policial, pois considerava esse setor como a mais importante escola de jornalismo. A seu ver, quem o dominasse  seria capaz de desincumbir-se de qualquer tarefa numa Redação de jornal, rádio ou revista. Além do mais, lá ficou conhecendo muitos velhos policiais, ex-integrantes da antiga Guarda Nacional e que, após saber de sua ascendência, lhe confidenciavam o que estava acontecendo nas delegacias especializadas e contavam-lhe peripécias de seu avô, Fioravante, e do major Molinaro, nos tempos do Partido Republicano Paulista (PRP).

Embora não tão antigo, o detetive Varella, chefe dos investigadores da Delegacia Especializada em Roubos incumbidos da segurança na Zona Central (área do 1º DP) da cidade, tornou-se seu amigo. Dizia-se orgulhoso  por privar de sua confiança, a ponto de, certa feita, convidá-lo para o aniversário da tia Marina, moradora no bairro de Perdizes. “Toninho” aceitou de imediato. Sem perceber, estava dando novo rumo à própria vida.

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Na festa, foi-lhe apresentada uma linda moça, comadre de Marina. Chamava-se Dalva Wendler, nascera um mês depois de “Toninho” (a 6 de dezembro de 1937) e era funcionária da multinacional Refinações de Milho Brazil. Ele apaixonou-se fulminantemente. Nos dias seguintes, iria encontrar Dalva  nas  feiras promocionais de utilidades domésticas, em voga na época graças à liderança de Caio Alcantara Machado, famoso empresário que se tornou dono da Folha de S. Paulo ao adquirir a Empresa Folha da Manhã S.A., em sociedade com o Conde Francisco Matarazzo, o industrial Raphael de Souza Noschese, Quirino Ferreira Neto, Aulus Plautius Homem de Mello  e outros expoentes das atividades industriais e financeiras paulistas. As funções profissionais  de Dalva como promotora de vendas e chefe da Cozinha Experimental da Refinações de Milho Brazil só fizeram  aumentar a admiração de “Toninho” pela jovem. O namoro transformou-se em permanente união estável. Em dezembro de 1960 tiveram o primeiro filho, Sérgio Luiz, que se formou em Direito pelas FMU, seguido na mesma instituição de ensino superior pelas irmãs Márcia Maria, pintora e escultora, e Luciana, publicitária  depois especializada em Navegação Comercial Marítima. As FMU, assim como a Rede Capital de Comunicações, da qual Toninho" viria a ser diretor-superintendente, pertenciam ao professor e ex-deputado federal Edevaldo Alves da Silva e sua esposa, Dra. Labibe, casal de antigos amigos de "Toninho". Este e Dalva casaram-se no civil e religioso em 26 de maio de 1967. Aproveitavam a vida para valer, principalmente depois da compra de uma motoneta de porte avantajado, com toda a parte mecânica da marca Sachs importada da Alemanha e instalada numa carroceria Grassi nacional .

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Todo fim de semana ou nos feriados, lá se ia a alegre dupla a caminho de Santos, São Vicente e Praia Grande em busca de frutos do mar, chope, cerveja  e caipirinha em homéricos piqueniques ou nos restaurantes da beira de praia. O feliz casal só queria saber de alegria, com música e festa. Aliás, nas descidas pela Estrada do Mar – ainda a única via de acesso existente -, sua atrevida cantoria ecoava na mata exuberante. Geralmente, era acompanhada por gargalhadas depois de refrões pornográficos do tipo:

Dona Maria, o seu gato deu

vinte e cinco pirocadas

na bunda do meu. (bis)

Se deu, fez muito bem,

Piroca de gato não mata ninguém. (bis)

Ou alguma besteira comedida como, por exemplo:

A mulher que o trem matou morreu!

Morreu pela primeira vez.

Morreu!

Tinxinxim|!

Morreu!

Tinxinxim!

Morreu com o nariz fazendo assim:

Piuiu! Piuiu! Piuiu!

Numa dessas viagens, Dalva ingeriu tantas ostras que enjoou e nunca mais quis saber desse molusco.

Nos delirantes carnavais da época, o casal não tinha pejo de se juntar ao povão nos bailes do Palmeiras, Teatro Municipal, Floresta (Espéria), Clube Homs, Casa de Portugal etc., onde valia até dançar sobre as mesas.

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No carnaval do Palmeiras, anos 60

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Assim se passaram anos dourados, mas Dalva insistia na busca de  pormenores sobre suas origens familiares. Sabia  apenas o que constava da Certidão de Nascimento e o que lhe havia contado a mãe, Dona Eliza Wendler, casada com Adolpho Wendler e como ele descendente de imigrantes alemães radicados no Paraná, antes da II Guerra Mundial. Dalva ansiava por descobrir mais, muito mais. Por isso, “Toninho” resolveu valer-se da ajuda de seu grande amigo, delegado Francisco Guimarães do Nascimento, diretor do Instituto de Identificação Richard Gumbleton Daunt – IIRGD da Polícia Civil paulista. Descobriram que o pai biológico de Dalva, oficial da antiga Força Pública (hoje Polícia Militar) paulista encontrara a morte na Guerra do Contestado na qual se envolvera a mando do Governo de SP, em apoio às forças paranaenses. Durante o conflito, a regra geral cumprida por todos os contendores era não fazer prisioneiros. Deveriam  decapitá-los logo após a captura.

Dalva nascera do romance entre aquele oficial e uma jovem, também fatalmente vitimada pela guerra. A criança ficou sob os cuidados de uma tia.

Da. Eliza e Adolpho não tinham filhos. Ela resolveu registrar a criança como filha legítima. Por isso, na Certidão de Nascimento e na Cédula de Identidade (RG) de Dalva consta como Naturalidade: “Santa Catarina-Paraná”.

Após essas descobertas, Dalva deu-se por satisfeita. E o novo rumo que imprimiu à  vida de “Toninho”  continua até hoje, quando, ambos aos 84 anos, desfrutam daquela  mesma felicidade que, graças a Deus, jamais os abandonou.

 

Ainda nos anos 60, o jornalista Jorge Gabriel Ward, filho de pai e mães árabes, bacharel em Direito, piloto de aviação, hipnotizador e pesquisador de hipnose regressiva então em voga, convenceu "Toninho", seu amigo e chefe na Reportagem da Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, a experimentar esse procedimento de regressão de memória destinado, em princípio, à descoberta de problemas psicológicos oriundos de traumas em vidas passadas. Assim souberam que, na existênia precedente, ele "Toninho" teria nascido numa família israelita de origem russa e residente  no bairro do Brooklin, em Nova York, EUA. Recebera o nome Jacob Gershowitz. Ainda jovem, tornara-se pianista, compositor e arranjador de fama internacional, sob o pseudônimo George Gershwin. Mas, um tumor cerebral extremamente agressivo causara-lhe morte precoce e atroz aos 38 anos de idade, em 1937, quatro meses antes de renascer no Bom Retiro paulistano.

"Toninho" não acreditou muito no que o amigo e colega Jorge ia contando após cada sessão de hipnose regressiva. Todavia, lembrava da vetusta expressão italiana "se non è vero, è ben trovato" ("Se não é verdade, é bem achadfo"), pois, de alguma forma, explicava muitos aspectos do que lhe   sucedia na vida real.

Muito abalado pela morte do único filho, cuja motocileta foi despedaçada por um caminhão numa noite chuvosa, o inesquecível Jorge Gebriel Ward faleceu há pouco tempo.

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CAPÍTULO XIII (Final)

"Curriculum Vitae"

Sou ANTONIO AGGIO JÚNIOR, nascido a 30 de outubro de 1937, em São Paulo, Capital; filho de Antônio Aggio e de Joannina Aggio, brasileiros, nascidos, respectivamente, em Pirassununga-SP e na Capital paulista; neto de Amadeu Aggio, Antonia Tognollo Aggio, Fioravante Carbone e Caetanela Visone Carbone, nascidos na Itália e brasileiros naturalizados. Casado com Dalva Wendler Aggio, possui os filhos Sérgio Luiz, Luciana e Márcia Maria, bem como três netos, Henry, Richard e William. Religião: católica. Escolaridade:   Curso Primário, no Liceu “Coração de Jesus”; Ginásio, no Instituto de Educação “Caetano de Campos”; Colegial, no Colégio Estadual “Presidente Roosevelt”, todos em São Paulo-SP; bacharel em  Jornalismo e Direito pela UFRJ. Tenho o registro n.º 6.321 de Jornalista Profissional no Ministério do Trabalho (DRT-SP), matrícula n.º 2.800 no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e Carta Internacional de Jornalista n.º BRF-2064 (Federação Nacional dos Jornalistas e Organização Internacional de Jornalistas). Funcionário público estadual efetivo, fiquei  à disposição do Senado Federal, durante 15 anos  para exercer em comissão o cargo de Secretário Parlamentar, no Gabinete do Dr. Romeu Tuma, onde .prmaneci até a morte desse Senador paulista, em 26 de outubro de 2010.

Aos 16 anos (1.º de julho de 1954), ingressei no Jornalismo como repórter, em O TEMPO, matutino de grande circulação nesta Capital. Nele trabalhei um ano e meio. Passei a exercer a mesma função em O GLOBO, do Rio de Janeiro (Sucursal de São Paulo), no dia em que O TEMPO parou de circular pela primeira vez.

Em abril de 1958, transferi-me para a Empresa Folha da Manhã S.A., que já mantinha convênio de permuta de matérias com O GLOBO. Nela permaneci até 12 de março de 1986, quando me  aposentei por tempo de contribuição e serviço.

Na Empresa Folha da Manhã S.A. - proprietária e editora das FOLHAS (Folha da Manhã. Folha da Tarde e Folha da Noite, depois fundidas sob o título  Folha de S.Paulo) exerci a profissão em diversas áreas da Reportagem, desde a época em que esta abrangia os três jornais. Participei, assim, da cobertura dos mais importantes acontecimentos nacionais e de diversos internacionais nesse período.

Lecionei nos cursos de Introdução ao Jornalismo, promovidos pela Folha de S. Paulo nos anos 60, em cidades paulistas. Ative-me ao tema “Matéria Informativa – A Notícia”.

De 1961 a 1962, chefiei a Reportagem Policial daqueles três jornais, até a sua fusão  num único órgão com o nome de FOLHA DE S. PAULO. Ainda em 1962, ganhei o Prêmio Esso de Jornalismo (Diploma de Destaque Especial) pela série de reportagens “A Banana que o Diabo Adubou”, sobre a situação desumana dos trabalhadores confinados nos bananais do Litoral Sul do Estado de São Paulo.

Promovido a Chefe da Reportagem, permaneci nesse posto até o final de 1963. Em 1967, depois de quatro anos como Repórter Especial, participei da fundação do jornal CIDADE DE SANTOS, da mesma Empresa. Chefiei a Redação e acumulei o cargo de Diretor da Sucursal da Empresa FOLHA DA MANHÃ S.A. naquela cidade paulista, até 1969, com abrangência de todo o Litoral Sul do Estado.

Em 19 de junho de 1969, assumi o cargo de Editor-Chefe da FOLHA DA TARDE, que fora relançada. Nela, acumulei a função de Editor-Responsável, até 7 de maio de 1984. Em seguida, passei a ser Repórter Especial da FOLHA DE S. PAULO, até me aposentar em 1986 sem, entretanto, abandonar a profissão.

De agosto de 1989 a abril de 1994, contratado pela Rede Capital de Comunicações, exerci o cargo de Diretor Superintendente das rádios Capital de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Acre e da TV Capital de Brasília–Canal 8 (hoje Record)

Assessorei o Dr. Romeu Tuma desde a década de 60. De 12 de março de 1993 a 31 de janeiro de 1995, levado por ele, fiz parte da Assessoria Especial do Governador do Estado de São Paulo e do gabinete da Vice-Presidência Mundial da INTERPOL, exercida pelo então Senador. Em seguida, respondi pela Assessoria de Imprensa do Departamento Estadual de Trânsito-DETRAN de São Paulo, até assumir, a 19 de abril de 1995, o cargo de Secretário Parlamentar do Senado Federal, em Brasília, onde passei a integrar o Gabinete daquele representante de São Paulo no Congresso Nacional, até o seu falecimento, em 26 de outubro de 2010.

Exerci cargos eletivos no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e integrei as representações paulistas a vários congressos nacionais da categoria, como delegado eleito pelos colegas de Redação. A convite, participei da IV, V e VI Conferência Mundial de Imprensa, realizadas em Nova York, EUA (outubro de 1981); Seul, Coréia (outubro de 1982); e Cartagena, Colômbia (setembro de 1983), respectivamente.

Também por eleição, fui Presidente da Escola de Samba X-9, a mais antiga e tradicional da cidade de Santos (biênio 1968-69), quando a agremiação se tornou Bicampeã do Carnaval Santista. Fui também Conselheiro da União dos Escoteiros do Brasil (dois mandatos, por quatro anos) e da Fundação “Santos Dumont”- Museu de Aeronáutica de São Paulo, durante três gestões (seis anos). Ainda por eleição, pertenci ao Tribunal de Justiça Desportiva, da Confederação Brasileira de Motociclismo, como Juiz, por dois mandatos de dois anos, até 1990.

Presidi a Sociedade dos Funcionários das Folhas (assistência médica, odontológica e hospitalar para cerca de 2.600 funcionários associados e seus dependentes), por eleição, durante dez anos (cinco mandatos de dois anos cada), até 1984, após ter sido Conselheiro dessa entidade em dois biênios.

Conselheiro do Ilha Porchat Clube (São Vicente-SP) desde 1981, fui  reeleito para seis mandatos de quatro anos cada um. Simultaneamente, ocupei o posto de Secretário do Conselho dessa associação por seis gestões de dois anos cada uma, até ser eleito, sempre por votação unânime, em 26 de março de 1993, Vice-Presidente do órgão, cargo que exerci até novembro de 2004, quando passei a ser seu Presidente interino. Em 23 de março de 2007, o Conselho elegeu-me Presidente, com mandato até 2011.

Ainda no Ilha Porchat Clube, recebi os títulos de Sócio Benemérito n.º 3 e Sócio Veterano n.º 309. Fui elevado à condição de Conselheiro Vitalício, após exercer o cargo de Conselheiro Efetivo por mais de 20 anos.

IIntegrei o Conselho Consultivo da Empresa DIÁRIO POPULAR, proprietária do jornal do mesmo nome, de 1992 a 1995, e, durante 10 anos, desde 1992, fui Editor-Responsável do jornal TOYO SHINMOON, dedicado à comunidade coreana no Brasil.

Eleito por unanimidade para a Academia Paulista de Jornalismo em 1984, ocupo a Cadeira Vitalícia n.º 18, que tem Olavo Bilac por patrono e na qual substitui o falecido cronista e escritor Luís Martins (1907-1981), de O ESTADO DE S. PAULO.

Dede 2003,  edito e publico na Internet o periódico eletrônico O JORNAL, nos domínios www.ojornal.jor.br e www.aggio.jor.br. Embora não seja atualizada regularmente, essa publicação continua no ar, à espera de patrocínio.

Possuo títulos honoríficos, medalhas, diplomas e troféus, outorgados por clubes, entidades de serviço, organizações comunitárias e instituições estatais, que me homenagearam por serviços prestados à comunidade. Entre tais honrarias, estão o Título de Cidadão Emérito e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, outorgados por unanimidade pela Câmara Municipal paulistana; Medalha do Pacificador e Diploma de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro, pelo Ministério do Exército (1985); Ordem do Ipiranga, grau de Oficial, e Medalha Valor Cívico, concedidas pelo Governo do Estado de São Paulo; diplomas de Honra ao Mérito e de Reconhecimento, além da Medalha e do Diploma “Jubileu de Prata”, todos da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra-ADESG; Diploma de Patrono dos IV Jogos Metropolitanos do Trabalhador e Diploma de Honra ao Mérito, ambos da Secretaria de Estado para as Relações de Trabalho (Governo de São Paulo); Medalha “Pioneiros da Aeronáutica”, pela Fundação “Santos Dumont” - Museu da Aeronáutica; Diploma e Medalha de Amigo da Marinha Brasileira, pelo Ministério da Marinha; Medalha do Sesquicentenário da Polícia Militar do Estado de São Paulo; Diploma de Reconhecimento, do 1.º Batalhão de Choque “Tobias de Aguiar”-ROTA, da mesma Polícia Militar (01/12/1993); Troféu “Gratidão e Amizade”, do 21.º BPM/M da Polícia Militar do Estado de São Paulo; Diploma de Membro de Honra da “Esperanto-Asöcio de San Paulo”; títulos de Sócio Honorário das associações dos Ex-Combatentes do Brasil–Seção de São Paulo; dos Escrivães de Polícia do Estado de São Paulo; dos Investigadores de Polícia de SP; e dos Funcionários da Polícia Civil de SP; Comenda da Ordem dos Cavaleiros Magos do Emirado; Medalha Tiradentes – Herói da Independência, da Sociedade Brasileira de Estudos Municipalistas; Diplomas (2) de Benemerência e Solidariedade, da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), de São Paulo; Troféu de Bicampeã do Macuco, ganho pela Escola de Samba X-9, de Santos, e a mim repassado como homenagem dessa agremiação; Diploma “Imperador do Samba”, conferido pelo Grêmio Recreativo e Escola Império do Samba”, de Santos; Pergaminho “Nossa Família de Sambistas”, do Grêmio Recreativo Escola de Samba Camisa Verde e Branco, de São Paulo; Diploma e Medalha comemorativos do 27.º aniversário do Círculo Militar de São Paulo; Medalha do 6.o Curso de Atualização Cívica da Mulher, como palestrante do Departamento Cultural do Círculo Militar de São Paulo; Diploma de Sócio Benemérito do Dobermann Club Nacional; Diploma de Palestrante, do Clube Salesiano de Serviços; e Troféu Super Cap de Ouro, da ABE e Jornais de Bairros Associados.

Realizei 30 viagens ao Exterior, todas de estudos ou cobertura jornalística da situação política, econômica e social dos países e regiões visitados, tais como Alemanha (ex-Ocidental e ex-Oriental), Argentina, Bolívia, China, Chipre, Colômbia, Coréia do Sul, Costa Rica, Cuba, Egito, El Salvador, Escócia, Espanha, Estados Unidos da América, França, Guatemala, Holanda, Honduras, Ilhas Virgens Americanas (Caribe), Ilhas Samoa Americanas (Pago Pago), Inglaterra, Irlanda, Israel, Japão, Líbano, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Porto Rico, Suíça, Tailândia, Taiti e Venezuela. Alguns desses países ou regiões foram visitados mais de uma vez. Já estive em todos os Estados brasileiros.

Pratiquei mergulho autônomo, remo, motociclismo e tiro-ao-alvo. Dediquei-me à náutica, durante 30 anos, quando possui, entre outras, a embarcação Estrela Dalva IV, traineira de 30 pés, registrada no Porto de Santos e, agora no Porto de Paranaguá. Sou Mestre Amador (inscrição n.º 109, de 23/12/1968, no Ministério da Marinha) e Operador Radiotelefonista Profissional, com habilitação internacional pelo Ministério das Comunicações, além de Radioamador (prefixo PU2-SDN). Mantive a Estação de Navio prefixo PP-8464 a bordo da Estrela Dalva IV.

Meu ideário por uma sociedade igualitária, solidária e libertadora, atingível através de instrumentos próprios da democracia mista – representativa e direta –, está contido em vários artigos e condensado em duas páginas da FOLHA DA TARDE sob o título “Plebiscito e Referendo, Instrumentos de Salvação Nacional” (edição de 4 de maio de 1984, com transcrição nos anais da Câmara Municipal de São Paulo). Tais princípios já tinham sido expostos na matéria “Uma Democracia Plena e Totalmente Digna do Nome” (Folha da Tarde, 06/10/1980). A insistência em defendê-los em 1984 contribuiu para o meu afastamento do jornal. Mas, finalmente, o plebiscito e o referendo foram inseridos na Constituição da República quatro anos depois. Resta agora sua regulamentação em termos coerentes, como já propuseram a OAB e CNBB, em conjunto, numa campanha de âmbito nacional.

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Pronto,  evidentemente numa vida de mais de 80 anos, como a minha, existem outros episódios interessantes que podem ser contados. Prometo fazer  isso tão logo se torne possível.

Agora, meu caro leitor, em virtude de sua boa vontade e paciência despendidos até aqui, creio que mereça minhas preces ao nosso Pai Celestial - o Grande Arquiteto do Universo - para pedir a Ele que lhe dê a sorte de amealhar fortuna, sempre desfrutando de saúde e sabedoria de maneira a dela poder usufruir durante toda a vida. É o que irei pedir a Ele em seguida.

Muito obrigado

São Paulo, 5 de abril de 2022.